2.


Sarah se aproximou da janela da cabine e olhou o mar calmo do lado de fora. O mesmo mar que tinha ardido em chamas pelos últimos dois dias. Não se moveu quando Jesse entrou na cabine, como sempre sem bater.

-Ah, você está aqui. Não pode sumir assim minha querida. O que seus súditos vão pensar?

Revirou os olhos e deu as costas para a janela encarando o homem parado próximo a sua escrivaninha, se ela não o conhecesse tão bem acreditaria naquela pose de inocência. Mas como conhecia, sabia que ele estava ali para pedir alguma coisa.

-O que você quer agora?

-Agora? Assim Vossa Alteza Imperial machuca meu coração!

-Me poupe, Conselheiro Black. Até os crocodilos vertem lágrimas mais sinceras do que as suas. Diga logo o que quer e suma.

Jesse abriu um sorriso cheio de dentes, digno de um crocodiliano. Tirou uma carta do bolso interno de sua veste e depois de fazer um floreio desnecessário com as mãos entregou o envelope com selo imperial a ela.

-Seu digníssimo pai, o Imperador Fox VIII, anuncia a tomada de Kingsland e espera sua presença em Black Church. O mais breve possível.

-Black Church?-ergueu uma sobrancelha em dúvida.

O sorriso no rosto do conselheiro não vacilou enquanto se aproximava. As vezes Sarah achava que o homem deslizava, ele era a única pessoa que ela conhecia que conseguia andar sem fazer o menor som.

-Sim, o lugar foi construído pelos primeiros homens em honra dos deuses que eles adoravam. Uma catedral gigantesca, que depois foi convertida em palácio.

Escutou a explicação com descrença e sem desviar os olhos de Jesse. Anos de convivência forçada tinham lhe ensinado que bastava piscar para que ele se aproximasse cheio de elogios galanteadores e toques que pareciam inofensivos e sem querer. Mas que ela sabia que eram muito bem planejados. Quando o pai tinha dito que desejava a presença dela na frota durante a batalha final, havia ficado feliz e honrada. Mas qualquer sentimento bom que tivesse experimentado num primeiro momento foi permanentemente apagado quando ao embarcar no navio tinha sido recebida por ninguém menos que o Conselheiro Jesse Black. Jesse era o mais jovem dentre todos os membros do Conselho Imperial, havia sido honrado com o posto e uma medalha de bravura ao defender o Imperador sozinho do ataque sorrateiro de um bando de sanguessugas famintos. As criaturas das trevas tinham sido banidas de Khemía há muitos séculos, pelo sol e o deserto impiedoso em conjunto com o povo que não os via como nada além de demônios. Havia sido um ataque bem planejado e audacioso da parte deles, tinham drenado todos os soldados da guarda imperial e por pouco não tinham conseguido matar o Imperador. Se um jovem e valente viajante não tivesse surgido na hora certa e interferido, hoje não estariam ali, expandindo o Império para o outro lado do Mar das Águas Negras. Ainda assim, Sarah não conseguia gostar do homem que era visto como um herói nacional não só pelo povo, mas pelos pais dela e diversos generais. Não sabia explicar, apenas sentia que ele tinha algo estranho. Uma escuridão.

-Você sabe bastante sobre a fundação dessa terra... Já esteve aqui antes?

Pousou a mão numa cadeira próxima quando sentiu o primeiro solavanco do navio entrando em movimento. Não gostava de demonstrar nenhuma fraqueza na frente daquele homem. Como muitas na corte, tinha achado seu sorriso encantador no começo, mas o feitiço havia se quebrado rapidamente e agora apenas sentia uma necessidade de se manter em alerta e na defensiva. Sempre. Observou-o atentamente e não deixou de notar quando a postura do homem passou de relaxada e no controle para tensa e desconfiada. Por um segundo imaginou ter visto os olhos dele mudando de cor, mas sabia que aquilo era impossível...

O sorriso que adornava o rosto bonito dele agora era vacilante, como se de repente passasse a vê-la sob uma nova luz.

