Capítulo Dois – A carona
Harry estava chocado. Não, aquilo era loucura. Tanta gente no mundo que ele poderia encontrar e, justamente, topava com aquela sonserina irritante e mal educada. Ele bem que achava que tinha se metido numa encrenca. E tinha mesmo.
Por sua vez, Willians parecia tão chocada quanto ele. Seu rosto se contorceu numa careta engraçada, e ela parecia incapacitada de falar, o que era anormal para quem parecia estar sempre pronta para emplacar uma de suas tiradinhas sarcásticas. Ela engoliu em seco, e Harry queria desesperadamente sair dali.
- Oh, você não me disse que usava óculos, mon amour. – Lauren comentou, novamente usando seu sotaque forçado.
Harry sorriu meio sem jeito, e ajeitou os óculos sobre os olhos. Willians parecia ter emudecido e emitia somente grunhidos. A música alta batucava nos ouvidos de Harry, mas ele estava preocupado com aquele silêncio. Era uma das situações mais constrangedoras pela qual ele já tinha passado na vida.
Lauren olhou de um para outro, totalmente confusa.
- Vocês já se conheciam?
- Sim. – Harry falou sem pensar.
- Não. – Willians replicou de supetão.
Lauren cruzou os braços, alçando as sobrancelhas. Ela, como já tinha feito uma vez, balançou o piercing que tinha no nariz.
- Sim ou não?
- Erm...
- Não. – Willians repetiu, olhando incisivamente para amiga.
Harry não pôde deixar de notar o contraste entre as duas. Enquanto Lauren usava aquele traje totalmente... hum... ousado, Willians vestia uma blusa azulada e uma calça preta larga, com uma fenda. Seus cabelos estavam, como sempre, presos com uma fita, desajeitadamente, fazendo com que algumas mechas cacheadas caíssem sobre seu rosto. Harry ficou imaginando se não haveria algum problema com aquele cabelo dela para sempre estar preso. Realmente Lauren estava certa, se parasse para pensar; perto dela, Willians até parecia uma pessoa normal. Harry sorriu divertidamente ao imaginar Katherine Willians com piercing andando pelos corredores de Hogwarts, sendo perseguida pela rígida Profª. McGonagall ou pelo seboso do Prof. Snape.
- Então vocês não se conhecem? – Lauren perguntou, não parecendo totalmente convencida.
- Exatamente. – Willians confirmou um pouco tensa.
Lauren se virou tão rápido para olhar Harry, que ele deu um sobressalto.
- Então por que você disse que a conhecia, Harry?
- Eu... erm... – ele olhou para Willians, que fuzilava-o com o olhar, parecendo prestes a arrebentá-lo se ele não inventasse uma boa mentira. – Eu a achei muito parecida com uma... colega minha da escola.
- Ah, tá... – Lauren divagou, agarrando seu copo de tequila e dando um gole. – É que vocês se olharam de um jeito que parecia... ah, sei lá, me deu a impressão de que vocês se odiavam ou coisa assim.
- Imagina... – Willians replicou ironicamente, revirando os olhos. Harry apoiou o cotovelo no balcão e ficou imaginando porque ela não quis contar que já o conhecia. – Eu nunca o vi com o cabelo mais bagunçado...
Lauren gargalhou.
- Você fala como se penteasse essa sua juba de leão, não é, Katherine?
Willians olhou torto para a amiga.
- Não chama meu cabelo de "juba de leão".
- Mas é!
- Não é! – Willians postou as mãos nos quadris, olhando de esguelha para Harry. – E eu não gosto de leões.
Ele entendeu a indireta.
- Já eu não gosto de cobras. – Harry falou displicentemente, bebericando o coquetel.
- Bem, mas deixem-me apresentá-los como se deve! – Lauren exclamou juntando as mãos. – Katherine, esse é o Harry. Ele faz aniversário hoje, sabe? Harry, essa é a minha amiga Katherine de quem lhe falei, mas eu a chamo de Kat.
Harry e Willians apenas se olharam enviesado. Lauren olhou intrigada para eles, parecendo cada vez mais desconfiada.
- Ei, será que a doida aqui sabe mais de etiqueta que os dois certinhos? Quando as pessoas se conhecem, geralmente elas apertam as mãos!
Muito contrariados, Harry e Willians apertaram-se as mãos, e Harry notou que, mesmo agora, as mãos da garota estavam cobertas por luvas, só que não eram pretas dessa vez, e sim azul escuro. Talvez ela tivesse uma coleção de luvas, afinal.
- Prazer em conhecê-lo... hum... Harry.
- Igualmente... hem, hem... Katherine.
Era muito esquisito ouvir seu primeiro nome pronunciado por aquela garota. Mais esquisito ainda era ter que falar o primeiro nome dela.
- Oh, muito bom. – Lauren caçoou, sorrindo divertida para os dois. – Eu e Harry estávamos conversando sobre você, Kat.
- Sobre mim? – a garota perguntou irritada. – Você não tem jeito mesmo, Lauren!
- É claro que não, senão eu não teria a mínima graça. – a garota retrucou. – Você está mais estressada do que o normal hoje, Kat. Aconteceu algo que eu não saiba?
Willians abriu a boca, mas fechou-a rapidamente.
- Só a cereja no topo do sorvete. – ela disse como se estivesse falando em código. Mais esquisito era que nem Lauren pareceu entender o que ela queria dizer. Willians olhou novamente de esguelha para Harry. – E o sorvete começou a derreter.
- Odeio quando você começa a falar desse jeito, Kat. Você sabe que eu não entendo nada.
- Porque justamente não é para entender, Lauren.
- Bem, vou deixar Harry te contar o que eu e ele estávamos conversando. – ela piscou para o rapaz, que engoliu em seco. Willians olhou desesperada para a amiga. – Josh foi procurar uma mesa, não é? Vou achar mon petit amour e já venho chamar vocês para se juntarem à nós, ok?
- Lauren, espera!
Mas a garota já estava longe demais para ouvir os apelos de Willians. Bufando, ela se sentou no banco que a amiga tinha deixado vago, mexeu no copo de tequila e deu um gole, fazendo uma careta em seguida.
- Putz, isso é amargo.
