Uma das últimas coisas que os alunos vadiando nos terrenos esperavam ver era Sirius Black passar pelos portões do castelo a passos largos, usando vestes pretas empoeiradas e com o lado do rosto manchado de sangue seco.
O pôr-do-sol se adiantava; o banquete de despedida fora interrompido pelo desmaio inexplicável do diretor e todos ainda tentavam descobrir o que acontecera. Apesar de Harry ser o único aluno que teve permissão de ficar durante aquela situação misteriosa, devido ao seu relacionamento incomum com o diretor, até mesmo ele não entendia o que acontecera. Tudo que sabia era que Remus dissera que o Ministério fora destruído e que a fênix de Dumbledore viera para Hogwarts -- mas como Remus podia saber sobre o Ministério? Ele caíra e ficara ali em silêncio por tanto tempo, e era impossível destruir o Ministério da Magia. Todo mundo sabia disso.
Harry estremeceu de repente. Seus pais estavam no Ministério, assim como Peter e muitos outros... Mas o Ministério era impenetrável. A segurança dele era a melhor. Engoliu em seco. Se era impossível, porque sentia tanto frio?
Ver Sirius não ajudava em nada. O padrinho que ele passara a conhecer recentemente parecia diferente de como Harry o via; estava frio agora, sem expressão e implacável. Sirius de repente parecia perigoso, e ele se movia com passadas longas e cheias de propósito, atravesando o terreno como se seus olhos não visse nada e tudo ao mesmo tempo. Seu olhar era distante e furioso, e Harry nunca vira uma pessoa mover-se com um poder e presença tão inconsciente. Por um momento, foi quase aterrorizante ver, mas então lembrou-se de que era Sirius, seu padrinho e melhor amigo do pai. Não havia nada a temer.
Outros não pareciam concordar quando Harry correu para interceptar Sirius; sussurros vinham de quase todos os estudantes no terreno. Ninguém sabia o que pensar ou que fazer. Harry escutara a exclamação chocada de Hermione atrás dele, mas ignorou-a e se apressou para alcançar o padrinho.
"Sirius!"
O Auror parou e só pareceu notar Harry quando ele o ouviu falar. Sua estava irritada. "Agora não, Harry."
Harry deteve-se, incapaz de acreditar no que ouvira. "O quê?"
"Não tenho tempo." Brevemente, Sirius esticou a mão e apertou o ombro de Harry, mas mesmo aquele movimento parecia distraído e distante. Os olhos azuis ficaram mais escuros. "Depois."
"O que está fazendo aqui, Black?" Uma voz fria de repente soou, e Harry virou-se para ver Snape se aproximando. Sirius, contudo, não ficou parado; em vez disso, movimentou-se de novo, andando direto para o terror com nariz de gancho de Hogwarts.
"Preciso falar com o diretor, Snape."
Algo flutuou nas feições do outro; seu rosto estava rígido. "Ele está descansando."
"Isso é importante." Harry nunca vira Sirius tão frio. "Não estaria aqui se não fosse."
"No momento, não me importo nem um pouco," Snape resmungou. "Não acredito que entenda a situação--"
"Não, não acho que você entenda," Sirius interrompeu-o, e de repente deu uma olhada no vice-diretor com uma nova preocupação. "A menos que não saiba--"
A idéia surgiu no rosto de ambos ao mesmo tempo e Snape empalideceu. Sua voz era somente um sussurro assustado, e Harry duvidava que qualquer um além dele conseguisse ouvi-lo. "O Ministério."
Sirius assentiu grosseiramente. "Podemos ter problemas maiores do que eu pensei."
Dentro das horas seguintes, os alunos foram enviados para casa -- um dia mais cedo e sem explicações -- no Expresso de Hogwarts. Todos os alunos, exceto por alguns, e Harry se descobriu junto com os Weasley, entre outros. Neville Longbottom também ficou e vários outros -- todos os quais, Harry suspeitava, tinham pais na Ordem da Fênix. Apesar de discutirem as circunstâncias entre eles, nenhum conseguia descobrir o motivo de sua presença, a não ser que houvesse um perigo apra eles, como filhos de membros da Ordem. Mas nenhum deles podia entender o que o Lorde das Trevas iria querer com um bando de bruxos e bruxas menores de idade.
As coisas começaram a ficar mais interessantes quando a maioria dos professores foi embora naquela noite e os pais deles começaram a chegar algumas horas depois.
