Capítulo 2 – Como Uma Rosa Branca
"Minha pequena Lily,
O tempo aqui acabou de esfriar, mas não me parece que vá nevar, na verdade o som do vento nas vidraças denuncia uma tempestade próxima. Tempestade essa que parece já estar instalada em meu interior, bem ao contrário de quando estivemos juntas no Natal e, apesar de nevar quase todos os dias, meu coração estava aquecido como se fosse verão.
O relógio da sala acaba de soar seis badaladas. A hora do ângelus, se não me engano. Minha avó diz que será meu na ocasião do meu casamento. Deveria sentir-me honrada, afinal é uma relíquia de família, mas aquele objeto de madeira, tiquetaqueante, só me traz lembranças de fantasmas da minha infância.
Posso sentir seu olhar sobre mim ao imaginar uma criança ajoelhada sobre pedrinhas ou sofrendo com as implicâncias das irmãs. Sinto dizer-lhe que minha infância não foi assim tão normal. Minha mãe tinha fases, como a lua. Quando estava em sua fase feliz, mimava a mim e à minhas irmãs nos dando qualquer coisa que pedíssemos. Porém estas fases alegres foram como eclipses, tão poucas que mal posso lembrar. Já as outras fases marcaram-me profundamente.
Bellatrix adorava o porão. Não entendo o que ela achava tão maravilhoso em um lugar cheio de mofo e umidade. Eu gostava de subir ao sotão e através de uma passagem que lá existia ver o mundo. Na verdade eram só o jardim e o quintal dos fundos, mas ainda assim me parecia o mundo. Andrômeda, sempre tão diferente, nunca teve preferência por lugar algum, qualquer canto onde a deixassem ela se acomodava. "Desde pequena tinha vocação para pobre", é o que minha mãe diz dela nas raras ocasiões que menciona seu nome.
Mulher louca essa a quem eu e minhas irmãs chamamos de mãe. Em suas fases ruins ela trancava Bellatrix, que tinha pavor de lugares altos, no sotão e a mim, no porão. Lá, presa naquele lugar escuro, sob a terra, a única coisa que eu tinha do mundo exterior era o tique-taque do relógio. Com o passar do tempo aprendi a contar através deste as horas que passava presa no breu. Lembro de uma vez, que ao chegar nos cem mil segundos desmaiei. Não lembro quanto tempo se passou até que eu fosse tirada de lá, mas quando isso aconteceu, minha mãe estava em uma fase feliz novamente.
As vezes faziam-me pensar que era a culpada de sua infelicidade.
Agora você me perguntaria por Andrômeda, o que era dela feito. Confesso-lhe que nem eu mesma sei. Apenas posso dizer-lhe que passava meses sem vê-la, não raras as vezes em que pensava que não a veria novamente. Ela sempre foi corajosa o suficiente para enfrentar nossa mãe.
"E por que seu pai nunca fez nada a respeito?" Você insistiria, sem querer acreditar. Muitas razões eu poderia citar, mas basta dizer-lhe, "Porque éramos meninas". Há vários anos atrás, ouvi minha tia comentar com minha avó que a primeira frase proferida por ele na ocasião do meu nascimento foi "Outra menina? Manda afogar." Não é tão importante agora e naquela época eu não sabia o que significava.
Não quero que você sinta pena de mim e muito menos compaixão que, ao meu ver, é apenas uma forma mais evoluída da primeira. Na verdade, creio que você me odiará ao final desta carta, apesar que, se bem a conheço, é capaz de amar-me ainda mais.
Minha pequena Lily, vou casar.
Não por amor e muito menos por vontade própria, mas porque foi decidido em um acordo feito há muito tempo atrás. Quando nasci, fui prometida à Lucius, do mesmo modo que Bella a Rodolfus. Se entendesse alguma coisa naquela época teria preferido que me afogassem. Agora não tenho coragem nem ao menos para mostrar minha oposição ao casamento. Pode chamar-me de covarde, mas devo lembrá-la que sou Sonserina. Não tenho obrigação alguma para com a coragem e lealdade.
