Parte 2

Eu me lembro claramente de quando comecei a questionar minha sexualidade. Eu tinha quinze anos e David era um ano mais novo. Eu estava esparramado na minha cama, fazendo a lição de casa, e David de repente entrou no quarto, bufando.

Ele parecia irritado quando bateu a porta atrás de si, fazendo-me quase pular para fora da minha pele.

Eu olhei para ele e parei de escrever. David estava furioso e jogou sua mochila no chão. "EU NÃO POSSO ACREDITAR NISSO!" ele vociferou, apontando para ninguém em particular. "EU NÃO POSSO ACREDITAR NISSO!!"

"Acreditar no quê?" eu perguntei, levemente confuso, enquanto David começava a andar de um lado para o outro do meu quarto, balançando a cabeça em frustração.

"Você sabe o que aquelas garotas próximas ao meu armário me perguntaram?"

"Ajudaria mais se você parasse de me fazer adivinhar e me contasse."

David rolou os olhos enquanto se sentava na ponta da minha cama. "Elas perguntaram se nós estávamos juntos."

O silêncio seguiu-se. Eu derrubei minha caneta e ela rolou pelo chão, criando esse efeito melodramático que eu não estava antecipando.

"Wow, wow... Espere apenas um maldito minuto. Elas perguntam se nós estávamos… O QUÊ?"

"Juntos. Elas pensaram que nós estávamos juntos como em namorado-e-namorado, você sabe, encontros?! Que ousadia dessas garotas, huh?"

Eu realmente tentei não rir, mas falhei miseravelmente.

"Isso é... Isso é... Insano. Essa é a maior merda que eu já ouvi em toda minha vida!" eu ri mais ainda.

David me encarou, como que me dizendo para calar a maldita boca.

"Desculpe, D. Por que elas pensariam que nós estamos juntos, em primeiro lugar? Você disse à elas que eu era seu namorado? Você tem ficado perto de mim por tanto tempo..."

"Eu gostaria de dizer que eu não fiz isso! E é cruel da sua parte, Pierre, pensar que eu tenho ficado perto de você esse tempo todo, só porque eu alimento alguns sentimentos platônicos por você."

Eu dei de ombros. "Talvez seja por isso?" David mostrou a língua e deu uma pancada na minha cabeça com um dos meus cadernos. Eu ri alegremente.

Ele se deitou próximo de mim na cama, seus braços sob a cabeça assim que ele começou a olhar para o teto com estrelas de plástico coladas nele. "Você quer saber o real motivo de eu ter ficado por perto por tanto tempo?" ele perguntou tranquilamente.

Eu olhei para ele, fitando assim o lado do seu rosto. David deitou-se de lado para poder olhar em meus olhos. Um impenetrável sorriso brincando em seus lábios.

"Por que eu sou gostoso?" eu perguntei indevidamente. David balançou a cabeça e rolou os olhos.

"Bem, além disso, há outra razão."

"Que é...?"

"Você é muito legal comigo." Ele disse num sussurro quase inaudível e, então se aproximou mais e correu seu dedão por minha bochecha; tão perto que eu estava subitamente dominado pelo cheiro do seu cabelo - maçãs - e por aquele olhar convidativo que gritava 'venha até aqui!'.

Ele estava tão perto que eu podia sentir sua respiração contra meu rosto, quente e suave, fazendo-me estremecer involuntariamente. Eu fechei meus olhos e tentei bloquear a louca vontade de beijá-lo, porque não importa o quão idiotamente errado isso soe, parecia ser a coisa mais certa a se fazer no momento.

Quando eu abri meus olhos, David ainda estava lá. Sua mão abandonou meu rosto e caiu para meu braço. Ele estava quieto e parecia incerto. E é como aquelas coisas que você faz por impulso, como gritar quando você alcança o ponto mais alto de uma montanha russa e está preste a mergulhar trinta metros até o chão, ou como quando você corre pelos corredores do colégio usando apenas suas boxers; a sensação de vertigem e adrenalina todas juntas em uma.

Eu fechei meus olhos e me aproximei rápido, meus lábios tocando os de David. Eu o beijei. Os lábios dele eram macios. Os lábios dele eram suaves. Os lábios dele se moveram contra os meus. E, então, eu percebi o quão errado era beijar seu melhor amigo, seu melhor amigo muito masculino, e me afastei rápido, o que me fez cair para o chão.

"Oh, meu Deus, isso não aconteceu!"

"Oh, meu Deus, isso não aconteceu!" nós falamos ao mesmo tempo.

Eu parei e esfreguei minha cabeça. Os olhos de David estavam correndo ao redor do quarto loucamente, enquanto ele saía rapidamente da cama. Ele tocou seus lábios e ofegou.

"Oh, Deus, o que aconteceu?" David perguntou, seus olhos parecendo mais aterrorizados do que eu jamais vi.

"Eu não sei! Não foi minha culpa! Você estava deitado tão perto e seu cabelo cheira realmente bem e, de repente, eu estava pensando sobre o quão legal seus lábios pareciam e, então, você me beijou!"

"Eu te beijei? Você que me beijou!" David se defendeu.

"O quê? Não, eu não! Você que começou!"

"Eu? Você se aproximou e veio até mim! Eu devia te processar por assédio sexual!"