-Ora... Não, minha senhora. Vossa Alteza sabe como gosto de estudar a história dos novos lugares e reinos que tenho a honra de visitar ao lado de seu grandioso pai... Agora se me der licença, tenho que supervisionar a tripulação.

Fez mais um floreio desnecessário e uma reverencia extremamente exagerada antes de se virar e marchar até a porta, mas antes de sair virou-se mais uma vez em direção da princesa.

-Tente aparecer no convés, tenho certeza que a tripulação ficará extasiada com a oportunidade de vislumbrar a beleza da futura Rainha de Kingsland.

Sarah apertou a carta do pai em suas mãos, passou o dedo pelo selo Imperial sentindo o brasão de sua família.

-Leia a carta, Alteza... Seu pai tem planos realmente magníficos para a sua pessoa.

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Quando Benny abriu os olhos foi imediatamente atacado por um raio de sol. Gemeu e voltou a fecha-los, encolheu o corpo em posição fetal e puxou a manta para cobrir a cabeça, mas algo o impediu de concluir o que queria. Puxou com mais força e o resultado foi o mesmo. Resmungou irritado e abriu um dos olhos para espiar o que ousava impedir que ele se defendesse dos malignos raios solares. A primeira coisa que viu foi uma linda jovem loira, vestida com uma blusa de linho branco fino que deixava a mostra os ombros, um corselet de seda florida que marcava perfeitamente sua cintura e que combinava com a saia de um tom de vermelho famoso por ser apenas usado por nobres. A jovem abriu um sorriso quase tão maligno quanto os raios de sol que insistiam em invadir seu quarto e disse:

-BUUUUU!

Benny soltou um gritinho estridente e recuou rapidamente para o mais longe possível dela. Quase caindo entre a cama e a parede no processo. Só então notou que sua perna não só não doía mais, como também já não estava quebrada. Esticou um dedo acusador para a loira e gritou:

-Filha do inferno demônio sanguessuga!

Duas risadas femininas soaram pelo quarto e Benny imediatamente notou a avó sentada na cadeira ao lado de sua cama. Ela e Erica riram por bons cinco minutos. Tempo suficiente para deixa-lo fumegando de embaraço e raiva. A loira limpou lágrimas imaginárias dos olhos e depois de dar um tapinha sonoro na própria perna piscou para a outra mulher no quarto antes de se levantar e jogar o cabelo para trás.

-Bem, e isso responde a minha pergunta: Seria seu neto tão estranho acordado e lúcido quanto ele era quase morrendo de hemorragia?

-Desculpe, querida, ele esquece totalmente os modos assim que acorda, só volta a agir como o cavaleiro que eu o eduquei para ser lá para metade do dia.

-Eu entendo, muitos homens são assim. Bem, Lenore, está na hora do meu sono de beleza. Até mais tarde.-voltou o olhar para o jovem ainda encolhido na cama.- E o senhor... Eu já disse que é LADY ERICA, me chama de filha do inferno ou demônio sanguessuga novamente e eu quebrarei suas duas pernas com as minhas mãos e te deixarei para os ratos gigantes e as cobras devoradoras de gente!-e saiu do quarto sem olhar para trás.

-Por Egle, A radiante. A senhora escutou essa vovó? Ratos gigantes e cobras devoradoras de gente existem!

Lenore revirou os olhos e deu um soco na cabeça do neto.

-Ou talvez ela tenha decorado suas alucinações malucas depois de me ajudar com sua recuperação por quase uma semana.

Benny apertou o local atingido e lançou um olhar traído para a avó.

-Vovó! Eu sou um homem debilitado.

-Debilitado uma ova. Isso foi por você ter ousado ir até aquele lugar amaldiçoado e esquecido pelos deuses. E isso...-deu outro soco.- Foi por ter trazido uma vampira para dentro de casa!

-Teoricamente foi ela quem me...-uma olhada para a cara fechada da avó fez com que decidisse não terminar a frase.