Harry quase não viu sua mãe quando ela chegou ao lado de Molly Weasley; ele nunca vira a sua mãe e a Ron juntas e quase não reconheceu as feições cansadas e tensas. Não longe da dupla, Bill Weasley ajudava o pai; o pai de Ron caminhava mancando. Antes que poder chegar ao lado da mãe, porém, ele viu Sirius se dirigir a ela.
"Como ele está?" o padrinho de Harry perguntou imediatamente.
Lily deu de ombros, parecendo muito velha e cansada. "Não sabem ainda..." ela engoliu em seco. "Os Aurores que você deixou com ele ainda estão lá."
"Bom." Sirius voltou-se para o homem baixo ao lado de Lily. "Ouvi dizer que você foi bem hoje, Peter."
O bruxo loiro franziu o cenho e balançou a cabeça; "Não o suficiente."
Finalmente, Lily pareceu notar o filho enquanto Harry esperava com impaciência crescente. Ela falou sem preâmbulos. "Tenho más notícias, Harry."
"É o papai?" Ele não era idiota o bastante para não notar a ausência do pai e desejava não ter a sensação horrível de que sua mãe e Sirius estavam falando de ninguém mais do que James Potter. Harry engoliu em seco nervosamente. Só porque pai parara no hospital antes não tornava as coisas mais fáceis...
"Ele está no St. Mungo's," sua mãe confirmou baixinho. "Houve um ataque no Ministério..."
Mesmo enquanto uma sombra passava nos olhos dela, Sirius esticou a mão para segurá-la pelo cotovelo e interrompê-la. "Precisamos entrar, Lily," ele disse baixinho. "Remus e os outros estão esperando."
"Mas o que tem o papai?" Harry quis saber enquanto sua mãe assentia trêmula. Estranhamente, foi Peter quem respondeu.
"Eu estava no St. Mungo's com ele, Harry," o homem baixo disse calmamente. "Eles tem certeza de que ele viverá, mas agora... agora, ele não consegue andar. E não têm certeza se conseguem consertar o que está errado."
Harry sentiu o estômago afundar. "Ele não consegue andar?"
"Não sabemo se é permanente," Sirius interveio, e pela primeira vez, Harry notou as linhas profundas nos olhos dele. "Os curandeiros ainda estão trabalhando."
"Ah."
Havia tanto que ele queria perguntar, mas algo no rosto de Sirius impediu Harry de fazê-lo. A expressão exausta da sua mãe só aumentava a preocupação de Harry, porém, e apesar de saber que não era a hora de fazer perguntas, jurou que as faria depois. Não era ignorante, afinal de contas, e era seu pai que estava no hospital. Se alguém merecia saber, Harry achava que era ele.
Não tinha idéia, contudo, de como as coisas estavam para ficar complicadas.
Era a primeira vez que toda a Ordem da Fênix se reunia desde os primeiros dias da guerra contra Voldemort. Enquanto os anos passavam, a Ordem se tornara muito grande e muito secreta, para se reunir num local; o tempo permitira que o Lorde das Trevas enfiasse espiões em seu meio, enquanto a Ordem colocasse os dela na presença dele. Eles não foram capazes de arriscarem-se antes, mas nesse momento, parecia haver muito mais a perder. Espiões ou não, tinham que agir.
Nem oito horas tinham se passado desde o ataque ao Ministério e a Ordem da Fênix se reunia no Grande Salão de Hogwarts. A escola era o único local impenetrável que sobrara para eles; com a queda do Ministério, nenhum outro lugar era seguro. Assim, rostos temerosos fitavam-se, sem idéia e desesperançados. Todos estavam completamente cientes da ausência uma pessoa da Ordem: Albus Dumbledore. Ninguém, porém, conseguia imaginar a Ordem da Fênix existindo sem a guia ou força do bruxo lendário. Precisavam dele agora, mas ele não estava lá. Poucos, portanto, esperavam que um bruxo de cabelos castanhos e magro se adiantasse e tomasse seu lugar. Aos trinta e dois anos, Remus Lupin eram jovem demais.
"Obrigado a todos por terem vindo tão rápido," ele disse calmamente, engolindo em seco quase imperceptivelmente. "Mas agora, tenho certeza de que já ouviram os boatos."
