Off The Top
Por: Kracken
Tradução: Aryam
DO COMEÇO
2
— Ferimentos de guerra — Wufei grunhiu enquanto os dois entravam na cabana e guardavam os suprimentos.
— Picadas? — Trowa riu, jogando o casaco na cadeira.
— Dedos queimados — o chinês o lembrou, estirando as mãos para mostrá-lo os dígitos vermelhos, e tirou também o casaco.
— Falei para ter cuidado — o agente 03 falou, mas jogou-lhe um creme para queimaduras.
Wufei pegou e rapidamente começou a aplicar a pomada abundantemente.
— Eu estava tentando salvar a sua comida. A panela quase caiu no carvão.
— Obrigado — Trowa agradeceu e concluiu, um pouco mais gentil: — Não achei que fosse tão ruim.
— Não é — Wufei suspirou, sentando-se, ainda encarando as mãos. — Só não é o preço que eu queria pagar pelo jantar.
Trowa se juntou a ele, seus longos membros caídos ao redor da cadeira, totalmente relaxado.
— Desculpe.
Wufei bufou:
— Só estou reclamando, Trowa. É a minha natureza. Até que gostei.
— De conversar?
Wufei pensou. Quando tivera a oportunidade de simplesmente conversar com alguém por um longo período? Sobre o trabalho, com colegas de trabalho, claro, mas raramente sobre coisas pessoais.
— De conversar — concordou.
Trowa sorriu suavemente.
— Também gostei de conversar. Faziam... anos.
Wufei franziu o cenho confuso.
— Achei que fosse próximo de Heero e Duo. Sei que Quatre é um bom amigo seu.
— Verdade — respondeu com um pequeno suspiro. — Mas desabafar com eles sempre esteve fora de questão.
— Por quê? — o chinês perguntou com uma pontada de raiva. — Você já fez tanto por eles. Não posso entender por que eles te tratariam...
— Não é culpa deles — Trowa explicou, rapidamente o cortando. — Sempre mantive meus problemas só para mim. Sempre achei que compartilhá-los apenas deixaria um fardo sobre outras pessoas.
O agente 05 ficou ainda mais confuso.
— Você os compartilhou comigo. Quer que eu carregue seus fardos?
Trowa riu.
— Compartilhar com você é diferente. Eles são amigos. Você é... diferente.
— Você falou diferente duas vezes — Wufei reclamou, estranhando, mas então se acalmou. — Não me sinto com um peso nas costas.
— Viu? Diferente.
O chinês fez um som de exasperação.
— Achei que essa viagem fosse para me conhecer e entender meus sentimentos. Honestidade comigo mesmo. Posso esperar que você seja honesto consigo mesmo?
Trowa sorriu.
— Eu sou honesto comigo mesmo. Mas talvez ainda não seja a hora de ser honesto com você.
— Que altruísta — Wufei grunhiu. — Compensa uma cama fria.
As sobrancelhas castanhas se ergueram.
— Isso foi... direto.
— É minha natureza — Wufei o lembrou. — Já confessei o que sinto por você. Por que mentir sobre os meus desejos?
Trowa ficou em silêncio e Wufei suspirou:
— Essa é a hora em que você sabiamente diz não ser hora para um relacionamento.
— Estou achando difícil dizer essas palavras — admitiu.
— Difícil — Wufei riu, mesmo que em seu íntimo sentisse um leve desapontamento.
Trowa sorriu com malícia e levantou-se da cadeira em um movimento suave.
— Acho que é melhor acabarmos essa conversa. Precisamos dormir.
— Para termos energia de montar o vaso de cerâmica amanhã? — Wufei perguntou esperançoso.
— Estive pensando... — Trowa considerou.
— Negado — o chinês se adiantou.
— Negado? — o moreno de olhos verdes perguntou com falsa confusão.
— Ir para o calor do inferno amanhã — reclamou. — Todas as pessoas precisam de um dia de descanso, eu declaro amanhã nosso dia de descanso.
— Não temos muito tempo — Trowa ressaltou. — Podemos sempre montar coisas mais tarde.
— Eu te odeio — o chinês rosnou e o outro deu de ombros.
— Não é para ser fácil.
Wufei esfregou a testa, uma dor de cabeça nascendo ali.
— Vou sentar no chão e fazer birra como uma criança. É aceitável?
— Se te ajudar a expressão sua raiva, sim — respondeu sério.
