Capítulo II

No jantar daquela noite Pansy descobriu-se sentada ao lado do marquês Harry e, por um instante, perguntou-se se não fora obra de Daphne. Mas logo descartou a idéia, quando sua anfitriã, Emilia Cavendish, lhe sorriu e apontou discretamente o nobre, deixando claro ter sido a única responsável pela distribuição dos lugares.

Emilia, amiga de infância como Daphne, a considerava uma verdadeira aberração na alta sociedade, infestada de infiéis. Tentava fazer Pansy render-se aos prazeres da infidelidade e agora a expunha ao charme do marquês com a firme intenção de quebrar-lhe a longa abstinência sexual.

Decidida a resistir aos possíveis avanços do marquês, Pansy fez questão de tratá-lo com absoluta frieza, respondendo a quaisquer observações com monossílabos.

Parecendo não perceber sua atitude, Harry virou-se para lady Mont, instalada à sua esquerda e, muito cortesmente, pôs-se a ouvir a velha dama discorrer sobre a pesca do salmão e os méritos dos serviçais que sabiam reconhecer seu lugar.
Quando ele tornou a dirigir a palavra a Pansy, no meio do jantar, ela estava a ponto de morrer de tédio com a conversa do almirante Padille, um ardoroso defensor da superioridade da marinha inglesa.

— Eu ficaria feliz em me desculpar, se você achar necessário, senhora.

— Sou eu quem lhe deve um pedido de desculpas, sir. — Pansy sorriu diante da expressão surpresa do marquês. — Já me desculpei com Daphne. Senti-me terrivelmente embaraçada.

— O que é natural. A propósito, nunca a vi aqui antes, na casa de Emilia.

— Enquanto eu já ouvi falar a seu respeito mesmo na França.

— Sem dúvida palavras elogiosas. — O sorriso franco iluminou os olhos verdes, acentuando a beleza máscula do rosto marmoreo.

— Minhas amigas o apreciam muitíssimo. Com certeza por causa de seu charme e educação.

— Você quer dizer que não herdei nenhuma das qualidades de meu pai! Mas eu tampouco as desejaria. — Harry devolveu sorridente.

O falecido marquês fora conhecido como um jogador intratável, um nobre arrogante e incapaz de demonstrar benevolência com quem quer que fosse.

— Contaram-me que você a bem. Talvez esse seja um talento herdado de seu pai.

— Na verdade aprendi a ar nos Estados Unidos. Meu padrasto possuía minas de ouro lá.

— Você saiu da Inglaterra ainda criança, não? — O mundo da aristocracia era pequeno. Todos sabiam que Lily Black, bela americana, abandonara o marido e voltara ao seu país de origem tão logo herdara a fortuna do pai.

— Partimos quando eu tinha quatro anos. Minha mãe achou melhor retornar aos Estados Unidos.

— E como você se sente em relação à Inglaterra? Pretende fixar residência na Inglaterra?
— Talvez durante parte do ano. Dependerá de meus negócios. Meu padrasto e eu estamos desenvolvendo um novo negócio nos Estados Unidos, no ramo do petróleo.

— A família de meu marido possui minas de carvão em outro país. Mesmo contando com bons administradores, uma supervisão dos donos é necessária.

— Minha mãe toma as decisões por mim, durante minha ausência. — Harry sorriu, orgulhoso. — Provavelmente é mais capaz de descobrir petróleo do que Sirius, ou eu.

— Ela parece uma mulher incomum. Invejo-lhe essa liberdade.

— Minha mãe sempre foi independente. Ter o próprio dinheiro torna as coisas mais fáceis.

— Tem razão.

Não passou despercebida a Harry a melancolia embutida nas palavras da bela dama a seu lado. Embora pouco houvesse visitado a Inglaterra enquanto o pai ainda vivia, ele ouvira falar de Pansy Parkinson, morena e linda. Sem dote, mas belíssima, ela havia se casado com um homem pertencente à nata da aristocracia. Porém, segundo rumores, ela enfrentava um casamento infeliz.