"No fim desta tarde, o Ministério da Magia foi atacado por Lord Voldemort e seus seguidores. Não sabemos quantas pessoas morreram no ataque, mas sabemos que muitas bruxas, bruxos e trouxas foram assassinados por Comensais da Morte e Dementadores. Agora, o noticiário trouxa está dizendo que foi um ataque terrorrista. Não têm explicação para os sem alma vagando pelas ruas de Londres."
"Nós sabemos, contudo, que Albus Dumbledore e Arabella Figg estão entre os mortos. Assim como muitos dos chefes de Departamento do Ministério. Os únicos dois que fomos capazes de contactar são Cornelius Fudge, chefe do Departamento de Catástrofes Mágicas, que estava de férias com a família; e James Potter, Chefe do Departamente de Execução das Leis da Magia, que está atualmente sob tratamento no St. Mungo's. Por agora, nosso governo é inexistente."
Remus pausou e respirou fundo; Sirius podia ver a exaustão no rosto dele e notou que Snape e Fletcher o observavam cuidadosamente. Remus não fora capaz de explicar muito sobre o que acontecera antes -- não houve tempo, mas Sirius sabia que ele tivera uma visão e desmaiara. O que os assustava mais, porém, era que Remus vira o Ministério desmoronar e soubera que Dumbledore morrera no momento em que Fawkes chegara. Quase tão preocupante era o fato da fênix ter vindo para Hogwarts -- para Remus -- e ambos sabiam o que aquilo significava.
"E assim cabe à Ordem da Fênix continuar a guerra," o diretor continuou baixinho. "Até que o Ministério seja reformulado, nós somos tudo que resta. Depois de conferenciar com o Círculo Interno, eu assumirei a liderança da Ordem." Os olhos dele varreram a multidão reunida. "A menos que exista alguém que ache que eu não deva."
Silêncio encontrou suas palavras. Poucos na Ordem sabiam sobre a Fonte, mas reconheciam que Remus tinha mudado. A diferença era óbvia, mesmo para olhos desavisados; e quando Fawkes flutuaram graciosamente para aterrisar no ombro de Remus, a decisão foi feita. A fênix escolhera Remus J. Lupin. O misterioso e desconhecido Círculo Interno concordara. A Ordem seguiria.
"Obrigado." A voz calma de Remus ecoou no silêncio e então ele se voltou ligeiramente e assentiu para Sirius. Após respirar fundo, ele se adiantou, lutando para tirar o franzir de cenho do rosto. Detesto isso, pensou acidamente. Detesto o jeito que os olhos deles me seguem, esperando que eu tenha as respostas só porque fui imbecil o suficiente para enfrentar Voldemort e sobreviver. Essas pessoas deviam saber melhor. Resistiu à necessidade de engolir em seco. Havia rostos demais faltando na multidão, dos presumivelmente mortos àqueles hospitalizados como James e Alice Longbottom. E como muitos de seus Aurores.
"Na ausência de James, assumi o comando dos Aurores. Apesar de termos perdido vários, provavelmente somos a única divisão do Ministério que não foi totalmente destruída pelo ataque. Agora, tenho Aurores cuidando dos dois chefes de departamento sobreviventes e à noite, procuraremos nos destroços por sobreviventes. Até agora, houve bem poucos."
A tristeza e o medo se refletiu em todos os rostos enquanto Sirius pausava para estudar a audiência. Cada um sabia dos riscos quando se juntaram à Ordem, mas ninguém esperara isso -- nem mesmo Dumbledore. Dumbledore. Sirius piscou. Peter lhe contara do aviso repentino do idoso e Lily relatara suas últimas palavras à Voldemort -- "Está na hora, Tom." Ele soubera? Poderia saber? Sirius estremeceu, pensando na escuridão que devia ter vivido a mente do idoso e esprava que ele tivesse finalmente encontrado a paz. Se ele sabia, por que o fez? Por que escolheu morrer?
Essa era a triste verdade: Dumbledore poderia ter sobrevivido. Poderia ter escapado. Em vez disso, escolhera morrer. Estava na hora? Ele se sacrificou por outros, mas ainda assim, Sirius sabia que o velho bruxo era esperto o bastante para fazê-lo se ainda fosse necessário... o que significava que Dumbledore achava que não precisavam mais dele. Sirius engoliu a risada amarga que ameaçava surgir sem aviso. O que ele conseguira, além de deixá-los sem líder e sem leme numa tempestade? Tinha que haver mais alguma coisa. Dumbledore nunca fazia nada sem motivo. Sirius só não conseguia ver ainda.
