Nota da autora: Este capítulo se passa ao mesmo tempo do capítulo 1.

In a different light

Capítulo 2: O coração de uma mulher.

By: TheMaven

Translated by: Shampoo-chan

Rin estava cansada.

Enquanto andava pelo caminho iluminado pela lua na floresta para chegar ao acampamento onde estavam os três companheiros de viagem dela, um único pensamento pesava-lhe na mente mais que a sacola nas costas. Seria ele capaz de sentir o cheiro dele nela? Ele sendo o Lorde Sesshoumaru e dele sendo Taro, o jovem que ela encontrara na vila.

Realmente não queria que nada sério acontecesse, tudo começou tão inocentemente. Estava cantando para algumas crianças da vila, e depois os pais as chamaram para irem para casa, e ela estava para ir embora também quando ele aproximou-se. Ele se apresentou como Taro, e ela foi educada e disse que o nome dela era Rin. Ele então começou a falar sobre o tempo, da colheita e de como era importante catar os grãos antes da chegada da estação fria, além de outras coisas pelas quais ela tinha pouquíssimo interesse.

Então ele perguntou se ela era nova na vila, donde vinha e onde estava hospedada. Ela não se sentia muito à vontade em falar que estava viajando com o Lorde demônio das Terras do Oeste, o servo deste e o dragão de estimação. Não que tivesse vergonha deles; era simplesmente porque muitos humanos tinham medo deles, pouca tolerância por demônios de qualquer espécie. Se soubessem que ela vivia no meio deles, provavelmente tentaram alguma tolice como tentar matá-los ou fugir... Claro, se fossem atrás do lorde demônio, eles seriam os que fugiriam... Se ele deixasse.

Um sorriso travesso passou-lhe pelos lábios. Sim, o lorde era um tanto quanto perigoso e terrível. Entretanto, lembrava de uma certa vez em que ele ficou sentando por quase uma hora enquanto ela praticava tranças no cabelo dele. Não era muito boa naquela época, deixando na ocasião muitos nós e emaranhados no cabelo, e quando ele viu o resultado final...

Cobriu a boca e sufocou uma risada.

O lorde ficou muito zangado com o resultado. Ele não berrou com ela, nem gritou ou chamou-lhe palavrões como estava apto a fazer com Jaken. Simplesmente estreitou o olhar para ela, depois tempestuou-se para fora da sala para desfazer o estrago que ela tinha causado. Ele parecia tão bobo com aquela expressão atacada no rosto sério. Para um homem muito importante ficar com raiva porque o cabelo estava daquele jeito era tão...

Riu de novo. Talvez ela tivesse herdado o temperamento dele... Não que ela o visse como um pai ou tivesse uma relação de sangue ou coisa assim. Ele era como... Um amigo querido de seu irmão mais velho que nunca deu a você uma única chance. Aquele sedoso cabelo prateado e aqueles brilhantes olhos dourados... Só pensar nele fazia com que ela...

Pare, Rin. Ela entrou nos trilhos e repreendeu-se. Se começar a pensar nisso, ele sentirá o cheiro. E o nariz dele poder colocar você em pior situação que... Aquele garoto, Taro.

Recomeçou a andar, mudando o peso da sacola nos ombros. Sim, humanos não eram amigos de demônios, então ela maquiava a verdade. Tinha dito que estava viajando com um grupo de amigos e que tiveram de se separar. Apenas depois voltariam a se encontrar nos arredores da vila ao pôr-do-sol, para assim poderem continuar a viagem.

Taro parecia triste por causa da notícia e disse-lhe que seria uma pena que não pudesse ficar mais um pouco por causa do festival da colheita que fariam na próxima semana. Teria banquete, dança e música, e disse que ela se divertiria muito. Mas, quão divertido provavelmente seria, ela teria que encontrar-se com o lorde, e não podia imaginar se ele conseguiria agüentar uma semana extra por causa de um desprezível festival. "Não posso ficar", ela disse.

"Bem, é realmente muito chato", ele replicou, "especialmente com você sendo uma excelente cantora. Tenho certeza de que todos adorariam escutar você cantar."

Rin sorriu educadamente, aceitando o elogio dele, mas recusou de novo.

Então ele aproximou-se um pouco mais, falando mais alto, mantendo o olhar no dela. "Ajudaria se eu fizesse um convite pessoal?"

