2. Adolescência

A festa tinha começado e Sirius não estava se divertindo e isso não tinha nem a vantagem de ser uma novidade. Como acontecia em festas de família desde que podia se lembrar, Sirius foi arrastado pela mão pela mãe, teve que cumprimentar todas as famílias importantes e para todos os presentes teve que abrir seu belo sorriso. Um grande sorriso cheio de dentes que só recebia elogios de todos. "Seu mais velho é tão bonito, Wal! Talvez pudéssemos conversar sobre unirmos nossas famílias um dia!", disse a jovem senhora Rookwood piscando um olho e batendo os dedos de leve na sua enorme barriga de 8 meses.

"Acho que sou muito jovem", disse Sirius pensando que o Sr. Rookwood tinha muito mais que 16 anos a mais que aquela jovem com aparência estúpida. Todos nas boas famílias sabiam que ela sequer tinha tido tempo de terminar seus estudos na Durmstang.

"Em 15 ou 16 anos estará na idade perfeita!", a Sra. Rookwood riu-se toda. Sirius realmente desejou (e se sentiu muito nobre por isso) que a pequena tivesse o marido que desejasse ter, mesmo sabendo que isso era improvável.

Sirius não se incomodava em ter que fazer uma boa figura aos convidados; Regulus e as meninas também o faziam. O que deixava Sirius furiosos como um bicho era ser o único a ser levado pela mãe. No começo com o carinho e o zelo que uma mãe cruel tem para com seu favorito. Agora só sobrara a força moderada, para lembrar o jovem que ele não voltaria a Hogwarts se não desse seu melhor para parecer o primogênito que deveria ser. "Se você não pode ser, finja", dizia-lhe seu pai com um sorriso esperto, como se estivesse repetindo um provérbio chinês.

Com a mãe distante Sirius podia começar a se divertir.

Kreatcher passou com uma bandeja de firewhisky e ele achou que isso era bom o bastante para começar. Era assim que a diversão sempre começava. O aniversário de 15 anos de Cissy, por exemplo, tinha sido ótimo. Muito divertido. Quando Kreatcher resmungou que não era educado pegar copos de todas as bandejas que passavam e Sirius não teve vontade de chutar o elfo, o garoto soube que estava começando a se divertir. Encostou-se numa parede perto do púlpito, onde podia ter uma boa visão do salão e ficou lá, esperando um elfo passar com uma bandeja e se divertindo.

Puxou Andrômeda para dançar e disse a ela que fazia isso como seu salvador. Andrômeda riu e disse que ele sabia muito bem que ela poderia salvar-se sozinha quando quisesse. Sirius pensou, girando com a prima favorita pelo salão, que talvez fosse com que Andrômeda o salvasse então. Então riu do seu próprio pensamento porque ia se salvar naquela noite, depois de beber todo firewhisky e cerveja amanteigada que pudesse. Ninguém se importava em ver um garoto de 16 anos beber como um velho alcoólatra, contanto que ele ficasse incógnito.

E ele teria ficado invisível se não tivesse parado de girar Andrômeda pelos ares no ângulo perfeito para ver Bellatrix conversando com seu noivo. Andrômeda disse algo que ele não conseguiu captar. Por um minuto completo ele ficou parado com a prima querida nos arredores da área de dança. Só olhando. Andrômeda desistiu de falar e só ficou com um dos braços no ombro de Sirius como se eles fossem voltar a dançar a qualquer instante.

"Não faça nada idiota", Sirius finalmente ouviu as palavras ameaçadoras da prima e quando olhou para ela seus olhos mostravam cuidado e carinho. Andrômeda era uma garota legal, ele pensou detendo-se por um pouco mais na companhia dela. O que não podia fazer era deixar de olhar a prima. A outra. Aquela.

Conversavam distantes e civilizados, ele com um copo de vinho sendo sacudido displicentemente enquanto falava. O vinho balançava e rodopiava dentro do bojo gordo da taça, ameaçava cair e não caia. As mãos de Bellatrix se mexiam pouco enquanto ela falava, em movimentos suaves e lentos. Falsa, Sirius pensou rangendo os dentes e sentindo a mão de Andrômeda pressionando seu ombro. O homem disse alguma coisa, sua cabeça pendeu minimamente para o lado, seus olhos se fecharam quando ele sorriu longa e discretamente. Não uma risada, um sorriso. Bellatrix abaixou o queixo, mas mãos os olhos e riu. Não apenas um sorriso, mas uma risada aberta e completa. Ela levou uma das mãos vagarosamente ao rosto, fingindo querer esconder seu riso. "Estão só conversando", a prima preferida disse. Conversando uma ova. Sirius sabia bem o que era aquilo. Era uma estúpida, antiquada e muito descarada dança do acasalamento, acontecendo bem na sua frente. Vagabunda.