"Pedi a vocês para virem aqui hoje para não deixá-los perder a esperança," Remus finalmente continuou, "para ajudá-los a entender o que será exigido da Ordem neste verão. Voldemort teve uma vitória, mas não ganhou a guerra ainda, e se ficarmos juntos, sobreviveremos."
A aurora encontrou o esqueleto do Círculo Interno no escritório de Remus. Todos os cinco estiveram acordados por toda a noite e Lily parecia a pior. A morte de Dumbledore a afetara com força, Remus sabia; na verdade, a ausência do idoso fora sentida por todos, principalmente Severus. Remus compreendia que seu vice-diretor sempre sentira uma ligação especial com o velho diretor; Dumbledore fora quem o aceitara, confiara nele -- dera a Snape uma segunda chance. Remus engoliu em seco. Ele dera a tantas pessoas uma chance... e com tanta freqüência negara-as para si mesmo. Não havia ninguém naquele aposento que não devesse algo a Dumbledore.
Fawkes, no canto, ainda sofria em silêncio, dando um tom pesado e triste à reunião. Enfim, quando Remus não conseguiu mais agüentar o silêncio, limpou a garganta. Começou hesitante, "Sinto muito por mantê-los até tão tarde."
"Duvido que alguém teria dormido de qualquer maneira," Severus comentou secamente. O bufo de resposta de Dung revelava que estava de acordo e Lily só fitou suas mãos, assentindo exausta e deprimida.
"Hoje não é uma noite para se dormir, de qualquer forma," Sirius concordou de onde estava fitando pela janela. "Há muitas perguntas não respondidas."
Fletcher assentiu cansado. "Concordo."
"O que me preocupa," Lily finalmente interveio baixinho, "é que você, Severus, não sabia sobre o ataque antes da hora. Parece implicar uma certa falta de confiança da parte de Voldemort."
Snape bufou. "Você quer dizer que ele suspeita de mim," ele replicou direto. "Não tem motivo para florear a verdade."
"Bom, sim." Lily deu de ombros na forma de desculpas.
"Mas por que? Ou como?" Fletcher se perguntou.
"Poderia ser por centenas de motivos," o Comensal da Morte respondeu. "Ou só -- possível, mas improvável -- um descuido por parte do Lorde das Trevas."
"E se ele souber que você é um espião?" Remus perguntou calmamente.
"Acho que vou descobrir se sobreviver na próxima vez que ele me convocar." a voz de Severus era seca, mas o diretor podia ver a preocupação por trás dos olhos escuros. Estavam jogando um jogo de apostas altas, Remus sabia, e qualquer passo em falso significava a morte.
"Isso não é muito recorfontante," Lily replicou.
"Não era para ser."
"Temos outros problemas também," Sirius de repente interveio, fazendo Remus franzir o cenho.
"O que é?" ele perguntou..
"Quando falei com Fudge mais cedo, ele especificadamente me perguntou quem ia concorrer como Ministro da Magia," o Auror replicou sombriamente. "Disse a ele que não era a hora de se preocupar com isso e tirei minha cabeça do fogo o mais rápido possível. Mas ele está interessado."
"Ah, maravilha," Lily murmurrou.
Fletcher grunhiu com desgosto. "Fudge é o babaca mais ambicioso que já conheci. Se ele conseguir o cargo, é melhor nos rendermos logo!"
"Por isso que Malfoy e todos os Comensais influentes apoiarão ele," Snape lembrou-os, ganhando olhares furiosos em troca de seu comentário. Antes que alguém pudesse perder a cabeça, Remus interveio.
"E é por isso que não podemos permitir que isso aconteça," ele respondeu com bem mais calma do que sentia. "Portanto, precisamos lançar um candidato nosso -- de preferência alguém que seja da Ordem."
"Isso torna a lista curta, Remus," Dung comentou. "Principalmente se quer alguém do Círculo Interno."
"A menos que botemos Lily," Sirius de repente disse com um sorriso pálido, fazendo a cabeça dela levantar-se de supetão e sua voz esganiçar.
"Eu?"
Remus sentiu um sorriso se agarrar nos cantos de sua própria boca; Sirius lera sua mente. "Quem mais?" ele perguntou. "Você provavelmente sabe mais do cargo do que o resto de nós juntos. Há quanto tempo é a secretária de Dumbledore? Oito anos?"
