Em busca da felicidade
Não ser ( Florbela Espanca)
Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimada,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
- Mantos rotos de estátuas mutiladas!
Ah! Arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! Poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!
Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!
Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!
Caius pov
Não dormir é uma maldição quando se deseja tanto sonhar com dias melhores. O som do choro dela teria sido como uma cantiga para mim. A noite ia longe quando sai de meu quarto e a vi deitada no chão da saleta, encolhida como um gato dormindo. Eu a peguei no colo e senti sua pele arrepiar ao encostar-se à minha. Seu coração batia calmo e seu cheiro era doce e ardente, fazendo minha garganta queimar.
Eu a deitei em um dos divãs e a cobri com meu manto. A pele do rosto claro dela estava manchada. Havia sobre suas bochechas o caminho percorrido pelas lágrimas. Ela tinha medo de mim, alguém cujo coração era silencioso e duro, como se eu não passasse de uma estátua. Meus olhos refletiam minha maldição eterna, que me transformava em um monstro, um demônio.
Eu a deixei dormindo naquela saleta e caminhei silencioso dentro da casa escura. Lamparinas indicavam os cômodos em que meus irmãos estavam com suas esposas, aproveitando o melhor que a imortalidade havia lhes reservado.
Acabei indo parar na sala comum onde costumávamos conversar por horas. Para minha surpresa, Dydime estava sentada em um dos divãs. Era como se ela estivesse me esperando. Um dos motivos para gostar dela era a capacidade que a irmã de Aro tinha de nos proporcionar a sensação de "lar". Ela sorria para mim, com olhos compreensivos e amáveis. Marcus tinha sorte em tê-la.
Eu me sentei junto a ela. Era engraçado estar tão confuso e obsessivamente apaixonado perto dela. Toda angustia e atordoamento desaparecia na presença de Dydime como se não passassem de fumaça. Tudo era substituído por uma alegria pura e genuína, uma onda abençoada de esperança. Não falamos nada por um tempo, apenas contemplando o silêncio bem dito. Ela segurou minha mão num gesto de gentileza.
- Ouvi o choro dela. – a voz gentil de Dydime falou com piedade – Você não a transformou. – ela disse com um certo espanto.
- Tinha outra coisa em mente, mas talvez seja um erro. – confessei. Era fácil falar quando eu estava tão confortável na presença da minha "irmã".
- Pode me contar? – ela era boa de mais para se meter na minha vida como Aro fazia.
- Olhando agora me parece idiotice. – dei de ombros – Queria que ela visse além do monstro, como alguém capaz de ser magnânimo e misericordioso por perdoá-la e deixá-la viva. Com o tempo, quando o medo já não fosse tão grande, então eu a seduziria e transformaria.
- Me parece sensato. – Dydime sorriu para mim orgulhosa – Não é errado querer que ela o ame.
- Não estou falando em amor. – respondi imediatamente – Ela é uma escrava, nada mais.
- É humana como qualquer outra, ela não deixa de sentir ou de ter um coração por ser uma escrava. Se é humana pode amar e ser amada também. – era o jeito dela de dar uma bronca. Falando como uma brisa fresca e passando a mão nos meus cabelos – Ela me parece infeliz.
- Conhece os gregos. Eles têm essa idéia de liberdade e todas as bobagens utópicas que tantos filósofos pregam por ai. Ela grita para quem quiser ouvir que nasceu livre e assim morrerá. – a ultima palavra me assustava.
- Parece uma revolucionária, não? – Dydime riu do comentário – Não acho que seja errado pensar como ela, mas liberdade para as mulheres é muito mais um sonho do que um fato.
- O que quer dizer? – eu a olhei por um momento.
- Se eu e Sulpicia fossemos humanas estaríamos sujeitas ao domínio de um homem. Sem opinião própria, sem vontades, condenadas a subserviência e sem um único direito que nos amparasse. E mesmo como imortais, Aro parece pensar que ainda somos servas dele. – ela disse rindo – Quantas de nós se casaram com quem amavam e não por uma ordem? Por um lado, nossa condição imortal é uma benção. Somos fadados a ficar com nossas almas gêmeas.
- Fala como uma idealista também. – eu disse rindo.
- Talvez. – ela admitiu – Acho que vai acabar descobrindo que ela é sua fonte de felicidade.
- No momento, minha fonte de felicidade é você. – ela sorriu pelo elogio.
- Falando sério, a felicidade que uma alma gêmea traz é impossível para eu criar. Só faço isso para o meu marido. – ela riu.
- Marcus é um bastardo de muita sorte e eu não acredito que você seja irmã do Aro, é surreal de mais.
