Foi uma reação instantânea. A porta se abriu revelando Finn novamente adentrando, dessa vez a sua expressão estava distante, os caminhos das lágrimas ainda estavam lá e ele não fez questão de limpá-las, e todos calaram a boca. Parou com as mãos nos bolsos, olhar fixo em um ponto qualquer ponto da sala, ainda digeria toda a cena anterior, a visão dela devastada no corredor, as palavras. Sentiu um par de mãos envolve-lo, reconheceu que era Mr. Schue, de alguma forma ele tentava confortá-lo. A voz dele estava bem longe, parecia perguntar sobre Rachel, e Finn não esboçou nenhuma reação para respondê-lo. O professor saiu atrás dela e ele resolveu fitar seus companheiros, boa parte deles demonstrava pena, compaixão, exceto por Quinn que de alguma forma estava com raiva, Sam ao seu lado estava claramente enciumado, Brittany parecia confusa – como de costume – Puck encarava os próprios pés e Santana evidenciava satisfação com o seu sorriso montado.

- Aconteceu alguma coisa? – Tina perguntou adentrando na sala do coral acompanhada de Mike, seu namorado. – Pessoal...?

- O que foi? – o asiático indagou percebendo a tensão quase sólida no local.

- Chun-Li, chame o Mr. Schue, vamos aproveitar que a Berry foi embora e ensaiar na santa paz! – Santana soltou antes de recolocar os seus fones se referindo para Tina.

- Chega, San! – Puck interveio surpreendendo a todos. – A garota já está lá no fundo do poço, não pise ainda mais! – completou saindo do lado dela em sinal de protesto. Isso pareceu tirar Finn do seu transe emocional, pois este lançou um olhar para os dois.

- O que diabos há com você? Está caindo de amores por aquela lá também? – a cheerio protestou indignada. – Faça-me o favor, Puckerman!

Enquanto os dois discutiam e prendiam a atenção de todos na sala, ninguém pareceu perceber a aproximação perigosa de Finn para cima de Puck, sendo a última frase proferida pelo judeu antes de levar um soco no nariz fora "Cala essa boca, Santana!", e no segundo seguinte ele caiu para trás com cadeira e tudo com uma das mãos segurando o nariz que sangrava. Finn não desistiu e o puxou pelo colarinho da camisa e o jogou contra as cadeiras, fazendo Puck rolar degraus abaixo. Gritos ecoaram, os rapazes se colocaram no meio e o que fez o atleta mais alto parar foi a intervenção de Artie entre os dois.

- EU ODEIO VOCÊ! TRAIDOR! SEU MERDA! ODEIO! ODEIO! – Finn gritava distribuindo chutes pelas cadeiras e frustrado por nãos acertá-los na cara do seu oponente. – QUE PORRA DE OBSSESSÃO É ESSA DE TRAÇAR AS MINHAS NAMORADAS, PUCKERMAN? SEU DESGRAÇADO! – urrou fazendo menção de avançar de novo, mas parou quando Artie deu a ré na cadeira bloqueando o seu caminho.

- O que está acontecendo aqui? – Will entrou na sala assustado com todo o caos. – Parem já os dois! – tentou se impor e fazendo companhia ao demais interventores, mas nenhum dos dois envolvidos deram atenção.

- Eu errei, tirei vantagem dela! Berry estava deprimida e tinha razão de estar! Ela viu você e Santana nos corredores trocando flertes! Eu não entendo muito bem esse lado sentimental das meninas, mas ela estava se sentindo uma merda! Você é um otário! Um babaca! Posso não ser o melhor exemplo de como tratar bem uma mina quando ela merece, mas sei perfeitamente reconhecer quando um cara não dá a ela o valor merecido. – Puck retrucou sentado numa das cadeiras tendo Quinn como uma de suas "enfermeiras". A loira tentava estancar o sangue do seu ferimento com uma toalhinha.