O agente 05 considerou e deixou seus ombros caírem.
— Não, acho que não.
Não pôde evitar sair batendo os pés e bater a porta quando entrou no quarto. Jogou-se na cama e encarou o teto. Levou um bom tempo para a raiva passar e dar lugar à aceitação. Era um sinal do que sentia por Trowa. Estava certo de que encheria qualquer um de porrada por fazê-lo passar por essa tortura.
— Acha que destruíram tudo? — Wufei inclinou-se para pegar um fragmento de cerâmica, o rosto contorcido numa expressão de puro desagrado. Quase jogou o objeto para o lado, mas Trowa tomou de sua mão e analisou.
— Não tudo. Mas levaram apenas o que estava intacto e o que poderia ser vendido — Trowa colocou o caco no chão com delicadeza e tirou uma foto para, em seguida, fazer anotações em seu caderno, antes de pegá-la novamente.
O local estava cheio de marcas de ter sido revirado com pá. Wufei olhou em volta, notando o quanto havia sido deixado para trás.
— Que estupidez — bufou, agachando-se para ver um pedaço de joia com pedraria e várias peças de alguma louça de cerâmica quebrada. — Isso provavelmente vale mais do que eles levaram.
Trowa concordou e retirou suas ferramentas da bolsa.
— Comecemos?
O chinês espantou uns mosquitos, franzindo o cenho.
— Estão todos na sombra. Vou perder um quarto de sangue até o anoitecer.
— Seu quarto de sangue vai valer a pena, te garanto — Trowa brincou, começando a trabalhar.
— Por que não está bravo com a situação? — Wufei perguntou ao lado do outro homem. — Nada do que registrar será preciso agora que houve interferência e espalharam tudo.
O agente 03 deu de ombros e sorriu:
— Não é a primeira nem a última vez que isso acontece. Não gosto e, sim, gostaria de pegar as pessoas que fizeram isso, mas esquentar a cabeça agora vai apenas atrasar o trabalho e me causar mais calor. Vou guardar o mau humor pra quando voltar para casa.
— Casa mesmo ou a cabana? — Wufei questionou, apontando para um caco para ser registrado.
— Casa mesmo — respondeu. — Só então poderei fazer algo quanto a isso. Terei toda a tecnologia Preventer a minha disposição para encontrar quem está vendendo artefatos indígenas com os mesmos padrões dos encontrados nesse lugar — pausou e sorriu gentilmente. — Além do mais, eu gostaria de aproveitar o nosso tempo juntos na cabana.
Após o moreno mais alto terminar com o registro daquela peça em particular, Wufei usou gestos delicados para limpar a areia do fragmento e falou:
— É difícil para mim só... ficar aqui... e não fazer nada, sabendo que um crime foi cometido. Não é da minha natureza.
— É da sua natureza — Trowa insistiu.
Wufei franziu o cenho, confuso.
— Nunca fui homem de cruzar os braços e fingir que nada aconteceu.
— Nunca? — questionou sem olhar para cima.
De repente, Wufei estava de pé, mãos fechadas em punhos, o estômago se revirando, e voltou para debaixo do sol, de costas para o companheiro Preventer, olhando para memórias amargas. Não percebeu quando começou a tremer, levemente, ou que rangia os dentes até Trowa aparecer do seu lado.
— Desculpa — Trowa pediu.
O chinês exclamou com a voz embargada:
— Que desculpa o quê?! Você esfaqueou meu ponto fraco com a habilidade de um mestre assassino.
Trowa ficou em silêncio e, então, falou suavemente:
— Não sabia que estava mirando para o seu ponto fraco. Lembrei de você ter me dito uma vez, há muito tempo, que costumava ser um estudioso. Eu estava falando disso... nada mais.
— Cruzei os braços e não fiz nada — Wufei soltou, sem se conter. — E pessoas pagaram caro pelo meu erro.
— Você sabia das consequências?
O chinês achou difícil raciocinar. Não falou nada.
— Não — Trowa adivinhou. — Você sempre quer se fazer responsável por tudo, mas é impossível. Está se destruindo tentando, não vê? Você não sabia o que aconteceria e não saberia agora. Não pode viver sua vida se preparando para uma tragédia que pode acontecer por sua falta de ação.
Wufei tentou pensar apesar da dor que sentia. Seu peito se comprimia e sua visão se esmaecia, tentava controlar sua angústia.
— Dever. Honra. São... importantes para mim — quase não reconheceu sua própria voz.