Rin foi pega de tão surpresa que quase caiu para trás, corando brilhantemente escarlate quando esforçou-se para ficar em pé... Estava certamente acostumada com os olhares de aprovação dos homens nas vilas em que se hospedava, a maioria devido ao belo vestuário que o lorde a vestia, em oposição à beleza física e natural. E poucos foram os que se aproximaram dela e tentaram uma conversa ou deram-lhe flores ou comida de graça de qualquer tipo. Mas nenhum fez um convite como aquele.

"Isso é um 'sim'?", ele perguntou, esperançosamente.

"Não", ela balançou a cabeça. " Eu sinto muito, mas eu realmente tenho que ir embora hoje à noite".

"Oh", ele disse, "bem, e não vai embora até à noite, eu insisto que jante comigo."

"Jantar?", ela repetiu, mansamente.

"Bem, eu não sei onde você está hospedada, mas eu garanto que a comida de lá não é nem de perto tão boa quanto a minha."

"Jantar?", ela falou de novo. A comida da hospedaria era horrível e ela estava com fome. E não estava com vontade de caçar algo uma vez que retornaria ao acampamento.

"Sim, jantar. Peixe, verduras, arroz... Nada fantástico, mas tenho certeza de que ficará satisfeita."

O lorde dela a havia avisado sobre a malícia de certos homens, dos perigos em andar sozinha nas florestas à noite e as conversas com estranhos... Mas ela estava armada e com fome. Se Taro tentasse violentá-la, simplesmente cortaria a garganta dele.

Mas ele não tentou violentá-la. Ele foi muito gentil e educado o tempo todo em que esteve na cabana dele. Ele lavou-se, preparou a refeição, depois se sentaram e conversaram.

Nunca havia conversado tanto com o lorde quanto conversou com Taro. De fato, ela e o lorde pareciam ainda mais distantes enquanto os anos passavam. Ela desenvolveu os próprios interesses, tinha menos e menos interesse em segui-lo pelo castelo e cada movimento dele. Somente podia imaginar o quão irritante deve ter sido para ele. Tê-la engatinhando atrás de cada passo. Sentar quando ele sentava. Dormir quando ele dormia. Beber o chá dela quando ele bebia o chá dele.

Suspirou intimamente. Ela sabia o quão irritante Jaken fora quando ele a seguia por todos os cantos, apanhando depois dela. Metendo o nariz onde não era chamado. Fazendo ruídos e comentários impróprios quando o silêncio era preferível... Você sentia como se não tivesse privacidade, nenhum momento para si, nenhum momento de paz...

Sentiu gotas de lágrimas nos olhos. Ela deve ter aborrecido terrivelmente ao lorde. E agora eles tinham menos e menos a dizer um ao outro além de falar sobre a segurança dela, a viagem que ele faria ou sobre o ciclo menstrual dela... Ela odiava essas conversas. Era algo tão pessoal para falar com um homem tão impessoal. Era como se ele soubesse de cada segredo dela e ela soubesse quase nada sobre ele.

"Eu estou certo de que nenhum de nós quer que... acidentes ocorram durante esse 'período do mês', como você chama", o lorde disse.

Zombou. Como se dormir com ela fosse um acidente... Mas ele deixava claro que se exibira qualquer aparente atração, era unicamente por causa do ciclo dela. E por essa razão, durante o período do mês, ela ficava no quarto dela com as portas fechadas para não sentir-se tentada por nenhum servo. O lorde não teve problema algum em obter sutras sagrados, para assim ela poder trancar-se nos aposentos dela, precavendo-se de qualquer poderoso pretendente demônio e evitando que acidentes ocorressem.

Suspirou de novo. Se o ciclo dela causava tantos problemas, por que ele não tinha simplesmente a mandado embora quando chegou naquela idade...? Não que ela quisesse ir embora, mas aquilo apenas alimentava falsas esperanças.

Estando tão perto dele e não poder tê-lo... Amando-o sabendo que ele nunca, nunca a amaria... E sabendo que ele podia sentir o cheiro do desejo dela, podia cheirar o excitamento, que sabia que tinha efeitos sobre ela, e ainda assim não fazia nada... Era quase insuportável.

Era humilhante e vergonhoso.