Harry riu para dentro do seu copo de coquetel. Willians olhou para ele e cruzou os braços.
- Não acredito que te encontrei aqui, Potter.
- Somos dois. – o rapaz respondeu irritado. – Bem que eu estava com um pressentimento ruim.
Willians colocou as mãos no rosto, desolada.
- De todas as pessoas que Lauren poderia estar conversando, ela tinha que justamente puxar assunto com você?
- Como ela poderia saber? Ela até que é simpática.
Willians o ignorou.
- É claro que ela tinha que escolher justo o mais esquisito. É bem o estilo dela.
- Concordo. – Harry divagou, contando as garrafas de bebidas que havia do outro lado do balcão.
- Concorda?
- Claro, para ela ser amiga de uma esquisita como você... tinha que ser o estilo dela.
- Olha aqui, esquisito é você com essa sua cicatriz no meio da cara! Já não basta toda Hogwarts me chamando de esquisita o ano todo.
- Eu faço parte de "toda Hogwarts". – Harry provocou. – E é melhor uma cicatriz no meio da cara do que ser uma chata como você.
Willians o encarou seriamente.
- Você tem que ir embora.
- Eu? – ele exclamou surpreso. – Pra seu governo, garota, eu estava aqui muito antes que você! Além disso... – ele olhou de esguelha para Sirius, que se divertia mais do que nunca com sua "amiga manipuladora". - ...parece que eu não vou poder ir embora tão cedo...
- Eu não posso ir embora agora. – Willians se encostou no balcão, desanimada. – Lauren nunca concordaria, e quem vai me dar a carona pra casa é ela.
- É só eu dizer que não vou poder me sentar à mesa com vocês. – Harry disse simplesmente. Willians o encarou como se ele fosse bobo.
- Não vai funcionar. Você não conhece Lauren. Acredite em mim, ela não vai sossegar enquanto não colocar nós dois juntos numa mesa para conversarmos. Quando ela põe uma coisa na cabeça, não há santo que tire.
- Talvez se eu dissesse que preciso sentar com meu padrinho...
- Quem é seu padrinho? Você veio aqui com ele?
Harry apontou para Sirius, que ria e girava a mulher que o acompanhava na pista de dança. Willians pareceu estar buscando em sua memória de onde o conhecia.
- Ei, aquele é Sirius Black, não é?
- É sim. Ele é meu padrinho.
Harry já começou a pensar em algo desagradável para dizer a ela se Willians se atrevesse a dizer algo ruim de Sirius. Mas ela não disse.
- Hum, sei. Toda aquela história do julgamento e que você testemunhou. É, eu lembro, saiu nos jornais. – ela suspirou. – Mas acho que ele não vai dar bola para você. Ele parece estar se divertindo muito com aquela lá.
Harry não gostava da idéia, mas tinha que concordar com a garota. Sirius provavelmente implicaria com ele uma semana se Harry atrapalhasse sua noite.
- Voltamos à estaca zero. – ele falou, tomando o último gole do seu coquetel.
- Ah, não... Tem que haver uma saída. Eu não posso te agüentar a noite inteira...
- Acredite em mim, essa possibilidade também não me agrada.
Willians se virou no banco e tomou mais um gole da tequila de Lauren. Ela tossiu e largou a bebida.
- Como ela consegue beber isso?
- Por que você não quis contar a ela que nos conhecíamos? – Harry perguntou para a garota, enquanto ela se ocupava em cheirar a tequila e fazer uma careta.
- Lauren é trouxa e não sabe que eu sou uma bruxa.
- Você tem vergonha de contar?
- É claro que não! – ela exclamou, para depois encarar Harry com a sobrancelha franzida. – Mas porque estou dizendo isso para você? Isso não está certo, nós não deveríamos estar conversando!
- Olha, Willians, se nem você ou eu temos uma boa idéia para nos livrarmos dessa enrascada, pelo menos podíamos deixar a hostilidade de lado hoje.
Ela pareceu refletir sobre a idéia por alguns instantes. Harry não via outra saída. Ou eles paravam de se xingar pelo menos aquela noite, ou então seu aniversário seria estragado por causa daquilo. E ele não queria estragar o seu humor depois de um dia tão legal.
- Ok. Sem hostilidades. Só hoje. – ela falou bruscamente. – E nos trataremos como se nunca nos tivéssemos visto na vida.
- Ainda não entendo porque você não conta para ela que é uma bruxa. – Harry insistiu. – Lauren me pareceu uma pessoa bastante... aberta à novas idéias.
Willians riu verdadeiramente, e Harry achou isso bem diferente.
- Ela é mesmo. Dá pra notar olhando como ela se veste, não é? Mas... – ela ficou séria de repente. – Lauren é um pouco medrosa quanto à coisas que ela desconhece, coisas místicas, entende? Eu tenho medo que ela se afaste de mim se souber o que eu sou.
- Se ela for sua amiga mesmo, não vai ficar com medo de você. E deve ser incômodo manter uma amizade sobre uma mentira.
Willians o encarou sem saber o que responder. Harry deu de ombros e desviou o olhar. Foi então que eles ouviram o sotaque forçado de Lauren atrás deles:
- Nós já achamos uma mesa. – ela se aproximou e pegou o seu copo de tequila. – Ah, mon petit, você nem experimentou minha tequila?
- Esse troço é muito forte. – Willians falou, ainda parecendo um pouco desconcertada depois do que Harry tinha lhe dito.
- Quando eu digo que você é certinha, Kat...
Lauren tinha achado uma mesa do outro lado do bar, encostada em uma janela que dava para a rua mal iluminada. Ela apresentou a Harry seu namorado, Josh, que era tão estranho quanto Lauren; ele também tinha um piercing, aliás, eram dois: um na sobrancelha e outro na língua. Josh também tinha uma tatuagem na altura do antebraço direito, e sua jaqueta tinha tantos espinhos quanto a coleira de Lauren. Porém, tirando essas peculiaridades, ele até que era bem engraçado e simpático, e o casal parecia se gostar muito.
Eles conversaram bastante sobre as atividades de Lauren e Josh, e Harry ficou sabendo que os dois faziam faculdade juntos na França, aliás, era lá que eles tinham se conhecido. Lauren fazia Engenharia, enquanto Josh fazia Direito. Willians comentou que nunca conseguiu entender como dois malucos como eles conseguiam fazer faculdades tão sérias, e Harry teve a mesma impressão.
