2.
Outras Opções
"Primeiro eu tenho que
entregar isso a você," disse Claire franzindo a testa, quando
ela e Serene estavam sentadas no salão com as janelas abertas.
"E acredite-me, eu não me sinto bem por fazer isso."
"Por quê?" Serene virou o pergaminho em que apenas constava seu nome escrito com tinta azul e um selo imperceptível.
Claire exalou devagar. "É uma carta de um conhecido em comum."
"Sim?"
"Ben Olsen."
Com grande inquietação ela viu Serene enrubescer até a raiz dos cabelos.
"Oh!"
"Isso é tudo? 'Oh!'?"
Serene guardou a carta em sua bolsa e quando olhou para cima novamente, sua expressão estava em branco. "Ele estudava comigo e com Laurel no curso para adultos há três anos atrás."
Claire esperou até que os elfos servissem o chá e saíssem do salão novamente. "Eu entendi isso." ela disse, ainda chateada pela maneira furtiva como Olsen tinha feito com que ela entregasse a mensagem a Serene. "Mas eu também sei que ele tentou matar Snape com uma varinha envenenada e depois disso mudou de lado. Se ele já não era um Comensal da Morte desde o início."
A postura tensa de Serene deixou evidente que ela não queria falar a respeito de Ben Olsen naquele momento.
Claire deu de ombros, secretamente mais preocupada do que antes. "Bem, você não vai abrir a carta?"
"Como vai o bebê? Poppy disse que você já pode senti-lo chutando você."
"Serene!"
"O que você prefere ter, menino ou menina?"
Balançando a cabeça exasperada, Claire desistiu. "Menino, eu acho. Não, eu não ligo de verdade. Eu quero que o bebê seja saudável.
Serene mordeu a língua envergonhada. Como ela havia sido insensível de levar a discussão para aquele lado. Claire viu o embaraço da outra mulher e sorriu de leve.
"Se o bebê for um aborto – bem, ele ou ela vai crescer na única casa no mundo bruxo que está perfeitamente equipada para abortos."
"E ele ou ela vai ter uma mãe que vai amá-lo." acrescentou Serene e pegou a mão de Claire, em um gesto raro que Claire apreciou ainda mais, sabendo que Serene evitava tocar nas pessoas ou demonstrar emoções profundas.
"Oi Serene." disse Sirius casualmente quando entrou no salão.
Ela olhou para ele, surpresa e chocada. "Black! Você não devia… eu não sei, estar escondido em algum lugar?"
Sirius deu a ela um grande sorriso, roçou um beijo na testa da esposa e sentou-se à mesa do café. Ele parecia completamente relaxado e apenas algumas depressões no rosto dele falavam das semanas que ele havia passado em uma cela em Azkaban.
"Bem, em breve vou ser pai." ele falou arrastadamente. "Então achei que deveria dar uma olhada em minha filha de vez em quando."
Claire passou a ele um pedaço de torta de maçã. "O que faz você ter tanta certeza de que vai ser uma menina?"
Ele deu de ombros. "Intuição masculina?"
Serene franziu a testa. "Como você pode ficar aí sentado como se nada tivesse acontecido, quando você escapou de Azkaban há dois dias atrás!"
"Não se preocupe, Serene, ele não está em perigo eminente." Claire tentou acalmá-la.
"Eu não estou preocupada com ele." sua amiga exclamou irritada. "Estou preocupada com o que os Aurors e o Ministro vão pensar se alguém o encontrar em sua casa!"
"Ninguém vai saber." ele afastou as preocupações dela.
Um silêncio desconfortável caiu na sala e apenas Sirius parecia não notar. Para Claire estava claro que Serene queria falar sobre alguma coisa que ela não queria que Sirius ouvisse. Claire gentilmente o cutucou por baixo da mesa e depois da terceira vez ele entendeu, se levantou e saiu do salão sem falar uma palavra.
Assim que ele saiu, ela se virou para Serene. "Então é verdade? Remus Lupin voltou para Hogwarts? Eu sabia que ele era o único que conseguiria!"
Serene suspirou. "Sim, ele voltou." De repente ela não estava mais com fome, se levantou e foi para a janela aberta que dava para o terraço. "Eu… eu fiz uma coisa horrível." ela confessou.
Claire tinha inclinado a cabeça e olhava atentamente para a amiga, mas permaneceu calada para dar tempo de sua amiga esclarecer do que estava falando.
A porta se abriu e Serene olhou em volta, apenas par ver Sirius entrar.
Ela olhou para ele surpresa e chocada. "Black! Você não devia… eu não sei, estar escondido em algum lugar?"
Sirius sorriu. "Já me disseram isso, sim. Eu apenas vim pegar um pouco de café e algumas notícias de Hogwarts, se você tiver alguma."
