1.

Olá amante.

Isso seria clichê demais não seria? Não sei, talvez o fato de ainda estar chovendo lá fora seja um pouco mais clichê do que começar tudo escrevendo no topo de uma página "Olá amante". Não, não preciso de olás amantes nem de mais clichês do que minha vida poderia suportar. Só preciso inventar um amante para escrever. Só preciso colocar para fora. Dizem que ajuda. Dizem que faz a dor ser menos intensa, que faz ser mais fácil de superar. Mas hoje eu não quero me sentar num quarto escuro e desabafar com as almofadas; hoje eu prefiro escrever para nada nem ninguém mais do que a mim mesma num caderno de capa surrada com 365 páginas datadas de anos atrás, para depois destacá-las e colocá-las num envelope que ficará eternamente guardado em minha gaveta. Hoje, eu só quero saber que minhas lágrimas infantis que borrarão toda a folha e minha letra perfeitamente imaculada tiveram algum sentido no final das contas.

Se esse realmente já for o final.

Acho que não. Tenho esperado por isso e obviamente, como dita o jogo, continuarei esperando até os 90 anos de idade ou até cometer um suicídio ridículo e quem sabe parar no inferno, eu seguirei aguardando porque morrer é simplesmente algo que eu quero. E que eu não terei.

É simples, limpo, claro; óbvio.

Nada começou hoje. Minha dor, angústia, perda, saudade todos mergulhados em lágrimas já secas não começaram hoje. Já faz anos.

Onze, para ser exata.

Eu era uma criança. Uma pequena criança, como todas as outras. E eu era feliz, como todas as outras. Se eu chorava era pelo simples fato de minha boneca ter perdido a cabeça ou não ter conseguido ganhar mais um brinquedo, mais um doce. Não existia profundidade por trás de minhas palavras; minhas inseguranças eram infundadas. Eu era tão comum, feliz e simples quanto uma criancinha de cinco anos poderia ser. E parecia que nunca mudaria – claro, até chegar a tão esperada puberdade e o mundo virar de cabeça para baixo enquanto eu me desesperava por coisinhas fúteis e idiotas. Mas, como tudo na vida tem que acabar, minha felicidade infantil e doce acabou. Foi cortada, rompida, estilhaçada. E eu nunca percebi. Nunca notei realmente as lágrimas escapando de meus olhos, a solidão invadindo minhas noites, a infelicidade tomando conta do sol em minhas tardes, os pesadelos massacrando meus sonhos. Para mim, àquela época, nada mudara. Tudo era o que sempre foi. E não era?

Eu tinha dois irmãos. Minha mãe havia se divorciado uma vez depois de alguns meses casada. Um novo amor inesperadamente arrebatou-a e ela não conseguiu mais ver razão em continuar casada com o bruto do ex-marido ridículo dela. Nunca pensei que mais tarde ela e meu pai separar-se-iam umas três vezes no mínimo e acabariam voltando. Eu chorava quando eles brigavam e meu sorriso iluminava toda a cidade quando eles reatavam.

Eu não era mais tão criança.

Mas eu tinha dois irmãos quando era criança; com meus cinco anos e meu sorriso com janelinhas, meus cabelinhos curtos e encaracolados e minha franjinha. Lily e James. – Hoje, vendo pelo ponto de vista de uma viciada nata em Harry Potter parece estranho ver o nome dos meus irmãos juntos e não imaginá-los como os pais do personagem tão querido por mim. Era quase como ver Adão e Eva como irmãos, também; Romeu e Julieta sem romance, tragédia e paixão. Mas isso é mero detalhe. – Lily era sete anos mais velha que eu e James seis. Parecia até deslocado eu ter nascido seis anos depois de meus dois irmãos visto que havia a diferença mínima de pouco mais de um ano entre o nascimento dos dois. Às vezes me pergunto seriamente se eu não fui um acaso que não era para ter acontecido. Ou se não fui realmente a culpada pelo que aconteceu.

Dia 24 de novembro de 1981; o céu estava claro, sem nuvens, mas eu sabia que ia chover. Parecia impossível não chover. E além do mais, mesmo com o sol reluzindo lá em cima, fazia frio. O dia amanheceu com mamãe chorando. Eu não me lembrava direito do dia passado, só lembrava do passeio com meu cachorro, a fuga de Lily, os gritos desesperados de mamãe e o escuro do meu quarto quando corri para evitar sua fúria. Minhas roupas, àquela hora, àquela manhã, já estavam secas mas eu sentia meus ossos gelados ainda. E as lágrimas de minha mãe intensificaram o frio que eu sentia.

- Mamãe? – Comecei com a voz rouca, lágrimas tremulando em minha visão, a culpa me invadindo por causar aquele choro em minha mãe. – Mamãe... me desculpe. Eu não devia ter saído ontem. Me desculpe mamãe.

Eu chorava e ela me olhou com os olhos inchados e vermelhos. Me abraçou e chorou em meu ombro enquanto eu a consolava. As palavras saiam engroladas de sua boca quando ela tentava dizer que eu não era a culpada por suas lágrimas desesperadas. Ela tentava me convencer e eu tentava acreditar.

O resto do dia passou num borrão.

