Capítulo II – Conhecer a magia

Era ainda muito cedo quando Draco acordou. Olhou para o relógio de pulso que estava pousado sobre a mesinha de cabeceira. Voltou a enfiar a cabeça debaixo dos cobertores para tentar dormir mais uma hora. No entanto, fora em vão, pois Lexie estava a suspirar ruidosamente. Também o barulho dos ponteiros do relógio estavam a irritá-lo. Já não conseguia dormir mais, qualquer som o incomodava.

- Podes parar de fazer barulho? – a voz de Draco, afectada pelo sono, ecoou por todo o quarto.

- Eu estou a respirar. Estás a sugerir que pare de fazê-lo? – ripostou Lexie, sentando-se na cama.

- Estás a suspirar, Lexie. E alto demais! – contestou Draco em voz alta.

Lexie voltou a suspirar alto – o que fez Draco revirar os olhos - e ajeitou-se na cama. Deixaram-se ficar em silêncio, tentando voltar a adormecer. Draco acabou por se levantar, frustrado, dirigindo-se para a casa de banho. Tomou um banho demorado e Lexie decidiu ir à sua mala buscar um dos livros que já tinha começado a ler, "Hogwarts: uma história".

Draco saiu da casa de banho, só com umas calças vestidas. O cabelo molhado e despenteado. Lexie desviou por um segundo o olhar das páginas do livro para encarar o irmão. Por sua vez, Draco olhou para Lexie e observou o livro que já conhecia há anos.

- Este livro é interessante. – disse com um sorriso aberto. - É verdade o que aqui diz sobre Hogwarts? – perguntou, entre o entusiasmada e o contida.

Lexie já tinha percebido que com Draco precisava de controlar o entusiasmo, embora isso fosse um pouco difícil para uma criança como ela. Draco simplesmente anuiu a cabeça como sinal de resposta, dirigindo-se para o espelho.

- As escadas movem-se?

- Sim. – Draco respondeu, enquanto apertava os botões da camisa. – Agora o ideal era que saísses da cama e te vestisses. Temos o comboio às onze horas para apanhar. Isto, se ainda quiseres ir para Hogwarts… - disse, arqueando uma sobrancelha na direcção de Lexie.

- É claro que quero. – disse, levantando-se num ápice. – Ainda para mais agora que sei que as escadas se movem...

Draco revirou os olhos com o último comentário da irmã. Lexie apenas sorriu de lado, um sorriso muito semelhante ao de Draco. Enquanto a irmã se vestia, Draco dirigiu-se para a pequena varanda do quarto de hotel. Cinco minutos depois, Lexie estava a pentear o cabelo.

- Estou pronta! – exclamou com o seu melhor sorriso, espreitando para a varanda.

Ambos seguiram em direcção à recepção e encontraram a mesma senhora a sorrir-lhes. Draco fez o pagamento com o dinheiro muggle que a mãe lhe tinha dado e saíram do hotel com as malas a arrastarem atrás deles. Lexie teve vontade de perguntar mais coisas acerca de Hogwarts, mas controlou-se. Seguiu Draco, até um café, onde iriam tomar o pequeno-almoço. O troco que sobrara do hotel deveria chegar. Mas ainda assim, decidiu perguntar à irmã.

- Achas que isto chega para tomarmos o pequeno-almoço? – estendeu a mão, exibindo uma nota e algumas moedas.

- Chega perfeitamente. – disse, quase explodindo de felicidade por Draco tomar a iniciativa de falar com ela. – Draco? – arriscou, quando já estavam a entrar no café.

- Diz.

- Podes explicar-me como funciona isso das equipas lá na escola?

Draco abriu a boca para falar, mas foi interrompido pelo empregado.

- Bom dia, o que vai ser?

Lexie, ao ver a hesitação de Draco, decidiu fazer primeiro o pedido.

- Queria um pão com geleia de morango e um sumo de laranja natural, por favor.

- Com certeza. E o senhor? – perguntou o empregado, virando-se ligeiramente na direcção de Draco.