- Sério mesmo que vale a pena tudo isso por conta dela? Rachel é uma fracassada, egocêntrica, egoísta e metida. – Santana jorrou o veneno novo num tom de desdém e ganhou um olhar de reprovação geral.

- BASTA! TODOS VOCÊS! – Schuester gritou impaciente. – Quinn leve Puck para a enfermaria, Finn não volte aqui enquanto não esfriar a cabeça, e cale a boca, Santana! Aos demais, nenhum comentário sobre isso durante o ensaio. VÃO! – ordenou irritado.

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Ela adorava ser o centro das atenções, mas isso era quando ela brilhava, quando era a estrela principal do show, como nas seletivas do ano passado, nas Regionais quando dividiu um dueto com aquele que antes de começar a apresentação confessou que a amava e juntos levaram ao público à loucura com "Faithfully", que mais tarde viera a se transformar na música deles. Mas agora ela estava chamando atenção de novo e não estava brilhando, não era um show seu, não era a sua voz, sua vocação para o palco que atraía todos aqueles pares de olhos para ela. Eram as fungadas incontroláveis, eram os olhos inchados, era a sua fisionomia miserável que faziam dela um objeto de observação dentro do Breadsticks. Olhou o relógio novamente se perguntando se ele demoraria em chegar, tinha ligado há mais de vinte minutos e este lhe respondeu sem hesitação que estaria lá o mais rápido possível.

Notou uma das garçonetes parada há um cinco passos dela, a jovem menina tinha certo receio para se aproximar dela e Rachel agradeceu por não ter sido incomodada. Não sentia fome e nem sede, somente ansiedade e mágoa. Reconheceu a caminhonete que estava estacionando, sentiu um pingo de alívio e o viu descer, mas não veio sozinho.

Blaine o acompanhava.

Kurt passou pela porta como um foguete e não tardou em achá-la. Blaine veio em seu encalço, mas manteve distância quando seu amigo correu de braços abertos para a menina – a mesma garota para quem foi apresentado nas Seletivas, lembrava-se dela. Rachel nunca precisou de abraço sincero como naquele momento, e o simples ato de Kurt fez com que ela se afundasse em seu ombro liberando um pouco mais de choro. O ex-estudante do McKinley fazia o que estava no seu alcance para consolá-la e somente alguns minutos depois ela o largou sentindo-se um pouco envergonhada por ter manchado o uniforme impecável do garoto:

- Rachel, vamos conversar na sua casa. Seus pais estão lá? – ele perguntou sereno secando as lágrimas dela com os polegares enquanto a própria negava em silêncio. – Ótimo, levanta Broadway Princess. – brincou pegando na sua mão antes de passar o braço por ela e saírem. Blaine os acompanhou sem interferir.

Rachel se pegou ainda mais envergonhada dentro da caminhonete por dois motivos: sua situação era um das piores diante de Blaine, além de achar que estava interrompendo alguma coisa entre eles, uma vez que ficou evidente uma pequena tensão ali. Mas Kurt, de alguma forma, ganhou o dom de confortá-la e puxou assuntos que a deixava relaxada, como a lista de indicados ao Tony Awards daquele ano. Isso serviu para que o seu choro desse uma trégua e ela se envolveu na conversa dando suas apostas para cada categoria. Após instruir o companheiro de colégio até a residência dela, Blaine os deixou e arranjou a desculpa de abastecer a caminhonete, dando assim espaço e tempo para os dois conversarem.

- Perdão por ele estar aqui, foi preciso, pois não teria conseguido sair de lá no meio da tarde sem ele. – o gay explicou sentando-se ao lado dela no sofá.

- Você está matando aula? – ela questionou sentindo um tsunami de culpa invadi-la pelo ato dele. – Só peça desculpas a ele por ter me visto desse jeito e que prometo recompensá-lo futuramente. – finalizou.

- Não se preocupe comigo, eu é que estou preocupado com você. O que aconteceu? O que o meu irmão andou fazendo com você? – perguntou notando que os lábios dela estavam ficando trêmulos de novo.

