Capítulo II – Corações disparados
Narrado por Brian
Meu coração parecia querer saltar do peito ao ouvir a voz da minha Mel. Saber que ela estava no quarto ao lado e não poder ir até lá era a maior tortura que eu poderia aguentar. A saudade queimava em meu peito e eu já estava me arrependendo de ter planejado chegar de surpresa somente à noite. Seth ria baixinho da minha cara ao perceber minha vontade de abrir a porta daquele quarto e ir até ela. Sacana dos infernos. Se eu soubesse que ele ia ficar tirando um sarro da minha cara quando o chamei para me fazer companhia, eu teria mordido a minha língua antes de ligar para ele. Agora, além de ter que me segurar para não invadir o quarto de Sofia, tinha que aguentar a gozação daquele abestalhado. Mas o que era dele estava guardado, eu ia aprontar uma boa para cima dele quando tivesse a chance.
Se meu coração já estava acelerado ao ouvir a voz de Mel, ele quase rasgou meu peito ao perceber que ela chorava. Uma angústia sem precedentes tomou conta de mim e tudo o que eu mais queria era abrir aquela porta, pegá-la no colo e abraçá-la para que ela parasse de sofrer. Porém, aquele chato do meu cunhado, também conhecido como Seth, bloqueava a porta do meu quarto me impedindo de sair. Tudo bem, eu tinha pedido que, não importando o que acontecesse, ele não me deixasse sair daquele quarto e estragar a surpresa que estávamos preparando para a noite. Mas, caramba! Será que ele não percebia que aquela situação era uma emergência e que minha namorada estava chorando por minha causa no quarto ao lado? Eu queria ver se fosse Sofia que estivesse chorando por causa dele e eu o impedisse de ir até lá. Tenho certeza de que ele já teria me dado um murro no olho e atravessado aquela porta de qualquer jeito.
Ouvir o choro sofrido e magoado de Mel estava me levando à loucura. Eu já não conseguia respirar direito de tanta aflição e pensar racionalmente tinha se tornado um luxo para mim. Eu era puro instinto naquele momento e meu instinto me dizia para atropelar o sujeito que bloqueava meu caminho e atravessar a porta do meu quarto, nem que para isso eu tivesse que nocauteá-lo. Droga! Ele era meu melhor amigo, mas eu não hesitaria em passar por cima dele para chegar até ela.
Meu olhar assassino deve ter denunciado as minhas intenções e Seth simplesmente trancou a porta à chave guardando-a dentro da cueca enquanto me dava um olhar debochado como quem me desafiasse a tirá-la dali. Merda! Mesmo que eu conseguisse nocauteá-lo, eu não colocaria minha mão dentro da cueca dele de jeito nenhum. O filho da mãe tinha me colocado em uma sinuca de bico.
_ Você vai me pagar muito caro por isso, Seth! – eu rosnei baixinho para não ser ouvido do outro lado da parede. – Vou cobrar com juros altíssimos, pode apostar!
_ Eu sei que vai ... – ele respondeu sem se abalar - ... mas fique tranquilo. Sofia está lá com ela e vai conseguir acalmá-la. Pense que tudo vai ter valido à pena quando você vir o brilho nos olhos dela ao vê-lo chegar de viagem. Cara, eu sei que está sendo difícil para você ouvi-la chorar e não poder ir até lá. Se eu estivesse no seu lugar estaria louco também, mas pense que é por uma boa causa. Essa tristeza dela vai desaparecer em poucas horas e ela nem vai se lembrar que chorou durante a tarde.
Eu esperava que ele tivesse razão em suas palavras, caso o contrário eu iria me culpar por não ter entrado naquele quarto. Depois de um tempo, eu já não conseguia mais ouvir o choro de Mel, mas sabia que ela ainda não tinha se acalmado. Meu coração ainda estava esmagado no peito e eu sentia que ela ainda estava angustiada. Era como se aquela angústia estivesse dentro de mim e, na verdade, estava. O quarto, aos poucos, foi ficando silencioso e eu comecei a relaxar lentamente. Talvez Sofia tivesse realmente conseguido acalmá-la, como Seth havia dito, mas eu precisava de uma confirmação.
_ Seth, por favor, ligue para a minha irmã e pergunte a ela como a Mel está. Eu preciso pelo menos saber se ela está mais calma, cara! – sussurrei vendo Seth pegar o celular e discar o número de Sofia.