— Você está a par dos últimos feitos da Marinha inglesa agora? — ele indagou baixinho, mudando de assunto.

— Nos mínimos detalhes — Pansy murmurou. — E você, pelo visto, foi instruído sobre como tratar os serviçais.

— Com mão firme e pomposa arrogância.

— Imagino que irá adotar o conselho de lady Mont — ela retrucou, perguntando-se por que a voz rouca do marquês a afetava, deixando-a arrepiada da cabeça aos pés.

Vendo-a enrubescer, Harry experimentou uma sensação estranha. Apesar de mulheres tímidas e esposas virtuosas não serem seu tipo, a simples proximidade daquela mulher o estava provocando de uma forma sutil e inesperada.

— Você gostaria de mais vinho? — indagou, fazendo sinal para o servo se aproximar.

— Eu não deveria... Talvez só um pouquinho.

Sentindo-se como se tivesse quinze anos outra vez e a ponto de seduzir sua primeira mulher, Harry inspirou fundo, repreendendo-se silenciosamente. Com tantas mulheres disponíveis, não seria justo corromper a única inocente, a única que acreditava na santidade do casamento, como ele ouvira falar. Por mais que Pansy fosse maravilhosamente bonita, elegante, educada e doce, ele não poderia cair em tentação. Ela trajava um vestido condizente com o de uma noviça, mas continuava sendo tão encantadora! Por isso, durante o resto do jantar, ele se comportou como se fosse uma freira que estivesse sentada ao seu lado.

Terminada a refeição, enquanto os homens permaneciam na sala de jantar para degustar um cálice de Porto e charutos, as damas se retiraram para o salão. Daphne não perdeu tempo em abordar Pansy.

— Harry não é maravilhoso?

— Ele é muito gentil e discreto. Sua seriedade me espantou.

— Então você está intrigada? — a outra insistiu, esperançosa.

— Foi idéia de Emilia, não? Colocar-me ao lado dele à mesa.

— Nossa amiga gosta de brincar de Cupido. Harry mudará seu mundo, se você permitir.

— Não me pareceu que ele estivesse interessado. Tampouco eu — Pansy se apressou a emendar. — Falamos principalmente da extração de petróleo, de lady Lily e da minha filha.

— Com efeito!

— Não fique tão surpresa. Não creio que ele desempenhe o papel de devasso o tempo inteiro.

— O marquês chegou à Inglaterra em agosto, para o funeral do pai. E nestes três meses não fora reconhecido por sua abstinência de prazeres. Ele não tentou seduzi-la?

— Por Deus, às vezes acho que você é obcecada por sexo! Por favor, falemos de outro assunto.

— Preciso de mais champanhe — Daphne decretou. — A menos que Emilia acrescente um pouco de conhaque ao chá. Mas querida, não é minha intenção ser inoportuna. Desde que você esteja feliz, fico contente.

De repente, a risada estridente de Hermione Weasley ecoou pelo ar, fazendo todas as cabeças se voltarem para a atriz.

— A propósito — continuou Daphne —, em qual trem Draco chegará hoje?

— Não sei. — Ela adimitiu timidamente. O marido não dissera.

Draco Alexander Malfoy, marido de Pansy, chegou um pouco antes das onze horas, quando os cavalheiros já haviam se reunido às damas no salão. Ainda com o traje de viagem, conversou com Emilia alguns minutos e cumprimentou vários dos convidados antes de se aproximar da esposa.

Ele beijou-a rapidamente no rosto e em seguida buscou a companhia de Hermione Weasley.

Magoada por ter sido ignorada e desprezada em público, Pansy, à medida que as horas se arrastavam, sentia-se cada vez mais humilhada pela descarada atenção com que o marido cercava a amante. Saber era uma coisa, presenciar, outra completamente diferente.