No entanto, Josh disse que não era bem essas carreiras que os dois queriam seguir. Josh e Lauren tinham uma banda de rock, da qual Josh era o guitarrista, e Lauren a baterista. A garota contou a Harry que insistia que Willians fosse a vocalista, mas ela estava irredutível. Willians interferiu na conversa, afirmando que era uma péssima cantora, o que Josh e Lauren negaram veementemente. Harry achou que estava enganado quando viu as bochechas de Willians corarem sensivelmente.
- Por favor, petit... – Lauren pediu, juntando as mãos e fazendo seu melhor sotaque afrancesado. – Nós queremos ouvir você cantar!
- Você pode mostrar para o Harry como sua voz é bonita. – Josh interveio. – Assim ele vai acreditar na gente!
Willians parecia tentada a se esconder debaixo da mesa. Harry riu baixinho. Era esquisito como a garota era diferente na companhia dos amigos. Apesar de estar um pouco retraída por Harry estar presente, ela ria e falava bobagens como qualquer adolescente normal, o que ele pensou que ela não fosse. Realmente, aquela era uma situação bastante inusitada. Chegava a ser surreal.
- Cante alguma música daquela banda que você gosta! – Lauren pediu. – Aquela banda americana, como se chama mesmo?
- Isso, Lauren, não se lembre assim eu não vou precisar cantar! – Willians retrucou, ligeiramente envergonhada.
- Eu sei qual é a banda! – Josh riu, e Willians tapou a boca dele com o guardanapo.
- Não ouse lembrá-la! – ela apontou o dedo para o rapaz.
- Ah, que droga de memória a minha! – Lauren bateu os pés, desesperada. – Não é possível, eu devo ter batido a cabeça em algum lugar quando era criança para ter uma memória tão fraca! Ai... é aquela banda com o cara com a boca maior que a cara...
- Rolling Stones? – Harry sugeriu, forçando sua memória. Apesar dos Dursleys nunca terem deixado ele ver televisão ou ouvir rádio quando morava com eles, Harry ainda assim fazia-o escondido e sabia o nome de algumas bandas trouxas.
Josh abriu a boca mais uma vez, mas Willians enfiou outro guardanapo nela. Lauren cruzou os braços, bufando.
- Não é essa, Harry... Ai, eu estou com ela na ponta da língua!
- Que tal se Katherine cantar para a gente mesmo assim? – Josh tirou o guardanapo da boca. – Se formos esperar Lauren se lembrar o nome da banda vamos ficar aqui a noite inteira...
Lauren olhou aborrecida para o namorado. Harry, por sua vez, encarou Willians com um sorriso maroto no rosto. Aquela seria nova: ouvir Katherine Willians cantando era algo totalmente inesperado. Ela olhou para Harry mortalmente.
- Vai, Kat... por favor... – Lauren pediu.
Willians suspirou longamente, abaixou os olhos e começou a cantar baixinho:
"You ain't that good, is what you said down to the letter... But you like the way I hold the microphone... Sometimes I'm good but when I'm bad I'm even better, don't give me no lip, I've got enough of my own..."
Lauren bateu palmas entusiasticamente. Josh olhou para Willians e disse:
- Só isso?
- Nem deu para ouvir direito... – Harry provocou e recebeu um olhar fuzilante da garota.
- É, ele tem razão. – Lauren falou. – Que tal cantar mais um pedaço?
- Não. – Willians disse entredentes.
- Só mais um pedacinho... pequenininho...
- Não.
Lauren emburrou a cara.
- Você é uma chata às vezes.
Harry teve uma enorme vontade de dizer "à todo o tempo", mas se conteve corajosamente. Willians sorriu mostrando os dentes para a amiga, que bufou e se levantou, puxando o namorado.
- Já que ela não quer cantar, vamos dançar, Josh?
- Estava esperando você dizer isso.
- Ei, Lauren! Espera!
Mas novamente a garota estava longe demais para escutar Willians. Ela cruzou os braços, bufando e lançou um olhar assassino para Harry:
- Uma palavra sobre isso em Hogwarts e você vai pagar caro.
Harry gargalhou.
- Até que você não canta tão mal... – ele caçoou. – Melhor ouvir isso do que ser surdo, não é?
Ela parecia prestes a enforcá-lo com as próprias mãos, mas ao invés disso amassou a toalha da mesa. Um silêncio caiu sobre eles, e Harry começou a batucar na mesa.
- Pára com isso, é irritante! – Willians reclamou.
- Credo, garota, você reclama de tudo!
Ela emburrou a cara e cruzou os braços, encostando-se na parede. Harry estava cansado daquele silêncio e resolveu puxar assunto:
- Sabe, não pensei que você fosse capaz de fazer coisas normais como sair à noite. – ele provocou.
- Digo o mesmo de você. – ela retrucou, observando a pista de dança. – Achei que você se trancasse no seu quarto e ficasse lá dentro treinando pra ser herói...
Foi a vez de Harry ter vontade de enforcá-la com as próprias mãos.
- Seus amigos são legais.
Ela o encarou.
- Lauren e Josh?
- De quem mais eu poderia estar falando? – Harry replicou sarcasticamente. – Rony e Hermione?
Willians bufou, mas descruzou os braços e se virou para Harry, falando como uma pessoa normal, mas sem olhar para ele.
- Lauren é minha melhor amiga. Acho que a única. Eu não tenho amigos em Hogwarts, todos me acham esquisita lá. O único que fala comigo naquele lugar é o Draco, mas ele é um falso. Quando éramos pequenos, e eu ia visitar a casa dele nos feriados, ele fazia aparecer furúnculos no meu rosto com a varinha do pai dele.
Harry não soube o que dizer depois disso, então preferiu ficar calado. Willians era prima de Draco Malfoy, o maior inimigo de Harry dentro de Hogwarts. Ele era um sonserino mimado e esnobe, que só fazia as coisas se recebesse algo em troca depois. Corria o boato no castelo que ele tentava ficar com a prima desde o começo do sexto ano, mas ela nunca deu bola para ele.