Todos estavam de preto e com os olhos vermelhos, inchados: James usava um terninho antiquado e por mais frio que tentasse manter seu rosto as lágrimas da madrugada continuavam pregadas em sua expressão, mesmo quando desviava o rosto; papai usava um terno também, sem tentar disfarçar o seu choro, mas muito mais controlado do que mamãe; ela chorava. Chorava simplesmente, com o rosto coberto por um véu preto, a roupa preta mal colocada, os cabelos mal arrumados, o rosto sem maquiagem. Pediram para que eu colocasse minha roupa preta e ficasse quietinha. Procurei por Lily para que ela me ajudasse a me arrumar, mas não conseguia encontrá-la, mesmo que eu procurasse. Vesti-me triste e sozinha, magoada com Lily, mamãe, papai e James por não me contarem porque todos estavam tão tristes e eu fora obrigada a me arrumar sozinha. Era difícil para mim. Eu era pequena e o quarto, o guarda roupa, o mundo, eram grandes e esmagadores perto de mim. Só depois de muito esforço para por minha blusa que minha mãe quis aparecer para me ajudar. Ela não conseguia evitar as lágrimas sempre que me encarava e a culpa subia, quente, por minha garganta.

O dia se passou de maneira estranha: fomos a um lugar com a grama bem aparada e pessoas levando buques de flores que se separavam uma das outras, cada uma indo para um lado e chorando perante uma inscrição. Meus olhos percorriam aquele lugar enquanto nos dirigíamos a uma multidão de pessoas que cercava algo que estava sob uma elevação de concreto. Era uma caixa de madeira, grande e todos que estavam lá concentravam os olhares nela. Havia pessoas conhecidas e desconhecidas lá, todas de preto também, chorando também, aproximando-se de minha mãe – assim como eu – e dizendo que sentiam muito e sabiam como era uma perda daquelas.

Perda? Aquela palavra ecoou na minha mente desde o segundo em que a ouvi. Meus olhos continuaram a percorrer e nunca encontravam o que eu procurava. Meu irmão segurou minha mão desde que entramos no carro e não a soltara desde então. Eu o entendia, mesmo àquela época: papai parecia preocupado demais em tentar acalmar mamãe para prestar atenção em mim e ver se eu estava tentando fugir e correr para brincar com os pombos que estavam ali perto. Mas eu ainda conseguia ver, mesmo por detrás de todas as pessoas que os cercavam, pesarosas, que seus olhos pregavam-se em mim e em James, de quando em quando, com uma expressão preocupada e triste. Eu realmente causara tudo aquilo?

Quis me soltar de James e correr perguntar para papai o que estava acontecendo, mas meu irmão segurava minha mão mais forte a cada minuto e parecia sempre prestes a romper em lágrimas. Eu queria consolá-lo mas ele mantinha os olhos pregados no céu, a expressão vazia, possivelmente muito concentrado em memorizar todos os detalhes das nuvens fofas. Depois de um tempo, desisti de querer conquistar sua atenção e voltei a minha busca insaciável: onde estava Lily? Eu precisava falar com ela, perguntar por que todos estavam tão tristes, porque mamãe e papai choravam, porque James – sempre tão forte – chorava também. Minha pequena irritação de criança cresceu e eu estava começando a ficar chateada e entediada. Quando ergui meus olhinhos travessos para reclamar com James ele me puxou para o lado e começou a me afastar daquelas pessoas. Ele andava rápido, quase corria. Eu corria mesmo para alcançá-lo, enquanto ele me puxava para segui-lo. Olhei desesperadamente para trás, tentando avistar Lily, furiosa com a possibilidade de ela aparecer e eu não estar lá.

James continuava andando para cada vez mais longe e agora eu podia ver as lágrimas escorrendo de seus olhos. Elas brilhavam ao sol e soavam apagadas em sua pele, de um jeito estranho.

Andamos até que ele largou minha mão e se sentou em uma pedra, agora soluços seguidos das lágrimas. Por mais que eu forçasse minha vista e me lançasse para cima em meus pezinhos, eu não via mais ninguém. Todas as pessoas ficaram longe.

Nunca mais vi Lily.

Quando voltamos para casa, depois de terem colocado a caixa de madeira dentro da terra e das pessoas terem despejado suas rosas brancas – eu joguei uma rosa cor-de-rosa, porque sempre soube que essa era a cor favorita de Lily. Será que eles não sabiam que ele preferiria essa cor? – sobre ela antes que a terra avermelhada cobrisse-o por inteiro, as lágrimas lavando seus rostos, perguntei a meus pais onde Lily estava afinal. Mamãe virou-se na cadeira e apoiou os cotovelos sobre a mesa da cozinha. Papai empertigou-se e ficou do meu tamanho. Com os olhos marejados me disse que Lily havia ido para uma colônia de férias, um lugar melhor e mais feliz. Aceitei. Só fiquei um pouco magoada por ela não ter se despedido de mim, nem mesmo uma carta. Mas não chorei, não via por que chorar. Lily estava feliz, provavelmente rindo com os amigos e lembrando-se de mim, às vezes. Sentia sua falta mais do que já senti em toda minha minúscula existência.

Com o tempo a saudade era preenchida, mesmo que eu sentisse falta de minha melhor amiga. Mesmo com tantos anos de diferença, Lily me contava as coisas: os meninos que gostara, o primeiro beijo que dera, a primeira desavença séria com a amiga, a primeira desilusão amorosa, o primeiro zero em matemática... Eu era seu pequeno diário ambulante. E senti falta quando foram deixadas tantas linhas em branco.

Jamais imaginaria eu que aquela era apenas uma de uma sucessão enorme de perdas.

Audrey