Capítulo II - Bem vindos à selva

Anna fechou os olhos e abanou a cabeça brevemente. Queria ficar com o irmão, não com aquele Van Helsing. Ao reparar no olhar atento, intenso e também não muito contente dele, Anna desviou a cara. Se iria ficar com ele, convinha que não começassem por se dar mal logo de início.

"Até que não tiveste muito azar, Anna." Esta olhou para a sua esquerda onde estava um rapaz baixo e loiro.

Anna fez um esforço para se lembrar do seu nome. O professor Jinette havia-o dito há pouco...

"Carl." disse ele por fim.

"Sim, Carl! Porque dizes isso?"

"É só que podias ter calhado com alguém muito pior. Digamos que esta turma nunca ganharia nenhum prémio por bons relacionamentos entre alunos."

Velkan mordeu o lábio inferior "É assim tão mau?"

Carl riu inaudivelmente "Bem vindos à selva."

"Mas é geral ou-"

"Não, não...felizmente não, mas o clima às vezes é horrível."

Anna observou as pessoas à sua volta e perguntou-se quem se daria mal com quem. Era difícil perceber. Pelo menos por enquanto.

"Há problemas entre quem, exactamente?" perguntou Velkan, curioso.

"Bem," Carl agachou-se um pouco, quase como estivesse a revelar um segredo ou então com medo que fosse apanhado a conspirar "estão a ver esse aí do vosso lado?"

"Sim."

"É o Seth. Ele e o Vlad não se podem ver à frente."

"Vlad...?" indagou Anna

"O que está ao lado do Gabriel."

"Sei..."

Velkan aproximou-se um pouco deles, visto estar relativamente perto de Seth "Porque é que eles não se podem ver à frente?"

"Por várias razões, mas tudo começou quando o Seth ficou interessado na Verona. Aquela morena da frente, entre a loira e a ruiva." informou Carl antes que alguém perguntasse quem ela era.

"E o Vlad gosta dela, é?"

"Não sei..."

"Não sabes?" perguntaram os irmãos ao mesmo tempo

"Não... daqui a uns tempos vocês vão me entender."

Velkan e Anna trocaram um olhar confuso.

"Agora olhem para aquelas quatro à frente ao pé da varanda. Olhem a que tá atrás encostada à parede."

"A de cabelo castanho claro?"

"Essa mesma. É a Brooke."

Por segundos, Anna observou Brooke enquanto esta olhava pela janela e arranjava o cabelo. Depois a rapariga que estava a seu lado falou-lhe algo e Brooke dirigiu o olhar para a mesa de Vlad e sorriu. Depois reparou em Anna e ambas trocaram um olhar.

"Parece simpática..."

O professor Valerious parou de enunciar algumas das regras do regulamento interno da escola ao ouvir uma gargalhada.

Foi a coisa mais engraçada que Carl ouvira toda a semana: Brooke ser simpática.

"Mr. Sullivan, será que eu disse alguma piada e não me apercebi?"

Sentindo-se invadido com o olhar intenso do professor Valerious, Carl baixou a cabeça

"Não, professor..."

"Bem me pareceu. Porque não vai até lá fora para espairecer um pouco? Aproveite e leve a menina Valerious consigo."

Anna que até agora não fitara o professor sentindo-se culpada, olhou-o chateada. Porque tinha ele de envergonhá-la logo no primeiro dia?

Contudo, ambos se levantaram em silêncio e saíram da sala sem reclamar. Brooke olhou-os atentamente e só retomou a atenção ao que se estava a dizer quando a porta se fechou.

"Desculpa lá, Carl..."

Carl sorriu "Não tem importância. Já não é a primeira vez."

"Costumas vir pra rua? És mal comportado?"

"Não, não, não. Não costumo vir cá para fora, mas já fui melhor comportado. Más influências, acho..."

"Porque não me contas quem são as tuas más influências na cafetaria? Estou cheia de fome!"

"Mas e se o professor Valerious nos chamar e não nos vir aqui à porta? Vai ficar chateado."

Anna riu ao sentir relutância na voz dele e puxou-o pela t-shirt "Não vai nada."

"Como sabes?!"

Vlad fechou a boca e cruzou os braços, descontente "A capacidade de socializar do Carl não te chateia às vezes?"

Gabriel não respondeu "Não ouviste o sobrenome dela?"

"Não." respondeu Vlad

"O professor Valerious tratou-a por menina Valerious. Será coincidência?"

"Ah, ele é teu irmão?"

Anna sorriu "É, pois!"

"Melhor, então. Assim já tens apoio."

Anna perguntou-se porque Carl falava daquela maneira. Seria a turma assim tão má? "Falavas na Brooke. Que tem ela?"

Carl abanou a cabeça "É das piores pessoas que já conheci, Anna. Não estou a exagerar. O ano passado ela fez a Verona perder a delegação de turma. O que vale é que ela e o subdelegado tinham uma relação bastante amigável e ela sabia que o cargo estava em boas mãos."

"Quem era o subdelegado?" perguntou Anna franzindo o sobrolho.

Carl sorriu de orelha a orelha "Eu."

Noutra ocasião Anna teria rido "O que é que a Brooke fez?"