Willians estava se entretendo em girar seu copo de refrigerante.
- Eu e Lauren éramos vizinhas, nós nos conhecemos desde pequenas.
- Eu sei, ela me contou. – Harry finalmente achou alguma coisa para dizer. Aquela situação o deixava constrangido; era muito estranho estar conversando com Katherine Willians sobre a vida dela.
- Contou, é? – Willians perguntou como se não se importasse, ainda girando o copo de refrigerante. – Lauren não era tão... radical... quando nos conhecemos, mas eu não me importo que ela seja assim. Quem a vê pela primeira vez pensa que ela é maluca, mas não é assim. As pessoas a discriminam na faculdade por ela ser diferente, mas ela faz piada disso. Aqueles franceses frescos... me dá vontade de jogar uma maldição neles quando ela me conta o que eles falam pra ela. Lauren é uma pessoa bastante compreensiva e amiga se você a conhece direito.
Harry não soube o que dizer novamente, mas se sentiu um pouco sem jeito depois do que Willians falara. Às vezes, ele tinha também julgava as pessoas pela primeira impressão. Willians dizia tudo aquilo com tamanha amargura, que ele começou a pensar que deveria ser ruim para ela quando estava em Hogwarts; de certa maneira, ela também era discriminada lá, por ser "a esquisita". Harry sabia o que era ser discriminado também; quando era pequeno, ele era apenas o "primo estranho do Duda" e ninguém tinha coragem de se aproximar dele.
- Mas ela parece ser bem alegre mesmo assim, não é?
- Ah, Lauren é o tipo de pessoa que dificilmente se importa com o que os outros dizem, ou então esquece rápido. E no caso dela, esquece bem rápido... Lauren realmente é uma desmemoriada, como ela mesma diz. Bom pra ela, pelo menos não fica se chateado por bobagem...
- E o namorado dela? – Harry perguntou, encostando-se na cadeira e observando a pista de dança, onde Lauren e Josh se movimentavam com extravagância.
- Josh era um cara bastante certinho antes de conhecer Lauren, pelo que ela me contou. Mas eles se apaixonaram, e ele mudou por ela. Então ela o apresentou para mim, e eu e ele nos tornamos amigos também. Foi aí que a gente começou a sair junto, nós três, nas férias.
Willians parou de mexer no seu copo de refrigerante e olhou para Harry:
- E você? Por que os seus dois amigos não estão aqui também? Vocês três parecem que não se desgrudam nunca...
- Mesmo que eles quisessem vir, eu nem tive tempo de chamá-los. – Harry respondeu, virando-se para olhá-la. Só então que notou que o rosto dela era cheio de pintas. – Foi idéia do meu padrinho vir aqui, e foi coisa de última hora.
Lauren e Josh se aproximaram da mesa com os rostos vermelhos e suados de tanto dançar.
- Oh, vocês dois vão ficar aí parados? – Lauren perguntou, tomando mais um gole da sua bebida.
- Eu não sei dançar. – Harry falou.
- Eu não gosto de dançar. – Willians disse distraída.
Josh e Lauren trocaram um olhar cúmplice e piscaram um para outro. Lauren puxou o braço de Harry, enquanto Josh o de Willians.
- Não, mon amour... – Lauren falou com convicção, puxando Harry para a pista de dança. – Mexa esse esqueleto!
Harry olhou para trás e viu Willians sendo praticamente carregada por Josh para a pista. Pela cara dela, parecia que ela apenas não gostava de dançar; ela deveria odiar isso.
Tocava uma música alta e rápida no pub, e Lauren dançava movimentando todo o corpo. Ela balançava a cabeça de um lado para outro, o que realmente não adiantava em nada, pois ela tinha cabelos curtos que ainda por cima eram grudados com gel. Harry, no início, dançava timidamente, mas depois de tanta insistência de Lauren, ele começou a imitá-la, o que no final foi divertido. Quando a música começou a parar, e Harry pensou que finalmente a dança terminaria, Lauren começou a puxá-lo para o outro lado da pista, onde estavam Josh e Willians.
- Olha a cara dela! – Lauren sussurrou no ouvido de Harry, rindo.
Realmente era engraçado. Josh se balançava por inteiro, enquanto Willians apenas batia os pés, bufando. O rapaz segurou as mãos dela, rindo e balançando-a, enquanto a garota tinha no rosto uma expressão de que estava vivendo um pesadelo. Josh girou-a em torno de si mesma umas vinte voltas, e ela estava com uma cara de quem estava prestes a vomitar de tontura. Na última volta, ele soltou a mão dela, e Willians deu alguns passos na direção de Harry e Lauren, segurando a cabeça e cambaleando pela tontura. Ela se apoiou na amiga, que sorriu marotamente, e a jogou para cima de Harry, que segurou a garota com os olhos arregalados. Willians apoiou as mãos enluvados sobre os ombros dele, e Harry notou que ele tinha crescido bastante em apenas um mês, porque, pelo que se lembrava, a garota era apenas alguns centímetros mais baixa que ele, e agora ele estava bem mais alto que ela. Os dois engoliram em seco, e Willians logo o soltou, afastando-se. Eles se encararam aparvalhados.
- Ei, agora é a vez de vocês dois dançarem! – Lauren exclamou, empurrando-os para o meio da pista, enquanto Josh ria lá atrás.
Harry e Willians se encararam sem saber o que fazer. Eles estavam bem no meio da pista, e vários casais dançavam em volta dos dois. Seria difícil sair dali, Harry logo pôde constatar. Willians ainda segurava a cabeça, ligeiramente tonta.
- Eu odeio isso... odeio... – ela murmurou. – Lauren vai se ver comigo...
Um cara do dobro do tamanho de Harry esbarrou com o cotovelo bem nas costelas do rapaz, e ele acabou dando um passo para frente, encostando seu corpo no de Willians. Ela olhou assustada para ele, e Harry teve uma idéia louca. Aqueles dois coquetéis que ele tinha tomado estavam realmente afetando seu cérebro.
- Se a gente ficar parado aqui vamos ser pisoteados! – ele quase gritou para ela conseguir ouvi-lo naquela bagunça, e a garota olhava para ele totalmente aparvalhada.