- Eu… o mesmo. – disse, olhando para Lexie que lhe sorria.

- Nunca tomaste o pequeno-almoço num café? – perguntou, curiosa.

- Em casa servem-me melhor do que aqui. – respondeu com um sorriso no canto dos lábios.

- Podes-me então explicar o que te pedi? – voltou a tentar Lexie com um olhar suplicante.

Draco respirou fundo, antes de lhe responder:

- Tens quatro equipas.

- Gryffindor, Slytherin, Ravenclaw e Hufflepuff.

- Exacto. Já leste o livro todo? – Draco fez uma expressão de surpresa.

- Quase todo. – respondeu, corando.

Draco ficou a pensar se Lexie realmente gostava de ler ou se era apenas por ser tudo uma novidade para ela.

- Quando chegares a Hogwarts, vão-te colocar um chapéu que te vai seleccionar para uma das equipas.

- Qual é a tua?

Mais uma vez foram interrompidos pelo empregado que lhes trazia o pequeno-almoço. Draco não respondeu enquanto barrava a geleia no pão. Lexie seguiu-lhe o exemplo.

- Slytherin.

- Eu não sei em qual quero ficar… - confessou, bebendo um gole de sumo.

Draco não percebeu a dúvida da irmã.

- É óbvio que tens de ficar nos Slytherin, Lexie. – disse numa oitava a cima, um tanto irritado. – Como é que queres que eu cumpra o que prometi à mãe se estiveres noutra equipa?

- Tens razão. – disse, suspirando.

Draco revirou os olhos impacientemente e voltou a comer o pão com geleia.

- Draco? – a voz de Lexie soou hesitante. – No lago há uma lula gigante?

- Que interesse isso tem? – Draco respondeu com uma pergunta.

- Era só por curiosidade. – disse, abanando os ombros.

Será que Draco não conseguia perceber que Lexie não fora criada com magia? Tudo o que dizia no livro, para ela, eram apenas histórias de fantasia. E era difícil para Draco entender isso, quando ele tinha sido criado no meio de elfos domésticos, unicórnios e outros seres que Lexie nem sonhava existirem.

- É verdade. – respondeu Draco, olhando de soslaio para Lexie.

Lexie tinha mais uma dezena de perguntas para fazer. Contudo, o tom frio e seco de Draco fê-la guardar as questões. Em breve teria oportunidade de descobrir a resposta por si mesma. Já tinham saído do café e caminhavam na direcção da estação que ficava a cerca de vinte minutos dali, segundo Draco.

- Lexie… dentro de Hogwarts não podem descobrir que somos irmãos. – disse Draco, parando de andar.

- Pois, eu consigo compreender porquê… - disse Lexie tristemente.

Draco assumiu uma expressão séria e carregada.

- Bem… não é como se fosse simples chegarmos agora juntos e apresentares-me como a tua irmã mais nova que a mãe escondeu durante onze anos. – Lexie esforçou-se por parecer indiferente ao concluir o raciocínio. Todavia, Draco sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.

- É mais ou menos isso. Seria estranho. – acrescentou, sem saber bem o que dizer.

- Não posso sequer falar contigo lá? – Lexie perguntou, apesar de já adivinhar a resposta. Ainda assim, ansiava poder falar com alguém dentro do castelo, mesmo que essa pessoa fosse Draco e só a quisesse ver pelas costas.

- Em público não.

Lexie desviou o olhar dos olhos cinzentos de Draco e suspirou pesadamente.

- Isso deve ser um alívio para ti.

Draco não lhe respondeu, apenas mordeu o lábio inferior e continuou a andar em frente. Estava completamente perdido nos seus pensamentos… se para ele já estava a ser difícil não conseguia imaginar sequer para uma criança de onze anos. Contudo, não tinham outra solução. Se os vissem falar e constatassem que eles eram muito similares, poderia chegar aos ouvidos de Lucius num ápice. O pai de Draco jamais perdoaria a mãe e ela não seria a única prejudicada. Draco e Lexie também poderiam sofrer consequências.

