- Não me importa se ele é perigoso ou o que ele pensa. Ele estuprou menininhas e matou idosos a coronhadas. Ele é um covarde!

Bateu forte com a mão na mesa de nossa cozinha. O chá que já estava gelado em cima da mesa respingou da xícara. Mas eu não parava de observar era sua veia nervosa, saltada em sua testa.

- Vá prendê-lo. - o policial obeso que estava ali de 'visita-surpresa' não ajudaria correndo risco de vida. - Apenas recebi uma dica: o viciado estará na Norton hoje.

Aí já era demais. Provocar acho que é normal, mas mandá-lo ao esconderijo é puro homicídio! O encarei sério.

- O filho da puta tem um quarto na Norton. - seu rosto quase colado no meu. Eu apenas o encarava preocupado; ele fechou os olhos, vazio. Eu não podia impedí-lo de ir atrás do homem, mas ao menos iria junto.

Ele estacionou o carro na frente do hotel Norton. Eram umas onze da noite quando começamos a vigiar a entrada do tal. Perto do meio dia ele me acordou com um empurrão forte. Eu ainda estava meio adormecido, mas ele.. ele estava atento como um policial de verdade. Eu o admirava tanto que me sentia envergonhado nesses momentos. Ele gritou para eu tomar cuidado.

Abri a porta ao meu lado, ele se jogou por cima de mim. O senti me protegendo. Ele viu o tiro chegando, salvou minha vida. O tiroteio seguiu enquanto eu estava caído na calçada ao lado da porta do carro. Eu não fiz nada.

Lembro de ficar intacto com a arma na mão trêmula feito mulherzinha. Esse era eu: gelo. Só pensava nele.

Chamei seu nome três vezes. Ele mudo no meio do silêncio repentino. Acendeu um cigarro. Havia acabado. No fim ele estava inteiro e quase o abracei desesperado. Ele me odiaria se eu fizesse isso.

- Isso é tudo. - eu disse ao militar que veio registrar os corpos.

- Obrigado pela ocorrência.

- Acho que meu parceiro conhecia aquele cara morto.

- Ele.. o prendeu uma vez. - Blanchard estava parado ao lado do ruivo sem vida. - Eram bem conhecidos, pelo o que sei. - encarei seus olhos de longe. Ele levantou a cabeça nervoso e me encarou ao mesmo tempo. Me pareceu uma eternidade aquele olhar sincero. O levei até em casa em seguida.

'Sua garota' estava lá. Apenas me joguei contra a parede do lado de fora da casa. Os observei.

- O que houve? - ela perguntou.

- Não quero falar sobre isso. - ele sempre foi muito áspero com ela, eu não a invejava mais; agora tinha pena dela.

- Eu conheço você.

Ele não queria mais entrar na casa, veio em minha direção calado. Os olhos chorosos, o nariz empinado.

- Você nunca me conheceu.

Ele saiu andando rua adentro.

- Ele conhecia um dos caras falecidos hoje.. - observei seu corpo sumir ao virar uma esquina. Sua garota me perguntou alguma coisa, mas eu não ouvi nada. O grito de 'cuidado' vindo da voz máscula era o que se repetia em minha cabeça.

- Quem era o cara? - dessa vez eu ouvi a mulher ao meu lado.

- Sei que era um velho caso dele. - sua boca entreabriu.

- Ele não fala disso...

Ela entrou na casa.

[flashback]

- Estou com medo.

- Vou cuidar disso. - falei enquanto o abraçava.

Era raro vê-lo tendo crises de choro, mas as crises sempre vinham. Era engraçado eu ser o gelo nessas horas. Protegendo o fogo.

[/flashback]

O esperei em casa. Por mais que sua mulher me irritasse, eu iria esperá-lo; sabia que ele precisava de um tempo na rua.

[flashback]

Minha mão deslizou em suas costas nuas. A marca de uma assinatura se encontrava ali. Aquele caso antigo havia o marcado de novo. Ele parecia não ligar. Continuava beijando meu rosto, me masturbando. Havia um nome marcado a canivete em suas costas e ele me tocava. Senti uma pontada em minhas costas. Eu queria matar aquele que fazia isso com ele. Mil coisas passaram em minha cabeça. E eu não entendia o levava uma pessoa a se alimentar dos outros. De se ver no direito de marcar quem bem entender.

- Você é especial, Dwight. - suspirou molhado em minha orelha quente.

Gozei.

[/flashback]

Eu nunca disse uma palavra sobre esse acontecido. Eu nunca perguntei. Um policial me passou a ficha do tal falecido caso Dewitt. Cafetão pequeno com uma ficha enorme. Nunca disse nada durante todo o julgamento.

Talvez você esteja obcecado e errado.