- E qual é a sua idéia? – ela gritou em resposta.
- Vamos dançar até conseguirmos sair desse lugar! Com sorte poderemos achar a mesa!
- O quê? – ela gritou sem entender.
Harry colocou uma das mãos de Willians no seu ombro, e segurou a cintura dela. Ela abriu a boca e arregalou os olhos para ele. Harry segurou uma das mãos enluvadas dela na sua, e começou a dançar com ela tentando chegar nos cantos da pista. Uma música mais lenta começou a tocar, e as luzes diminuíram ainda mais, de maneira que Harry não estava conseguindo enxergar um palmo na frente do nariz.
- Ah, não... não música lenta... – Willians reclamou.
Com tão pouca luz, Harry não conseguia mais ver para que lado tinha que ir, e eles acabaram por ficarem apenas dançando no mesmo lugar. Willians pisou no pé de Harry umas três vezes, e ele descobriu tarde demais que existia alguém pior na dança do que ele. Aos poucos, Willians parou de emitir ruídos de resmungo e se resignou com o seu destino. Harry fez o mesmo. Parecia que os dois só conseguiriam sair dali quando a música acabasse.
Alguém esbarrou no braço deles, e suas mãos se soltaram; Willians apoiou sua mão que estava sobrando no outro ombro de Harry, e ele acabou segurando a cintura dela com as duas mãos. Até que a cintura dela era bem feita, mas Harry logo se recriminou por esse pensamento, apesar de ter imaginado que Sirius aprovaria isso. Ah, Sirius... para começar, a culpa de tudo ter acontecido foi dele logo de início. Se não tivesse inventado de ter ido naquele pub, Harry não teria encontrado Willians e não estaria dançando com ela também. O padrinho ouviria bastante quando fossem embora dali, ah, se ouviria!
- A música acabou. – Willians falou distraída, e Harry notou que eles ainda estavam juntos. Rapidamente, os dois se soltaram desajeitados e se entreolharam confusos quando as luzes começaram a aumentar.
- Vamos sair daqui antes que comecem a dançar de novo.
Esgueirando-se por entre as pessoas, os dois conseguiram sair do centro da pista e, depois de algum tempo, Willians apontou a mesa perto da janela. Ela fechou os punhos, estreitou os olhos e saiu batendo os pés na direção do lugar. Lauren e Josh já estavam sentados, conversando animadamente.
- QUE IDÉIA IDIOTA FOI ESSA?
Lauren olhou para a amiga sorrindo cinicamente, enquanto Josh segurava a custo seu riso. Willians parecia prestes a soltar fogo pelo nariz, assemelhando-se a um dragão enraivecido. Lauren checou Harry e Willians de cima a baixo, e seu sorriso cresceu.
- Vejo que se divertiram.
- POR QUE VOCÊ FEZ ISSO?
- Harry, você está vermelho de tanto dançar! – Lauren exclamou, encarando Harry, que engoliu em seco. – Kat, você parece um pimentão, petit!
- EU ESTOU VERMELHA DE RAIVA DE VOCÊ, LAUREN!
Josh não conseguiu mais segurar o riso. Ele olhou para Harry e falou:
- Não é cômico? Acontece sempre...
Willians se sentou com barulho ao lado de Lauren, que sorria como se nada tivesse acontecido para a amiga. Willians, enfurecida, às vezes gritava, e às vezes falava baixo com a amiga, em um tom repreendedor, de modo que nem Harry ou Josh conseguiam ouvir o que elas diziam. Harry se virou para o rapaz e perguntou:
- Vocês planejaram isso, não foi?
Josh riu.
- É claro. Bem, na verdade eu só obedeci às ordens da Lauren... ela que inventou tudo. Acredite, não é por ser você. Sempre que nós saímos, ela apronta esse tipo de coisa para Katherine. É muito engraçado...
Os dois encararam as garotas, que ainda discutiam.
- Música lenta, hein, Kat? – Lauren caçoou. – Vocês estavam bem juntinhos?
Willians estava passando rapidamente do vermelho para o roxo.
- Você sabe que eu odeio isso, Lauren! Será que não entra na sua cabeça?
- Eu esqueço, petit...
- Você não tem jeito!
Willians pegou um copo qualquer e deu um grande gole, tossindo descontroladamente em seguida. Lauren e Josh riram ainda mais, e Harry não pôde deixar de imitá-los.
- Droga, isso é tequila!
- Diz como se não soubesse que sempre bebo isso, não é, petit?
Willians olhou mortalmente para a amiga, encostando-se na cadeira, sempre tossindo de vez em quando.
- Bem, petit, se você já acabou, nós vamos embora. – Lauren disse se levantando. Willians olhou para ela como se não acreditasse. Harry sentiu um imenso alívio ao ouvir isso. Finalmente, aquela noite acabaria.
- Mas já? – Josh reclamou.
- Mon petit amour, já se esqueceu do nosso compromisso depois daqui?
Josh sorriu marotamente e piscou para a namorada, também se levantando. Willians se levantou também, mas Lauren a fez sentar-se novamente.
- Sinto muito, petit, mas não poderemos dar uma carona para você...
Willians começou a se desesperar.
- Lauren... Você prometeu...
A garota sorriu e balançou, mais uma vez, o piercing no nariz.
- As coisas mudaram, petit... – ela lançou um olhar para Harry que o deixou assustado. – Mas não se preocupe, eu paguei seu refrigerante, afinal, você foi nossa convidada hoje!
- Lauren... – Willians disse entredentes, segurando a amiga pela pulseira de espinhos. A garota piscou para ela e lhe lançou um beijo com a mão.
- Me liga, petit! Eu quero saber o que aconteceu depois! – ela olhou para Harry e também piscou para ele. – Foi legal te conhecer, mon amour. Espero vê-lo mais vezes!
- LAUREN! – Willians gritou, levantando-se, mas a garota e o namorado já tinham se embrenhado entre as pessoas e ido embora. A garota se sentou novamente, largando-se na cadeira, desolada.
- É... parece que você ficou sem carona... – Harry falou, observando a expressão de desânimo no rosto da garota. Ela o fuzilou com o olhar.
- Eu notei isso, Potter.
Ele riu em deboche. Willians bufou.
