Uma Questão de Importância

Parte 2

Faltavam cinco minutos para as três da tarde e Hermione estava sozinha no quarto de Ginny, terminando de usar o feitiço alisante em seu cabelo. Por três vezes havia errado e começava a ficar brava consigo mesma. A bem da verdade, nunca fora boa com feitiços de beleza, mas hoje havia algo diferente. Era aquele nó em seu estômago, aquela sensação ruim...

Era inútil dizer que não havia motivo para se preocupar. Havia muito com o que se preocupar, e foi por isso que Hermione gastou todo seu tempo livre estudando sobre feitiços de cura, relendo seus livros antigos e praticando todos os feitiços de proteção que conseguiu encontrar. Foi por motivos de sobra para preocupação que Hermione empacotou tudo que pudesse ser necessário em sua bolsa de festa, e tentava mantê-la sempre em algum lugar de fácil acesso. Faltava apenas a sacola de Harry.

Mas agora precisava se concentrar em seu cabelo. É claro que isso não era nem um pouco importante em vista da situação geral, mas era um dia especial e por mais que Hermione odiasse admitir, ela gostaria muito que Ron não tivesse olhos para as primas veelas de Fleur que provavelmente estariam deslumbrantes.

Olhou-se no espelho uma última vez e concluiu que havia feito seu melhor. Ouviu passos do lado de fora do quarto, e logo a voz rouca do trouxa de Ottery St. Catchpole, seguida da voz que ela conhecia tão bem: Ron. Esperou até que os passos se afastassem, respirou fundo e saiu em direção ao quarto do Sr. e da Sra. Weasley, onde a Sra. Weasley e a Sra. Delacour ajudavam Fleur a terminar de se arrumar.

- Agora tenha muito cuidado com essa tiara, menina. Não a coloque de lado, vão ver só o seu cabelo desse jeito. Foi feita por duendes, sabe, é uma relíquia da família.

Hermione entrou em tempo de ouvir a bruxa com chapéu rosa instruindo Fleur sobre como usar a tiara. Seu olhar encontrou o de Ginny, e elas logo desviaram. Não havia dúvidas: aquela era a tia Muriel.

- Ah, Hermione querida! - a Sra. Weasley falou, percebendo que Hermione havia chegado – Essa é nossa tia Muriel. Tia Muriel, essa é Hermione Granger, amiga do Ron de Hogwarts.

- Oh céus, essa é a nascida trouxa? - Tia Muriel disse, analisando Hermione da cabeça aos pés. Hermione agradeceu mentalmente por estar bem arrumada. - Má postura e tornozelos finos. - desviando os olhos de Hermione sem a cumprimentar, tia Muriel encarou Fleur novamente, avisando mais uma vez que era melhor ela ter cuidado com a tiara, e saiu.

- Hermione querida, por que não aproveita e vai encontrar com Ron no jardim? - A Sra. Weasley falou - Ele deve precisar de alguém para reclamar por ter que conduzir os convidados a seus lugares. Nós já estamos quase terminando aqui.

Hermione sorriu e acenando para Ginny, saiu. Mas aos invés do jardim d'A Toca, foi para o quarto de Ron, aquela sensação estranha em seu estômago novamente. Não precisou procurar por muito tempo até encontrar a sacola de Harry. Certificou-se de que a Capa da Invisibilidade estava ali, e olhou rapidamente ao redor do quarto, em busca de roupas que poderiam estar jogadas. Juntou tudo e colocou dentro de sua bolsa de festa, saindo em direção ao jardim e a Ron.

Não precisou procurar muito até encontrá-lo conversando com Harry. Apressou os passos e antes mesmo de alcançá-los, percebeu que Ron olhava diretamente para ela.

- Uau... - Ron disse, e Hermione não pôde impedir que seu coração desse uma pirueta. - Você está maravilhosa!

- Sempre o tom de surpresa. - ela respondeu sorrindo. - Sua Tia Muriel não pensa assim, acabei de encontrá-la lá em cima, ela estava dando a tiara a Fleur e disse: "Oh, essa é a nascida trouxa?" e então "Má postura e tornozelos finos.

- Não leve pro lado pessoal, ela é rude com todo mundo.

Hermione sorriu, pensando no quanto ela gostava quando ele tentava fazê-la se sentir melhor. Se ouvir insultos da Tia Muriel fizesse com que Ron a olhasse dessa maneira toda vez, ela gostaria de poder encontrar com Tia Muriel pelo menos três vezes por dia. Logo Fred e George juntaram-se a eles e começaram a falar bobagens como sempre. Até que Hermione ouviu aquela voz...

- Focê está maravilhosa!

- Viktor! - ela sentiu suas bochechas corarem – eu não sabia que você... - ela não sabia o que falar na verdade – céus... que bom te... como você está? - disse, finalmente articulando uma frase com sentido, embora sua voz tenha saído mais alta do que o esperado. Mas Ron não deixou Viktor responder.

- Por que você tá aqui?

- Fleur me convidou.

