Capítulo 1 – A História das Trevas.

Tom fechou o livro dos "Contos de Beedle, o Bardo". Passara parte das férias de verão entediado com os malditos trouxas e a outra parte traduzindo as runas para o começo das aulas em setembro. Possuía uma dupla opinião sobre o livro. Apesar de achar interessante por poder ver o que as crianças bruxas ouviam em sua infância, era um livro extremamente bobo. A professora devia ter passado apenas por ser fácil de traduzir.

Estava em seu quarto conto, "Babbitty, A Coelha, e Seu Toco Gargalhante" e faltava apenas um para que terminasse o trabalho. A história de Babbitty o estava deixando irritado e por isso decidiu parar um pouco.

A única das histórias que o agradara, fora "O Coração Peludo do Mago" que descrevia um bruxo exatamente como ele: bonito e talentoso. Só lhe faltava a riqueza, mas issoera uma questão de tempo. O bruxo, ou mago como dizia na história, não queria saber do amor e por isso arrancou o próprio coração. No entanto, sua burrice fez com que morresse no fim.

Será que arrancar o próprio coração era realmente possível com as Artes das Trevas?

Tom então lembrou de Erin. Tentou tirar esses pensamentos da mente, mas era impossível.

Quase todos as noites, desde que voltara ao orfanato, ele sonhava com ela. Às vezes eram sonhos em que ela ainda estava viva e eles se beijavam de forma ardente, já em outros era uma recapitulação do acontecido.

Não entendia o que era aquilo. Não era culpa, pois não se arrependia nem um pouco do que fizera...será que era satisfação? Tanto de uma forma quanto de outra, ele se sentia bem quando sonhava: com ela viva ou morta.

No entanto, quando despertava, sentia raiva. Raiva por não conseguir tirá-la da cabeça. Mesmo morta ela conseguia perturbá-lo e tirá-lo do caminho de seus planos gloriosos para o futuro.

Tom puxou um livro de capa de veludo marrom, onde dois olhos quase reais o encaravam furiosamente. Na capa vinha escrito "Lições Proibidas Pelo Ministério – Constituição de 1666. Não autorizado".

Ele o havia comprado em um passeio ao Beco Diagonal na semana anterior. A carta com a lista de material havia chegado e Tom foi em busca deles.

Estava com parte da lista cumprida quando olhou uma rua escura e apertada. Já havia estado ali. Travessa do Tranco.

Mesmo tendo sido escorraçado da última vez, algo lhe atraía para aquele beco. Talvez fosse o ar misterioso que o local tinha. Todos que estavam ali pareciam não poder estar.

Seu instinto foi mais forte. Olhou para os dois lados, esperando que ninguém conhecido o visse, e entrou na ruela.

Passou olhando pelas lojas que mostravam milhares de coisas estranhas e fascinantes ao mesmo tempo. Viu a "Burging & Burkes". Dessa vez iria comprar algo. Queria muito poder esfregar na cara do vendedor que ele não era apenas um curioso que poderia denunciá-lo.

Entrou e a sineta tocou. Foi para a sessão de livros e começou a ler os títulos. Todos pareciam ser muito interessantes.

O vendedor apareceu pelas suas costas, fazendo sombra.

- Posso ajudar? – ele perguntou, quase alegremente.

Tom se virou e o homem fechou o semblante.

- Ah... é você. Lembro de você. O que quer? É fiscal do Ministério ou algo do tipo? Se não vai comprar, vai embora.

- Vou comprar. – Tom mostrou a sacola de dinheiro que deveria ser para despesas do Colégio. Todo aluno com renda baixa recebia um fundo de Hogwarts.

A expressão do homem mudou. Havia um sorriso asqueroso. Tom pensou que era melhor que voltasse a ficar sério.

- Ahhh, se é assim... o que deseja?

- Estou procurando um livro de Arte das Trevas.

- Todos aqui são. – ele soltou uma risadinha. – Tem alguma preferência?