"Querido, não acho que seja uma boa hora." sussurrou Claire.
"Eu ouvi você mencionar Remus." Sirius ignorou o aviso dela. "Ele está bem?"
Serene virou de costas para ele e olhou para o jardim ainda florido, que agora, em começo de outubro mostrava as cores vibrantes do outono.
"Sim, ele está bem." ela respondeu, sua voz vazia.
"Eu nunca esquecerei o que ele fez por nós." disse Claire suavemente. "Ele arriscou a própria vida para que nós pudéssemos ficar juntos."
"Juntos?" Serene olhou para ela com pena. "Mesmo que ele diga que ninguém vai vê-lo aqui, o que eu duvido muito, Sirius tem que se afastar de você logo e se esconder em outro lugar. Então vocês não vão ficar juntos muito tempo."
Claire corou. "Você… está certa: Ele vai ter que ir embora mais cedo ou mais tarde." Ela chutou a canela dele por baixo da mesa. "De preferência mais cedo."
Sirius saiu realmente um minuto depois, não sem coxear exageradamente.
Serene apontou para o lado de fora da janela. "Quando você plantou todas essas rosas?"
"Quando você começou a se preocupar com o que cresce em meus jardins?" Claire perguntou séria. "Pare de enrolar e me conte qual foi a coisa horrível que você fez?" Ela levou a mão à boca, subitamente apavorada. "Oh não! Você não recusou o pedido de casamento dele novamente, recusou?"
A bruxa de cabelos vermelhos estremeceu. Quando ela virou, Claire de repente notou como a outra mulher parecia cansada, como se tivesse passado noites sem dormir.
"Eu bati nele. Ele voltou de Azkaban, todo desmantelado e exausto e eu bati nele."
"Você fez o quê?" Sirius perguntou da porta, sem acreditar. "Você bateu nele?"
Ela olhou para ele surpresa e chocada. "Black! Você não devia… eu não sei, estar escondido em algum lugar?"
Ele ignorou as perguntas dela, mas cruzou os braços sobre o peito e olhou para ela com uma mistura de desgosto e exasperação. "Quando Remus corre como um lobo, é incrivelmente difícil para ele se concentrar em… coisas humanas. Eu aposto que ele só conseguiu voltar para Hogwarts porque você estava lá. E você bateu nele? O que há de errado com você, mulher?"
"Sirius!" Claire se levantou e colocou a mão no braço dele. "Nós não sabemos o que aconteceu. Ainda." E apenas para ele ouvir. "E se você não sair dessa sala imediatamente, você nunca vai saber, porque vou matar você!"
Ele saiu, e Serene se sentou, cerrando os punhos. "Eu o acertei bem no rosto." A voz dela tremeu. "Você sabia que ele não me contou nada a respeito do plano e do perigo que correria?"
"Não." disse Claire devagar. "Eu não sabia disso."
"Quando finalmente descobri, pensei que ia ficar maluca. A espera! E todo mundo, dos elfos domésticos até os quadros, ficava me dizendo que Remus estaria bem. Então todos sabiam o que estava acontecendo e eu era a única a estar na completa ignorância…"
"Serene, eu não acho que ele…"
Ela levantou a mão. "Quando ele finalmente chegou em casa, eu me senti tão…" sua voz era um mero sussurro. "desesperada, que não pude pensar em outra coisa que não fosse bater nele."
Claire foi até ela e deu-lhe um abraço, que embora não tenha sido retribuído, pelo menos foi aceito. "Ele deve ter tido uma razão para não ter dito a você. E tenho certeza de que ele vai entender porque você agiu dessa maneira."
"Não. Ele não vai entender. Ele tem essa idéia idiota…"
"Essa idéia idiota de estar apaixonado por você?" Claire completou.
Serene concordou e fechou os olhos. "Ele pensa que é meu companheiro nessa vida. É uma coisa de lobisomem, aparentemente. Alguma coisa como ficarmos juntos para sempre."
"Mas o que isso tem de ruim?"
"Eu não sou o que ele pensa que eu sou!" Serene pulou da cadeira e começou a andar pelo salão como um tigre enjaulado.
"E o que ele pensa que você é?"
Serene franziu a testa. "Oh, que eu sou talentosa, gentil, que tenho um bom coração e, com certeza, que sou bonita!" ela contou nos dedos, zombando de si mesma, sem piedade.
Claire se sentou e mais uma vez admirou a beleza da amiga. Os cabelos vermelhos de Serene quase brilhavam de tanta energia e seus olhos verdes queimavam como fogo, o que deveria fazê-la parecer apavorante, mas que apenas fazia com que ela parecesse mais adorável do que nunca.
"Mas você é." Claire observou, tentando acalmá-la. "Apenas olhe para você! Remy não é o único que pensa que você é a bruxa mais bonita que já viu."