- É um mistério para mim também. – ela suspirou – Se importa se eu a pegar emprestada pela manhã? Gostaria de arrumar melhor meu cabelo.
- É o aniversário de vocês, não é? – ela riu envergonhada.
- É sim, gostaria de ficar bonita pra ele. – eu ri alto.
- Dydime, você é bonita. Muito! – ela agradeceu e se levantou.
- E você é melhor do que aquilo que admite. Mandei que trouxessem comida para ela pela manhã e vou providenciar algumas roupas também. Agora eu tenho que ir, ele saiu para caçar sozinho e logo vai estar em casa. – ela sorriu e acenou para mim. Em seguida desapareceu no corredor escuro.
Eu gostava de falar com ela. Dydime conseguia me dar alguma paz de espírito para pensar. Athenodora acordaria em breve e começaria em suas novas funções. Era estranho e ao mesmo tempo excitante pensar nela obedecendo minhas ordens, me chamando de dominus.
Voltei para o quarto e lá permaneci até que ouvi alguém bater na porta da antecâmara onde Athenodora dormia. Provavelmente era a refeição dela. Pude ouvi-la se levantando e voltando para o divã. Ouvi o som da mastigação e senti o cheiro da comida. Troquei minhas roupas e deixei o quarto.
Athenodora parou de comer assim que me viu parado a porta da sala. Suas mãos tremiam e seus olhos estavam arregalados. Seu rosto trazia sinais nítidos de uma noite de sono mal dormida. Ouvia o coração dela martelar dentro do peito. O som provocava ardor em minha garganta e o cheiro me deixava tonto.
- Antes de limpar meus aposentos, Dydime me pediu para você ajudá-la a arrumar o cabelo. Hoje é o aniversário de casamento dela com meu irmão. – eu disse sério. Notei que seus ombros estavam encolhidos de medo – Não precisa temê-la. Ela é a mais amável das criaturas desta casa. Termine de comer e vá até ela. – ela acenou afirmativamente com a cabeça.
- Se me permite perguntar. – ela sussurrou.
- Pergunte, Athenodora. – eu permiti.
- Foi o senhor quem me deitou no divã e cobriu? – ela então me olhou diretamente nos olhos.
- Sim, fui eu. Não me servirá de muita coisa se ficar doente. – respondi tentando parecer superior. Estava ficando difícil pensar nela como uma reles escrava.
- Obrigada por isso, dominus. – ela fez uma breve reverência.
Dydime pov
Piedade é o melhor sentimento que podemos ter. Não é movido pela inveja, pela fúria ou pelo desejo desmedido. É tudo uma questão de compaixão por um semelhante ou mesmo por aqueles que nunca entenderão o que você é. Ela me parecia uma menina assustada quando entrou no meu quarto de vestir e foi impossível não sentir piedade.
Ela fez uma pequena reverencia e entrou calada. Evitou olhar nos meus olhos e só abriu a boca para me perguntar o que eu gostaria que ela fizesse. Ela não pareceu se assustar quando tocou minha pele dura e fria. Seu maior incômodo era com a cor dos meus olhos. As janelas da minha alma refletiam meus pecados mortais a mais de mil anos.
Havia um brilho de revolta nos olhos dela, uma vontade cega de se manter firme, de nunca desistir. Era admirável ver tanta bravura, ainda que isso pudesse causar a ela muitos problemas. Caius era impaciente e com sérias tendências autoritárias, talvez isso o impedisse de entender como ela devia ser tratada e eu só podia esperar que meu pressentimento estivesse errado.
Ela era silenciosa e hábil, tinha mãos finas que mostravam que ela havia nascido livre e fora muito bem cuidada.
- Tem mãos habilidosas. – eu a elogiei num esforço de iniciar uma conversa – Caius foi muito gentil em conceder meu pedido.
- Obrigada, domina. – ela respondeu sem encarar meu reflexo no espelho – Se me permite perguntar, qual é o pedido?
- Permitir que me ajudasse com o cabelo. – eu sorri para ela e vi seu rosto ganhar um lindo tom rosado. Sorte minha o quarto estar saturado de perfume o que impedia o cheiro dela de queimar minha garganta – Acho que tenho boas chances de agradar meu marido com a sua ajuda.
- Não acho que tenha feito nada tão extraordinário. Na verdade, seria impossível deixá-la feia ou no mínimo comum. – ela disse modestamente e eu ri.
- Você é muito gentil. Obrigada.
- E a senhora muito graciosa. Não conheço outras casas, mas nenhuma dona agradeceria a uma escrava por um elogio. – ela disse enquanto modelava os cachos do meu cabelo.