Abaixou o rosto e ficou olhando para a manta que o cobria. De repente sentiu vontade de chorar. Não conseguia acreditar que ainda estivesse vivo.

-Desculpe...- disse numa voz carregada.

Vovó Weir estalou a língua e balançou a cabeça, já sem o ar de irritação.

-Você pode imaginar meu choque quando milady entrou na cidade cavalgando feito uma louca e trazendo você desacordado? O povo enlouqueceu. Não sei o que eles acharam mais interessante, a chegada artística dela ou você branco feito cera, com as roupas ensanguentadas, mas sem nenhuma ferida!

Aquilo fez com que ele levantasse o rosto tão rápido que sentiu até tontura.

-Sem nenhuma ferida? Eu... Minha perna estava...

-Eu sei. Ela me contou. Me contou tudo. Gosta muito de ouvir o som da própria voz essa Lady. De qualquer forma... Não pude coloca-la para fora depois disso. Ela pode ser uma criatura das trevas sem alma, mas ainda assim salvou meu único neto de uma morte lenta e dolorosa que possivelmente envolveria ratos. Francamente Benedict, não sei no que você estava pensando!-Lenore levantou-se e começou a catar as roupas e panos espalhados pelo quarto.

-Não estava...

-Oh, meu querido... Eu notei!

Ela disse com um leve tom de desespero.

-Mas vovó, por que... Como essa vamp...

-Lady Erica.

-Como milady veio parar na nossa casa?

-Uma dívida de sangue não é algo que se pague com um "Muito obrigada, passe bem e vá embora", meu filho. Ela estava procurando um abrigo, precisa de um lugar para passar um tempo antes de seguir viagem. Nossa casa é grande demais para apenas nós dois. E ela espalhou pela cidade o boato de que era minha afilhada, uma jovem viúva de guerra, rica e frequentadora da corte... Imagine só! Ardilosa e esperta, como todos os chupadores de sangue.

-E por que é que eu estou no quarto de hospedes?

-Bem, o seu quarto é o segundo maior da casa. E ela não parece do tipo que aceitaria algo menor do que ele.

-Mas o que? Vovó!

-Fico feliz que tenhamos esclarecido isso. Vou deixa-lo agora, tenho que tomar chá com os Beans, desde que minha querida afilhada chegou da capital minha vida social tem estado movimentada. Claro que não podia pensar em sair e deixa-lo sozinho... Com ela. Mas agora que você despertou não vejo problema em passar uma horinha fora. Descanse mais um pouco e tente não dormir, tem pão e queijo fresco na cozinha. Erica com certeza pretende falar com você mais tarde, para discutir o pagamento.

-Pagamento? Que pagamento, você já pagou dando um teto e meu quarto para ela descansar!

-Esse foi o meu pagamento, por ela ter te trazido vivo de volta para casa. Tenho certeza que ela irá cobrar um pagamento seu também, por ter te salvado e tirado daquele buraco. Ou você achou que ela tivesse feito aquilo por bondade e pureza do coração?

Deu um beijo na testa do neto e pegou uma cesta com frutas que estava numa mesinha próxima a porta antes de sair deixando-o sozinho com seus pensamentos. Muito tempo depois de ter escutado a porta da frente bater que ele foi perceber que ela nunca tinha explicado o que Lady Erica tinha feito para que ele chegasse na cidade sem nenhum ferimento.


Notas: Sarah ainda é humana, mas é óbvio que isso mudará em breve ;)

Escolhi o sobrenome Black para o Jesse por causa do nome que ele usava na série quando ainda atendia como Reverendo Horace Black.

O nome do pai da Sarah é Fox VIII porque no My Babysitter's a Vampire Wiki o nome da Sarah é Sarah Fox. Usei o sobrenome como nome próprio para o pai.

O nome do reino deles é Khemía, que é o antigo nome do Egito. Sarah é a filha mais velha do Imperador.

Nos próximos cptlos Ethan e Rory aparecerão.