Cresci já sabendo que toda minha vida estava traçada. Talvez esse tenha sido meu maior desespero quando a conheci, sair das regras, da rotina, do planejado. Por mais previsível que eu te achasse, com você sempre existia a possibilidade do sim e do não.
Lembro das várias vezes as quais você me disse que daria qualquer coisa para conhecer seu futuro, saber exatamente o que lhe era reservado. Pois eu sei o que me está reservado e asseguro-lhe, não é uma sensação boa. Você é capaz de recordar como eu argumentava ao seu desejo? Nenhuma pessoa é capaz de ser feliz sabendo o momento exato da própria morte. Eu sei o momento exato em que morrerei. Não será quando um "sim" falso escapar dos meus lábios no altar, nem quando brindar ao amor eterno com outra pessoa que não você, mas sim ao ser tocada por mãos ásperas e possuída por corpo forte e vigoroso, sem a suavidade das suas carícias e a maciez dos seus beijos. E depois de tudo, mesmo que eu não morra, jamais poderei pertencer a você novamente, porque as asas que você dizia ver em mim estarão manchadas para sempre e isso me fará morrer aos poucos, murchando e definhando, como uma rosa branca. Como aquela rosa branca.
Abra o medalhão. Vê? Dei vida a foto que tiramos no Natal. Não é uma lembrança, pois sei que você jamais esquecerá, é apenas um fragmento de nossas memórias, para fazê-la rir entre as lágrimas.
Sempre sua,
Narcissa"
O sol era apenas uma mancha amarelo água no céu quando Lily acordou. Movendo-se com cuidado, ela se livrou dos braços mornos que lhe cingiam a cintura e caminhou até a janela, afastando apenas uma ponta da cortina espiou a paisagem do outro lado dela. Havia neve cobrindo todo o chão, as árvores, o alpendre. Lily alegrou-se, surpresa, não com a neve, mas por ter parado de nevar. Conteve a respiração para não gritar e acordar Narcissa, voltou para a cama e sentou ao lado de sua bela adormecida, que se moveu, mas não acordou.
Sentiu que poderia perder-se observando-a dormir durante toda a manhã como já havia feito antes, mas não aquela manhã, não quando poderia observá-la rir e perder em uma guerra de bolas de neve.
Apanhou a ponta de uma mecha do próprio cabelo e, como se fosse um pincel, passou-a sobre as bochechas, o contorno do nariz e finalmente sobre os olhos de Narcissa, até que ela os abriu, ainda sonolenta, deixando um sorriso escapar dos lábios. Erguendo os braços, abraçou Lily contra si de forma possessiva e depositou beijos curtos, desde a curva do pescoço até as faces sardentas. Sentindo que estava ficando novamente sonolenta, a ruiva ponderou que talvez fosse melhor permanecer na cama, mas Narcissa, olhando curiosa o quarto a seu redor, pôde perceber, através de uma fresta na janela, que a luz do sol era visível e sentou-se na cama apoiando as costas nas grades da cabeceira.
- Lily, sua preguiçosa. – Murmurou.
- Hnm... Aqui está tão quentinho. Só mais um pouco, vai? – Como Narcissa fizesse menção de se levantar, Lily a segurou pelo pulso. – Aonde você pensa que vai?
- Ia preparar o café da manhã, mas você não me parece estar com fome. – Retrucou sorrindo em deboche.
- Você é sempre tão má? – Ronronou soltando-a.
- Pior quando estou com você. – E se afastou saindo do quarto.