Ao ouvir isso Serene explodiu em lágrimas. Claire se levantou imediatamente e estava ao lado dela com poucos passos. Se fosse Laurel, simplesmente a abraçaria, mas com Serene ela ofereceu um lenço limpo que era o máximo que ela aceitaria. Mas ela não largou a mão da outra mulher e a levou até o sofá perto da janela.
"Agora, conte-me o que está havendo. E não venha me falar besteiras sobre não saber como você é adorável, Serene. Eu me orgulho de ter um bom olho para reconhecer o que é bonito." Ela sorriu. "Apenas olhe para meu marido."
"Obrigado, boneca. Eu sempre suspeitei de que você tinha se casado comigo por causa da minha aparência." Sirius riu da porta.
Serene olhou para ele surpresa e chocada. "Black! Você não devia… eu não sei, estar escondido em algum lugar?"
Enquanto ela assoava o nariz, Claire ficou de pé e pegou o marido pelo cotovelo e o levou para fora da sala com extrema determinação.
No hall ela o empurrou contra a parede e avisou: "Pare com isso agora mesmo, Sirius!"
Ele sorriu e se curvou para roubar um beijo, o que fez com que ela o cutucasse nas costelas. "Se você entrar naquela sala mais uma vez enquanto Serene estiver aqui, juro que eu…"
"Eu nunca soube que o Feitiço Fidelius era tão engraçado!" Sirius riu. "É incrível como todos esquecem da minha presença assim que eu saio da frente deles. Eu me pergunto se Jamie e Lily se divertiam com isso."
"Eu aposto que eles não o usavam para torturar visitantes inocentes." Claire balançou a cabeça. Ela também estava aliviada por constatar que o feitiço funcionava tão bem, mas não se esquecia de que eles o estavam usando para manter Sirius em segurança, não para diverti-lo.
"Eu vou voltar para Serene agora e só posso pedir que você nos dê um pouco de paz. Ela está desesperada."
"Ela é uma cadela sem coração e Moony é um pobre idiota se ainda acredita que ela vai retribuir o amor dele algum dia."
"Oh, Sirius!" Claire ficou na ponta dos pés e beijou o queixo dele. "Você é tão cego que me pergunto como você achou o caminho de casa até mim."
O rosto dele de repente se tornou muito sério e seus olhos azuis perderam o brilho maroto. "Eu acharia o caminho até você, mesmo cego, surdo e aleijado. Mas sempre saberia que você me daria as boas vindas. Serene estava lá quando Remus voltou para casa?"
"Estava."
"Apenas para dar um tapa na cara dele pelo que ouvi."
"Ela estava preocupada com ele."
"Ela tem uma maneira muito estranha de demonstrar isso, então." Sirius zombou. Mas pelo menos ele deixou sua esposa voltar ao salão e prometeu não voltar mais até a visitante ir embora.
Claire sorriu de leve quando se sentou perto de Serene novamente. "Agora, onde nós estávamos? Ah sim, você é feia e má e tudo o mais."
"Eu sei que não sou feia…"
"Não é feia?" Claire deu a ela um sorriso doce que tinha conquistado a amizade da outra mulher. "Você não tem idéia de quantas vezes eu invejei você pelos seus cabelos, sua pele, seu corpo, seus olhos!" Ela levantou ambas as mãos em adoração. "E sei que Laurel também, algumas vezes."
"Meu cabelo. Minha… aparência." Serene repetiu devagar. Ela se levantou novamente e foi até o espelho que ficava em cima da arca. Olhando para o vidro em sua moldura, ela pegou o cortador de papéis em cima da arca onde Claire o tinha deixado depois de abrir a correspondência da tarde. Antes que Claire pudesse entender o que estava para acontecer, Serene encheu a mão de cachos, os cortou e jogou na lareira com um dar de ombros.
"Você está maluca!" Claire correu e tirou o cortador de papéis da mão dela. "Seu cabelo tão bonito!"
"Você não acha que eu ficaria feliz em me livrar do meu maldito cabelo se conseguisse me livrar das minhas visões também?" exclamou Serene zangada. "Você não acha que eu gostaria de ter um rosto normal se pudesse levar uma vida normal também? Ao invés de todo mundo olhar para mim como se eu fosse um pássaro bonito em uma gaiola?" Ela acertou a arca com seu punho fechado e estremeceu de dor. "Esta" ela apontou a imagem no espelho. "não sou eu."
"Serene…" Claire não encontrava palavras para ajudar a amiga. "Por favor, sente-se. Você está me assustando."
Tremendo de tensão Serene deixou o cortador de papéis cair e fez o que lhe era mandado. Claire serviu chá fresco para as duas, se sentaram em silêncio e se acalmaram um pouco. Então Serene suspirou.
"Sinto muito. Não sei o que anda errado comigo ultimamente."