Assim que minha irmã atendeu ao telefone tomei o aparelho das mãos de Seth e a bombardeei com perguntas. No início, ela ficou um pouco atrapalhada com as palavras e eu pude perceber que ela sussurrava do outro lado da linha. Mel havia dormido depois de chorar e agora ressonava tranquila sobre a cama. Sofia me garantiu que ela estava bem e que só parecia um pouco cansada. Prometeu que ficaria ao seu lado até a hora do jantar e que não deixaria nada de mal acontecer a ela. Eu queria muito chegar de fininho no quarto e ver com os meus próprios olhos se ela estava realmente bem, mas Sofia conseguiu me convencer de que não havia necessidade de arriscar ser visto e estragar tudo.
_ Falta pouco, Brian! Aguente só mais algumas horas e logo ela estará em seus braços, meu irmão... – ela havia dito com sua voz suave.
Eu, como não conseguia dizer não para ela, me rendi derrotado e angustiado. Se Mel estivesse mais calma eu poderia aguentar mais um pouco. No entanto, ficar tão perto dela sem poder vê-la era pedir demais. Seth, percebendo minha inquietação, sugeriu que saíssemos dali enquanto ela dormia e fôssemos para outro lugar. Achei melhor seguir o seu conselho antes que eu perdesse de vez a cabeça e fosse até ela. Iríamos para a minha casa e ficaríamos lá até a hora do jantar. Antes de sairmos, Seth enviou uma mensagem para o celular de Sofia avisando-lhe sobre onde estávamos indo. Ela e Mel se arrumariam ali mesmo, já que as roupas que elas usariam estavam nas sacolas que elas haviam trazido do shopping.
Em casa, Linda me recebeu com um sorriso brilhante e um abraço caloroso. Era impressionante a ligação que existia entre nós. Meu pai dizia que só tinha visto algo assim entre ele e tia Alice. Realmente, os dois tinham uma ligação fortíssima a ponto de, mesmo estando distantes, sentirem quando o outro não estava bem.
_ Eu sinto que você está angustiado, Brian. Quer falar a respeito? – ela me perguntou acariciando meus cabelos enquanto minha cabeça repousava sobre suas pernas.
_ Eu só estou contando as horas para ficar frente a frente com a Mel, Lindinha! – eu disse encarando seus olhos verdes que me estudavam atenciosamente.
Linda podia ver através de mim. Nada escapava ao seu olhar atento. Ela sabia que havia algo a mais em meu estado de espírito e deixou-me constrangido por ser pego mentindo ao encarar-me com os olhos semicerrados.
Tudo bem! – eu me rendi – Eu estou angustiado porque hoje eu ouvi minha Mel chorar por minha causa e não pude ir até ela – confessei.
Ela sorriu delicadamente enquanto seus dedos continuavam a passear carinhosamente por meus cabelos. Em momentos como aquele, eu podia ver claramente o meu anjo presente nela. Era uma sensação reconfortante saber que ela estaria sempre por perto, me protegendo ... me apoiando ... me amando. Linda não disse mais nada. Apenas continuou acariciando gentilmente meus cabelos fazendo-me relaxar. Aos poucos, meus olhos tornaram-se mais pesados, meu corpo mais lânguido, minha mente mais nublada ... Não sei se foi sonho ou se a última coisa que ouvi foi a voz doce e suave de Linda sussurrando em meu ouvido: "Durma, anjinho! Eu sempre estarei aqui com você!"
Adormeci.
Narrado por Melinda
Acordei me sentindo mais relaxada, mas aquele cansaço que me tomava ultimamente continuava ali. Por mais que eu dormisse horas a fio, eu tinha sempre a sensação de que tinha acabado de correr uma maratona. Às vezes, eu passava o dia todo com dores pelo corpo como se tivesse levantado muito peso em uma academia. Não havia razão para tanto cansaço e isso já estava começando a me incomodar.
Deitada na cama, eu encarava o teto do quarto enquanto pensava sobre o que poderia estar acontecendo comigo. A forma agressiva com que eu tinha me dirigido a Mark mais cedo tinha me surpreendido. Eu não era assim. Percebi que tanto ele quanto Sofia também ficaram surpresos com a minha reação intempestiva, mas não quis prolongar aquele assunto que tanto me incomodava. Mark estava se tornando uma pessoa inconveniente e eu temia a hora em que ele fizesse algo na frente de Brian e causasse uma briga. Eu sabia que Sofia estava certa em me dizer para contar a Brian o que estava acontecendo, mas meu medo de que ele fosse atrás de Mark e fizesse alguma bobagem sempre me travava. No entanto, as coisas estavam tomando um rumo que poderia nos levar a um destino desagradável. Eu teria que criar coragem de contar a ele toda a verdade assim que ele voltasse para casa.