- Eu não agüento mais. Estou esgotada, Kurt. – respondeu de maneira vaga e num sopro de voz. – Porque todos os dedos se viram para mim quando cometo um erro? Não tenho o direito de errar? Porque eu continuo perdoando aqueles que me decepcionam? Porque quando eu peço perdão, Deus e o mundo me viram as costas? Porque me julgam com tanta severidade? Porque continuo saindo em defesa daqueles que "fingem gostar de mim"? Porque eu me permito me enganar dizendo que tenho amigos no New Directions, quando na verdade eles não passam de interesseiros e falsos? – ela desabafou com os olhos cerrados sentindo as lágrimas caírem, trançando o já tão famoso caminho pelo seu rosto.

- Rachel... – ele murmurou com um nó na garganta lembrando que costumava ser um deles nesses aspectos. Mas ela prosseguiu.

- Eu tenho os meus defeitos, sei que sou uma pessoa difícil de lidar e que tenho a tendência de me colocar em primeiro em quaisquer situações, mas isso é motivo para eu ser tratada desse jeito? Mereço ser tratada desse jeito, Kurt? Mereço ter o meu coração pisoteado mais uma vez por conta da hipocrisia e ingratidão do Finn? – Rachel parou procurando o olhar dele e esperando respostas.

- Eu não sei se posso falar alguma coisa, pois costumava me comportar como eles ao seu redor. – ele foi sincero e ficou surpreso ao receber um pequeno sorriso dela. Tomou isso como incentivo e continuou. – Fui obrigado a passar por uma situação extrema para reconhecer essa pessoa maravilhosa que vive aí dentro, eu sinto muito. – o pequeno sorriso da menina se ampliou e ela se inclinou para abraçá-lo.

- Eu não julgo você, Kurt. Até porque você tem que levar em consideração que somos muito parecidos. – ele concordou animado com ela. – E não sinta, talvez tudo isso foi preciso para que essa amizade nascesse. – Rachel falou enxugando as lágrimas tentando se manter sob controle.

- Acho que tem razão. Agora fale de você e Finn. Sei por alto o que aconteceu, o lance da virgindade envolvendo Santana, você e Puck, o fiasco do Natal, mas conte o que realmente houve hoje, Rachel. – ele pediu parando a enrolação e seguindo para a parte delicada da conversa.

Rachel se encolheu no sofá agarrando a primeira almofada que estava na sua vista, toda a sua fragilidade retornou e ela parecia uma menina assustada. Nesses momentos ela se perguntava aquela garota determinada que julgava que os seus sonhos eram maiores do que ele. Rachel queria trazê-la de volta, queria recuperar toda aquela força, aquela capacidade de auto-proteção. Contudo, ao engrenar um relacionamento com Finn, ela se entregou de corpo e alma, confiando cegamente nele e na incapacidade dele de machucá-la de novo. Doce engano. Encontrou o olhar de Kurt e tomou um longo suspiro antes de respondê-lo:

- Quanto tempo você tem? – ela perguntou com o objetivo de contar tudo desde o início, desde o momento em que se apaixonou por ele.

- O tempo que você quiser, Rach. – Kurt respondeu entrelaçando sua mão na dela num sinal de conforto. Isso deu a ela coragem.

Ela começou, puxando as memórias desde o dueto de Grease, no primeiro ensaio deles e da certeza de que ele era o único garoto capaz de acompanhá-la cantando. Passaram para as lembranças do ousado número Push It – o que renderam gargalhadas de ambas as partes – e assim por diante.

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Mr. Schuester foi bem claro no seu pedido, "volte quando esfriar a cabeça". O problema era que ele simplesmente não conseguia. Poucos estudantes vagavam pelos corredores no período da tarde, boa parte estava presa em alguma atividade extra-classe. Ele deveria ser um deles, mas ao invés de virar para a esquerda e entrar na sala do Coral, Finn prosseguiu evitando olhar para seus companheiros. Parou no seu armário, pensou em ir para o treino mais cedo, daria algumas voltas no campo. Correr sempre foi agradável, ele gostava, pois era uma atividade que ele exigia pura força de vontade e ele não era um fraco. Não, Finn Hudson não desistia tão facilmente.