"Ouça, eu não vou mais falar de Remus se isso perturba tanto você. Mas…" Claire colocou sua xícara sobre a mesa e olhou preocupada para a amiga. "Você não deve se odiar tanto!"
Serene sorriu sem graça. "Ou eu vou ficar careca em breve, você quer dizer."
"Deixe-me contar uma história para você." Claire cortou uma generosa fatia de bolo e passou para sua convidada que ainda não tinha comido nenhum pedaço. "Enquanto você come isso. Tudinho." Ela suspirou. "Todos os meus pensamentos giram em torno de comida agora. A gravidez faz isso com a gente, ou pelo menos foi isso que me disseram. Coma!"
Obediente, Serene começou a comer o bolo.
Claire se recostou. "Você sabe que sou um aborto."
"Hmh."
"Meus pais me enviaram para Hogwarts, mesmo assim. Eles esperavam que eu fosse apenas um caso de despertar atrasado para a magia, mas eu não mostrava nenhum sinal de que iria despertar no meu segundo ano, então eles me tiraram da escola e me mandaram ficar em casa."
Serene concordou, ainda mastigando. O bolo estava delicioso, com gosto de maçãs e caramelo, e ela de repente notou que estava esfomeada.
"No dia em que eles me pegaram na escola, Dumbledore me pediu para ir ao escritório dele, onde me explicou algumas coisas. Eu tinha treze anos naquela época e pensei que minha vida tinha acabado. Eu nunca tinha encontrado um aborto, toda a minha família era de bruxos, eu não conhecia nenhum Trouxa. Então me senti totalmente perdida. Enquanto estava sentada ali, chorando, Dumbledore dava tapinhas na minha mão…"
"Ele faz isso o tempo todo." comentou Serene e olhou outro pedaço de bolo com vontade de comê-lo.
Claire sorriu e empurrou o prato através da mesa. "Ele realmente é o bruxo mais gentil que eu conheço."
"Ele pode ser assustador de vez em quando."
"Oh sim! De qualquer forma, ele batia na minha mão e então disse uma coisa que não entendi completamente naquela época. Ele disse: 'Você pode ser o que você escolher ser.' Eu pensei que ele estava zombando de mim, uma vez que eu não podia ser a única coisa que eu queria ser – mágica. Apenas agora comecei a entender o que ele quis dizer." Claire sorriu e colocou a mão sobre a barriga. "Hoje eu sei que não queria ser realmente mágica, eu queria estar com os outros, queria ser parte de algo maior, ser amada. Como uma adolescente eu apenas podia imaginar que só poderia ser amada se fosse uma pessoa diferente do que eu era. Eles me aceitariam e me amariam. Bem, eu estava errada. E nunca seria mais feliz do que agora, sendo eu mesma."
Serene olhou para ela com expressão triste. "Mas eu não tenho idéia do que realmente quero. Toda a mina vida eu só tive um objetivo, ser admitida em Hogwarts. Eu queria educação em magia e queria estar no meio das pessoas da minha espécie. Mas, agora? Vou fazer trinta anos nesse Natal e não sei o que fazer da minha vida." Ela sorriu. "Patético, não é?"
"Eu não acho. Mas Serene, você tem uma carreira."
"Olhe, Laurel e Remus nasceram para educadores. Eles amam ensinar. Não que eu odeie meu trabalho, mas não posso me imaginar ensinando Adivinhações para sempre."
"Você sabe o que eles dizem: 'Aqueles que podem, fazem. Aqueles que não podem, ensinam.'" riu Claire. "Eu sempre pensei que, no caso de Adivinhações, o ditado era especialmente verdadeiro."
Serene concordou plenamente. "Não é alguma coisa que você possa ensinar, realmente. Então não é uma opção. Sirius é um escritor. Eu não poderia escrever uma história se minha vida dependesse disso. Você é uma mulher de negócios. Eu mal consigo gerenciar meu salário. Severus é um cientista. Eu detesto o mero pensamento de pesquisar e fazer experimentos." Ela baixou o garfo. "Então o que me resta? Eu poderia me candidatar a servir mesas no "Três Vassouras" e Rosmerta me despediria no segundo dia, por quebrar muitos pratos."
"O que você está falando não é correto." interrompeu Claire devagar e Serene pôde ver como a mente da amiga trabalhava rápido. "Eu vejo você fazendo pesquisas e vi você fazer experiências também e você gostou."
"Gostei?" Serene franziu a testa.
"Você mantém um arquivo de esboços de cada veste que você fez. Você constantemente muda cores, tecidos, cortes das minhas roupas e das suas, até da Laurel quando ela permite. Isso é experiência e pesquisa."
"Não, é simplesmente uma questão de bom gosto e moda."