— Guarde isso para salvar o mundo, não se preocupando se alguns ladrões vão ver justiça hoje ou em algumas semanas — Trowa pediu.
— Prioridades? — o chinês tentou se recompor.
— Prioridades.
Wufei soltou um suspiro trêmulo e o mundo tomou forma novamente. Os raios solares batiam forte em sua pele e acolheu o desconforto. Dava-lhe uma âncora até voltar completamente daquele lugar sinistro dentro de sua psique. Trowa lhe deu tempo, paciente, não dizendo nada.
Por fim, o ex-piloto 05 resolveu voltar ao trabalho. Retornou para onde estavam e sentou-se com as suas próprias ferramentas emprestadas. Era um sinal para o outro agente não tentar mais a sorte com ele, não arrancar mais as cascas de suas feridas mentais.
Trowa sentou-se ao seu lado e começou a falar, como se nada tivesse acontecido, e foi um alívio.
— Acho que isso era uma cesta — observou. — Há algumas tiras aqui, talvez tecelagem. Muito delicado para retirar. Vou tirar fotos e deixar os especialistas cuidarem disso.
— Obrigado — Wufei agradeceu repentinamente.
Trowa pareceu aliviado, como se temesse ter estragado algo entre eles. Apertou de forma carinhosa, mas rápida, a mão do seu companheiro antes de voltar a tirar as fotos.
— Eu... — Wufei franziu o cenho, olhando para o chão, incerto, a camisa quase inteira desabotoada. Os dedos brincando distraídos com os botões, enquanto Trowa esperava com expectativa.
Jantaram em silêncio, exaustos e perdidos em seus próprios pensamentos. Decidir ir para a cama fora uma decisão mútua silenciosa fazendo-os se levantarem ao mesmo tempo.
O chinês se encolheu instintivamente quando os longos dedos do outro homem acariciaram o seu rosto. Olhos negros se focaram no rosto a sua frente, percebendo o sorriso gentil, e Trowa indicou a cama com a cabeça. Virou-se, então, e começou a despir-se enquanto andava.
Wufei continuou onde estava por um instante, sentindo uma onda de alívio assim que seus pés o obedeceram e o seguiram, tirando completamente a camisa e jogando-a para um lado.
— Isso significa...?
Trowa riu.
— Pode significar o que você quiser — puxou os jeans para baixo e os deixou cair no chão, longas pernas pairando para fora da calça.
Wufei considerou as palavras, saindo dos seus últimos itens de vestimenta. A cama era estreita. Duas pessoas precisariam estar bem grudadas para dormirem juntas ali e continha possibilidades que seu corpo estava pronto para encarar, mas, talvez, não sua mente.
— Por que agora? — Wufei perguntou.
— Regras não são absolutas — Trowa respondeu, subindo na cama e recostando-se contra a parede.
— Outra de minhas falhas? — suspirou.
— Inflexibilidade — Trowa explicou. — Relutância para mudar de acordo com o momento. Você confunde dever e honra com seguir as regras. Você as torna absolutas quando regras não podem funcionar para todas as situações.
O agente 05 considerou e assentiu, percebendo verdade na acusação.
— De costas ou de frente para mim? — Trowa deu-lhe a decisão do quão longe poderiam ir nessa noite.
— De costas para a cama — Wufei respondeu neutro, e Trowa suspirou como se decepcionado.
— Não durmo muito bem virado para cima — o homem já deitado na cama falou. Wufei não perdeu a insinuação.
— Eu também não.
— Pode não ter espaço o suficiente... — outra insinuação.
— Quem está sendo inflexível agora? — Wufei rebateu com uma sobrancelha erguida e subiu na cama.
Trowa bufou e deu-lhe as costas propositalmente, encarando a parede, e falou:
— Está tudo nas suas mãos.
— Esse não é justamente o meu problema? Que eu tento ter tudo nas mãos?
Os olhos verdes apareceram por cima do ombro e os lábios que os seguiram continham um sorriso.
— Finalmente, autoconhecimento.
Wufei ficou de lado e passou a mão no quadril firme de Trowa.
— Era o que Yuy também precisava?
— Era.
Isso incomodou o chinês. Franziu o cenho, incerto do que perguntar.
— Ele não dormiu comigo — o ex-piloto 03 respondeu, sentindo a questão pairar no ar. — Ele sempre amou apenas o Duo. Era só no que falava. Em voltar para Duo.