- O comboio parte às onze? – perguntou Lexie, segurando no pulso de Draco para fitar as horas. – Não falta muito! – acrescentou, procurando o olhar de Draco.

Draco olhou para o pulso e verificou que faltavam apenas quinze minutos para o comboio partir.

- Ouve, Lexie… nós vamos entrar na estação King's Cross dos muggles. Mas depois vamos em direcção à parede da plataforma 9 e 10 para conseguirmos entrar na nossa plataforma 9 ∕ .

Apesar de o estar a ouvir com muita atenção, os olhos cinzentos de Lexie deixaram Draco convencido que ela estava a duvidar das coisas que ele dizia. Sacudiu os ombros e voltou a falar:

- Eu vou à frente para tu perceberes como se faz. Ainda assim, deixa alguma distância entre nós. Às vezes os feiticeiros puros também vêm por este acesso.

- Mas existem outras entradas? É que parece-me um pouco estranho ter de me lançar contra uma parede! – disse com um sorriso forçado, pois não queria que Draco a interpretasse mal.

- Não há tempo para mais explicações. Dentro do comboio juntaste aos colegas do teu ano. Eu tenho de ir para a cabine dos monitores.

- És monitor?

Draco revirou os olhos. Será que Lexie teria sempre mais e mais perguntas?

- Eu vou à frente. Não te percas, Lexie.

Ela assentiu com a cabeça, ainda um pouco ofendida com a atitude do irmão. Deixou Draco ter algum avanço sobre ela para depois começar a andar em passos ligeiros, quase a correr, para não o perder de vista. Já conseguia ouvir o barulho dos comboios, o que a deixou reconfortada. Em breve estaria na plataforma que Draco lhe falara. Viu Draco aproximar-se do pilar que separava as duas plataformas, 9 e 10. Percebeu que antes de entrar para lá, ele verificou se ninguém o estava a observar. Também o facto de Draco ter olhado para trás, à procura dela, a tinha deixado mais aliviada. Afinal, Draco importava-se minimamente com ela.

Assim que conseguiu passar pelo meio das pessoas, chegou ao pilar e fez exactamente o mesmo que o irmão. Um sorriso abriu-se no rosto de Lexie quando percebeu que já estava na plataforma 9 ∕ . Tentou procurar Draco, mas já não o via em lado nenhum. Embora ele já estivesse dentro do comboio, espreitando discretamente pela janela.

Lexie decidiu entrar no comboio, mesmo que ainda não fossem as onze horas, pois tinha receio de ficar para trás. Uma onda de tristeza e de saudade apoderou-se dela quando percebeu que muitas das cabines estavam ainda vazias porque os alunos estavam lá fora a despedir-se dos seus familiares. Sentiu a falta do pai e do Azkar. Perdida nos seus pensamentos, entrou para uma cabine e sentou-se.

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O comboio já tinha dado a partida e, embora já estivesse em movimento, muitos dos alunos ainda andavam à procura dos seus colegas nos vários compartimentos.

Draco estava sentado comodamente numa das cadeiras dos monitores. Uma das mãos segurava um livro sobre as melhores tácticas de quidditch, enquanto a outra estava pousada no braço da cadeira. A sua concentração foi interrompida assim que a outra monitora dos Slytherin, Pansy Parkinson, entrou na cabine.

- Draco! – exclamou a rapariga com um sorriso de orelha a orelha.

- Olá Pansy. – respondeu Draco, sem grande entusiasmo e sem se esforçar minimamente para sorrir.

- Como foram as tuas férias? – perguntou quando já se tinha sentado na cadeira ao lado de Draco.

- Foram boas. – disse, marcando a página em que tinha ficado. – E as tuas? – Draco apenas perguntou para ser simpático, pois não tinha interesse nenhum para ele.

- Foram óptimas. Desta vez fui a Paris com os meus pais. E também fui ao Japão. Sabias que os feiticeiros de lá…

Pansy não terminou o que estava a dizer porque foi interrompida pelo barulho de duas pessoas a discutirem.