Sim, ela tinha se acostumado com o novo corpo dela – os seios, o sangue, o quadril. Mas ela ainda tinha pouco controle sobre os próprios sentimentos. Toda vez que o via... Toda vez que ele se aproximava dela... Toda vez que ele a encarava... Só havia uma coisa em que pensar... E não era nada relacionado em beber chá ou fazer tranças. Pensar...

Respirou profundamente e soltou o ar, um sorriso forçado aparecendo-lhe nos lábios.

Pensar, o pensamento de tocar nele de novo era-lhe muito atraente. Há literalmente anos que permitiu a si mesma esse prazer único. Era costume que ela o abraçasse ou beijasse, dar flores a ele ou fazer-lhe elogios. Mas não eram coisas próprias de um comportamento para uma dama, e como Sesshoumaru tinha um olfato apurado, se ela lhe desse o mais breve dos abraços ou o mais inocente dos beijos, ele saberia que ela estava quase que imediatamente... Ela tinha pouco controle de si mesma quando estava perto dele. E como o nariz dele sabia de cada nuance do cheiro dela, era melhor evitá-lo completamente a ter que aturar uma sobrancelha arqueada ou o sorriso dele inclinado para o lado.

O lorde sabia que podia possuí-la quando quisesse, e parecia tão feliz com aquele pensamento que...

Controlou-se de novo, desta vez abraçando-se por um momento, lutando contra o frio de rachar do ar noturno e a dor crescente no peito. Ela não entendia.

Por que estava voltando? E o que teria de volta?

Mais inconveniências, silêncio e olhares? Mais avisos, vigilância e suspiros melancólicos? Mais vergonha, humilhação e desejos não-realizados? Mais do mesmo que viveu com o passar dos anos?

Por quê? Por que ela fazia aquilo consigo mesma? Estava cansada de ser um brinquedo.

Podia muito bem se virar e voltar para a vila, voltar para Taro. Ao menos ele precisava dela, demais. Ele ficou órfão ainda muito cedo, vivendo por conta própria desde que tinha 11 anos. Tinha 19 agora, dois anos mais velho que ela. Tinha a própria casa, sabia cozinhar, caçar e cuidar do campo. Era aberto, honesto e amigo. Ria quando ela ria, sorria quando ela sorria. E a olhava com uma afeição genuína, embora tivessem se conhecido apenas num dia... Ou melhor, poucas horas daquele dia.

De alguma forma, durante a conversa, eles tocaram no assunto dos relacionamentos. Ela disse não ter experiência com homens e não tinha certeza se algum dia teria. Disse que homens eram muito sem-vergonhas e estúpidos, porque nunca se sabia o que estavam pensando. E mesmo quando você acha que está certa, descobre depois que está realmente errada e termina se sentindo uma idiota.

Taro disse que tinha uma experiência limitada com mulheres, mas há algum tempo procurava por uma esposa. Infelizmente poucas famílias das moças da vila dariam uma chance porque ele era muito jovem e não tinha uma família. "O que acontecerá se não puder sustentá-la?", eles perguntavam. Ele explicava então que era bom caçador e pescador, e embora não tivesse muitas posses, ele trataria a filha deles como se fosse uma rainha. Nunca deixaria alguém machucá-la e nunca a deixaria sentir-se sozinha.

E nesse ponto, para o próprio espanto, Rin explodiu em lágrimas. Chorou como um bebezinho e NÃO conseguiu parar! Taro passou um braço confortador ao redor dela e a puxou para si, deixando que ela chorasse livremente sobre a roupa grosseira que cobria-lhe o peito.

"O que foi, Rin?"

"Eu não sei", ela disse.

"Bem, deve ter algo errado. As pessoas não choram sem motivo".

Rin sabia. Sabia o que estava errado. Mas não fazia sentido. E quanto mais pensava nisso, mais chorava.

"Está machucada?", ele perguntou. "Está com dor?"

"Não, eu... É que... "

"Rin?"

"Você poderia... poderia me... abraçar mais um pouco?"

Taro concordou. "Claro, mas..."

Rin apertou-o tanto que ele sentiu como se os membros dele fossem partir.

"Que abraço apertado o seu."

"Desculpe." Fazia tanto tempo que ela tocava em alguém, tanto tempo que alguém a tocava...

"Não, não", ele disse. "Está tudo bem."

Rin continuou a chorar, e ele continuou a confortá-la.

"Quer me contar o que está realmente errado?", ele perguntou.