"Bem, desde quando a moda não é uma ocupação séria?" Claire se levantou para pegar um caderno e uma pena. "Deixe-me pensar a respeito disso…" ela murmurou para si mesma. "Quinze mil Galeões podem ser suficientes para os três primeiros anos. Até lá nós devemos ter o suficiente para comprar a Gladrags…"
"Claire!" Serene reclamou. "De que você está falando, afinal?"
Claire desviou os olhos dos seus cálculos e perguntou: "Você já pensou em abrir sua própria confecção?"
Remus Lupin estava sentado na mesa de exames no hospital, seu peito nu, coberto com algum tipo de ungüento que Poppy tinha insistido em aplicar. Sua fuga de Azkaban tinha dado algum trabalho para a enfermeira. Ela já tinha emendado algumas costelas que tinham sido quebradas quando ele tinha pulado das paredes da fortaleza para dentro do mar. Então ela havia curado as escoriações e arranhões e o músculo torcido no joelho dele. Ele se lembrava de ter chutado a porta da cela depois da transformação e imaginava que devia, de alguma forma, ter lutado no seu caminho para a parede de fora, de onde ele havia mergulhado na água gelada. Sua memória estava confusa, mas ele tinha quase certeza de que não tinha caçado nem matado no seu caminho de volta para Hogwarts.
Enquanto Poppy revirava um armário para encontrar alguma coisa ainda mais nojenta para untar o corpo dele, como ele suspeitava, ele teve tempo suficiente para pensar no que tinha acontecido nos dois últimos dias. O espelho que Snape tinha trazido para ele com certeza tinha salvado sua vida. Apenas um pedaço de vidro, tinha sido capaz de capturar um raio de luar através da pequena janela no alto da parede. Tinha sido necessária uma quantidade consideravelmente menor, uma vez que ele não tinha tomado a poção Wolfsbane, mas sem o espelho, nenhum raio de luar teria chegado até ele. Esta havia sido a primeira transformação em anos sem os efeitos da Poção e a dor o atingia como uma faca. Mas depois da dor, haviam se acentuado o seu olfato e sua audição, como se ele pudesse sentir os outros prisioneiros, os Dementadores, todos os malditos Aurors na fortaleza. E nenhum deles o deteria…
Remus riu melancolicamente quando se lembrou de como o bruxo que guardava a parede tinha gritado quando se viu face a face com um determinado lobisomem. Ele apenas podia desejar que não tivesse ferido o homem gravemente.
"Oh céus, você está horrível!"
Ele afastou as lembranças, apenas para encontrar Laurel de pé em frente a ele, o menininho segurando a saia dela, olhando para ele com uma expressão séria.
Remus relaxou devagar. "Laurel. Você me assustou."
Ela riu. "Sim, claro. Você não tem olhado para si mesmo, ultimamente, tem? Você está parecendo uma pessoa tirada de um manual de primeiros socorros."
Secretamente ela pensou que ele nunca parecia melhor do que agora, mesmo com aquela coisa fedorenta sobre ele. Poppy tinha amarrado a cabeleira marrom com uma faixa cinza, na nuca para não esbarrar no ungüento. Um arranhão meio cicatrizado aparecia no rosto dele. Os olhos marrons, manchados de âmbar estavam… mais alertas. Mais acordados. Ela não podia entender por quê. Mais uma vez ela disse para si mesma que ele e Serene fariam um belo casal.
"Você viu Poppy?" ela perguntou antes que o fato de ficar olhando para ele o deixasse desconfortável.
"Ela está procurando algumas ervas e poções que ela quer passar no meu ombro." ele deu de ombros e estremeceu quando o gesto lembrou a ele exatamente porque ele tinha concordado em permitir que a enfermeira passasse alguma coisa no corte profundo em sua espádua.
"Então vou esperar. Ela concordou em tomar conta de Jonah, enquanto eu dou aula nas últimas semanas e eu esperava…"
Remus sorriu para o menino. "Então ele tem um nome agora?"
Laurel concordou. "Os pais dele morreram." ela explicou em voz baixa, como se a criança pudesse entender cada palavra que ela dizia. "Nós decidimos ficar com ele como se fosse nosso."
"Meus parabéns." Remus apertou a mão dela com cuidado. Nos dias após a transformação ele costumava subestimar sua força. "Como você consegue lidar com tudo isso? Quero dizer, ensinar, cuidar da criança, e a tarefa mais difícil de todas – lidar com o Mestre de Poções?"
Ela sacudiu a cabeça rindo. "Eu tenho ajuda dos elfos domésticos e de Poppy com Jonah. E com Severus… bem, você sabe. O amor torna tudo mais fácil."
O rosto dele escureceu como se uma nuvem passasse por ele.