- Lauren foi longe demais dessa vez... ela vai se ver comigo, eu juro!
De fato, Harry também se aborreceu com o que garota fez. Apesar de ela ter tido boas intenções, acabou metendo-o em uma grande confusão sem saber. Mas ela não podia imaginar que Harry e Willians se conheciam e, pior, se odiavam.
- Se você tivesse contado que nos conhecíamos para ela, nada disso teria acontecido...
- Nada disso teria acontecido se eu não tivesse saído da cama hoje... – ela resmungou, batendo na mesa. Olhou para Harry com raiva. – E quem é você para dizer o que eu tenho que fazer ou não?
- Só foi um palpite.
- Eu não preciso dos seus palpites, Potter!
- Ótimo, vire-se sozinha, Willians!
Ela bufou, encarando-o com altivez, mas não disse mais nada. Harry também ficou em silêncio, emburrado. Willians apoiou o cotovelo na mesa e suspirou, apoiando o queixo sobre ele e observando a rua escura pela janela. Harry fez o mesmo e teve outra idéia maluca. Realmente, ele se lembraria depois disso de nunca mais tomar coquetéis.
- Você mora longe daqui? – ele perguntou, já arrependido de ter feito a pergunta.
- Não, mas minha avó vai ficar preocupada quando eu contar que fui sozinha pra casa de madrugada.
Realmente, não era muito seguro uma moça de dezesseis anos andar sozinha pelas ruas de Londres de madrugada. E apesar de Harry achar Willians uma chata, implicante e mal educada, sem contar que ela era sonserina e prima de Draco Malfoy, ainda assim ela era uma moça, e talvez não fosse fazer mal a ele ser gentil com ela uma vez na vida.
- Bem, se você não tiver mesmo como ir, eu...
- Ah, aí está... hic... você... hic... Harry...
Tanto Harry, quanto Willians, levantaram os olhos ao ouvirem aquela voz embargada ao lado deles. Sirius estava com os olhos turvos, ligeiramente cambaleante, e dois segundos depois ele se sentou ao lado de Willians fazendo barulho. Ele suspirou longamente, e Willians tapou o nariz. Harry também sentiu o bafo terrível de álcool.
- Sirius, você bebeu...
- É claro, vai dizer... que você... hic... também não bebeu, Harry? – ele perguntou, sua voz entrecortada por soluços.
Harry considerou a idéia de bater a cabeça na parede. Ótimo, era só o que ele precisava para coroar a noite.
- Sirius, eu não acredito que você está bêbado... – Harry suspirou cansado.
- Se você não acredita, sinta o bafo dele! – Willians falou com a voz anasalada, ainda tapando o nariz.
- Eu não estou... bêbado! – Sirius retrucou enrolando a língua. – Só bebi um pouco a mais... Any pediu uns uísques... hic... e eu tinha que acompanhá-la, não é?
- Potter, você vai tirar ele daqui ou não? – Willians perguntou, tapando todo o rosto. – O cheiro tá ficando pior...
Harry a ignorou.
- Nós vamos embora, Sirius.
- Não! – o padrinho exclamou. – Eu nem me... hic... despedi da Any!
- Nós vamos embora agora! – Harry falou lentamente, encarando Sirius de um jeito que ele, mesmo embriagado, entendeu que não era para contrariar. – Você ao menos pagou a conta?
- Conta? Que conta?
Harry bufou. Ainda bem que ele tinha trazido algumas libras no bolso, para o caso de uma emergência. Ele se levantou, e Willians olhou desesperada para ele.
- Você não vai me deixar sozinha com esse bêbado, vai? Eu estou asfixiando!
- Ei, você até que é bonitinha. – Sirius falou, encarando a garota. – Qual é o seu nome?
Harry deu um tapa no ombro do padrinho.
- Ela só tem dezesseis, Sirius.
- Ah, tá... Ela tá com você, Harry?
Willians engasgou. Harry preferiu ignorar o padrinho, e falou com a garota:
- Olha ele pra mim que eu já volto.
- Ei, mas, Potter...
Mas Harry deu às costas e se esgueirou novamente por entre as pessoas para chegar ao balcão. Entre conseguir chegar lá, pagar a conta e voltar, transcorreram-se uns bons dez minutos. Quando Harry voltou para a mesa, Willians tinha aberto a janela em busca de ar, e Sirius estava com a cabeça apoiada na mesa.
- Ah, não... – o rapaz suspirou. – Ele tá dormindo?
- Geralmente, quando as pessoas fecham os olhos e respiram mais devagar é porque elas estão dormindo. – Willians retrucou sarcástica. – Mas eu chamaria o estado do seu padrinho de "coma alcoólico".
Harry a ignorou solenemente e balançou Sirius.
- Acorda... vamos, Sirius, nós vamos embora agora!
- Hum... tá... – ele resmungou, enterrando a cabeça entre os braços.
Willians se virou para Harry e ergueu as sobrancelhas.
- Você tem um problema, Potter.
- Sério? Sabe que se você não me dissesse eu não ia perceber?
Foi a vez dela o ignorar.
- Você vai deixar ele aí a noite inteira ou eu vou precisar passar por debaixo da mesa pra sair daqui?
- Caramba, você é chata mesmo, hein? – ele retrucou mais irritado do que nunca, e tentou levantar o padrinho pelos ombros, mas Sirius era muito pesado. Ele desejou poder usar um feitiço de levitação, mas mesmo que já fosse maior de idade e pudesse usar magia, não podia fazer isso na frente dos trouxas. – Não dá, eu não vou conseguir sozinho.
- Ah, que ótimo...
Harry olhou para Willians, tendo uma idéia.
- Você bem que podia parar de reclamar e me ajudar, não é?
Ela o encarou como se ele tivesse acabado de dizer uma grande besteira.
- Boa piada, Potter.
Harry se sentou, apoiando o queixo nas mãos e olhando com um sorriso impertinente para a garota.
- Ótimo, agüente o bafo dele até ele acordar.
Willians olhou de Harry para Sirius dormindo, e depois de volta a Harry, bufando exasperada.
- Tudo pra poder respirar.