Numa outra época ele nunca daria outro nome ao seu sentimento por Bellatrix que não fosse ódio. Naquele dia era um sentimento sem nome. E era dos grandes. Sirius se curvava a ele fácil, uma palmeira jovem quase encostando no chão e voltando. Uma coisa grande assim não carecia de nomes.

Rudolphus sentiu uma mão pesada no seu ombro.

"Ei! Fui apresentado a todo mundo aqui menos a você! Justo o noivo da minha prima!", ele disse aborrecido pelo homem ser mais alto que ele uns bons 10 centímetros.

"Rudolphus Lestrange", o homem disse muito seriamente.

"Sirius Black".

"Sim, eu sei", ele assentiu sem sorrir, "Ouvi falar de você".

"Muito bem eu a-pos-to", Sirius estava orgulhoso do próprio autocontrole. "Esse vestido não fica simplesmente incrível na minha priminha?". O outro concordou polidamente. Bellatrix olhava para o primo fixamente com uma estranha expressão de tranqüilidade. Sirius não gostava daquele rosto cínico. "Te garanto que ela fica tão bem sem ele quanto fica com", ele disse e viu com satisfação os olhos da prima ficarem minúsculos e seu rosto corar violentamente. Seu noivo talvez achasse que fosse rubor de donzela. Sirius sabia o que era. Aquele sentimento bem grande sem nome.

"Imagino que fique muito bem com as roupas que usa normalmente", disse Rudolphus e a expressão permanentemente controlada daquele homem o irritava horrivelmente. Havia naquela voz educada a sutileza irônica com que se trata os bêbados. Sirius não percebeu.

"Fica", o garoto disse malicioso. Sirius apanhou a taça de vinho das mãos de Lestrange sem esperar resposta de um pequeno gesto que pedia permissão. Bebeu tudo num gole só, elogiou a safra e perguntou se o noivo de Bellatrix era muito fã de vinhos. Ele respondeu qualquer coisa da mesma forma inacessível de sempre, fazendo Sirius desistir dele. Agora era tudo com Bellatrix.

"Bella é muito fã de vinhos", ele garantiu. "De vinhos, de firewhisky, cerveja amanteigada e todas essas coisas..."

"Você bebeu demais, Sirius" Bellatrix soou fria e o primo observou que seu rosto tinha perdido todo o rubor.

"Foi bom a gente ter entrado nesse assunto de bebida!", disse e deu um tapinha animado nas costas de Rudolphus. Foi a única vez que o homem pareceu estar vivo: suas maças do rosto se tornaram muito vermelhas e ele soltou o ar mais devagar pelo nariz; passou num instante e Sirius desconsiderou achando que aquele tal Lestrange era um tremendo covarde. O que Sirius não sabia - e como alguém poderia supor? - é que aquele pequeno tapinha lhe custou uma temporada de 13 anos em Azkaban. Rudolphus Lestrange era um homem de boa memória e ótimas estratégias. "Quando Bellatrix bebe", Sirius riu, "Vira uma verdadeira dançarina persa...". Isso foi especialmente ofensivo, ele sabia.

Bellatrix falou muito baixo sem separar os dentes:

"Sirius...".

"Lestrange, vou te contar da última vez em que bebemos juntos...".

Rudolphus não soube o final da história porque Sirius não pode continuar falando. Sua prioridade mudou de envergonhar a prima para conter uma hemorragia nasal em um átimo de segundo: o tempo que ele demorou em recobrar a noção de si após o soco que Bellatrix desferiu contra seu nariz. Um soco só, porém dolorosamente preciso. Uma quantidade assustadora de sangue da cor das bandeiras penduradas no teto manchava a boca e o queixo de Sirius, que olhava estupefato para a prima.

Estava um pouco tonto. Kreatcher e outros três elfos o empurraram para fora do salão na velocidade da luz, desesperados por evitar um escândalo ainda maior. Alguns convidados olhavam horrorizados, outros riam divertindo-se muito mais do que imaginavam que poderiam numa festa Black. Sirius ainda viu Andrômeda tentar ir atrás dele e ser impedida por Druella. Estava doendo.