Pegou sua roupa, seu tênis e seguiu em direção ao vestiário. Deu somente alguns passos quando se viu travado no meio do corredor pela enésima vez naquele dia. Encarava fixamente o "VADIA!" e a caricatura no armário dela. Por mais que a imagem fosse chocante para os olhos dele, um pequeno brilho que emanava do chão desviou a sua atenção, se abaixou e notou que o colar que ela costumava usar, o colar com o nome dele. Por impulso, Finn o guardou num dos bolsos e seguiu adiante.

No final das contas, ele estava certo, ou parcialmente certo. Treinar aliviada a tensão, contudo treinar com Noah Puckerman e ainda ganhar punição por conta da agressão tornou todo o treino tenso. Nenhum dos rapazes trocava olhares, sinais, palavras, nada. Absolutamente nada. Bestie já estava aos berros no megafone e gastando todo o seu fôlego no apito irritada com o fato dos dois não compartilharem uma jogada. Finn era o quarterback, sua função era lançar a bola de acordo com a jogada combinada, embora ele preferisse jogar para qualquer outro jogador marcado, ignorando Puck que estava livre para marcar o touchdown. Isso rendeu a ele a perda do posto, passando momentaneamente para Sam, que aceitou de bom grado e deu ritmo ao treino.

Como lição de moral para os dois, Bestie os obrigou a correr num ritmo intenso ao redor do campo por duas horas após o término do treino – lado a lado. O fato de ser uma lição rigorosa não modificou as coisas entre Finn e Puck, cumpriram estritamente as ordens dela, embora continuassem a ignorar um e outro durante todo o tempo. A escola já estava deserta, era final de tarde, quase sete horas da noite quando eles entraram no vestiário e nada além do som dos chuveiros era ouvido lá dentro. O capitão do time foi o primeiro a deixar o local, seguindo em direção ao estacionamento. Puck saiu logo em seguida ainda a tempo de ver a caminhonete azul dele virar a esquina.

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A conversa tinha sido longa e bem detalhada, Rachel desabafou cada sentimento de seu peito para Kurt, e este escutava com atenção, ora fazia algum comentário, ora apenas acenava para que ela continuasse. Perdeu as contas de quantas vezes teve que parar e se permitir chorar ao trazer de volta as lembranças, e ele era paciente e atencioso, sempre oferecia o seu abraço quando se pegava extremamente fragilizada.

O mais estranho era que Kurt não se impôs, não demonstrou nenhuma opinião, não tomou partido de nenhuma as partes – pelo menos na frente dela, sabe-se lá do que se passa na cabeça dele? -, contudo, ele parecia exatamente dizer a ela o que ela realmente queria ouvir naquele momento: frases de efeito, palavras de incentivo, elogios, e Rachel já mostrava sinais – mínimos, mas já era alguma coisa - de recuperação. Seria um processo lento, uma vez que não é da noite para o dia que você resolve enterrar as mágoas do passado, mas ela já estava em processo de cura. E isso era bom.

Blaine retornou pouco antes das seis horas da tarde e Rachel fez questão de preparar um lanche para todos. Sentindo-se mais segura e confiante, os três lancharam aos risos e cantarolando Mamma Mia!. Engrenaram uma conversa sobre as futuras competições e ela se mostrou bastante curiosa como funcionava todo o sistema da Dalton, assunto este que Blaine fez questão de explicar detalhadamente. Os dois rapazes foram embora às sete em ponto, quando um dos pais da menina chegou em casa. Leroy insistiu para que ficassem para o jantar, mas o pedido foi declinado educadamente por ambos e eles seguiram cada um para a sua casa, respectivamente.