Dessa maneira, os dois levantaram Sirius pelos ombros, meio acordado, meio dormindo, e o arrastaram até o carro amarelo. Ainda tinha muito movimento na frente do pub, mas pelo menos não havia mais o cheiro forte de lá de dentro e o barulho insuportável.
- Ai, minhas costelas... – Willians reclamou, colocando as mãos nas costas. Harry se apoiou no carro, exausto.
Eles tinham conseguido colocar Sirius no banco de trás do carro, e o padrinho de Harry estava dormindo profundamente agora.
- Que noite... – Harry suspirou.
- Nem me diga... – Willians murmurou. Ela olhou para o céu negro e nublado de Londres, desolada. – O que eu faço agora?
Harry pigarreou.
- Como você vai voltar pra casa?
- Acho que a pé mesmo.
- É... perigoso uma... moça... andar sozinha de madrugada por ai. – Harry falou sem jeito. Ela o encarou intrigada.
- Qualquer coisa eu uso minha varinha.
- Você ainda é menor de idade, não pode usar magia fora de Hogwarts.
- Ou então eu posso dar um chute no lugar sensível de quem se meter comigo.
Harry riu sarcasticamente.
- Essa foi engraçada, Willians. Como você mesma diz, uma boa piada.
- QUER SABER? – ela explodiu, e gotas de saliva saltavam da sua boca. – Eu já tô cansada dessa noite, desse lugar, estou cansada de você e suas insinuações, eu tô indo embora!
- Espera, Willians! – Harry sabia que iria se arrepender disso mais tarde, mas não conseguiria conviver com sua consciência se deixasse uma moça andando sozinha por Londres de madrugada. – Eu te dou uma carona.
Ela parou de andar e ainda de costas, falou:
- Como é que é?
- Bem... – Harry começou, desajeitado. Aquilo era muito esquisito. Toda aquela noite estava sendo esquisita. – Você disse que não mora longe daqui, eu posso te dar uma carona...
Ela se virou e o encarou de olhos arregalados, surpresa.
- Eu... pegar uma carona com... você?
- É, quantas vezes eu vou ter que repetir? Você tá vendo mais alguém aqui? – ele abriu os braços, irritado.
Willians colocou as mãos na cintura e olhou para Harry perigosamente.
- Isso não pode sair daqui, entendeu? Ninguém em Hogwarts pode sequer imaginar que eu e você...
- Não se preocupe, eu também não quero que ninguém saiba dessa loucura. Aliás, eu já estou arrependido!
- Se é uma loucura, por que ofereceu a carona?
- Olha, se você não quer, pode ir embora, eu só quis retribuir um favor! – ele retrucou, dando a volta no carro e abrindo a porta do motorista com a chave que tinha tirado do bolso de Sirius. – Eu não estou a fim de ficar em dívida com alguém como você, mas se quer ir a pé, fique à vontade!
- Um favor? Só porque eu te ajudei a carregar seu padrinho bêbado? – ela gritou, apoiando-se na capota. Harry fez o mesmo.
- É, pensa que eu não sei que você iria ficar jogando na minha cara a vida inteira que eu te devia um favor?
- Se você pensa que eu sou assim, está muito enganado, Potter!
- Ah, é? Quem vê até acha que você está ofendida, coitadinha... Você joga na minha cara até hoje que me ajudou com aquele ferimento... naquele dia da detenção na enfermaria!
Ele não sabia de onde tinha desenterrado essa história, mas qualquer coisa servia como argumento naquela hora.
- Eu faço isso?
- Bem... faz! – ele retrucou incerto.
- Me diga apenas uma ocasião em que eu tenha feito isso. – ela desafiou. Harry pensou por alguns instantes, mas não encontrou nada para dizer. Grande erro. Willians se aproveitou do seu silêncio. – Viu? Não tem nenhum argumento! – ela disse, apontando o dedo para ele.
- Mas... – ele engoliu em seco, seu cérebro trabalhando rápido, mas não funcionando. – AH, VOCÊ VAI ENTRAR OU NÃO?
Ela pareceu levar um susto com o grito grosso dele e ficou paralisada por alguns instantes. Olhou para os lados, como a procurar uma saída, mas não havia nenhuma. Harry entrou no carro e colocou a chave na ignição. Sirius emitia ruídos estranhos no banco de trás. A porta do passageiro se abriu, e Willians entrou, sentou meio encolhida e de braços cruzados, olhando para frente como se não visse mais nada à sua volta. Ela bateu a porta com tanta força que Harry deu um sobressalto.
- Você sabe dirigir?
- Sei. – ele respondeu rabugento, ligando o rádio; estava numa estação bruxa que Sirius gostava.
- Credo, isso tocava na época da minha avó! – Willians resmungou, trocando de estação. Harry olhou para ela estupefato.
- Com licença, garota. Se você não notou, está no meu carro, mexendo no meu rádio!
Ela deu de ombros.
- Você queria continuar ouvindo aquilo?
- Bem... não.
- Então eu te fiz um favor.
- Você é muito atrevida!
- Você me ofereceu a carona, agora agüenta!
Harry bufou e deu uma arrancada brusca no carro.
- AH, VOCÊ É DOIDO?
Ele riu, e olhou para ela de esguelha. Willians segurava com ambas as mãos no banco e estava colada ao encosto, parecendo petrificada.
- Qual o problema?
- Você disse que sabia dirigir!
- E eu sei! – ele riu maldosamente, enterrando o pé no acelerador e aumentando a velocidade.
- AH! Mais devagar!
- Por quê? Assim que é gostoso... sinta o vento no rosto, é como voar de vassoura...
- Não é não... – ela choramingou, totalmente em pânico. – Vassouras são muito mais seguras.
- Você tem medo de andar de carro?
- Eu... é claro... que eu não... tenho...
Harry notou a hesitação na voz dela.
- Você tem medo.
As ruas estavam vazias, portanto ele aumentou ainda mais a velocidade. Era divertido andar sem Sirius lhe pentelhando no ouvido o tempo inteiro.
- PÁRA! – ela gritou desesperada, fechando os olhos com tanta força que parecia que eles explodiriam.
- Então admita que tem medo.
- NÃO!
Harry aumentou mais um pouco.
- EU TENHO MEDO, PÁRA!