- Ser uma escrava não torna você menos merecedora de agradecimentos e elogios. Qualquer um que pense o contrário é um verdadeiro animal. – respondi.
- Então toda Roma e toda Grécia o são. – ela riu – Escravos são tratados como escravos em qualquer parte do mundo, não é um privilégio de Roma.
- É uma pena que tenha razão, Athenodora. Mas eu não quero uma escrava me ajudando, ou ouvindo o que eu tenho a dizer. Prefiro ter uma amiga, então para mim você jamais será uma serva e sim uma boa companheira. – ela corou. Abri minha caixa de jóias e tirei de lá algumas peças. Entreguei a ela. – Marcus, Caius e Aro costumam me dar muitas jóias e eu nem consigo usar todas. Gostaria que ficasse com estas. - os olhos dela se arregalaram ao se deparar com as presilhas de ouro, o colar e os brincos.
- Vão pensar que roubei isso. – foi a resposta dela.
- Não pensarão. Vou comunicar a eles hoje mesmo que eu as dei. – sorri para ela. – Aceite-as como um presente de uma amiga. – ela ficou olhando para as jóias em suas mãos por um tempo.
- Obrigada. – ela sussurrou em resposta.
- Não há de que, Athena.
Caius pov
Passei toda manhã fora de casa, aproveitando o tempo nublado para uma caçada nos arredores da cidade. Dydime teria a chance de dar a Athenodora boas doses de alegria enquanto estivessem juntas e isso seria bom para os meus planos. Aro e Marcus não apareceram para me perturbar e Sulpicia raramente se dava ao trabalho de ser tão inconveniente quando o marido.
Quando cheguei aos meus aposentos Athenodora estava inclinada sobre um tear trançando fios. Eu tinha certeza que ela tinha notado a minha presença no quarto, eu vi quando ela se sobressaltou minimamente e se mexeu sem sair do lugar. Ela se sentia desconfortável quando próxima de mim.
Me aproximei um pouco para ver seu trabalho no tear. Parecia ser um tapete com motivos geométricos. Eu gostava do padrão de cores que ela usava. Azul escuro e vermelho. Seu aroma estava diferente, ela cheirava a perfume de jasmim. Seu pescoço estava exposto pelo cabelo trançado, o que a tornava uma visão tentadora.
- Onde pretende por este tapete? – perguntei junto ao ouvido dela provocando-lhe um arrepio.
- Não sei ainda, talvez o mande para a ala dos escravos, pode ser útil como esteira. – ela respondeu tentando disfarçar o medo em sua voz.
- Gosto dele, pode usá-lo aqui se desejar. – ela acenou positivamente com a cabeça – Dydime gostou dos seus serviços? – os ombros dela relaxaram um pouco.
- Ao que parece, sim. – ela respondeu – A senhora é muito gentil.
- Sim, ela é uma boa alma. Ela providenciou roupas para você, é justo que se arrume mais agora que está próxima aos senhores. – respondi.
- Não é necessário. – ela respondeu num falso tom de modéstia. A teimosia dela me divertia às vezes.
- Eu digo que é. – disse definitivo. Ela ficou calada por um tempo, mas não estava concentrada no tapete. – O que deseja falar, Athenodora? – ela encolheu os ombros.
- Quero fazer uma oferta, dominus. – ela sussurrou. Eu encarei suas costas por um momento que pareceu eterno. O que ela estava pensando? O dom de Aro me seria muito útil agora.
- Diga. – eu respondi. Ela pegou um pequeno embrulho de pano e o abriu. Havia algumas jóias de bom valor ali.
- Eu gostaria de pagar minha liberdade com elas. – ela estendeu as jóias a mim. Havia um brilho de obstinação em seus olhos quando ela o fez. Senti a raiva vir em ondas, turvando meu bom senso. Peguei as jóias da mão dela.
- Me oferece jóias em troca de sua liberdade. – eu sussurrei enquanto colocava o colar ao redor do pescoço dela – Tem idéia de quanto ouro eu possuo, Athena? – perguntei friamente e ela não respondeu – Pode calcular quantas jóias existem nesta casa? Acha que quero suas jóias?
- Assim como existem jóias em demasia, existem escravas. Não precisa de mais uma. – ela respondeu. Deixei que meus dedos se fechassem ao redor do pescoço dela. Athenodora estava pálida de medo, mas mantinha sua pose orgulhosa.
- Eu devia espancá-la por sua insolência! – eu disse cruelmente, mas ela se manteve firme – Eu não me importo com as outras escravas, ou com as jóias. Se eu a chamei para estes aposentos é porque não aceito outra! Ponha em sua cabeça que você me pertence e não há nada que possa mudar isso!