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Por uma diferença mínima de minutos, Kurt e Finn não chegaram ao mesmo tempo em casa. Porém havia certa tensão na casa dos Hummel/Hudson, Burt notou assim que o filho cruzou a porta perguntando sobre o irmão – que até então não tinha chegado. E antes que o pai ou a madrasta pudesse perguntar o que estava acontecendo, ele subiu as escadas gritando que tomaria um banho. Cerca de cinco minutos depois Finn chegou com o cabelo ainda pingando do banho no vestiário, cumprimentou os adultos e seguiu em direção à geladeira. Estava faminto. Carole também percebeu que alguma coisa estava errada com o próprio filho, e não era a depressão contínua que ele estava enfiado desde o seu rompimento com Rachel, o garoto estava... Distante. Culpado.

Finn voltou a sala enquanto devorava uma maçã, prestava a atenção no noticiário de esportes que Burt estava vendo. O adulto tentou puxar assunto, mas só recebeu respostas monossílabas, indicando que alguém ali não estava a fim de falar. Kurt surgiu no alto das escadas e ao notar o irmão as desceu numa velocidade incrível deixando-se levar pela raiva contida desde o momento em que deixou a casa de Rachel. Num ato impensável, o garoto empurrou Finn com extrema força bruta – até então desconhecida até por ele próprio - , fazendo-o colidir contra a parede e a mação explodir em mil pedaços no chão:

- O que diabos...? Você ficou maluco? – Finn perguntou em protesto e devolvendo o empurrão no irmão.

- Você não vale nada! Você não mudou absolutamente nada, Finn! Continua sendo o mesmo garoto mesquinho e preocupado com a sua tão preciosa reputação! – o ex-estudante do McKinley falou em resposta. Burt se ergueu abrindo espaço entre eles e lançava olhares indignados para os dois e Carole, que estava parada na porta da cozinha assustada com a situação.

- Do que você está falando, cara? Eu acabei de chegar em casa depois de ter um dia de cão naquela porcaria de colégio! – o atleta se manifestou em sua defesa se desvencilhando de Burt procurando tomar o caminho das escadas, em direção ao seu quarto.

- Quando o New Directions precisava de um líder, você não estava lá! Quando eu precisava de um irmão, você me virou as costas! Quando Rachel precisava de um namorado que se impusesse por ela, você se comportou como um covarde! É isso o que você é, Finn... Um COVARDE! – Kurt gritou e isto fez com que o outro jovem se virasse no meio das escadas descrente com a acusação.

- Não meta o seu nariz intrometido onde não foi chamado, Kurt! Você não sabe nada de nós dois! Fique fora da minha vida! – Finn o respondeu lhe apontado o dedo e irritado.

- Sei o suficiente para jogar na sua cara que você não a merece, Finn! Rachel me contou tudo! Rachel precisava de um amigo, de alguém com que ela pudesse desabafar, porque você sabe muito bem que todos naquele grupo FINGEM GOSTAR DELA, não é mesmo? – o jovem gay se mostrou sarcástico e soltou uma risada irônica antes de continuar. – Quer que eu comece a enumerar tudo o que você fez para ela no passado? – perguntou desafiando-o.

O quarterback se pegou em choque com a virada de jogo e com rumo que a discussão estava tomando. A expressão de raiva se dissolveu dando lugar à confusão e ele buscou os olhos do irmão tentando compreender o que estava acontecendo.

- Rachel foi sim cruel, má com você quando resolveu se aventurar pelos braços de Puck, mas antes de julgá-la não se esqueça do seu passado, Finn! Você manipulou, enganou, se aproveitou dela, partiu o coração dela infinitas vezes! Ela tem todas as razões possíveis e impossíveis para odiá-lo, mas ainda assim ela o ama! E você, além de covarde, é um ingrato e hipócrita! – ele parou verificando que tremia dos pés à cabeça diante da raiva que o consumia.

Kurt sabia que não deveria tomar partido dela, que deveria ser imparcial, uma vez que os dois erraram, mas a idéia de ninguém sair em sua defesa dentro do grupo que até meses atrás considerava com uma família lhe dava nos nervos. Onde estavam todos quando ela mais precisou deles? Apontar para Rachel era fácil demais, sempre seria o bode expiatório.