"Essa não é a questão," Lily objetou. "Não sou política. Nunca assumi um cargo--"
"Nem Dumbledore."
"Isso, Remus, é só um pouquinho diferente." Os olhos verdes de Lily estavam finalmente acordados, contudo, enquanto ela fitava cada um deles. "Olha, estou comovida pela confiança, mas eu trabalho nos bastidores, lembra? Sou oficialmente uma secretária, nada mais -- e não posso dar às pessoas a confiança que vocês vão precisar." ela engoliu em seco. "Vocês precisam de alguém bem mais conhecido que eu para isso."
Remus começou a abrir a boca para responder, mas foi interrompido, muito para sua surpresa, por Severus. "E quanto a James?"
"Como?"
A resposta fora instintiva, mas após um instante, a idéia começou a crescer em Remus. James. Ele nunca teria pensado no amigo, mas James era bem conhecido, e era forte o bastante para fazer o que tinha que ser feito. Muitos no mundo bruxo consideravam James um herói; ele liderara os Aurores por anos e de certo modo conseguira sobreviver a tudo, até mesmo a cruzada de Voldemort para acabar com sua vida. Além do mais, ele era esperto, poderoso e membro do Círculo Interno. James possuía todos os requisitos que Remus podia pensar num Ministro da Magia ideal e ele já era um chefe de departamento, então podia encarar Fudge de igual para igual.
"Sabe," Lily disse baixinho, seu rosto em concentração, "isso pode funcionar."
"Seria a solução perfeita também," Dung considerou. "Quero dizer, não podemos exatamente usar Remus, então... Sem ofensa." Remus só deu de ombros em resposta a olhar de desculpas de Fletcher, entendendo que sua condição impedia a Ordem de ter o chefe como Ministro da Magia de novo. Além disso, ele nunca quisera deixar Hogwarts, mesmo se isso fosse possível. Era quase um alívio não ter que se preocupar com novas responsabilidades.
"Esperem um instante," Sirius interrompeu, afastando-se da janela e apoiando-se da parede de forma cansada. Sua mãos estavam enfiadas nos bolsos e o rosto ainda arranhado um pouquinho -- ele não se incomodara em tratá-lo ainda -- mas suas voz era sombria e enfática. "Temos que perguntar a James antes de começar a planejar qualquer coisa."
Severus deu-lhe um olhar cansado que não chegava nem perto de seu padrão normal. "Claro que vamos," ele retorquiu, rolando os olhos. "Contudo, creio que a questão agora é se vai funcionar ou não. Se Fudge conseguir começar cedo e começar a ganhar apoio, toda essa conversa será à toa."
"Não vai ser." Sirius sorriu cansado, e todos olharam para ele. Remus sentiu suas próprias sobrancelhas erguerem-se, em dúvida -- seu amigo não conhecia realmente Fudge e não tinha idéia de quão ambicioso o político podia ser -- mas era um brilho malicioso nos olhos de Sirius? Ele sabia de algo e Remus abriu a boca para perguntar, mas seu vice-diretor passou à frente.
"Perdõe-me por dizer que o resto de nós não necessariamente compartilha sua confiança," Severus comentou secamente.
"Fudge não será um problema. Pelo menos não por enquanto."
"Tire esse sorriso estúpido do rosto então, e nos conte o por quê," Lily quis saber, irritada. Remus bufou, mas Sirius finalmente sorriu.
"Mandei Hestia Jones protegê-lo."
Remus não conseguiu evitar; caiu na risada. Após um instante, Lily também, que tentou esconder sua diversão repentina por detrás de uma tosse estrangulada, mas Dung e Severus só fitaram os três irritados enquanto Sirius ria cansadamente e explicava.
"Hestia não é exatamente do tipo que perdoa," ele riu. "Sob os olhos cuidadosos dela, Fudge não fazer nenhuma aparição pública, discursos pelo 'bem' do mundo bruxo nem agir em 'nome' do governo de nenhuma maneira. Ele ficará de férias, boas e seguras, onde ele pertence."
Dung bufou. "Excelente. Bem feito para o idiota."
"Realmente." Pelo menos desta vez, até Snape teve que concordar com Sirius e a idéia daquilo acontecer mais uma vez fez Remus sorrir. Mas a diversão instantaneamente desapareceu com o pensamento seguinte. O mundo realmente virou de cabeça para baixo, o novo líder da Ordem da Fênix pensou sombriamente.