- Morte. – ela respondeu firme e eu a soltei imediatamente. O que ela estava dizendo?!
- O que disse?! – questionei atônito.
- A minha morte mudaria isso. – ela respondeu serena – Rezo a Hades que ouça meu pedido e me chame ao seu reino o quanto antes. – eu trinquei os dentes de raiva.
- Plutão não ouvirá sua súplica e isso eu lhe garanto! – retruquei furioso. Ela me encarou firme.
- É o fim de todo mortal e será o meu também. – eu avancei sobre ela e a coloquei contra a parede. Contive o rosnado que me escapava da garganta.
- Plutão não ouvirá você, pois eu sou o deus da morte encarnado, o juiz das almas deste mundo fétido e você, Proserpina, está destinada a ser minha! – uma de minhas mãos desceu por suas pernas, apalpando-as sedentas por despi-la ali mesmo – Eu não vou libertá-la nem que o céu caia sobre nós e eu lhe asseguro que não haverá o alívio da morte para você.
- Não é o deus do submundo. – ela disse entre dentes – É um monstro! – permiti que meus lábios tocassem sua pele rosada. Minha garganta estava em chamas outra vez.
- Posso ser um monstro, posso ser um deus. Continue me desafiando assim e eu lhe mostrarei o inferno bem de perto, se ficar comportada e me obedecer eu prometo mostrar prazeres que jamais imaginou em sua vida mortal. - eu a soltei e impus alguma distância para que eu não cometesse a imprudência de ser tentado pelo sangue dela. – Dydime ficará muito triste quando souber que o presente que lhe deu estava sendo usado como uma mercadoria sem importância. Você não passa de uma escrava ingrata!
- A senhora Dydime é uma boa pessoa e eu não quis ofendê-la de forma alguma. – ela disse enquanto recuperava a respiração.
- Mas não pensou duas vezes antes de fazê-lo e como se não bastasse isso também desrespeitou seu mestre. – eu a encarei caída no chão. Nem quando se encontrava numa posição inferior ela perdia seu ar de insubordinação e arrogância. Athena era orgulhosa e teimosa como uma égua sem adestramento. – Tire suas roupas.
- Como? – ela me encarou assustada pela ordem igual a da noite anterior.
- Tire-as agora! – ordenei ainda mais enfático – A única coisa que terá sobre o corpo até segunda ordem serão estas jóias. Vai se sentar na cama em meu quarto com as pernas abertas e vai se tocar para que eu veja.
- Eu não o farei. – ela sussurrou. Sem medir raiva ou bom senso eu a agarrei pelos cabelos. Ainda tinha minha força sobre controle, o bastante para arrastá-la até o quarto e jogá-la sobre a cama. Athenodora gritava e esperneava, tentando se livrar de mim, mas nada no mundo conseguiria me parar naquele momento.
Ela bateu com as costas na cama e enquanto sua mente tentava processar uma reação eu já estava rasgando suas roupas em tiras e atirando-as ao chão do quarto. Mais uma vez eu a agarrei pelos cabelos para que ela ficasse a minha altura e prendi o colar ao seu pescoço fino, os brincos em suas orelhas e as presilhas em seu cabelo trançado. Mais uma vez eu a empurrei contra o leito e levei minha mão entre suas pernas. Ela soltou um gemido quando sentiu a textura rígida e fria da minha pele, semelhante a dedos de mármore.
- Veja! Quando lhe dou uma ordem o que espero é obediência! – vociferei enquanto a tocava. Athena se contorcia contra meu corpo tentando se livrar do meu toque. – Lute o quanto quiser! Tua deusa Perséfone também lutou quando foi tomada por Hades e de nada serviu! – ela chorava e gritava a plenos pulmões enquanto tentava se libertar. Cansado de seu escândalo eu a larguei sobre a cama mais uma vez. Ela se encolheu e não ousava olhar em minha direção, tão pouco dizer qualquer coisa.
Eu desejava que ela me olhasse, que aceitasse que eu era seu mestre e assim seria pela eternidade que chegaria para ela em breve. Além de minha loucura desmedida, eu queria que ela não me forçasse a ser tão rude e violento quando eu não desejava sê-lo com ela. A única coisa que eu queria é que Athenodora baixasse sua guarda e reparasse o quão generoso e bom para ela eu poderia ser se ela assim o permitisse.