Carl fitou o chão lembrando-se do dia mais turbulento que a turma já tivera "Resumindo: a Verona perdeu as estribeiras e pegaram-se. E acredita no que te digo, só o Gabriel e o Steve é que tiveram coragem de as separar. Depois disso, numa altura em que só o namorado ainda não tinha percebido a pessoa que ela era, ela demonstrou-lhe isso." Anna parecia colada à história e não despregava olhos dele às espera que continuasse por isso ele fê-lo "Enganou-o."

"Coitado... É alguém da turma?"

Nesse momento a campainha começou a tocar e Carl, rapaz assumidamente cumpridor de regras, levantou-se da mesa.

"É melhor irmos indo..."

Anna concordou assentindo com a cabeça e acabou de beber o seu leite achocolatado pelo caminho.

Enquanto isso na sala de aula, alguns alunos tinham sido retidos mais um pouco pelos professores. Nomeadamente Velkan, Gabriel e Vlad. O professor Jinnette cruzou os braços e começou a caminhar lentamente em frente ao quadro de um lado para o outro enquanto cabia ao professor Valerious a missão de chamar a atenção.

"Não quero dar nenhuma lição de moral, pois tenho a certeza que vocês já tiveram uma boa dose delas ao longo da adolescência." O professor Valerious deu especial ênfase à palavra adolescência com o intuito de que de algum modo, eles se sentissem rebaixados. Funcionou. Gabriel baixou a cabeça, Vlad torceu o nariz e Velkan rolou os olhos.

"Entendo que hoje seja o primeiro dia de aulas e que vocês estejam mais excitados do que o normal, mas o facto é que as férias acabaram e as aulas começaram. Precisam de voltar à Terra e focarem-se no trabalho, este é um ano muito importante... mas tenho a certeza que vocês também já sabem isso."

Mesmo estando descontente, avaliando pela sua voz, o professor Valerious não parecia estar muito chateado. Jinette por sua vez, via-se que estava zangado e quando Gabriel o viu a dirigir-se a ele, sabia que ainda tinha muito para ouvir.

"Vlad, podes ir." disse o professor sem nem sequer o olhar.

"O que quer que seja que me vás dizer, ele vai saber." informou Gabriel de um modo um pouco mais agressivo do que pretendia.

Vlad limpou a garganta e pousou a mão no ombro do amigo "Estou lá fora," murmurou antes de se retirar.

"Hey, Carl!" Já quase a meio do corredor Carl e Anna foram interceptados por uma rapariga de laranja e negro.

"Diz..." Carl falou-lhe num tom frio. Se não gostava dela para quê fingir e ser simpático?

Brooke semicerrou os olhos, olhou Anna de soslaio e fitou Carl de novo.

"Vocês estavam a falar de mim não estavam?"

Carl levantou a cabeça e estava prestes a responder quando Anna interveio "Porque dizes isso?"

"Eu não falei contigo." disse Brooke calma mas irritadamente.

Anna franziu a testa, agora um pouco irritada também "Não? E quando disseste 'vocês' estavas a referir-te a mais quem, para além do Carl?"

"Temos algum problema?" perguntou Vlad, pondo-se entre Anna a Carl e colocando um braço sobre o ombro de cada um.

"Não," respondeu Anna "Não há nenhum problema, Vlad. Obrigada. Anda Carl."

Vlad observou-os a afastarem-se, fascinado. Anna dissera o seu nome...

"Estupor..." murmurou Brooke. Os seus olhos brilhavam de raiva.

Vlad pôs um dedo à frente dos lábios "Shiu! Cão que ladra não morde!" com isto virou-lhe as costas sorrindo para ele próprio e começou a descer as escadas de mármore.

"Estás a chamar-me cadela?" perguntou Brooke um pouco alto de mais o que fez com que alguns alunos do 7º ano a olhassem com receio.

"Auu..."

"Anna, espera!" pediu Carl tentando a algum custo acompanhar o passo da rapariga. Anna quase que fumegava. Tinha a triste, mas certa sensação que ainda iria ter problemas com aquela rapariga.

Ao virar a esquina para entrar no corredor A, e pela segunda vez no espaço de duas horas, Anna foi contra algo. Ou alguém. Era um rapaz alto, moreno, com uns olhos castanhos suaves e cabelo da mesma cor. Era também ondulado e assentava-lhe nos ombros. Durante os breves segundos que os olhares se cruzaram, Anna apercebeu-se que já fazia bastante tempo que não via um rapaz tão giro. Mas logo a seguir a sua raiva voltou e ela sacudiu a cabeça, incrédula.

"Tu de novo?! Só podes tar a brincar comigo!"

Gabriel pestanejou um pouco surpreso ainda com o choque, mas logo a seguir, ao vê-la afastar-se praguejando para ela mesma, ele sorriu. As aulas avizinhavam-se no mínimo interessantes. Iria ser uma divertida missão amansá-la... ou enfurecê-la até ao extremo.

Ao toque para a segunda aula da manhã, os irmãos Valerious dirigiram-se para a sala 42 onde iriam ter Ciências com um tal professor Victor Frankenstein. Anna suspirou já saturada. Até ali já tinha chegado atrasada a uma aula, levado um raspanete, sido posta fora da sala, atropelada duas vezes e tido um desentendimento com uma colega. Até que não era mau para primeiro dia, era? Por outro lado fizera um amigo. E isso para ela já compensava tudo.