- Estou te avisar, Ronald Weasley, se nós estivermos atrasados, eu juro que te desfaço. – Hermione Granger estava com as bochechas avermelhadas de fúria, mas logo se acalmou quando entrou e teve a certeza que apenas estavam os dois Slytherin.

- Estás a ver, Hermione? Ainda não está cá ninguém. – Ron estava furioso e atirou-se para cima de uma cadeira livre como se esta tivesse culpa. Hermione revirou os olhos e sentou-se ao lado dele, mas com delicadeza.

As oito cadeiras formavam um círculo. Hermione tinha ficado praticamente de frente para Draco e não pôde deixar de reparar que ele estava sentado de uma forma bastante descontraída mas, ainda assim, conseguia estar mais adequado do que Ron. Pansy olhava constantemente para o relógio dourado que tinha no pulso, bufando de impaciência pelo atraso dos Ravenclaw e Hufflepuff. Ron olhou para Hermione pela primeira vez desde que estavam sentados e os seus olhos esbugalharam-se ao reparar que mais de metade das coxas de Hermione estavam à mostra. Tossiu levemente, atraindo as atenções de Draco e Pansy. Contudo, Hermione continuou a ler o livro.

- Hermione? – chamou Ron. – Não achas que essa saia está um pouco curta? – perguntou num sussurro, que não se ouviria caso a sala estivesse cheia. Não obtendo resposta pela parte da morena, Ron puxou a saia ligeiramente para baixo.

- Ronald! – exclamou Hermione entre dentes.

- Por Merlin, estou a ver metade das tuas coxas. – disse Ron com a voz tremida.

Draco, que assistia à cena juntamente com Pansy, reprimiu uma gargalhada. Ao sentir os olhos cinzentos de Draco presos nas suas pernas, Hermione suspirou pesadamente e fuzilou Ron com o olhar. Se ele não tivesse falado da sua saia, os dois Slytherin não estariam agora a observar atentamente as pernas de Hermione.

Assim que Draco reparou que Hermione estava a fitá-lo, este desviou o olhar e encarou os seus próprios sapatos infantilmente. Enrijeceu o corpo, assumindo uma postura severa.

- Por que raio é que estás a olhar assim para mim? Tenho razão! – Ron estava com as bochechas vermelhas de tanta irritação. – Toma. – disse, colocando o casaco por cima das pernas de Hermione, tapando-as.

Hermione ia-lhe responder, mas entretanto entraram os monitores que estavam atrasados. Por isso, só teve oportunidade de atirar o casaco com um pouco de violência para cima de Ron para de seguida olhar para os quatro recém-chegados e sorrir-lhes. Draco que ainda espreitava pelo canto do olho não conseguiu evitar rir-se, perguntando-se como é que o Weasley deixava a Granger tratá-lo assim, apesar de admitir que ele estava a merecer. Sem dúvida que Hermione ficava melhor com a saia assim, exibindo as pernas morenas e bem feitas. Draco abanou a cabeça, afastando esse pensamento.

O monitor chefe, um rapaz dos Hufflepuff, deu início à reunião. Começaram por dividir as zonas de vigia e os pares para o mês de Setembro, pois no final de cada mês juntar-se-iam para fazerem uma breve reunião com relatórios e decidirem os pares para o mês a seguir.

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Lexie estava a olhar através do vidro com o livro "Hogwarts, uma história" pousado sobre as suas pernas. Queria lê-lo, mas não se conseguia concentrar. Sentia uma explosão de emoções. Por um lado, sentia-se feliz, pois desejava muito praticar magia. Mas por outro, estava triste, porque tinha saudades de casa, onde era mimada pelo pai.

- Achas que posso me sentar aqui contigo? – perguntou uma menina de cabelos escuros e olhos quase tão claros como os da Lexie. – Não tenho mais lugares com os alunos do primeiro ano.