Agora nós temos que descobrir como virá-lo de volta.
"Conversamos com Lee hoje," Fred disse de repente, assustando os outros em seu silêncio.
Harry ergueu os olhos. À sua direita, Rone Ginny (que chegara com os pais na noite anterior) tentavam se concentrar numa partida de xadrez bruxo -- e fracassavam totalmente. Até mesmo as normalmente detestáveis peças de xadrez da família Weasley estavam mais quietas do que o normal; pareciam sentir o humor prevalente na sala comunal da Gryffindor. Não muito longe, Neville lia um livro de herbologia, mas Harry podia jurar que o outro garoto não virara a página em uma hora. Fred e George sentaram-se à esquerda de Harry, trocavam olhares de vez em quando, mas no todo ficavam quietos. Os dois tinham originalmente planejado uma partida de Snap Explosivo com Harry, mas o jogo meio que esgotou-se, deixando-os num silêncio de pedra.
Percy, é claro, estava na biblioteca, tendo chamado os Gryffindors mais jovens de imaturos e tinha saído pisando duro trinta minutos antes. Mas eles não se importavam. Mesmo com o ano escolar oficialmente terminado, ele ainda tinha o hábito de agir como um monitor e continuava instigando-os a fazer algo de útil, embora o que ele quisesse dizer com isso ninguém sabia. Era, afinal, o início do verão e as crianças mais jovens estavam tendo uma dificuldade danada para tentar descobrir como iam passar o resto da tarde.
A torre da Gryffindor parecia tão vazia sem os colegas, tão vazia e morta. A empolgação deles sobre a chegada da Ordem da Fênix desvanecera; todos os seis foram rapidamente informados que eram "novos demais" para comparecer nas reuniões e teriam que achar um modo de ocupar-se. Até mesmo a mãe de Harry, que normalmente era muito mais aberta e informativa que a Sra. Weasley, manteve um silêncio inesperado e recusou-se a responder mais do que as perguntas mais básicas. Harry tentara valentemente arrancar informações da mãe, mas acabaram sendo mandados para fazer as malas, e em horas como essa, peças não eram muito divertidas. O castelo estava quieto demais e havia adultos demais à volta -- mas não era uma ocasião para piadas, de qualquer forma. Então se descobriram sozinhos no dormitório, desejando futilmente que Neville e Ginny não estivessem presentes; do contrário, os Travessos teriam pelo menos mergulhado no estudo de uma mapa singular que os gêmeos ainda tinham posse. Infelizmente, mesmo se considerassem contar a Ginny o segredo, ninguém queria contar a Neville. Então sozinhos eles se sentavam, esperando e se perguntando.
"Mamãe nos deixou chamá-lo pelo fogo," George explicou. "Ele está bem. Chegou em casa noite passada."
"Desculpem não termos contado antes," Fred se desculpou. "Mamãe estava meio receosa em nos deixar usar o fogo. Ficou falando em manter segredo."
"Ele vai poder voltar?" Harry perguntou baixinho.
A mãe de Lee era trouxa, todos eles sabiam, e desde a morte do pai dele, Reina Jordan dava dicas de que podia não permitir que Lee retornasse a Hogwarts para o quarto ano. Lee gritara em protesto, mas sua mãe estava compreensivelmente temerosa. Já perdera o marido para os Comensais e sabia que Lee, como o filho mestiço de um Auror, estava agora em um perigo extraordinário. Na sua mente, o melhor meio de protegê-lo era sair completamente do mundo bruxo, não importava o quanto a magia significasse para Lee.
Só de pensar nisso fazia surgir uma sensação enorme de vazio em todos os Travessos.
"Ele não sabe ainda," George respondeu depois de um momento, franzindo o cenho preocupado. "O Professor Fletcher conversou com a Sra. Jordan e Lee disse que a mãe ia pensar."
"E ele não puder?" Ron perguntou de súbito, sua voz bem baixa.
"A Sra. Jordan não pode simplesmente proibi-lo de voltar, pode?" Ginny quis saber infeliz, quando ninguém respondeu a pergunta de Ron. "Quero dizer, ela não entende que a magia dele não vai sumir, não importa o que ela faça?"
"Ela é trouxa, Gin. Ela não entende," Fred respondeu amargamente.