Harry gargalhou e diminuiu a velocidade aos poucos. Ele notou quando Willians escorregou no assento, respirando aliviada. Ele riu ainda mais.
- Você é um inconseqüente... um maluco... eu nunca deveria ter vindo com você...
A voz dela era de quem estava prestes a desmaiar ou vomitar. Harry torcia para que ela não fizesse nenhum dos dois.
- Ah, foi divertido... – Harry provocou.
- Você é vingativo!
- Eu só fiz isso porque notei que você tinha medo.
- Como você notou?
Ele dobrou uma esquina.
- Sei lá, só notei.
Ela pareceu decepcionada consigo mesma. Encostou a cabeça na janela, olhando a rua como que hipnotizada.
- Onde você mora?
- O quê?
- Estou te perguntando onde você mora, não é lá que eu devo te deixar? Ou será que o susto afetou seu raciocínio?
Ela bufou.
- Vai seguindo em frente que eu te digo onde virar.
Sirius fez um barulho muito esquisito no banco de trás.
- Credo! – ela exclamou horrorizada. Harry teve um pressentimento ruim.
- Olha pra trás e vê o que ele tá fazendo.
Willians olhou para ele astutamente e se virou, sorrindo de um jeito malvado. Harry achou que aquilo não estava bom.
- Arg, cara, isso é nojento!
- Ah, não, ele vomitou?
Ela voltou a se sentar direito, rindo descontrolada. Harry olhou bravo para ela.
- Ele não vomitou, só tá cantando... Enganei você, não é?
Harry poderia chutar alguma coisa.
- Depois eu é que sou vingativo.
Duas quadras depois, Willians pediu que ele parasse em frente a uma casinha pequena, com um simpático jardim na frente. Apoiada no portão de madeira, estava uma senhora de cabelos brancos presos em um coque mal feito. Seus olhos procuravam algo, e eles se arregalaram ao pousarem sobre o carro amarelo.
- Então, é aqui que você mora? – Harry perguntou surpreso.
- É, algum problema? – Willians questionou irritada.
- Eu estava esperando algo bem maior. Pra quem é prima do Malfoy, você mora em um lugar bem simples.
- Somos só eu e minha avó. – ela falou rapidamente. – Não precisa ser muito grande.
- Que eu saiba, Malfoy mora numa mansão, e só são ele e os pais, não é?
Ela suspirou cansada.
- Tá, é diferente. Eu e minha avó somos a parte pobre da família.
Os olhos de Harry se arregalaram. Aquilo era novo para ele.
- E os Malfoys têm gente pobre na família?
- Qual o problema? – ela parecia realmente ofendida agora. Harry se sentiu envergonhado.
- Nenhum, mas... sei lá, eles sempre são tão esnobes que eu pensei...
- Pensou errado. Toda família tem suas "ovelhas negras", e eu e minha avó somos as representantes dos Malfoys.
Harry estava boquiaberto. Willians abriu a porta do carro e já ia saindo, quando se virou para olhar o rapaz. Ela parecia um tanto sem jeito.
- Bem, é isso, não é?
- Acho que sim. – ele respondeu se achando muito estranho.
- Erm... então... tchau.
- Tchau.
- Melhoras para o seu padrinho bêbado. Torça para ele não vomitar no caminho.
- Nem mencione isso. De repente ele escuta e quer fazer.
Ela saiu e bateu a porta. Harry ficou olhando ela ir embora e se aproximar da senhora parada no portão. Dava para escutar o que elas diziam:
- Onde você estava, filha? Eu estava preocupada...
- Não deu pra voltar antes, vó... Desculpa... – Willians falou, seu tom de voz totalmente diferente. Parecia mais doce e suave. Ela abraçou a avó e deu um beijo na sua bochecha.
- Com quem você voltou? – a senhora perguntou, olhando para o carro. Harry, que estava na janela, tentou se esconder, mas ela já o tinha visto. Willians se virou e o viu também.
- Com um... conhecido meu.
A velha senhora sorriu e acenou para Harry.
- Obrigada, rapaz! – ela aumentou um pouco o tom de voz.
Harry apenas acenou com a cabeça e voltou a se encostar no banco. Ligou novamente o carro e, antes de ir embora, ainda pôde ver, pelo vidro retrovisor, a velha senhora abraçar Willians pelos ombros e sorrir para ela, dizendo gentilmente:
- Que bom que está bem, querida. Vamos entrar e você poderá me contar como foi sua noite... Você se divertiu?
Harry deu a partida e foi embora, pensando na sua própria avó, Arabella Figg Evans. O único erro dela, com certeza, foi ter se envolvido com alguém como... era difícil lembrar, mas Harry às vezes não tinha escapatória. Se sua avó não tivesse se apaixonado por Tom Riddle, Harry não seria neto dele... Mas, como as pessoas dizem, não somos nós que escolhemos por quem nos apaixonamos. Simplesmente nos apaixonamos.
Ele sorriu. Se sua avó estivesse viva, com certeza o receberia daquela maneira também. Com um abraço e palavras afetuosas, perguntando se ele tinha se divertido. Harry desviou seus pensamentos. Sua avó, assim como seus pais, deveriam estar em um lugar melhor que ele. E não adiantava ficar pensando no que poderia ter sido. Mas ele não podia deixar de sentir saudade deles.
- Harry... o que você está fazendo? – Sirius perguntou com a voz embargada, no banco de trás.
- Estou nos levando para casa.
- Você? Mas...
- Sirius, dorme. Eu me viro.
Ele não precisou dizer duas vezes. O rapaz ouviu o som do padrinho deitando e o barulho suave de sua respiração. Agora vinha a parte mais difícil. Harry teria que descobrir o caminho de Freshpeach... Parecia que a noite ainda não tinha terminado...
Harry suspirou profundamente e aumentou a marcha, ouvindo sua estação favorita da rádio enquanto colocava "o pé na estrada".
Nota da autora
: Nesse capítulo, a Katherine cantou um trecho de uma música, e a Lauren deu algumas dicas sobre a banda favorita de Katherine. Vocês conseguem adivinhar qual a banda e o nome da música? Quem adivinhar primeiro ganha o próximo capítulo (assim que eu o terminar, hehe). Desculpem a demora por esse ;) Bjks mil e um