"Eu poderia tomar conta de Jonah enquanto você dá aula se Poppy não puder." ele se ofereceu rapidamente antes que ela pudesse falar alguma coisa. O que ela faria de qualquer forma, ele a conhecia muito bem. Laurel Hunter nunca havia conseguido deixar os outros sofrerem sem se sentir obrigada a interferir.
"Você quer dizer que quer tomar conta dele?" Laurel franziu a testa. "Remus, eu realmente não acho isso uma boa idéia."
Ele estacou e desviou os olhos. "Eu entendo."
"Por quê..." ela colocou a mão sobre a boca, subitamente compreendendo. "Não! Não é o que você está pensando." Laurel mordeu o lábio e não conseguia acreditar que tinha sido tão estúpida e insensível. "Não seja ridículo, Remus!"
"Eu sou um lobisomem." A mágoa fazia sua voz tremer, apesar de ele segurar a mesa tanta força que podia sentir a madeira ceder.
"E eu sei muito bem disso. Ainda assim tenho certeza de que Jonah estaria perfeitamente em segurança com você." Laurel levantou o menino e o colocou na mesa de exames ao lado de Remus. "Não toque no pobre homem." ela avisou a criança. "Ele está machucado e essa coisa fede para caramba."
Então ela mesma subiu na mesa e segurou a mão de Remus. "É só porque nós damos aulas nos mesmos horários, e eu não tenho certeza de como o Bicho Papão reagiria se Jonah tentasse subir no seu armário ou seja onde você o guarda."
Ele relaxou gradualmente e ela não largou a mão dele enquanto ela perguntava: "Agora, conte-me o que está havendo, Remus."
"Não está havendo nada."
"Conte-me, por favor!" ela perguntou sem se impressionar. "Eu tenho observado você e é difícil não perceber como está infeliz." Laurel fez cócegas em Jonah para distraí-lo do interessante curativo que o bruxo tinha no pulso. "Algumas vezes eu me culpo por encorajar você a insistir com Serene." ela admitiu suavemente. "Eu quero dizer, ela é minha amiga, mas talvez ela não seja a mulher certa para você."
Ele olhou para frente, encarando a parede. "O que você sabe a respeito de lobisomens?" ele perguntou depois de uma pausa.
Laurel inclinou a cabeça. "Bem, eu tive um grande professor de Defesa Contra as Artes das Trevas." Ela sorriu calorosamente para ele. "Eles se sentem atraídos pela lua e se transformam em lobos. Eles são alérgicos a prata. Aquela poção que Severus faz para você todos os meses, mantém você inconsciente enquanto está na forma de lobo, então você não é perigoso."
Ele concordou. "Certo. Dez pontos para a… Ah, eu lembro, você não tem casa."
Ela deixou Jonah cavalgar nos joelhos dela e riu. "Eu os aceito, de qualquer jeito."
"Ser um lobisomem não quer dizer apenas que eu me transformo uma vez por mês em um monstro. Isso quer dizer que uma parte de mim é um lobo." Ele olhou intensamente para ela. "Todo o tempo."
Laurel franziu a testa, mas continuou balançando o menino para cima e para baixo, uma brincadeira que o fazia rir alto. "E o que isso quer dizer?"
"Ser um lobo? Isso quer dizer que existe uma luta constante dentro de mim contra o desejo de agir como um lobo. Para exigir o que é meu."
Ela parou e Jonah olhou para ela com um olhar triste. "Serene?"
" Lobos escolhem uma parceira para toda a vida." Remus pulou da mesa e andou agitadamente pela sala. "Uma companheira para sempre. Serene é a minha."
"Mas…" Laurel retomou a brincadeira para manter Jonah contente. "Mas Serene não acredita nisso."
"Não." Sua voz não mostrava nenhuma esperança. "Ela não acredita. Mas para mim não é uma questão de acreditar. Está em meu sangue. Eu a amo e não posso mudar isso. Por mais que eu queira mudar nesse momento."
Ele parecia tão desesperado, tão alquebrado, que Laurel quase tinha vontade de abraçá-lo como fazia com Jonah quando ele acordava chorando de noite. Mas Remus era um bruxo adulto e apesar dela o considerar seu amigo, ela sabia que só podia recorrer a palavras gentis. "O que aconteceu?"
Ele balançou a cabeça.
"O que aconteceu?" ela insistiu.
"Eu a beijei."
Um grande sorriso iluminou o rosto de Laurel e Jonah, sem entender por que ela estava rindo de repente, riu junto com ela assim mesmo.
"Já era tempo, Professor Lupin!"
"Eu não queria que fosse desse jeito, Laurel." ele virou para ela e os olhos dele brilharam. "Eu queria que fosse… especial. Eu prometi a mim mesmo que só a beijaria se ela me amasse."