_ Você se sente melhor? – a voz suave de Sofia sussurrou ao meu lado na cama. Eu estava tão absorta em meus pensamentos que não havia notado sua presença ali.
_ Um pouco! – menti. Eu não queria deixá-la ainda mais preocupada comigo. Eu podia ver a preocupação estampada em seus olhos e isso me angustiava.
Sofia apenas sorriu levemente e eu tive a certeza de que ela sabia que eu havia mentido. Ela levantou-se da cama e dirigiu-se ao banheiro. Pouco tempo depois, ela retornou ao quarto de banho tomado e me entregou uma toalha limpa para que eu pudesse tomar um banho antes do jantar.
Minha avó estava preparando um jantar especial para hoje à noite, mas eu não estava muito animada. Sem Brian aqui, aquele seria só mais um jantar comum, pelo menos para mim. Eu não entendia porque ele ainda não tinha voltado para Edmonds. O semestre letivo já havia terminado e o período de provas já estava encerrado. Até Sofia já tinha voltado para casa, mas Brian sequer tinha dado notícias. Às vezes, isso me deixava insegura. Brian era lindo e convivia com muitas garotas da idade dele, muito mais maduras e bonitas do que eu. Embora a nossa diferença de idade não fosse tão grande, eu tinha medo de que ele se interessasse por alguém mais adulta, afinal, uma mulher de vinte e quatro anos teria muito mais a oferecer a ele do que uma garota de dezoito.
Sofia terminava de me maquiar enquanto eu estava perdida em meus pensamentos. O simples pensamento de Brian se interessar por outra me deixava de estômago embrulhado. Meu apetite, que já não andava muito normal, agora tinha desaparecido por completo. Eu já não tinha conseguido almoçar direito e Sofia tinha notado embora não tivesse tecido nenhum comentário a respeito. Esta era uma das características que eu mais apreciava nela: o respeito pelo meu espaço. Ela raramente tentava arrancar informações de mim quando eu ficava calada demais. Somente quando sua preocupação com o meu bem estar chegava a níveis insuportáveis ela puxava algum assunto que me levasse a me abrir com ela, mesmo assim, ela sempre o fazia de forma muito discreta. E era para não deixá-la ainda mais angustiada que eu faria um esforço para me alimentar durante o jantar, mesmo que para isso eu tivesse que empurrar a comida garganta abaixo.
Assim que minha maquiagem ficou pronta, Sofia começou a se maquiar e eu me levantei da cadeira onde estivera sentada nos últimos minutos para vestir o vestido de seda azul-marinho que havia comprado. Sofia tinha me convencido a comprá-lo ao me lembrar de como Brian adorava o contraste que minha pele clara fazia com essa cor e como ele dizia que o azul-escuro acentuava o azul-claro dos meus olhos. Mas, ao mesmo tempo, olhar-me no espelho, vestida de uma forma que ele iria gostar, sabendo que ele não estaria aqui, me parecia inútil e injusto. O vestido tomara-que-caia tinha um caimento perfeito ajustando-se como uma segunda pele em meu corpo e eu podia imaginar o brilho nos olhos de Brian se ele me visse agora. Esse pensamento trouxe lágrimas aos meus olhos. Ele não estaria aqui hoje para me ver vestida para ele e eu não sentiria o seu perfume, nem o seu calor, não ouviria o tom suave da sua voz sussurrando em meus ouvidos e tampouco sentiria o sabor dos seus lábios ao me beijar. O aperto que havia se instalado em meu peito me sufocava novamente. Minha respiração já se tornava ofegante em busca do ar que já não encontrava o caminho para os meus pulmões. A garota que eu via refletida no espelho sofria com saudades do homem que amava e eu não podia ajudá-la. Só ele poderia salvá-la daquele tormento.
_ Mel, o que você tem? Está sentindo alguma coisa? - a voz preocupada de Sofia me tirou dos meus pensamentos.
_ Só saudades! – respondi com um sorriso triste me esforçando para não chorar.
_ Mais cedo do que você imagina, ele estará aqui com você, minha prima! – ela respondeu me abraçando.
Eu não disse mais nada ou então começaria a chorar de verdade. Descemos para a sala que já estava cheia. Minha família conversava animadamente. Se Brian não estivesse ausente eu teria a certeza de que o jantar seria de comemoração por alguma data importante, tamanha era a felicidade estampada nos rostos de cada um. Somente eu destoava daquela atmosfera alegre, mas tentava disfarçar minha angústia para não estragar a noite de todos. Assim que me viu, meu pai se aproximou de mim e me abraçou apertado beijando minha testa com carinho. Aquele abraço quente e protetor que ele me dava sempre que percebia que eu não estava bem fazia eu me sentir o centro do universo. Eu sabia que ele sempre estaria ali para me apoiar, não importando o que acontecesse.