Uma vez que eu havia recuperado a calma, caminhei até ela e ergui seu queixo com cuidado para que pudesse olhá-la nos olhos. Tracei o caminho de suas lágrimas com a ponta dos dedos e depois o contorno de seus lábios rosados. Ela era linda além da imaginação humana. Faria inveja à Venus e qualquer outra deusa que a velasse. Bela o bastante para levar um homem à loucura como estava me levando agora.
Acariciei seu rosto suave e quente contra minha pele. Eu raramente sentia os efeitos do clima, mas o calor dela me queimava por dentro. Plutão havia perdido a cabeça por uma bela mulher, arriscou perder o amor dos irmãos e destruir a humanidade por ela. Proserpina por muito pouco não foi sua ruína e perdição. Ninguém pode entender o coração de um deus, nenhum mortal conseguiria vislumbrar as dimensões disso, mas eu o entendia perfeitamente. Eu estava entregue a ela, rendido por sua beleza e orgulho. Eu já não sabia mais quem era escravo de quem.
- Não gosto de maltratá-la, Athena. – eu disse num tom baixo – Mas você abusa de minha paciência a todo o momento.
- Não me chame de Athena, mestre. – ela pediu ainda chorando. Eu afaguei suas bochechas coradas com cuidado.
- E porque não devo fazer isso, Athena? – mais lágrimas caíram de seus olhos.
- Era como meus pais me chamavam. Eu não quero...Não quero pensar neles. – ela sussurrou.
- O que aconteceu com eles? – perguntei enquanto me sentava junto a ela na cama. Soltei seus cabelos e os senti contra meus dedos como fios de seda negra, ela não protestou.
- Quando o exercito chegou a minha vila meu pai tentou defender minha mãe e meus irmãos para que fugissem enquanto havia tempo. Um soldado romano o apunhalou pelas costas, minha mãe tentou acudi-lo e foi trespassada por uma flecha. Meus irmãos ou foram mortos ou vendidos como escravos, como eu. – retirei meu manto e o joguei sobre os ombros dela enquanto ouvia seu relato de vida. Naturalmente ela odiava Roma pelo que havia tomado dela. Ela me odiava por ser romano e ser seu dono. Me odiava porque eu era o símbolo maior da ruína de seu mundo – Vi minha casa ser queimada com os corpos lá dentro. Não pude nem dar a eles um funeral, ou colocar as moedas de Caronte sobre seus olhos. Eles não chegaram ao outro mundo.
- Não chore por aqueles que morreram lutando, lembre-se deles com orgulho e respeito, pois foram valorosos em vida. – eu disse enquanto lhe secava as lágrimas – E quando eu a chamá-la de Athena, pense que viveu dias felizes quando chamada por este apelido e ainda pode vivê-los outra vez. Quando eu te chamar de Athena, estarei tentando chamar a felicidade para você. – eu a abracei com cuidado.
- Acha que eles estão bem? Conseguiram fazer a passagem mesmo quando não pude ajudá-los? – ela perguntou enquanto se agarrava ao manto. Afaguei seus cabelos outra vez.
- Eles foram recebidos de braços abertos por Plutão e saudados pelos juízes, agora caminham pelos Elíseos com alegria. – eu disse para ela como se contasse histórias a uma criança.
- Por que estariam felizes quando sua filha é uma escrava? – ela questionou com um tom sutil de raiva. Eu ignorei.
- Porque os mortos enxergam muito além daquilo que um mortal pode ver. – eu disse carinhoso – Eles vêem que sua filha está junto de Plutão, como a personificação de Proserpina, sendo amada por ele e destinada a ser uma rainha. Athena, eu não quero que seus antepassados tenham motivos para ficarem tristes. Então seja obediente e eu cuidarei e amarei você como a uma deusa e eles terão motivos para se alegrarem por toda eternidade. – eu não reparei, mas ela havia adormecido enquanto eu sussurrava. Eu a deitei com cuidado na cama e a cobri com mantas para que não adoecesse por causa de minha pele fria.
Ela ficava linda dormindo. Serena e imperturbável como um anjo. Notei que sentiria falta de vigiá-la em seu momento de paz quando ela fosse imortal. Permaneci ao lado dela, velando seu sono, até o surgimento dos primeiros raios de sol.
Nota da autora: Louco? Obsceno? Desequilibrado? Estranhamente adorável? Sim, Caius é tudo isso e mais um pouco. O que acham da Dydime? Como eu disse, ela é provavelmente a única alma boa entre os Volturi. O relacionamento de Caius e Athenodora tem inspiração no mito greco-romano de Hades e Perséfone (ou Plutão e Proserpina), inclusive a aparência da Athena é baseada em algumas imagens da deusa Perséfone.
Digam o que estão achando, comentem e façam uma autora feliz!
Bjux
Bee