Lily se cobriu uma última vez, para logo em seguida levantar e começar a apanhar as roupas no chão. Tentou lembrar-se em que dia estava e descobriu que era véspera de Natal. Lembrou dos pais e uma pontada de culpa a invadiu. Mentira para eles, por eles e também para proteger a si e a Narcissa. Se descobrissem sua ligação com ela, não importar-se-iam em esquecer que era a única bruxa na família, família da qual seria cruelmente excluída, para a satisfação de sua irmã, pois seria considerada uma pecadora, uma vergonha, uma aberração. Se eles soubessem, o mundo saberia e sua vida estaria acabada. Sua e de Narcissa.
Decidiu parar de pensar em coisas tristes e concentrar-se no presente do seu anjo. Era melhor entregar logo, antes que voltasse a nevar – pensou.
-Narcissa! – Choramingou Lily, limpando a neve a face afogueada.
- Que foi?! A idéia foi sua. – Respondeu a loira, zombando da outra e já formando mais uma bola de neve.
- Mas não é justo! – Reclamou a ruiva, com as mãos enluvadas cobrindo o rosto.
Aproximando-se Narcissa as removeu lentamente. Temerosa Lily permaneceu de olhos fechados, até que os lábios rosados da outra pousaram rapidamente nas maçãs do seu rosto e, como uma borboleta, alçaram vôo. Rindo a ruiva exibiu os dois orbes verdes sorridentes.
- Você quem quis brincar disso... – Falou Narcissa calmamente.
Com resposta Lily lhe mostrou a língua, tentando parecer mal criada e correu para longe dela. Surpresa, Narcissa apenas ficou a olhá-la de longe até que sua curiosidade a obrigou a seguí-la.
Os passos de Lily na neve seguiam por um caminho entre as árvores – pinheiros – que tinham suas folhas substituídas por grandes poções de neve. Ao final deste, Narcissa sabia haver uma clareira.
Lily a esperava sob uma casa aberta, com dois bancos embaixo, no meio do caminho, provavelmente projetada para o descanso de viajantes. Sabia que Narcissa já conhecia aquele lugar, pois em algum momento da infância fora levada lá, mas agora estava muito diferente.
Olhando para a única pessoa que a fazia sentir-se segura e completa, mesmo que caindo em um abismo sem fim, Lily sorriu satisfeita consigo mesma. Os olhos de Narcissa brilhavam embaçados pelas lágrimas, mais azuis que um céu sem nuvens em um dia ensolarado, ao ver as dezenas de flores que, em meio à neve, desabrochavam. Dálias, crisântemos, tulipas e pequenos miosótis exalavam aromas que se misturavam ao ar gélido da manhã. Lily sentiu-se ficar trêmula, estava ansiosa, será que ela tinha realmente gostado?
- Como... como você...?
- Seu presente de Natal e, como costume, não posso contar como consegui. – Falou um pouco embaraçada. – Você gostou?
Narcissa riu derramando as lágrimas em seus olhos.
- Se eu gostei?! Foi o presente mais belo que já ganhei em toda minha vida!
- Que bom – Disse Lily escondendo algo com as mãos atrás de si. – Então você não vai se importar quando eu lhe disser qual a única flor que não consegui eternizar.
- Como assim? Você quer dizer que todas elas são para sempre? – Inquiriu Narcissa incrédula.
- Na verdade, não durarão para sempre. Com qualquer outro feitiço... quando eu morrer elas murcharão. Mas supus que isso não irá acontecer tão cedo, então durarão por um período de tempo razoável.
- Ah Lily... é tão perfeito!
Mostrando o que escondia nas mãos, a ruiva continuou.
- Para você. Não consegui fazer com que ela permaneça sempre bela como as outras, logo a que eu mais queria que durasse.
- Uma rosa branca? Mas por quê?
- É a que mais se parece com você. – Fez uma pausa depois de entregá-la. – Olhe, retirei eu mesma os espinhos.
Narcissa abraçou Lily agradecida, entendendo o que ela queria dizer. Chorando soluçou contra os cabelos vermelhos, como as tulipas de seu jardim. A ruiva apertou-a contra si tentando oferecer-lhe o que ninguém mais a oferecia – amor.