"Eu estou sozinha", ela murmurou.

"Sozinha?", ele riu. "E os seus amigos? Seus companheiros de viagem?"

"É.. complicado", ela finalmente falou.

"Quão complicado pode ser? Você está triste porque sente falta deles", ele disse.

"Estou triste quando eles não estão por perto. E fico ainda mais triste quando eles estão por perto."

Taro deu uma risada, inquieto. "Não faz muito sentido. Como pode ficar triste quando está com seus amigos?"

"Eu não sei", ela disse. "Mas eu fico".

"Talvez eles não sejam bons amigos então."

Rin encolheu os ombros. "Eu não acho que eles saibam muito sobre amizade. Mas são os únicos amigos que eu tenho".

"Isso é muito triste."

Rin concordou. "É."

Taro limpou a garganta. "Eles tratam você bem? Esses seus amigos?"

"A maioria das vezes".

O rapaz pareceu inquieto. "O que quer dizer com 'a maioria das vezes'?"

"Bem... Algumas vezes eles machucam meus sentimentos sem querer".

"Oh?"

"Quer dizer, eu percebo que eles estão sendo lógicos. E eles têm bons motivos para fazerem as coisas do jeito que fazem, mas..."

"Mas o quê?"

"Eu queria que as coisas fossem diferentes. Eu não queria me sentir tão... isolada."

"Isolada?"

Rin concordou de novo. "Não faria sentido algum se eu explicasse, então...". Ela suspirou e afastou-se dele, esfregando a face com os punhos.

"Tudo bem agora?"

A garota fez "sim" com a cabeça fracamente e bocejou. "Só estou cansada".

"Bem, você poderia ficar aqui esta noite se quiser... Digo, não aqui, não comigo. Apenas na vila. Descanse um pouco e encontre seus amigos amanhã de manhã. Tenho certeza de que esperarão por você, e será difícil fazer uma longa viagem quando está tão cansada."

Rin ficou em pé e balançou a cabeça. "Não será tão longa. E eu não tenho tanta certeza se me esperarão." Ela sacudiu a poeira na parte de trás do quimono. "Só vou à hospedaria, pegarei minhas coisas e irei embora".

O rapaz ficou em pé e caminhou ao lado dela até a porta. "Eu realmente queria que você ficasse", ele disse. "Principalmente porque você não me parece tão feliz em ir."

A garota balançou a cabeça e ficou do lado de fora. "Algumas pessoas estão destinadas a serem infelizes, eu acho".

"Eu poderia fazer você feliz", ele ficou em pé na soleira da cabana. "Fique aqui", ele disse. "Não precisamos casar agora, ou nem isso se você não quiser. Podíamos ter nosso tempo, conhecer um ao outro... Eu poderia fazer você feliz. Nós podíamos fazer um ao outro felizes."

"Você está me propondo casamento", ela riu.

Taro fez um "sim" solene com a cabeça.

"Você acabou de me conhecer. Mal me conhece."

"Um homem sabe o que sente por uma mulher no momento em que põe os olhos nela. Você seria uma excelente esposa, Rin, e uma mãe ainda melhor. Eu vi você com as crianças. Elas realmente se apegam a você."

A garota sorriu para si mesma. Ela gostava de crianças. Ela queria crianças. Mas...

"Eu poderia fazer você feliz, Rin. Apenas me dê uma chance e deixe-me tentar."

"Eu..."

O rapaz suspirou pesadamente. "Você deve achar que estou sendo rápido demais."

"Não, bem... sim, mas..."

"Você está cansada de ficar sozinha, não?"

Rin desviou o olhar dele, em direção da floresta, em direção da escuridão. "Eu sinto muito se fui um incômodo, Taro. O jantar estava ótimo, e você é um bom rapaz, mas..."

"Você sente falta de seus amigos", ele concluiu.

Rin concordou. Para dizer a verdade, se ela nunca encontrasse o lorde dela, se nunca tivesse corrido dos lobos, se não tivesse crescido e amadurecido presa dentro da própria vila dela, provavelmente casaria com alguém como Taro... Mas não era nem isso nem outra coisa. Tudo era o que era para ser e você não pode mudar isso.

Taro sorriu tristemente para si. "Eu sabia que você era boa demais para mim", ele falou. "Mas você não pode culpar um homem por tentar."