- Sim, claro que podes. – disse Lexie, não contendo um sorriso genuíno.

Era tão bom que alguém estivesse a falar com ela. Já não se lembrava da última vez que o tinham feito no mundo muggle.

- Chamo-me Charlotte Broad. – disse, correspondendo ao sorriso.

- Eu sou a… Lexie Allison. – disse, um pouco hesitante, ainda não estava muito habituada ao nome Lexie.

- Os teus pais são feiticeiros? – perguntou Charlotte, fazendo Lexie sentir-se incomodada com a pergunta, questionando-se se todas as pessoas fariam essa pergunta.

- Só a minha mãe.

- Todos os meus antecedentes são feiticeiros. E todos eles ficaram nos Slytherin…

- Isso quer dizer que vais ficar nos Slytherin…. – disse Lexie, atenta a todos os movimentos de Charlotte.

- Claro. E tu em qual achas que vais ficar?

- Eu? – Lexie pareceu surpreendida com a questão. – Bem, eu quero ficar nos… Slytherin também.

- Mas se o teu pai é um simples muggle não sei se o chapéu te vai pôr lá. – disse Charlotte, olhando Lexie de cima a baixo.

- Porquê que dizes isso? – Lexie pareceu ofendida.

- Salazar Slytherin em geral só aceitava pessoas com o sangue puro. E bem… digamos que o teu sangue não é puro. É um sangue sujo. – disse com um sorriso de escárnio.

- O meu sangue não é sujo! – disse Lexie, fulminando Charlotte com o olhar.

- Ora, eu não estou a dizer que não possas ficar nos Slytherin. Há pessoas que são meio sangue e calharam nos Slytherin. Pode ser que tenhas sorte. – disse, curvando os lábios num sorriso.

Lexie começava a não gostar de Charlotte. Parecia-lhe uma menina mimada e arrogante, cheia de complexos. Mas como não tinha mais ninguém, decidiu continuar a falar com ela sobre diversos assuntos.

- Tens família em Hogwarts?

- Não e tu?

- Tenho uma irmã que está no sétimo ano.

- Que sorte. Adorava ter irmãos. – disse Lexie, voltando a olhar através do vidro.

Lexie estava nostálgica por não poder dizer que tinha um irmão. Tinha a certeza que se dissesse que era irmã de Draco Malfoy, Charlotte suspiraria de encanto. Apesar de Draco ser um pouco frio com ela, Lexie admirava-o bastante.

- Bem, já devemos estar a chegar a Hogwarts. O melhor será trocarmos de roupa. – disse Charlotte, acompanhando Lexie até à casa de banho onde vestiram os uniformes.

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Os alunos do primeiro ano estavam a ser acompanhados por Hagrid que lhes acenava e assobiava para conseguir chamar a atenção de tantos. Draco esticou ligeiramente o pescoço e procurou com o olhar a irmã. Sentiu o coração ficar acelerado quando não viu nenhuma menina tão loira quanto Lexie. Os alunos dos outros anos já estavam a subir para as carruagens e Draco deixou-se ficar para último, tentando encontrar Lexie.

Assim que girou o pescoço para o lado direito, avistou-a. Estava a caminhar ao lado de Charlotte e Draco reconheceu-a como sendo irmã mais nova de Olympia Broad, uma Slytherin do sétimo ano. Seriam as semelhanças entre e Lexie assim tão óbvias também? Abanou a cabeça negativamente e, sem esperar que a irmã o avistasse, dirigiu-se para uma das últimas carruagens, onde estavam Pansy e Zabini.

- Estava a ver que não vinhas… - disse Pansy com a sua voz estridente.

Draco não lhe respondeu, apenas se sentou de frente para Zabini que o observava atentamente. Discretamente, Draco olhou para trás e ainda conseguiu ver Lexie a entrar para um dos barcos que levava os alunos do primeiro ano.