"Isso é uma porcaria," Ron grunhiu.
George pôs-de de pé de repente, resmungando impaciente baixinho e saindo pisando duro. Sua voz saiu zangada por sua de seu ombro. "Bem vindo ao mundo, irmãozinho. Nada mais é justo."
Bem depois da meia-noite, Bill Weasley notou uma figura alta vagando pelos jardins de Hogwarts. Sentado debaixo da sombra do castelo, Bill estava completamente invisível e observou curioso enquanto o outro bruxo pausava na margem do lago, fitando as águas paradas, parecendo perdido em pensamentos. Quando o outro moveu-se de novo, porém, modo manco como ele caminhava revelou sua identidade imediatamente. Apesar de não conhecê-lo bem, Bill sabia que Sirius Black nunca permitiria ser visto mancando; só se podia notar quando o famoso Auror não estava prestando atenção. Quando ele achava que estava sozinho.
Sua caminhada lenta era sem direção; claramente, a mente de Black estava em outro lugar. Observá-lo quase fez Bill sentir-se culpado porque sentia como se estivesse se metendo em algo que não era para ver. Mas antes que pudesse achar algo diferente para se concentrar, Black inesperadamente virou-se e caminhou na direção dele, não mais mancando. Mesmo na escuridão, Bill podia ver os incríveis olhos azuis claro focalizados nele, e estremeceu, lembrando-se de ver esse homem virar, bem calmamente, o corredor e enfrentar Lord Voldemort sozinho.
Nunca tinha realmente falado com ele, nunca realmente tivera a chance, embora sempre quisesse. Bill começou a se levantar, o que parecia ser o mínimo que podia fazer, mas Black acenou para que ele se sentasse.
"Não conseguiu dormir?" ele perguntou baixinho.
"Não." Vindo de outra pessoa, Bill teria dado uma resposta evasiva, mas se havia um homem que sabia o que ele passara, era Sirius Black. Como ele sobreviveu uma década nas mãos do Lorde das Trevas, nunca vou entender, o Auror pensou para si mesmo. Nem irei perguntar.
"Se importa se eu me juntar a você?" Black gesticulou casualmente para um ponto na grama à direita de Bill.
"Nem um pouco."
Bill observou pelo canto do olho enquanto o Auror se sentava. Havia uma estranha quantidade de cuidado nos movimentos de Black; num instante, ele parecia favorecer a perna direita e no seguinte possuía uma graciosidade inconsciente que não podia ser falsificada ou calculada. Contudo, o estudo de Bill sem querer revelou muito mais do que ele esperara inicialmente encontrar. No luar, as cicatrizes pequenas e sutis de Black eram fáceis de se notar; obviamente, ele fora tratado habilidosamente, mas como os demônios internos de Bill, as marcas externas do tempo de Black no inferno pareciam que nunca sumiriam. Havia uma cicatriz bem fraca que corria do topo da orelha esquerda até debaixo do queixo; Bill desviou o olhar antes que ele ficasse encarando, tentando resolver o quebra-cabeças. Ao fazê-lo, porém, chamou sua atenção para as marcas apagadas ainda evidentes nos dois braços de Black.
"Como faz?" Bill perguntou de repente e sem querer, afastando os olhos de algo que sentia não ser da conta dele. "Como lida com tudo?"
A cabeça de Black girou lentamente para encará-lo. "Feitiços Silenciadores, na maior parte."
"Quer dizer--" Bill piscou os olhos.
"Os pesadelos não somem, rapaz," o outro disse calmamente, suspirando e fitando à distância mais uma vez. "Você só aprende a lidar com eles... Ou talvez sua força de vontade. Espero que sumam, pelo seu bem. Mas se não..." Ele deu de ombros. "Não posso dizer que fica melhor, mas fica mais simples, se me entende."
"Não consigo me imaginar me acostumando com os pesadelos," Bill disse.
"Nem eu."
Sentaram-se em silêncio por um longo tempo, mas era de certo modo reconfortante. Desde seu resgate em Azkaban, Bill sentia que estava sozinho. Havia poucos que podiam entender os horrorres que assombravam seus sonhos e ainda menos aqueles que sabiam como ajudar. Seus pais tentaram, é lógico, mas Bill se descobrira estranhamente relutante em falar de suas experiências com eles. Pela primeira vez na vida, até mesmo o conforto da sua família não fora o bastante, porque uma escuridão vivia dentro dele que eles não podiam tocar. Antes do ataque, o Ministério também oferecera ajuda, mas Bill, como todos os prisioneiros, declinara. Não precisava de curandeiros mexendo na sua cabeça, tentando achar soluções que podiam não existir. De muitas maneiras, temia que o chamassem de louco.
