Um Conto de Alguém-ninguém: A História do Lado de Dentro.
Zacharias Smith
Toda a família do seu pai pertenceu à Slytherin;
Sua mãe, mestiça, se tornou Ravenclaw;
E ele tinha um irmão muito mais velho: slytherin, assim como o pai.
Mas eles ainda queriam outra criança, queriam uma família grande.
Mas quando ela finalmente ficou grávida novamente – anos após o seu primeiro filho – ficou decepcionada: queria uma menina.
Menino ou menina, a criança precisava de um nome.
Porém seu nome não foi uma homenagem a ninguém importante;
Também não foi homenagem a ninguém de sua família;
Era apenas Zacharias. Smith, claro, pois precisava do sobrenome também.
Quando criança, não percebeu a quantidade infinitamente superior de quadros e fotos do seu irmão e não ligava em precisar usar as roupas que um dia foram dele, pois acreditava que isso era normal em todas as famílias e quando sua hora de ir para escola chegasse tudo seria diferente e seus pais também ficariam orgulhosos.
A carta chegou e compraram os materiais;
Ganhou uma varinha;
Ganhou vestes;
E riscou no calendário quantos dias faltavam para finalmente pisar na escola que seu irmão um dia pisou antes trabalhar no Ministério.
Ele queria ir para Slytherin, mas diziam que não era ambicioso o suficiente;
Sua segunda opção era Ravenclaw, como sua mãe, mas diziam que ele não era inteligente o suficiente;
Poderia ser um gryffindor como seu avô, mas ele não era corajoso o suficiente.
Hufflepuff.
E não tinha como não decepcionar.
Primeiro sua mãe, por ter nascido homem;
Depois seu pai, por não ser tão ambicioso quanto o irmão;
Depois a ele mesmo, por ingressar em uma casa que julgava ser de perdedores.
Zach aprendeu que não adiantava se esforçar tanto, por isso exigia esforço apenas dos outros.
Zach percebeu que não adiantava tentar, porque sempre haveria alguém melhor que ele.
Zach percebeu que não adiantava acertar, pois sempre olhariam primeiro para seus erros.
E não tinha como não achar o mundo injusto.
-x-
"Você vai?", Zacharias ouviu a voz fininha de Hannah ao questionar Justin, que estava ao seu lado.
"Não sei de vocês, mas eu vou", Susan informou decidida.
Foi então que Zacharias ficou curioso. Geralmente ele é que sabia de tudo primeiro, e também era o primeiro a espalhar as notícias, o que lhe rendeu uma fama não muito boa de fofoqueiro... "Não que isso seja uma mentira", pensou, resmungando para si mesmo.
"Você acha que é seguro? Quero dizer-"
"É só uma reunião, Justin. Precisamos ouvi-los", Susan argumentou em um sussurro.
Zacharias não se conteve.
"Do que estão falando?"
Houve silêncio, como se os três decidissem se deveriam ou não revelar qualquer coisa para Zacharias. Primeiro porque ele não era tão confiável; segundo porque ele não ia levar a sério; terceiro e mais importante: ele não gostava de gryffindors.
"Zach, você pode vir conosco", Hannah começou, insegura. Olhou para os amigos buscando apoio e completou: "Desde que não cause problemas".
"OK", ele concordou mesmo sem saber do que se tratava. "Prometo que serei bonzinho".
E eles falaram, aos sussurros, sobre uma reunião secreta. E questões vieram à sua mente. Não iria para ficar calado ou ser bonzinho, pois havia muita coisa mal explicada. Já sabia o que fazer e já sabia o que perguntar. E fama de ser um completo imbecil ele já possuía, então... O que poderia ser pior?
-x-
Depois da reunião ele teve muito para pensar. Sabia que só tinha sido aceito ali porque ficaram com medo que ele os entregasse; o que ele de fato poderia fazer se não quisesse saber um pouco mais, se provar um pouco mais, acertar um pouco mais.
E ele esperou.
Foram vários dias até que o contato fosse feito, foram vários dias até a primeira reunião secreta para praticarem alguma coisa, onde ele não perdeu a oportunidade de alfinetar, zombar, provocar e humilhar:
Ele era um slytherin que havia sido jogado no lugar errado;
Uma criança que nasceu errado;
Um jovem que nunca iria encontrar o seu lugar no mundo.
Por isso, não importava em quem precisasse descontar suas frustrações: ele sabia que qualquer um estaria melhor do que ele.
-x-
Quando foram dedurados, ele sabia que o primeiro suspeito seria ele. No entanto, pela primeira vez na vida fechou a boca e engoliu tudo o que queria falar. Era difícil admitir que gostasse daquilo e quase podia sentir o sangue Gryffindor do seu avô falando por suas atitudes. E ele não falou. Foi interrogado, ameaçado, sentiu medo, mas não falou.
Como se tivesse adiantado alguma coisa... Ninguém confiava nele, de qualquer forma. Mesmo quando achava que estava fazendo a coisa certa, estava errado. Ele cresceu sem elogios e sem expectativas, portanto, não seria difícil seguir em frente sem a Armada.
E foi o que fez. Em sua cabeça, até já tinha esquecido o grupo e das reuniões clandestinas quando sentiu algo no bolso arder. Ele não admitia, mas sempre carregava o galeão no bolso enganando a si mesmo quando dizia que era apenas por costume.
E lá estava uma convocação.
E era algo grande.
E ele atendeu ao chamado e viu o grupo se reunindo...
Eram tão poucos.
Ninguém mais verificava as moedas, só os amigos de Harry Potter... E ele.
Virou as costas. Seu lugar não era ali.
-x-
Uma confusão se instalou em Hogwarts e ele viu quem era o centro;
E ele ouviu o que eles pretendiam;
E ele viu que todos foram capturados pelos slytherins e Umbridge;
Ele viu o que Harry estava decidido a fazer;
E o Potter Salvador estava sozinho, herói demais para envolver os amigos.
E ele decidiu que não poderia deixá-lo justo naquele momento.
Sem ter noção do que o esperava ou de que motivações o levaram a fazer aquilo, roubou uma vassoura, saiu o castelo e rumou para o Ministério da Magia. Ele estava acostumado a voar e, mesmo que não fosse muito bom, era artilheiro do time, e já sentira diversas vezes o vento frio em seu rosto. Já jogara na chuva e tremera de frio, mas nada superava a sensação que o dominava naquele exato instante.
E a sensação não o abandonou mesmo quando pousou desastradamente em Londres e entrou no Ministério da Magia de forma afobada, porque ele finalmente entendeu.
Ele. Justo ele...
Que nunca foi verdadeiramente amado;
Que nunca teve coragem para lutar por nada ou por ninguém;
Que nunca foi inteligente ou ambicioso o bastante;
Que sempre errou tentando acertar;
Ele, finalmente entendeu porque o Chapéu Seletor o havia escolhido e aquela sensação era tudo pelo que tinha esperado a vida toda:
Em um momento decisivo ele decidiu que não devia fazer o que era certo.
Mas o que era justo.