"Não", ela disse. "Eu não posso culpar um homem por tentar... mas estou começando a odiar um certo homem por não tentar". Depois ela o deixou e começou a caminhar para o campo.

E lá estava ela. Sozinha na floresta, vagando cegamente por um caminho iluminado pela luz fraca da lua em direção ao... Nem se lembrava mais para onde.

Respirou profundamente e deixou o ar escapar. Ele pode sentir o cheiro das lágrimas também, ela lembrou-se. A última coisa que queria era vê-lo nas últimas. Você já terá muitos problemas tentando explicar o cheiro de Taro... Pense que é porque o lorde sempre se preocupa com ela.

Não é como se fossem casados, ou se já tivessem algo antes. Ele já tinha deixado claro em mais de uma ocasião que não queria que acidentes acontecessem... Então ele realmente não tinha direitos sobre ela. Ele não era o dono dela. Não eram casados. Então, se ela quisesse chorar no ombro de algum estranho, estava completamente dentro dos direitos dela. E se ele começasse a encrencar por causa disso, ela apenas diria para que o lorde se danasse.

Riu para si. O que ele responderia se ela dissesse isso?

Certamente não era algo digno de uma dama ou de respeito, mas... Droga! Ele a estava enlouquecendo! Não era justo. Não é justo que ele tenha um olfato apurado e um olhar agudo e note cada pequena mudança nela. Não era justo que ela nem ao menos pudesse fantasiar sobre ele... Se o fizesse, ele saberia e depois daria a ela um daqueles olhares do tipo "eu sei o que você está pensando, e isso nunca irá acontecer". Claro, isso não acontecia há tempos, há um ano ou dois, mas a maioria das vezes era porque ela passava muito tempo evitando-o. E, embora já fizesse algum tempo, ela ainda lembrava de como era e de como a fazia sentir-se.

Suja.

Praguejou e chutou a terra em frente a ela. Por que ele não podia casar com ela? Não precisava ser nada permanente, nada duradouro. Neste caso, ela só queria sair um pouco das regras, pensar em outras coisas. Se ele quisesse possuí-la, então... Então ela iria querer que a possuísse de novo. E de novo. E de novo e de novo e de novo.

Podia sentir a face ruborizada. Isso era ruim. Muito, muito ruim.

Controle-se, Rin. Você não é um animal, parece de agir como um. Você não quer dar a ele uma desculpa para livrar-se de você, quer?

Claro que não... Sim, as coisas seriam desagradáveis agora, mas não quer dizer que não vão melhorar. Eventualmente os seus hormônios vão se acalmar e você não ficará tão excitada e... Ela suspirou de novo. Não eram apenas os hormônios. Não era só o corpo dela... Era o coração, a alma dela, cada pensamento que tinha, cada respiração, cada fibra do ser... Ela o amava com tudo que era e tudo que poderia ser. Ela... estava desanimada.

Mas... se não fossem os hormônios, as coisas eventualmente se acertariam entre os dois. E aí ela e o lorde se sentariam juntos e teriam uma boa conversinha sobre, por exemplo, o que aconteceu entre ela e Taro. Talvez o lorde tivesse mudado de ideia sobre ela e... Talvez ele a quisesse. Talvez ele a amasse. Talvez já tivesse percebido que humanos não eram tão ruins e que meio-demônios eram perfeitamente aceitáveis. Talvez...

Riu para si. Ah, é... E talvez Jaken ficasse maior que o Bastão de Duas Cabeças.

Sorriu e continuou a andar. Estava desanimada, e era desanimador. Como dissera a Taro, ela estava destinada a ser infeliz... Mas se tivesse de escolher entre ser infeliz com ele ou ser infeliz sem ele, a escolha era simples.

O sorriso cresceu. Era como Taro dissera: "Um homem sabe o que sente por uma mulher no momento em que põe os olhos nela". E era quase o mesmo para ela. Desde pequena sabia do que sentia quando viu Sesshoumaru descansando naquela árvore de cerejeira, sabia que queria ser dele... com todas as forças.

Se ele quisesse um seguidor, ela o seguiria. Se precisasse de um servo, ela o serviria. Se precisasse de um amigo, ela seria amiga dele. E se, quando crescesse, ele tivesse outras necessidades dela... Ela ficaria feliz em ver que tinha necessidades dele também.

Ficou corada e deu uma risada sem graça. Pelos deuses, estava muito desanimada.