Mal chegaram ao castelo dirigiram-se para o salão principal, onde a maior parte dos alunos estava a conversar com os colegas de equipa. As raparigas que estavam ao redor de Draco conversavam entusiasticamente sobre as férias e Pansy teve oportunidade de contar sobre os feiticeiros do Japão que a tinham fascinado. Zabini começou a conversar com Draco sobre quidditch e, embora a paciência de Draco estivesse a esgotar-se, continuou a falar sobre a equipa dos Slytherin.

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Lexie estava maravilhada com toda a magia existente naquele local. Já quase nem ouvia as perguntas chatas e difíceis de Charlotte e, ao contrário desta, Lexie tinha achado imensa graça a Hagrid, dizendo que nunca tinha visto um homem tão grande e que este lhe fazia lembrar um urso.

Ao entrar no castelo, Lexie sentiu uma onda de felicidade inexplicável. Era como se estivesse em casa, embora ainda permanecesse o vazio que se devia à ausência do pai e do Azkar. Continuava a caminhar ao lado de Charlotte que já tinha parado de fazer perguntas, o que era um alívio para Lexie. No entanto, fitava Lexie com um ar extremamente confuso.

Quando pararam junto da porta do salão principal de frente para a professora McGonagall, Charlotte tossiu levemente para chamar a atenção de Lexie que fitava a porta com grande curiosidade.

- Lexie, tens a certeza que a tua mãe é feiticeira?

- Tenho. – Lexie fingiu estar distraída com a prega da saia.

Não queria que Charlotte lhe fizesse mais perguntas e nem queria sequer saber o porquê daquela questão.

- Sabes… - insistiu a morena – é que não parece. Aliás, parece que nunca viste magia! – constatou de braços cruzados.

Em parte era verdade. Lexie só tinha visto a magia que praticara, inconscientemente, no mundo muggle. Todavia, não poderia dizer isso a Charlotte, pois ela iria querer saber por que motivo Lexie não tinha contacto nenhum com a mãe.

A professora McGonagall interrompeu o olhar tenso entre as duas meninas, chamando-as para se juntarem à fila em pares que se começava a organizar. Lexie agradeceu mentalmente pela professora as ter chamado. Não tinha respostas para dar a Charlotte e isso incomodava-a. Os portões abriram-se e Lexie tentou mostrar-se o mais indiferente que conseguiu ao avistar o tecto enfeitiçado, as enormes mesas de cada uma das equipas e até mesmo o olhar de Draco preso em si. A música que os acompanhava num ritmo entusiasmante fê-la sorrir abertamente, cantando também o hino de Hogwarts que tinha lido no seu tão precioso livro.

- Agora, eu vou chamar-vos para darmos início à selecção das equipas. Calma, todos os alunos já passaram por isto. – disse com a voz severa, mas esboçando um sorriso fácil.

Mesmo com as palavras de incentivo da professora, Lexie sentiu os nervos à flor da pele. Ouviu o primeiro nome ser proferido, o aluno caminhou até à cadeira, onde a professora lhe colocou um chapéu velho. A voz do chapéu exclamar o nome da equipa "Gryffindor!" fê-la arregalar os olhos e engolir em seco.

Praticamente logo de seguida, Charlotte Broad foi chamada pela professora. Antes de se dirigir para a cadeira, sorriu para Lexie, dizendo:

- Boa sorte! Espero voltar a encontrar-te na sala comum dos Slytherin.

Lexie apenas lhe sorriu, espantada com toda a segurança de Charlotte. Viu-a dirigir-se à cadeira com a maior das tranquilidades e mal o chapéu tinha pousado sobre a sua cabeça quando exclamou "Slytherin!". Charlotte sentou-se ao lado da irmã que a esperava na mesa dos Slytherin quase indiferente à selecção.

- Lexie Alinson. – a voz da professora McGonagall soou por todo o salão e Lexie susteve a respiração.

Assim que se sentou na cadeira parecia que todos os alunos estavam desfocados, pois só conseguia olhar para Draco que estava com os olhos cinzentos ainda presos na irmã. Lexie esperou um sorriso de incentivo que não chegou e sobressaltou-se quando sentiu o chapéu ser pousado sobre a sua cabeça.

