CAPITULO II

Conforme foram se passando os dias, comecei a perceber quão perigoso era tudo aquilo. Éramos colegas, e mais, éramos amigos. Éramos grandes amigos. E se de repente nos déssemos conta de que não queríamos nada daquilo? E se de repente nos arrependêssemos ou se simplesmente, por qualquer motivo, não desse certo? Não seria possível voltar no tempo. Não seria possível apagar o que fosse dito ou "virar a página" como se faz com alguns relacionamentos. Porque, ainda que acabasse, continuaríamos nos vendo, nos falando, trabalhando juntos... e nem eu queria que fosse diferente! Não podia (como até hoje não posso) imaginar minha vida sem Albus Dumbledore. Então, de repente, parecia mui racional simplesmente manter a estável e polida amizade que já tínhamos, e que funcionava muito bem para ambos. Por que mais? Por que ir além? Por que arriscar?

Eu nunca soube dizer o porquê, mas a cada olhar que ele me dava, eu sentia como se não pudesse ser diferente. Era mais forte que eu. Como se minhas pernas me fizessem caminhar na direção dele contra minha própria vontade.

Por vezes achava inacreditável que o mago mais poderoso depois de Merlin quisesse a mim, justo a mim. Eu que nunca fui a mais atraente das mulheres, que nunca fui a mais sedutora, e que, queira ou não, já não era moça. Eu tinha espontaneamente entregado o frescor da minha juventude por algo de mais valia, trabalhando árdua e incessantemente com diversas áreas das Transfigurações, estudando mil teorias e visitando mil escolas até que, por fim, pudesse dizer: "estou pronta para lecionar". Nunca me arrependi de ter conduzido minha vida por esses caminhos, nunca me arrependi de ter dado meu sangue por Hogwarts, virado noites metida em meu trabalho, mas isso fazia de mim o tipo de mulher a que os homens não costumam olhar duas vezes. E isso, até então, não me incomodava, mas agora... algo estava diferente dentro de mim.

Olhei a mim mesma no espelho e... finalmente me dei conta de que eu estava velha. Minha pele já não era macia como antes, e o tempo tinha cavado nela uns mui finos sulcos e pintado manchas. O viço de meu corpo já se tinha ido. Olhando-me, senti vergonha de meus seios, de meu quadril, de minhas pernas... todas as curvas de meu corpo agora tinham outras formas. Há muito tempo eu não olhava pra mim, e foi um choque me encontrar tão diferente do que me lembrava. A mim pareceu que essas novas formas não poderiam agradar homem nenhum, mas eu... eu queria agradá-lo. Queria que me desejasse como eu o desejava. E se, me vendo, não me achasse atraente? E se eu não pudesse despertar nele aquele tipo de querer sobre o qual não temos real controle?

Parecia loucura tentar. Era apostar alto demais. Eu sentia medo e mui profunda insegurança. Mas então, de repente, ele aparecia e sorria pra mim, e se derretia toda a proteção que eu desesperadamente tentava construir à minha volta.

Era época de exames em Hogwarts e tudo estava muito corrido, havia os NOMs e os NIEMs para organizar, as provas de fins de ano... Como resultado, por duas semanas quase não pudemos ficar sozinhos, e eu, no fundo, agradecia por isso. Sentia falta, é claro, de nossas partidas de xadrez, de nossas conversas, mesmo da simples presença dele no mesmo ambiente. Era doloroso ficar longe. Mesmo assim, por duas vezes inventei desculpas para não ficarmos a sós. Mas o tempo dos exames passou, e já não havia mais porque não nos sentarmos novamente para o chá ou tirarmos um tempo para caminhar juntos. Ele, na primeira oportunidade, pediu que eu fosse a seu escritório. "Eu gostaria de conversar", ele disse, durante o almoço. E eu, dissimulando meus medos, concordei. Prometi encontrá-lo ao fim da tarde, depois de minha aula com o terceiro ano, que seria a última do dia. Em resposta ele apenas sorriu, balançando a cabeça e me olhando um pouco mais demoradamente que o de costume. Naquele dia, ali mesmo na mesa dos professores, pouco antes de deixar o Salão, ele tocou minha mão novamente, dessa vez por cima da mesa, e o meu palpite é de que eu tenha corado, porque logo depois, para meu completo constrangimento, Hooch sussurrou algo a Pomfrey e trocaram risinhos. Até então eu não tinha parado para pensar nas implicações sociais que pudessem decorrer dessa nova situação. O envolvimento de membros do corpo docente ou funcionários da escola era desencorajado pelo Conselho, que temia o nepotismo, antes tão costumeiro. Fosse como fosse, obriguei a mim mesma a me livrar desses pensamentos. Não queria me pôr ainda mais tensa. Envolvimento... envolvimento amoroso... nem mesmo estávamos envolvidos romanticamente! Bem, ainda não. É certo que eu o amava, ah, como amava! E ele parecia retribuir meus sentimentos...

Deus! Albus retribuía meus sentimentos! Eu estava entrando em sala de aula quando esse pensamento me invadiu a mente. "Albus me ama", quando eu repeti mentalmente, meu velho coração não aguentou, se desesperou em seu ritmo, e um terrível e insistente sorriso brotou em meus lábios, e de lá parecia não querer sair de jeito nenhum! Logo os alunos começaram a entrar, e tive que lhes dar as costas, fingindo organizar alguns pergaminhos no armário, porque simplesmente não podia parar de sorrir.

Finalmente me contive, obrigando-me a assumir a mui sóbria e polida expressão de sempre, e então dei início à aula. Os alunos, é claro, não são estúpidos, eles devem ter percebido meus ares de repentina alegria, e sim, é claro, tive de repreendê-los pelas conversinhas paralelas mais vezes que o de costume. Mesmo assim, e por mais que até hoje me pareça censurável, acabei, naquele dia, concedendo à Corvinal e à Lufa-Lufa mais pontos que jamais antes. Onde eu estava com a cabeça? Não! Não responda!

Conforme as horas foram passando, fui me pondo mais e mais ansiosa por nosso encontro. Alguns de meus medos se expandiram, outros foram se convertendo em um anseio desesperado. Eu precisava vê-lo. Eu precisava vê-lo o quanto antes. Eu queria estar com ele. Estava apavorada, pensando mil coisas que ele poderia me dizer, pensando mil coisas que poderiam sair errado, mas... por mais que horríveis hipóteses pipocassem em minha mente, ainda assim... eu queria estar com ele, eu queria ouvi-lo, queria... pelas barbas de Merlin! eu queria beijá-lo novamente!

Depois de minha última aula, terceiro ano, Lufa-Lufa e Sonserina, passei vários minutos no banheiro, encarando a água corrente. Eu estava tão ansiosa que as palmas de minhas mãos suavam. Eu as mergulhei na água fria da torneira, lavei meu rosto, ajeitei meus óculos e então me encarei no espelho, pensando se devia fazer algo diferente com meu cabelo, que ia metido no mesmo coque apertado de todo dia. O mais inacreditável é que, de repente, me achei bonita. Sorri a mim mesma. E assim, com um formigamento engraçado no estômago, segui para a mais pequena das torres, onde se encontrava o escritório de meu tão querido diretor.


N/A: Capítulos! Yey! Reviews! Yey! Sigam acompanhando! :D