- Ela... Ela ligou para você no corredor... – Finn falou mais para si do que para ele. Sua cabeça estava abarrotada, quanto mais Kurt falava, mais as memórias se tornavam vivas e um peso dentro dele foi ganhando proporções a cada segundo.

- E ela o perdoou por cada erro, e estava disposta a perdoá-lo com todo esse negócio envolvendo a Santana, e quando Rachel comete um você o resto do mundo resolvem virar as costas para ela! – Kurt ousou se aproximar dando um passo para frente. Burt o acompanhou a fim de evitar alguma violência futura entre eles.

- Ela, ela me traiu! Acha que é fácil engolir essa história toda, ainda mais com a pessoa que ela escolheu! Puck! Noah Puckerman, o mesmo infeliz que traçou a Quinn, caso você não esteja lembrado! – Finn explodiu jogando os braços para ar. Queria chutar alguma coisa, estava com raiva.

- Traiu porque você deu motivos para que isso acontecesse, Finn! Quando é que você vai parar e tomar consciência que toda essa situação é ainda maior do que você pensa? Passou pela sua cabeça que ela sofre bullying desde o dia que aquele Glee Club começou? Aliás, antes mesmo de nos conhecermos! Quinn, Puck, Merecedes, Brittany, Santana, EU! Eu costumava fazer a mesma coisa e só Dior sabe do quanto me arrependo! – ele devolveu respirando fundo, tinha que se acalmar. Resolver tudo na base dos gritos não levaria a nada. – Some o fato dela ter dois pais gays, mais a rejeição da mãe, mais a perseguição infernal e diária de Santana, mais a conivência do New Directions com este tipo de ato, mais a pressão das Seletivas, mais a descoberta da sua mentira pela boca da PRÓPRIA SANTANA, mais o fato do namorado dela assumir de bom grado que a Cheerio é "gostosa" na frente dela e ainda ter que lidar com isso tudo sozinha porque você é incapaz de fazer alguma coisa por ela! NÃO HÁ SER HUMANO QUE AGUENTE! – gritou desabando na poltrona buscando ar. Nota mental: Lembrar de respirar da próxima vez em que se arriscar a fazer um discurso desse.

Dessa vez Finn recebeu cada palavra como um tapa em sua face, juntando-se com aquele que recebera no início da tarde pela mão dela. Sentia-se atordoado e o peso dentro dele estava se tornando cada vez mais insuportável de agüentar.

- Eu ainda não acabei. – Kurt prosseguiu, dessa vez com uma voz menos agressiva. – Mesmo estando perdidamente apaixonada por você, ela conseguiu lhe conseguiu um emprego quando ainda estava com Quinn, quando nenhum de nós teve a coragem de contar a verdade sobre Beth/Quinn/Puck, ela foi lá e lhe contou. Quando Santana tirou sarro de você no seu papel de Brad, Rachel te defendeu. – pausou buscando o olhar do irmão. – Ela já fez tanta coisa para você e tudo o que ela queria em retorno era um namorado que a desejasse que a compreendesse que a defendesse de Santana e de qualquer outro ataque. Namorado este que você falhou em ser. – parou de novo tomando um longo suspiro e continuou no mesmo tom de voz. – Sei que a ama, sei o que sente é sincero e sei também que está machucado tanto quanto ela, e eu só quero que pense um pouquinho em tudo o que eu disse antes de tomar qualquer atitude. – completou já se erguendo da poltrona e tomando o rumo das escadas.

- Eu falhei. – Finn repetiu preso numa espécie de transe. – Falhei. Falhei... – o peso agora vinha tomando forma e ele finalmente conseguiu distinguir a sua forma e o seu lugar de origem. Era a sua consciência, era a culpa tomando conta dele. Desamparado, ele buscou algum conforto nos olhos de Carole e caminhou até ela tristonho. – Eu falhei, mãe.

Foi a última coisa que falou antes de desabafar no ombro dela.