Wufei sentiu ainda mais coisas pairando no ar e comentou:
— Deve... deve ter doído.
Houve um silêncio, ombros ficaram tensos e Trowa admitiu:
— Às vezes, você quer algo que nunca foi feito para ser seu. Nós dois tivemos um tempo de... aceitação.
Ambos estavam exaustos e a última revelação pareceu formar uma barreira entre eles. Dormira, mas em algum momento durante a noite, quando os pesadelos chegaram para Wufei, ele encontrou um corpo quente para se segurar, mãos carinhosas e lábios macios para espantá-los e equilibrar as vontades que davam lugar ao comprometimento, deixando de lado a submissão e dominância por um meio termo ainda mais satisfatório.
Quando a luz da manhã invadiu pela janela, Wufei estava acordado, pensando no seu quase-amante e sua habilidade, nos intensos sentimentos que o homem arrancara dele e suas próprias respostas desajeitadas. O outro estava jogado por cima do chinês, o rosto enterrado em seu pescoço e braços soltos por cima de sua cintura. Aquelas mãos com seus dedos longos foram criativas. Aqueles lábios e aquela boca... O ex-piloto 05 sentiu seu desejo se renovar, mesmo ainda sentindo um pouco de vergonha pela sua própria falta de habilidade.
Trowa acordou lentamente, murmurando algo sobre mau-hálito matinal e rolou de cima dele para ir ao banheiro. Wufei aproveitou para fazer o café da manhã, e os dois encontraram-se comendo em silêncio de modo parecido com o jantar da noite anterior.
O moreno mais alto, por fim, encarou-o, mas desviou o olhar para a xícara de café, falando para ela:
— Se quiser... esquecer o que houve essa noite...
— Você teve relações sexuais com a xícara depois de mim? — Wufei perguntou comicamente. — Ela pode até querer esquecer. Eu não.
Trowa riu.
— Que bom.
O chinês estremeceu.
— Vou fazer bem feito, com tempo.
Trowa o encarou por um longo momento, confuso, então pareceu entender:
— Não esperava um virgem, e me desculpe se soa medieval, mas fico contente que você não seja... experiente.
— Fácil — Wufei corrigiu brandamente.
Trowa riu.
— Fácil — concordou.
— Possessivo — o agente 05 julgou.
— Eu não era antes disso — Trowa o assegurou.
O chinês sorriu e falou pensativo:
— O que eu queria nunca foi um mistério para mim. Não sou... recatado. Eu sou...
— Seletivo? — o agente 03 interviu.
— Seletivo — concordou.
Trowa buscou as palavras certas para responder e suspirou antes de admitir:
— Acho que consigo prazer onde encontro, embora seja quase sempre com amigos.
Wufei franziu o cenho e o outro homem entendeu:
— Isso é bem mais sério do que o usual. Na verdade...
— Continue — o chinês incitou quando a frase parou.
Trowa deu de ombros.
— Acho que o resto está em suas mãos de novo.
— Já fiz minha escolha — Wufei o assegurou. — Acredito ter deixado isso bem claro nesses últimos dias.
— Não queria estar errado.
A quietude que se seguiu foi confortável. O calor entre eles era agradável e terminaram de comer. Quando Wufei recolheu os pratos e já antecipava o sofrimento de ter que sair no calor, surpreendeu-se com um saco de cacos aparecendo na mesa.
— Achei que...
— Deveríamos montar esse vaso antes de irmos embora — Trowa explicou, organizando as suas ferramentas.
— Irmos embora?
Trowa sentou-se e chamou Wufei para sentar-se na sua frente.
— Não há mais motivos para ficar.
Separaram os pedaços enquanto o chinês tentava entender tais motivos. Então, assentiu com a cabeça.
Trowa notou.
— Entendeu?
Wufei entendia.
— Eu entendo os problemas. E reconheço que são problemas.
— Você percebeu ontem à noite — Trowa o contou. — Era o objetivo. Até você saber qual é o problema, até aceitar que é um problema, não pode esperar resolvê-lo... não pode esperar se abrir para novas possibilidades.
Os olhos se encontraram, esquecendo-se dos cacos.
— Não vou perder o que encontrei com você, mesmo que eu tenha que ficar nesse inferno com você — Wufei o avisou.
— Não precisamos ficar aqui. Isso não é um final — Trowa o assegurou e segurou com força a mão do chinês. — É um começo.
FIM
