Capítulo 2

No dia seguinte, cedo pela manhã, Sam e Dean se vestiram de policiais e foram entrevistar a mãe de Christian Brown, a última vítima sem sangue do desabamento. A senhora estava disposta a falar. Eles descobriram muitas coisas a respeito de Christian: tinha se formado recentemente em arquitetura, estava noivo, gostava de viajar, bebia socialmente, adorava lasanha, tinha medo de baratas... Descobriram também que havia sofrido um acidente de carro no mês anterior e que precisou de um transplante de sangue. Sam e Dean conseguiram descobrir o nome do hospital onde ele se tratou: Hospital Santa Maria.

Enquanto Dean seguiu para o hospital a procura de mais pistas, Sam ficou no motel pesquisando sobre acontecimentos similares que pudessem ter ocorrido no passado. O moreno se deparou com a notícia de que há dez anos atrás pessoas foram também encontradas mortas e sem sangue, vítimas de desabamentos. As ocorrências haviam sido todas em uma pequena cidade no Estado do Kansas. Resolveu ligar para Bobby, talvez ele soubesse de alguma coisa.

Bobby ouviu tudo o que Sam tinha a dizer com atenção.

- Eu trabalhei nesse caso com seu pai, Sam – ele falou, deixando o rapaz animado.

- De que se trata, Bobby?

- Com certeza é um Homem-michoco... Eles vivem em comunidades debaixo da terra, e em geral não perturbam ninguém. Se alimentam de sangue de cadáveres. Ele cavam a terra por baixo, violam os túmulos, e ninguém fica sabendo...

- Argh, Jura que seres assim existem, Bobby? Você não está tirando um uma com a minha cara?

Sam ficou perplexo e enojado. Nunca supôs que houvesse vida debaixo da terra, pelo menos não a vida de criaturas como aquelas.

- E você acha que eu ia inventar uma coisa dessas, garoto? Eles existem sim. Quando querem, podem ter forma humana, mas a maioria prefere manter sua forma de minhoca gigante por toda vida.

- Eles podem se transformar quando querem? Tipo um metamorfo?

- Não é bem como um metamorfo, filho, porque eles não podem escolher qualquer aparência humana que queiram... Eles tem uma único corpo humano. Mas podem escolher estar em sua forma de minhoca ou de homem.

- E porque esse resolveu atacar pessoas vivas?

Bobby explicou que raramente podia acontecer de um homem-minhoco desenvolver intolerância por algum ou alguns tipos sanguíneos. Se o minhoco em questão só bebia sangue O negativo, provavelmente não podia beber nenhum outro.

- E por que não viola cadáveres e procura pelo sangue que precisa? – Sam perguntou indignado.

- Porque ele não tem como saber qual é o tipo de sangue dos defuntos... Ele não pode distinguir exceto por um exame de sangue. Esse monstro provavelmente trabalha em um hospital local e faz de suas vítimas as pessoas com o sangue que precisa.

- Então ele pode ser uma pessoa qualquer?

- Sim, provavelmente um médico ou enfermeiro... Pode também ser uma mulher...

Bobby também explicou que depois de se alimentarem os homens-michoco hibernavam. Depois de beberem o sangue de sua vítima, esburacavam o chão e voltavam para as profundezas de suas cavernas para dormir. Esse procedimento acabava desestruturando as casas e causando o desabamento das mesmas.

Depois de falar com Bobby, Sam ligou para seu irmão e lhe contou tudo. Dean, desfaçado de médico, conseguiu colocar suas mãos na relação de pacientes e doadores de sangue do hospital. Estava já se retirando quando foi confrontado por uma enfermeira.

- Olá, Doutor! – a moça exclamou.

Dean olhou para ela espantado e deu de cara com Gloria Hunt.

- Você!? O que está fazendo aqui! – Ele falou entre dentes.

- Estou servindo a comunidade, assim como você... Cuidando dos meus pacientes. Principalmente os de sangue O negativo... – ela disse debochada.