- Oh, inteligência não te falta, darias bem nos Ravenclaw. – Lexie fechou os olhos com força, evitando assim o contacto visual com Draco. - Oh não, a tua coragem prevalece sem dúvida, por isso: GRYFFINDOR!

O chapéu foi retirado e Lexie sentiu como se o mundo se tivesse desmoronado ao ver Draco fechar as mãos com força. Sabia que a vontade de Draco era dar um murro na mesa e sair dali para fora, ela tinha acabado de lhe dificultar a vida. Recriminou-se mentalmente como se a culpa fosse sua, enquanto se dirigia para a mesa dos Gryffindor que a recebiam com aplausos intensos. Sentou-se ao lado de Hermione Granger que a recebeu com um sorriso genuíno.

Hermione Granger todos os anos assistia à cerimónia de selecção com entusiasmo. Tanto entusiasmo que era inevitável não se lembrar do seu primeiro ano em Hogwarts. O nervosismo que sentiu quando a professora McGonagall pousou sobre a sua cabeça o chapéu era inesquecível. Era como se borboletas irrequietas esvoaçassem no estômago.

Não conseguiu não se lembrar de si mesma ao ver Lexie tão nervosa quanto ela estava. No entanto, percebeu que Lexie estava infeliz por ter ficado nos Gryffindor, ao contrário de Hermione que tinha ficado radiante. Era a equipa que mais a fascinava.

- Bem-vinda! – disse Hermione ainda a sorrir para Lexie.

Lexie desviou o olhar da mesa dos Slytherin e fitou Hermione. Era a primeira vez que a via e sentiu-se reconfortada com as palavras dela, embora muitos já lhe tivessem dito aquilo.

- Obrigada. – disse simplesmente, deixando um suspiro fluir.

Durante a refeição, Lexie não teve coragem de voltar a olhar para a mesa dos Slytherin e riu-se para si mesma do soar irónico que isso tinha. O chapéu tinha acabado de lhe dizer que a coragem era a qualidade que prevalecia nela e ela nem sequer coragem tinha de procurar o olhar do irmão.

Tentou divertir-se com os outros alunos que se riam da recepção do fantasma Nicholas. Estava a ser simpático com toda a gente, tirando a parte em que quase separava a cabeça do corpo, tentando assustá-los. Lexie comeu um pouco de tudo, incluindo as comidas que não conhecia.

No entanto, não conseguia disfarçar a tristeza e desilusão que sentia. Pela sua mente passavam constantemente as palavras de Draco a dizer que tinha de ficar nos Slytherin. Embora estivesse muito barulho, Lexie ouviu uma cadeira arrastar-se no chão e os passos de alguém a caminhar rápido. Receosamente, levantou a cabeça para fitar Draco Malfoy abandonar o salão e, mesmo estando de costas, Lexie percebeu que ele estava extremamente chateado.

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Todos os corredores eram estranhos para Lexie. Seguiu os monitores da sua equipa, Hermione e Ron, até ao átrio principal, onde os alunos das respectivas equipas seguiriam por caminhos diferentes.

- Gryffindor, por aqui! – gritou Hermione, estreitando o olhar para Ron que não a estava a ajudar em nada.

Alguém prendeu o pulso de Lexie e esta virou-se para poder fitar a pessoa. Charlotte Broad sorria-lhe maliciosamente.

- Parece que não tiveste sorte nenhuma, Lexie. Gryffindor? – o tom zombeteiro de Charlotte fez Lexie sentir as bochechas arderem de raiva. – É bom que saibas que as nossas equipas são rivais e a minha… a minha é a melhor.

Lexie soltou-se da mão de Charlotte que ainda a apertava no pulso e sorriu sarcasticamente para ela. Cruzou os braços e desenhou na face o seu melhor ar divertido.

- Eu não tenho medo de ti, Charlotte. E a se tua equipa é melhor que a minha ou não… nós vamos ver.