"Mas Remus, todos esses anos…"
"Todos esses anos eu fui forte e não deixei que isso acontecesse. Eu disse a mim mesmo para ser paciente. Mas até mesmo eu tenho limites." Ele balançou a cabeça. "Eu estava muito zangado, muito ferido. O lobo em mim ainda estava muito forte e queria…"
"Ah, Remus Lupin, eu não falei para você não se mover?" Poppy interrompeu da porta, cheia de potes e garrafas.
Laurel mordeu os lábios e saiu da mesa, não sem colocar Jonah no chão antes. O menino andou na direção de Poppy com os braços abertos. Laurel foi até Remus e colocou a mão no rosto dele. "O orgulho quase destruiu tudo o que Severus e eu tínhamos." ela disse muito suavemente.
"Não me sobrou muito orgulho."
"Eu sei. Mas, por favor, Remus, não desista agora."
Serene andava devagar através da Floresta Proibida, sua vassoura a seguia silenciosamente. O sol estava quase se pondo e as árvores lançavam grandes sombras sobre o caminho. Ela se sentia tonta com as imagens e conceitos que Claire tinha discutido com ela, mas de alguma maneira eles tinham feito surgir uma excitação que ela já havia esquecido há muito tempo. Talvez, apenas talvez, Claire estivesse certa e houvesse alguma coisa em que ela fosse boa, afinal.
Uma centelha de esperança fez com que sorrisse. Se ao menos ela pudesse acertar as coisas com Remus... se pudesse manter a amizade dele, sem levantar falsas esperanças…
Quando alguém de repente atravessou o caminho dela, ela estacou e por um momento pensou que fosse Remus. Então reconheceu um rosto que não via há alguns meses.
"Ben?"
Ele sorriu friamente para ela e seus pálidos olhos azuis se fixaram nela como se ela fosse um objeto de arte. "O que você fez com seu cabelo?" ele perguntou ao invés de cumprimentá-la.
Distraída, ela levantou a mão até o lugar onde havia cortado o cabelo há uma hora atrás.
"Nada." Ela franziu a testa. "O que você está fazendo aqui?"
Ele passou a andar ao lado dela. Serene deu uma olhada nele, enquanto cuidadosamente levantava suas barreiras mentais. Quando eles estudavam juntos ela e Ben tinham sido muito próximos, ambos com seus talentos estranhos. Laurel tinha se envolvido com Snape muito rápido para ser de interesse de Ben - se ele pudesse se interessar por alguém tão simples como Laurel. Ele havia dito a Serene muitas vezes quanto ela era bonita, como ela devia usar seu cabelo e coisas assim. Ela sempre havia aceitado as críticas dele a respeito de sua aparência como um sinal de atenção, mas ela não estava mais tão certa disso. Ele vestia uma roupa pomposa como se fosse um junior do ministério, o cabelo dele era mais curto do que o de qualquer bruxo que ela conhecesse e estava repartido no meio, como se ele tivesse usado uma régua para reparti-lo.
"Eu percorri um longo caminho para ver você, Serene." disse Ben com sua voz fria, porém agradável, secretamente irritado pela maneira como ela havia fechado a mente para as investidas dele. Ele devia tê-la forçado a vir com ele quando ele partiu, se repreendeu em silêncio. Claro que todos aqueles idiotas em Hogwarts tinham envenenado a mente dela com suas idéias patéticas a respeito da luz.
Ao invés de responder, Serene parou puxou a manga da roupa dele para ver o seu braço. "Então você deu o grande passo." A caveira negra sorria para ela na pele pálida e Ben deu um sorriso que lembrava o da Marca Negra.
"Eu era um dos homens de Voldemort mesmo antes de vir para Hogwarts." Ele rangeu os dentes e pensou a respeito do momento feliz em que ele tinha visto Snape cair do batente da janela com sua varinha meio enterrada no ombro. E a ira que ele tinha sentido ao descobrir que o odiado Mestre de Poções tinha sobrevivido. "Apesar de eu ter falhado com ele, ele me perdoou." E uma vez que tivessem cuidado do idiota do Malfoy e que Pettigrew se cortasse em pedacinhos, ele, Ben Olsen, seria o segundo no comando do Lord das Trevas. E quem sabe, um dia, se Voldemort continuasse tão fraco como estava agora…
Ele sorriu. "Eu realmente senti saudade de você, Serene."
"Você podia ter me mandado uma coruja." Ela ainda não sabia se devia ficar feliz ou irritada com a presença dele.
"Claro, e expor você aos seus… amigos." ele zombou. "Levou algum tempo para eu achar uma maneira de me corresponder com você. Eu imagino que um aborto que você gosta muito entregou uma carta para você?"
"A carta!" exclamou Serene e procurou pelo rolo de pergaminho em sua sacola. Ela tinha esquecido completamente da carta quando Claire tinha tido a idéia da confecção. "Então veio de você. "
"Certo." Ben estendeu a mão aberta. "Agora me devolva. É apenas um pergaminho em branco. Eu só queria saber se podíamos confiar no aborto."