Precisava visualizar o campo. Precisava manter os olhos no caminho, a sacola nas costas e a mente em retornar ao campo. Uma vez de volta, poderia dormir um pouco e, na manhã seguinte, partiriam de novo. Mais duas semanas e estariam de novo no castelo e... "Droga!" Ela tropeçou numa raiz exposta e caiu no chão, a sacola atingindo-lhe a nuca. "Eu tinha que ser ainda mais desastrada? Eu pensei que essa fase já tinha passado."

Ficou de joelhos e tentou levantar-se. "Ow!" Sentou-se e massageou o tornozelo direito. Não parecia quebrado, mas estava doendo muito. Retirou um dos obi's da sacola e enrolou-o ao redor do pé. Bem, ela pensou, isso poderia conter o inchaço. A coisa mais fácil a fazer seria chamar pelo lorde dela, mas... Isso significaria que ele teria de tocá-la e carregá-la, certamente. Se fosse tão bom quanto no pensamento era...

Suspirou profundamente. Não. Tocá-lo era uma má ideia. Todo aquele cenário de "sujeira" repassou-lhe na cabeça.

Teria que voltar ao acampamento com as próprias pernas e com as próprias forças... Não importasse quanto tempo demoraria. Levantou-se, tirou as folhas secas que pregaram no quimono e mancou em direção ao acampamento. Pelos deuses, como ela adorava uma punição.


Finalmente o acampamento apareceu na vista de Rin, a lua cheia no horizonte e sabendo que estava muito mais atrasada do que já esteve em toda a vida. Pelo menos ela tinha uma boa desculpa agora. Coxeou até a fogueira que estava apagando, passou pelo Bastão de Duas Cabeças, passou por um ressonante Ah-Un e sentou-se na base de uma árvore de magnólia, pousando a sacola no chão e suspirando. O que ela realmente queria era uma boa xícara de chá quente, algo para aquecê-la por dentro e lutar contra o forte estremecimento dos ossos.

Remexeu o fogo e tentou reacendê-lo. Não havia sinal de lorde Sesshoumaru. Por um breve momento, achou que seria melhor chamá-lo, mas Jaken e Ah-Un pareciam dormir muito profundamente, preferindo não acordá-los. Então, se ela queria mesmo encontrá-lo, teria que se levantar e procurar.

Mudou o peso do corpo para o pé esquerdo e forçou a se levantar. Por que ela estava fazendo isto? Poderia muito bem ficar aqui e esperar pela volta dele.

Suspirou e seguiu pelo caminho passando pelos arbustos. Parecia que alguém estivera ali recentemente, e o lorde dela gostava de solidão... E quanto ao porquê de estar fazendo isto e procurar por ele quando seria mais simples ficar e esperar... Ela não queria preocupá-lo. Ela sempre dizia a ele quando estava vindo e indo, não que ele restringisse aos movimentos dela; ele simplesmente queria saber. E se ela tentasse escapar sem dizer uma única palavra, ele sempre a encontrava em questão de minutos.

De fato, ela poderia até ouvi-lo agora. "Não fuja, Rin", ele disse. "Você nunca sabe o que pode acontecer com você".

E ela concordou e inclinou-se sem fazer uma única pergunta.

Sim, foi por isso que ela recusou o pedido de Taro. Tinha prometido ao lorde que nunca fugiria. E nunca faria isso.

Encontrou Sesshoumaru sentando num tronco caído, a poucos metros do lugar original, a face dele ocultada pelas sombras vindas das copas das árvores mais altas. Ele parecia sério, os olhos dourados focalizados em algum ponto em frente, a boca desenhada numa linha fina, a mão apertando fortemente o ombro esquerdo dele. Por um breve momento, achou melhor não perturbá-lo, especialmente porque ele não pareceu notar a aproximação dela. Mas ela já tinha feito todo aquele caminho, com um tornozelo deslocado, então...

Tomou fôlego e caminhou até a clareira. "Meu lorde?"

Sesshoumaru a olhou. "Rin..."


N/T: ok, depois de muita reclamação, voltei a postar a história aqui. No FFsol a história está atualizada até o capítulo 17, mas pra ler você precisa ser cadastrado no site e ter mais de 18 anos.

Vou postar de 3 em 3 dias os capítulos aqui até chegar aos inéditos, ok?

Beijos da Shampoo-chan