- Não. Ainda estou olhando. Será que poderia sair de frente da luz para que eu pudesse continuar a ver e escolher o que quero?

- Sinto muito... senhor. – ele disse, se afastando e parecendo contrafeito, mas não discutiria com um possível cliente.

Tom olhou por mais alguns minutos quando viu um que lhe chamou a atenção. Apanhou-o.

- Acho que vou levar esse.

- Ótima escolha. É bem raro.

- Poderia me dar uma prévia sobre o assunto?

- São feitiços e poções, dadas em aula em escolas bruxas de todo o mundo e que depois, em 1666, foram proibidas.

- E por que?

- Eram das Trevas.

- Mas se eram das Trevas, como que eram ensinadas nos colégios?

- Bom, até aquela época, As Artes das Trevas eram conhecidas e temidas, mas não proibidas oficialmente. Eram usadas, inclusive, em batalhas. Porém, o segundo Ministro da história, Vladmir Godovik, as proibiu terminantemente, por causa da Peste Negra e outros acontecimentos.

- A Peste Negra foi causada pelas Artes das Trevas?

- Claro! Por que acha que se chama "Negra"?

- Por causa dos bulbos negros que ficavam na pele? – Tom arriscou e o bruxo idoso riu.

- Isso foi uma explicação que os trouxas criaram. É óbvio que não foi por isso. Continuando... a Peste Negra matou quase toda a população da Europa e mais um pouco, no século XIV.

- Mas a Constituição é do século XVII.

- A Peste não aconteceu SÓ no século XIV. Ela voltou outras vezes até o início do século XVIII, mas as pessoas conhecem mais a primeira epidemia, porque foi a mais terrível. Em todo caso, quando chegou o ano de 1666, aconteceu o Grande Fogo de Londres que, apesar de ter conseguido fazer a epidemia sumir mais uma vez, teve terríveis consequências e também foi causada pelas Arte das Trevas.

- O Grande Fogo de Londres? – Tom repetiu. Adorava história e lia muitos livros no orfanato, mas nunca tinha ouvido falar desse acontecido.

- Sim. Durou três dias. – Tom arregalou os olhos. Um incêndio que durou três dias? Deve ter sido realmente enorme! – Vladmir resolveu proibir as Artes das Trevas que só estavam causando prejuízo. Claro que isso não impediu que as pessoas a continuassem praticando às escondidas – como prova a volta da epidemia até o século XVIII, como eu disse, – e o fato de você estar aqui comprando e eu vendendo um artefato das Trevas. – ele sorriu novamente, daquele jeito bizarro.

- Entendi... que interessante! – Tom colocou o livro em cima do balcão. – Vou levar. Você tem um livro que fale sobre a história da Arte das Trevas?

- Claro. – ele apontou para um exemplar da estante. – E exatamente com esse nome. Vai querer também?

Tom olhou para sua sacola de moedas. Não podia sair gastando tudo. O dinheiro teria que durar todo o ano letivo e se pegasse mais em Gringotes, a escola ia saber e teria que explicar com o que gastara tanto.

- Talvez de uma outra vez. – falou decepcionado.

Voltou às suas compras de material escolar e foi à Madame Malkins pegar um novo uniforme, pois havia crescido alguns centímetros e suas calças e mangas estavam pescando.

Agora, de volta ao orfanato, lia ferozmente o livro que comprara. Era ótimo e tinha muito mais feitiços e poções do que o livro que Malfoy lhe dera.

Lembrou-se do capítulo que citava algo chamado "Horcruxes", mas que não explicava o que era, então procurou no índice para ver o que encontrava sobre.

Nada. Nem mesmo o nome apareceu.

Seria algo assim tão terrível para que não tivesse explicações nem nos livros proibidos de Arte das Trevas?

Procuraria mais sobre o assunto.

Suspirou, olhou o pôr do sol pela janela e apanhou os contos infantis, novamente. Faltava apenas cinco dias para que retornasse ao seu verdadeiro lar. Tinha que terminar o trabalho.

Traduziu o título da última história: "O Conto dos Três Irmãos".