"Você esteve lá por tanto tempo," ele sussurrou, fitando a escuridão. "Como conseguiu agüentar sem duvidar de si mesmo? Você o enfrentou... Não consigo nem me imaginar fazendo isso. E o mundo acha que você está bem. Todo mundo sempre fala como você é forte, e mesmo assim... como consegue fazer isso se sente como eu?"
Black bufou. "Ainda acordo no meio da noite, quando consigo dormir," ele admitiu. "É tudo uma questão de percepção -- e de escolha. Escolhi ser o que sou. Ninguém mais pode fazer isso por mim."
"Gostaria que fosse tão simples para mim," Bill replicou desejoso.
"Não é?"
"Só não acho que sou tão forte."
Black finalmente voltou-se para fitá-lo de novo, arqueando uma sobrancelha, curioso. "Suas férias estão quase acabando," ele disse inesperadamente. "O que planeja fazer depois?"
Bill piscu. "Vou voltar para os Aurores, se me aceitarem."
"E por que?"
"O que mais eu faria?" Era difícil não fitar o homem mais velho de forma esquisita; Bill mal conseguia ver o sentido desse questionamento.
"Você pode fugir," o outro disse calmamente. Seu olhar pálido queimava no de Bill. "Pode tentar se esconder. Ninguém o culparia se escolhesse outro caminho."
"Mas--"
"Mas ainda assim você escolhe ficar," Black interrompeu facilmente. "Conte-me por quê."
"Porque quero fazer minha parte," Bill respondeu com um franzir de cenho. "A guerra é mais importante do que como me sinto."
Black riu suavemente. "E você diz que não entende porque eu faço o que faço."
"Eu -- é," ele suspirou. "Acho que sim. mas gostaria de saber como superar." Qualquer um que não tivesse estado em Azkaban poderia não ter compreendido todas as camadas envolvidas naquela palavra simples, mas o aceno de cabeça de Black dizia que ele sabia. Os pesadelos não eram só sobre tortura. Não eram só causados pela presença constante dos Dementadores e ter revolvido as piores lembranças de novo e de novo. A sensação de solidão e desesperança eram bem mais duradouras do que quaisquer efeitos óbvios do inferno de Voldemort; havia uma sensação de frio que rastejava em você no meio da noite sem aviso e sempre havia a súbita sensação de que não podia fastá-la... Bill estremeceu, embora fosse uma noite quente.
"Você tem uma família que se importa com você," o bruxo mais velho disse baixinho. "Aproveite-se do amor deles. Eles escutarão, se você deixar."
Bill abriu a boca para protestar, mas Black balançou a cabeça.
"Ele não conseguem nem entender, não totalmente, mas você precisa deles. Quando está escuro e está sozinho, não é a determinação que te socorre... Você precisa de algo mais forte e mais profundo, um sentimento que não venha de você mesmo." De repente, Black afastou os olhos, e suas palavras seguintes eram vagas. "Baixa sua guarda é difícil, mas às vezes você precisa... mesmo quando te custa muito."
"Achei que..."
"Feitiços Silenciadores não funcionam com meus amigos." Black sorriu fracamente.
"Ah," foi tudo que Bill pôde dizer enquanto as palavras dele revolviam-se na sua cabeça. Por um momento, ficou tentado em discutir, principalmente considerando-se o comentário anterior de Black, mas então se lemvrou, quase irrelevantemente, dos seus anos em Hogwarts. Como calouro da Gryffindor, lembrava-se de ver quatro garotos, totalmente diferentes e mesmo assim incrivelmente unidos, e lemrava-se de como sempre pareciam compreender um ao outro. Aqueles quatro garotos agora eram adultos, é claro, e famosos que Bill raramente via juntos, mas havia algo na voz de Black que dizia que eles ainda eram muito mais do que pareciam.
"Confie na sua família, Bill," Black disse baixinho. "Em tempos como esse, são tudo o que você tem."
Título Original: Promisses Remembered - Chapter 02: Alone in the Dark
Autora: Robin
Tradução: Rebeka