"Você não faria isso!"

"Então, você admite! Você me beijou primeiro!"

"Si... Não, é claro que não! Quero dizer, isso é loucura! Por que eu iria querer te beijar, em primeiro lugar?"

"Não me pergunte. Isso é problema seu! Não sou eu que saio por aí beijando as pessoas." David bufou novamente.

"O qu..." e, então, David estava me encarando e o seu cabelo caído sobre sua testa. Ele parecia realmente, realmente atraente; tanto que eu calei a boca e comecei a sentir meus joelhos tremerem sob mim. Seus braços estavam cruzados e ele parecia muito, você sabe, fofo.

"David... Ah, Deus." E, então, eu o estava beijando novamente e pondo meus braços ao redor de sua cintura. A boca dele era quente e úmida e ele estava fazendo todos esses barulhos com a garganta, que estavam me excitando. Eu quase vim nas minhas calças.

Eu tentei achar a voz da razão na minha mente, mas falhei novamente. Isso era errado, mas soava tão certo. Eu inclinei a cabeça dele e movi minha boca por seu queixo, chupando o canto de seus lábios, antes de descer para seu pescoço...

"Oh, Deus, mas que merda eu estou fazendo?" eu subitamente parei e questionei a mim mesmo. David se afastou e cobriu os lábios inchados com ambas as mãos. Ele parecia alarmado e confuso ao mesmo tempo. Ele estava respirando pesadamente e me olhando de cima a baixo como se eu, de repente, tivesse uma terceira mão.

"Oh, meu Deus, nós nos beijamos!"

"Oh meu Deus, eu beijei meu melhor amigo!"

"Isso..." ele gesticulou vagamente em direção a nós dois. "Isso não aconteceu e nunca vai acontecer novamente. Puta merda, Pierre, eu sinto muito. Jesus, eu não pretendia... Eu não pretendia…"

"Não, escute, David, foi minha culpa por estragar as coisas." Eu expliquei calmamente, ou, pelo menos, no que eu esperava ser uma maneira calma. Eu ainda estava me recuperando do choque inicial que nosso beijo trouxe. Não era todo dia que você beija seu melhor amigo cheio de testosterona. "Não, ah Deus, não chore. Desculpe. Meu Deus. Por favor, não chore!"

Mas David já estava chorando. Ele parecia realmente lamentável, para não mencionar, confuso. David só chorava quando sentia que era o fim do mundo pra ele. Eu só o vi chorando uma vez no passado e isso foi quando ele machucou a perna esquerda em um acidente de skate, mas isso era um caso completamente diferente.

"David, por favor." Eu tentei, abrindo meus braços num convite mudo. David balançou a cabeça, mas eu o apertei em um abraço ainda assim. Veja, David era como um pequeno gatinho. Com imensos e molhados olhos castanhos. Com um macio e pequeno ronronado. Ele era uma criatura que almejava constante contato físico, uma pessoa de modos espalhafatosos e irresistíveis. Ele precisava ser amado, sempre observado, abraçado ou, ao menos, um afagado em sua cabeça para se sentir agradecido.

E quando ele estava deprimido, basta abraçá-lo um pouquinho e ele será todo sorrisos novamente.

"Pierre... Eu prometo que isso nunca mais vai acontecer." Ele se desculpou, me fazendo sentir muito culpado. Quero dizer, fui eu quem o beijou, afinal. David não era o culpado. Eu era.

Mas em vez disso, eu falei "Eu te desculpo." Eu não queria confrontar minha sexualidade e eu tinha uma certeza dos infernos que eu não queria perder David quando chegasse a hora da verdade.

Eu era gay. Ou bi. Ou apenas inepto.

Mas de volta para a situação presente. Eu olhei para a cabeça de David sobre meu peito. Ele estava pacificamente adormecido, enquanto eu estava tendo dificuldades com as molas do sofá nas minhas costas. Na próxima vez, eu vou lembrar Jeff de não escolher móveis tão ruins.

Minha mão esquerda estava começando a formigar e David estava, lentamente, se fazendo confortável sobre mim. Ele estava me tratando como uma almofada humana, aconchegando-se ainda mais em mim e no calor procurado.

Eu juro por Deus que ele quase soltou um ronronado.

"Ah, Deus, eu realmente estou apaixonado por você." Eu admiti vergonhosamente quando notei por quanto tempo eu fiquei olhando para ele. David começou a se agitar.

...Merda.

Erguendo a cabeça lentamente, ele me ofereceu um sorriso preguiçoso. "Hey, P." Então sorriu e se ajeitou de modo que sua cabeça ficasse deitada no meu ombro em vez de no meu peito.

"Você ficou me observando esse tempo todo, novamente, não é?"

"Uh, bem... Eu... Uh…" eu gaguejei como um completo idiota.

"Desculpe. Eu não posso fazer nada se sou tão gostoso." Ele riu calmamente para si mesmo. Eu suspirei em alívio. Por um minuto, eu pensei que ele soubesse.

"Pierre?" David chamou novamente.

"Yeah?" a respiração dele estava batendo na minha orelha e me fazendo arrepiar.

"Eu preciso fazer xixi."

Eu parei de me arrepiar. "Oh."