Hermione ousou olhar para Ron, que ainda encarava Viktor, suas orelhas extremamente vermelhas. Quando Harry se ofereceu para mostrar a Viktor seu lugar, Hermione resolveu que seus sapatos eram demasiadamente interessantes para que ela não desse a eles a devida atenção, e só olhou para cima novamente quando George os chamou para sentar.

Suspirou. Esperava que Ron não causasse nenhuma cena, ela não queria brigar. Não hoje. Certamente eles teriam muito tempo para isso quando saíssem à procura das horcruxes. Não queria também que Ron pensasse que ela estava feliz em ver Viktor. Não que ela estivesse triste; Viktor era importante na vida dela de certa maneira, mas Ron era muito mais. Viktor nunca a havia defendido do Malfoy ou das injustiças de Snape, nem tinha estado a seu lado quando se transformara em um gato ou quando fora petrificada por um basilisco. Ron sempre estivera lá, à sua maneira, e Hermione precisava fazê-lo entender que ela não precisava de mais nada ou mais ninguém; precisava fazê-lo entender que apesar dele mal conseguir aparatar, era ao lado dele que ela se sentia segura e era isso que realmente importava para ela, e não a habilidade para capturar pomos de ouro ou defender gols.

Pensando nisso e olhando para Fleur e Bill no pequeno altar, Hermione não conseguiu impedir sua mente de visualizar a si mesma e Ron, naquele mesmo lugar, trocando juras em frente a todos seus amigos, e seus pais de volta da Austrália... e novamente aquele sentimento estranho, aquela sensação ruim tomou conta de seu interior, e quando percebeu já não podia segurar as lágrimas. Seria tão bom se as coisas fossem diferentes...


Hermione mantinha os olhos fechados e um sorriso no rosto. Uma das mãos de Ron deslizava suavemente por suas costas enquanto ele tentava – sem muito sucesso – conduzir a dança. Sentindo o seu perfume, o mesmo perfume que sentira emanar de um dos caldeirões na primeira aula que tiveram com Slughorn, Hermione deixou sua mente e seu corpo serem levados pelo momento. Não sentia mais nada, não via ou ouvia mais nada. Naquele instante eram só ela e Ron e nada mais existia ao redor deles.

Ouviu a voz distante de Ron, como se pertencesse a um outro universo. Por que ele queria conversar?

- Hmm?

- Krum. Está feliz?

Hermione olhou para ele e viu que ele não sorria. Ele precisava entender, mas ela não estava disposta a facilitar seu aprendizado.

- O que você quer dizer?

- Vocês são... são... você se correspondia com ele, não era?

- Se o que você quer saber é se eu preferia estar dançando com ele do que com você... - deixou a frase no ar.

- Preferia? - Ron perguntou numa voz aparentemente calma.

- Não. - ela respondeu sorrindo, encostando a cabeça em seu peito e apesar de não conseguir ver, podia sentir os lábios de Ron se abrindo num sorriso.

A tarde cedeu lugar à noite e entre músicas agitadas, músicas calmas e risos nervosos, Hermione não se lembrava de ter se divertido tanto em sua vida, o que era uma grande ironia, dadas as circunstâncias. A sensação ruim que sentia desde que acordara ainda estava em seu estômago, mas desde que Ron sugerira que eles se sentassem longe de todo mundo, as borboletas juntaram-se a ela.

Saiu na direção oposta a Ron e viu Viktor saindo de perto do pai de Luna. Avistou Harry sentado junto a um membro da Ordem da Fênix e Tia Muriel. Puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dele.

- Não consigo mais dançar! - ela tirou um de seus sapatos e alisou seu pé. Precisava parecer normal. - Ron foi buscar mais cerveja amanteigada. Que estranho, eu acabei de ver o Viktor saindo de perto do pai da Luna, parecia que eles estavam discutindo... - Hermione olhou para Harry e percebeu que havia algo estranho com ele. Abaixando sua voz, perguntou se estava tudo bem.

Mas antes que Harry pudesse responder, Hermione entendeu o motivo do nó que estivera em seu estômago, aquela sensação ruim que a acompanhara durante todo o dia...

O lince parou em meio a multidão e a voz de Kingsley Shacklebolt anunciou:

O Ministério caiu. Scrimgeour está morto. Eles estão chegando.

Ela e Harry levantaram-se num pulo, varinhas em punho. Os convidados estavam em pânico, e ela começava a se sentir assim também. Figuras mascaradas aparatavam em todo lugar e ela não sabia onde Ron estava...

- Ron! - gritou – Ron, cadê você?

Ela olhava para todos os lados, mas não havia sinal dele. Por que eles haviam se separado? Ela sabia que alguma coisa ia acontecer e mesmo assim deixara ele sair de perto dela, e se alguma coisa acontecesse com ele...

- Ron! Ron! - ela sentiu seus olhos se enchendo de lágrimas e sua voz embargada, ao mesmo tempo em que Harry segurou uma de suas mãos.

E ele apareceu, lívido. Sem uma palavra, segurou em sua outra mão e sem parar para pensar no quanto sentira seu coração mais leve por tê-lo a seu lado, Hermione visualizou Totteham Court Road e aparatou.


N/A: Fanfic dedicada exclusivamente à Val Weasley, por todo o apoio e incentivo.