- Estás a duvidar que a equipa que tem mais feiticeiros puros é melhor do que qualquer outra de Hogwarts?

Lexie não lhe respondeu, apenas lhe virou as costas pronta para correr na direcção dos Gryffindor que estavam já ao fundo do corredor. Contudo, Charlotte agarrou-lhe os cabelos.

- Não sabes com quem te estás a meter, mentirosa. Tenho a certeza que não passas de uma sangue de lama.

- Eu não sou mentirosa.

- A tua mãe não é feiticeira.

Embora Lexie não soubesse o significado de sangue de lama supôs que não se tratasse de um termo correcto. Fuzilou-a com o olhar e correu onde avistou Ron a acenar-lhe. Queria gritar para Charlotte que a mãe dela era feiticeira.

- Perdeste-te? – perguntou Ron, colocando-lhe a mão no ombro.

- Sim, desculpa.

Ron sorriu-lhe e nem se apercebeu que Lexie tinha os olhos marejados de lágrimas. Estava com raiva de Charlotte e sabia que esta ia implicar com ela ainda mais. Teria sido mais fácil se ela não tivesse feito a viagem até Hogwarts com Charlotte.

Quando chegaram à entrada da sala comum dos Gryffindor, Ron explicou-lhe que sempre que ela quisesse entrar teria de mencionar a palavra passe à Dama Gorda.

- Goblins. – disse Ron e a Dama Gorda abriu a passagem. – Não lhe dês muita confiança, porque ela tem por hábito cantar e acredita que não é o forte dela.

O ar descontraído de Ron divertiu Lexie por instantes. Mas o que realmente a fez desligar-se do encontro com Charlotte foi a dimensão e a beleza da sala comum dos Gryffindor. A bandeira vermelha e dourada abanou com a brisa do vento que entrava pela janela aberta e Lexie fitou o leão, desejando que ele fosse uma serpente mergulhada no verde e prata.

Sentou-se na poltrona vermelha, olhando atentamente para os vários quadros expostos na sala. Nem se apercebeu que Ron e Hermione tentavam levar os alunos do primeiro ano para o dormitório.

- Meninas, o vosso dormitório é deste lado! – Hermione apontava para uma porta.

Ron, por sua vez, estava a subir as escadas juntamente com Harry atrás de si, indicando aos rapazes qual era o caminho para o dormitório deles.

Sem se aperceber, Lexie era a única presente na sala comum. Estava a ver o horário e verificou que a primeira aula da manhã seria em conjunto com os alunos dos Slytherin. Sentiu o tormento apoderar-se de si.

- Ainda por aqui? – perguntou alguém que fez Lexie acordar do seu pequeno transe.

- Oh… eu estava só a verificar o horário. – disse, dobrando o pergaminho em dois e levantando-se do sofá.

- Já está a ficar tarde.

- Tens razão. – Lexie já caminhava para as escadas.

- Sabes o caminho? – a voz de Hermione fez Lexie parar de andar e virar-se de frente para ela.

- Pois, não sei. Mas talvez tu me possas ajudar. – disse, exibindo um sorriso fraco.

Hermione sorriu-lhe e acompanhou-a até ao dormitório, mostrando-lhe a cama onde ela ficaria instalada.

- Obrigada.

- Podes me chamar Hermione. Já agora… como é que tu te chamas?

- Mel… quero dizer, Lexie.

Hermione deixou um riso escapar-lhe pelos lábios.

- Preferes que te trate por Mel ou por Lexie?

Lexie não sabia bem o que pretendia, mas talvez Lexie se adequasse mais à personalidade que ela estava a formar. Sem qualquer tipo de hesitação, Lexie disse:

- Trata-me por Lexie. – disse a sorrir.


Desculpem a demora a postar o 2º capítulo. Mas foi-me impossível terminá-lo mais cedo! Espero que gostem! Deixem uma review por favor!

Obrigada Filipa por betares este capítulo e pela excelente ajuda que me dás sempre. Adoro-te :)

Sara Mendes