Gloria também havia investigado, e também havia conseguido informação de caçadores experientes. Dean não podia acreditar naquilo.

- Gloria, deixa essa caso para lá... Não se mete nisso, garota!

- E por que eu haveria de deixar o caso para vocês? Engraçadinho...

- Por que isso não é diversão! Eu e o Sam somos homens e mais experientes que você... Você só vai conseguir atrapalhar a gente.

Gloria olhou feio para o rapaz. Com quem ele achava que estava falando.

- Eu estudei para ser caçadora, sei no mínimo tanto quanto você! Acho que quem vai me atrapalhar na verdade é você.

Ela saiu batendo o pé sem nem mesmo se despedir. Que garota riquinha e mimada! Dean a detestava.


Sam e Dean analisaram cuidadosamente a lista dos pacientes e doadores com sangue O negativo. Conseguiram enxergar um padrão. O monstro estava sempre se movendo em direção leste. Além disso, sempre atacava a cada catorze dias exatos, aos domingos. Apenas o horário do ataque era totalmente incerto. Foi fácil deduzir que no domingo seguinte o monstro tinha apenas duas possibilidades de casas para invadir. A primeira pertencia a uma idosa que morava com as duas netas. A velhinha era paciente do hospital e tinha sangue O negativo. A segunda residência era de um casal recém casado e doador de sangue. O marido era quem tinha o tipo sanguíneo consumido pelo minhoco.

Os rapazes decidiram se separar. Iriam cada um para uma das casas dar um jeito dos habitantes se retiraram. Depois ficariam de tocaia esperando alguém se aproximar e invadir. Esse, com certeza, seria o minhoco, e os irmãos atirariam para matar. Concordaram que, caso ocorresse algum imprevisto, iriam embora, e não entrariam na casa em hipótese alguma. Estar com o minhoco dentro de casa era muito perigoso pois este poderia causar um desabamento e matar quem estivesse ali.

Além disso, decidiram que assim que um deles matasse o minhoco ou o deixasse escapar, ligaria para o irmão avisando. Até que isso acontecesse, eles não ligariam para o outro em hipótese alguma, pelo menos não até a madrugada de segunda-feira. O barulho do celular tocando poderia atrapalhar a caçada...

As 11h da noite de sábado Sam foi para a casa da velha e Dean para a do casal. A principio tudo correu bem, como planejado. Arranjaram desculpas convincentes e fizeram as famílias evacuarem.

Por volta das 2 horas da manhã, Dean viu um sujeito se aproximando e pulando a janela. Era ele! O caçador mirou o monstro e quando estava prestes a disparar viu uma outra pessoa pulando a janela também. Gloria Hunt! Dean ficou com muito ódio. Só podia ser ela mesmo para estragar os seus planos.

Dean viu, horrorizado, quando o homem começou a se transformar em minhoca e segurou a loura pelo pescoço. O Winchester mais velho não hesitou. Apesar de não gostar da moça, não podia deixá-la morrer. Ele pulou a janela atrás dos dois e enfiou uma faca no rabo gigante do minhocão.

O monstro, enfurecido, largou a sua vítima e virou-se para Dean. O olhar da criatura parecia de alivio e prazer quando fitou os olhos verdes do caçador. O rapaz não conseguiu evitar que o monstro cravasse suas presas em seu ombro e começasse a sugar seu sangue. Gloria não fazia nada além de gritar de pavor.

De repente o minhoco soltou o louro e urrou:

- Vocês me enganaram! Esse sangue me faz mal!

Dean deu graças a Deus por ter sangue A positivo. Só aí os dois entenderam que o monstro pensou que Dean e Gloria fossem um casal: os donos da casa.

Dean mirou sua arma e disparou contra o monstro. O bicho, alvoroçado, começou a cavar a terra em desespero. Ouviu-se um barulho ensurdecedor. Os dois caçadores sentiram a terra ceder debaixo de seus pés e o mundo desabar sobre suas cabeças.