— Querida, não entendo essa sua fidelidade absurda — Daphne comentou, notando a atitude escandalosa de Draco e Hermione, entretidos numa conversa obviamente íntima.

— De que adiantaria fazer uma cena? — Pansy suspirou amuada.

— Por que não se vingar?

— À sua maneira?

—É a única maneira que conta.

— Então o sexo tornou-se um jogo? Uma disputa? — Pansy tentava conter as lágrimas que queriam cair.

— Não estou falando em você tentar derrotar seu marido neste jogo, adotando vários amantes. — Sabendo que Draco emendava um caso no outro, não havia chance de Pansy vir a vencê-lo. — Estou falando em você, pelo menos uma única vez na vida, se divertir um pouco na companhia de alguém, em fazer amor por prazer, não por dever, em ser feliz por algumas horas.

— Eu adoro minha filha. Ela é a minha felicidade.

— Você precisa desfrutar de alguma felicidade pessoal também. Ou quer olhar para trás, daqui a vinte anos, e amargar o arrependimento?

— Você não se arrependerá de nada?

— Estou tentando evitar tal coisa. Ouça, nós duas compreendemos muito bem os motivos pelos quais nos casamos. — Daphne torou compreensiva.

— Mas eu realmente amava Draco. Ele era alto, bonito e educado anos atrás, quando, ainda menina, o conheci. Ele era apaixonado por mim, tenho certeza.

— E você o ama agora?

Pansy baixou os olhos para o chão. Diante do silêncio de Pansy, Daphne prosseguiu.

— Caso sirva de consolo, não estamos sozinhas em nossos casamentos sem amor. Com certeza somos a regra, não a exceção.

— Meus pais são felizes juntos — argumentou Pansy. — Portanto, não é algo impossível.

— Os meus não são. Nós não somos. Mesmo seus pais sendo felizes juntos, eles não a impediram de se casarem sem amor.

— Eles esperavam que eu tivesse o dinheiro que sempre lhes faltou.

— É uma mísera recompensa, não? — O marido de Daphne, barão Zabini, era um dos homens mais ricos da Inglaterra, graças ao tino comercial da família.

— Não sei, não tenho certeza... Oh, amiga, não me peça para pesar o amor que sinto por minha filha contra as infidelidades de Draco.

— Se não fosse por sua filha você partiria, não?

— A questão é que não posso. Ainda que discutíssemos esse assunto até o amanhecer, nada mudaria os fatos.

— Então arranje um amante!

— Um amante me traria a felicidade? É simples assim? Você é feliz?

— Às vezes. Por que você não considera Harry? Estou sendo generosa porque a considero uma amiga querida e ele é a perfeição personificada. E se você pretende ultrapassar a linha, é melhor ser com alguém que valha a pena.

— O marquês é seu para que o dê a mim?

— Se ele estiver interessado em você, não oporei resistência.

— Mas ele não está. — Pansy passeou o olhar pelo salão. — O marquês parece mais interessado em Ginny esta noite. Você não deveria ir até lá e reclamá-lo para si?

— Não quero acorrentá-lo a mim. Quero apenas fazer amor com ele. E garanto-lhe que Harry tem energia suficiente para saciar um harém. Nós dois chegamos ao clímax várias vezes essa tarde.

— Por favor. Daphne — murmurou Pansy, corando — fale mais baixo. Além disso isso não ajuda em nada, compartilhar um homem com tantas!

Apesar da negação, pela primeira vez desde a chegada do marido, Pansy se esqueceu do ressentimento e da raiva. A lembrança do corpo magnífico do marquês e da conversa durante o jantar abafou tudo mais em sua mente.

—Pense em Harry, querida. Pense em como ele poderia fazê-la se sentir. Você alguma vez já gritou ao atingir o clímax?

— Não pretendo discutir minha vida sexual no salão de Emilia. — Draco não aprovaria seus gritos, disso tinha certeza.