"Por quê?" Serene franziu a testa novamente.
"Pare de franzir a testa." Bem chamou sua atenção. "Vai deixar linhas na sua testa."
Ela relaxou o rosto imediatamente e ao mesmo tempo não pôde acreditar que tinha obedecido. "Por quê?" ela repetiu, agora realmente chateada.
"Eu não conseguia esquecer você." ele disse suavemente. "Nós somos muito parecidos, fomos feitos um para o outro."
Serene olhou para o outro lado e seus olhos se encheram de lágrimas. Ela sabia que ele falava a verdade, mesmo se ela tentasse negar isso e tivesse machucado tantas pessoas ao longo do caminho.
"Venha comigo" ele pediu. "e você não vai mais precisar fingir."
"Eu não posso." ela disse por entre os dentes. "Estou lecionando. Eles suspeitariam…"
" E daí? Ouça, Serene!" Ele segurou os pulsos dela, impaciente. "Com nossos talentos combinados, não existe nada que não possamos alcançar no final."
"Eu não quero isso! Não tenho idéia de como você consegue viver lendo a mente dos outros, mas estou doente e cansada de ver o futuro das outras pessoas!" Ela afastou o cabelo do rosto e deu um passo para longe dele..
"Você não vê o que está acontecendo?" Ben relutante soltou os pulsos dela. "Eles se infiltraram na sua mente, eles tentam fazer de você uma das criaturas deles. Não me diga que você agora acredita naquele idiota do Dumbledore?"
"Ele é um bruxo bom." Serene manteve a calma. "Não importa quem eu seja, como eu gostaria de ser, ele sempre foi amável comigo."
"Enquanto você fizer o que ele diz. E adivinhe por que ele está tão interessado em você?" Ele pegou o queixo dela e fez ela olhar para cima. "Ele quer explorar seu talento."
"Não."
"Oh sim, acredite em mim. Ele não é um santo, o seu precioso Diretor, ele é apenas um jogador do jogo do poder. E - o que é ainda mais importante - ele vai perder esse jogo."
Serene sacudiu a cabeça violentamente. "Pare com isso, Ben!"
Ele deu de ombros e deu um outro sorriso frio. "Eu não quero coagir você." O que ele queria, claro, mas parecia impossível naquele momento. "Eu realmente senti saudade de você, Serene."
Ela olhou para os sapatos. "Eu senti saudade de você, também. Apenas…"
"Apenas?"
"Estou muito confusa. Preciso de um pouco de tempo."
Ele sorriu, mas manteve o sentimento de triunfo cuidadosamente escondido. "Apenas me permita entrar em contato com você. Claire vai entregar as cartas e, talvez, quando você tiver se decidido…"
Ela acenou com a cabeça, concordando em silêncio.
Olsen colocou o pergaminho dentro de sua manga e tirou sua varinha. "Vou consertar seu cabelo."
"Não!" Serene colocou a mão sobre a dele para impedi-lo. "Não."
Ele franziu a testa. "Mas está ridículo."
"Eu mesma faço isso."
"Como você quiser." Ele a beijou castamente na testa e desaparatou.
Remus Lupin estava escondido nas sombras e observou Serene no caminho de volta para Hogwarts, até as portas se fecharem atrás dela e ele saber que ela estava em relativa segurança. As três noites perigosas em volta da lua cheia já tinham passado, mas quando a pálida luz atingiu o rosto do bruxo, ele não lutou contra sua força que o atraía.
Um uivo solitário se elevou por trás das árvores e Serene virou sem descanso em seu sono.
Continua...
NA: Viva! Consegui terminar de traduzir outro capítulo... por isso estou presenteando todas com mais um capítulo. Muito obrigada aos maravilhosos reviews. Sem o incentivo de todas vocês, eu não sei se teria conseguido chegar tão longe nessa tradução.
Mil beijos para: Lilibeth (Remus também é meu predileto), Mary-Snape-Lupin (que bom que estará acompanhando a continuação!), MiLaChaN (não vou desistir da fic não!), Miri (é a melhor parte na minha opinião... e não é só porque sou fã do Remus), MarcelleBlackstar (atrasada... feliz por saber que você continua por aqui... amei seu review no último capítulo de WA-Sirius), Dan224 (tadinho mesmo... principalmente pelo o que ainda está por vir...), Tete Malfoy (Bom, postei até que bem rápido. E (in)felizmente, Remus é o que mais sofre), Den Chan (por falar na minha saúde, muito obrigada por todo o apoio e as preces... nunca, nos últimos dois anos, me senti melhor).
No próximo capítulo, a primeira cena NC-17 do Remus! Uma das mais lindas que eu já li...