— Pois muito bem, mas qual foi a última vez em que Draco a procurou em sua cama? Não quero vê-la morrer de frustração. E este é o fim de meu sermão. — Daphne levantou-se. — Vou tentar ganhar algum dinheiro na mesa de bridge. Você me acompanha?

— Ainda não. Ficarei aqui mais um pouco, até terminar o cálice de champanhe.

— Enquanto isso, pense em se divertir um pouco! — Disse Daphne com um sorriso cumplice.

Sozinha, Pansy achava cada vez mais difícil suportar a visão do marido e da amante. Enfim compreendia por que ele decidira aceitar o convite de Emilia para o fim de semana. Draco só aparecera por causa de Hermione. Oh, como odiava esse mundinho hipócrita, onde maridos e mulheres fingiam não perceber as traições mútuas, onde as trocas de parceiros eram tão freqüentes que todos davam a impressão de já terem se deitado com todos.

— Você parece estar precisando de outro drinque.

Pansy ergueu os olhos e se deparou com a figura máscula do marquês Harry, cujo sorriso gentil a fazia querer cair em prantos.

— Posso me sentar ao seu lado?

Sem esperar resposta, Harry acomodou-se na cadeira vaga, deixada por Daphne, e ocupou-se enchendo um cálice de champanhe para dar a Pansy tempo de se refazer e conter as lágrimas.

— Não sei sobre você, mas estou irremediavelmente sóbrio enquanto todo mundo está quase caindo de bêbado. Será que deveríamos tentar alcançá-los? — Disse Harry em tom brincalhão.

— Uma idéia esplêndida. — O sorriso que ela lhe ofereceu era hesitante, porém já não havia sinal de lágrimas nos belos olhos melancólicos, que Harry percebeu serem de um castanho esverdeado.

— Daphne parece uma boa amiga. Você a conhece há muito tempo? — Harry planejava falar apenas de assuntos agradáveis, a tristeza da bela mulher era tão óbvia que fora atraído para ela como um imã errante.

— Desde que éramos meninas. Embora ela seja bem mais corajosa do que eu. — Enrubescendo, Pansy apressou-se a explicar . — Isto é, não que as atividades de Daphne sejam da minha conta. — Ela calou-se enrubescendo — Estou piorando tudo, não?

— Eu não havia percebido que nossos quartos eram adjacentes — o marquês comentou calmamente. — Qualquer um podia ter se enganado e aberto a porta errada. A propósito, você pretende participar da caçada amanhã de manhã?

— Estou esperando ansiosa. Adoro cavalgar bem cedinho, quando o ar está fresco e o sol brilha suave. Faz-me pensar nas alegrias simples da vida.

— Então deveríamos tomar apenas mais um cálice de champanhe. Dei ordens ao meu criado para me acordar às seis.

— Neste caso estarei de pé antes de você. Minha serva irá me acordar às cinco e meia.

— Você gostaria de me acompanhar numa cavalgada matinal? — Harry a convidou, as palavras saindo de sua boca sem que houvesse planejado. Todavia, percebendo-a vacilar, desculpou-se, irritado consigo mesmo por ter tomado tais liberdades. — Perdoe-me. Talvez eu tenha bebido mais do que supus.

— Eu gostaria de cavalgar — Pansy murmurou, o olhar abaixado.

Por um instante o marquês permaneceu em silêncio, perguntando-se se seria mesmo sensato se envolver com uma mulher honrada e se poderia se comportar como um verdadeiro cavalheiro.

— Devo esperá-la no halI, ou nos encontramos nos estábulos?

— Nos estábulos — ela retrucou depressa, reparando que o marido acabara de sair do salão na companhia de Hermione Weasley. — Agora, com sua licença...

Sozinho, Harry sorveu devagar até a última gota de champanhe, inquieto com o desenrolar dos acontecimentos. Nunca se envolvera com mulheres virtuosas e precisaria ter cuidado na manhã seguinte para não dizer, ou fazer, nada que a encorajasse. A última coisa na qual estava interessado era na virtude.