_ Eu te amo, fofinha! – ele sussurrou em meu ouvido com uma voz doce e emocionada.
Olhei em seus olhos e percebi que ele estava se controlando para não chorar. Senti-me mal com aquilo. Será que o meu sofrimento era tão evidente que estava causando dor à minha família também? Um misto de culpa e tristeza começou a tomar conta de mim e eu me apertei ainda mais em seu abraço.
_ Eu também te amo muito, paizinho! – eu disse olhando em seus olhos fazendo um enorme esforço para não deixar as lágrimas rolarem pelo meu rosto.
Minha mãe se aproximou de nós com seu sorriso doce e se juntou ao abraço. Suas mãos passeavam carinhosamente por meus cabelos enquanto meu pai passava seus braços em volta dela nos aproximando ainda mais. Era gostoso estar ali entre eles. Aquele abraço me passava uma sensação de segurança e me dava a certeza de que eu sempre teria alguém que se importaria comigo, que cuidaria de mim. Meu pai nos guiou até o enorme sofá e eu me sentei entre eles com a cabeça recostada em seu peito alheia a todas as pessoas presentes na sala. Meus pensamentos estavam focados em Brian: o que ele estaria fazendo agora? Será que ele sentia a minha falta tanto quanto eu sentia a dele? Por que ele ainda não tinha voltado para casa como todo o mundo? Eram tantas perguntas e nenhuma resposta...
Do outro lado da sala, eu podia ver os olhos de Sofia me observando atentamente e me chutava internamente por deixá-la tão preocupada comigo. Droga! Eu não conseguia disfarçar a minha tristeza e estava deixando a minha família infeliz. Minha vontade era de correr dali e me enfiar em meu quarto para que ninguém fosse testemunha do meu sofrimento, mas, pelo bem daqueles que eu amava, eu precisava ser forte e enfrentar a solidão que eu sentia de cabeça erguida. De repente, uma ideia passou por minha cabeça: talvez, se eu ligasse para ele e ouvisse a sua voz eu conseguisse me sentir melhor. Levantei-me discretamente, afastando-me um pouco do barulho da sala e disquei o seu número. O telefone chamou diversas vezes até cair na caixa postal. Se antes meu coração batia apertado no peito, agora ele estava completamente sufocado. Por que ele não tinha atendido ao telefone? Ele nunca deixava de me atender mesmo quando eu ligava em momentos inoportunos. Resolvi tentar uma última vez prometendo a mim mesma que, se ele não atendesse daquela vez, eu não ligaria mais.
Narrado por Brian
O carinho e a energia gostosa que emanavam de Linda conseguiram me fazer relaxar. Dormi por um bom tempo e, quando acordei, notei que já havia escurecido. Sorri aliviado sabendo que em pouco tempo eu a teria junto de mim. Tomei um banho e me vesti ansioso. A camisa azul que ela havia me dado de presente de aniversário estava passada e pendurada em um cabide em meu quarto. Sorri mais uma vez ao me lembrar do brilho dos seus olhos toda vez que estávamos juntos. Eles iluminavam a minha vida e aqueciam o meu coração sempre que encontravam os meus.
Desci para a sala e encontrei Seth sentado no sofá me esperando. Não havia mais ninguém ali e eu deduzi que todos já teriam ido para a casa dos meus avós para não levantar suspeitas. Seth se levantou assim que me viu e caminhou em minha direção com um sorriso imenso nos lábios. Ele sabia que aquela noite seria uma das mais importantes da minha vida e tinha consciência do quanto eu estava ansioso por ela.
_ Pronto pra se enrolar de vez, cara? – ele me perguntou dando um soquinho em meu braço.
_ Eu já nasci pronto pra isso, Seth! – respondi sorrindo – Não vejo a hora de isso acontecer! – eu completei.
No caminho para a casa de meus avós, meu telefone começou a tocar e meu coração disparou quando vi o nome e a foto do meu amor mostrados no visor. Olhei para Seth sem saber se deveria atender ou não. Tinha medo de que minha ansiedade me entregasse e eu estragasse a surpresa. Respirei fundo enquanto os toques do celular enchiam todo o carro até que eles pararam de repente. Senti como se meu coração tivesse parado também. Meus pensamentos voaram para ela: o que ela estaria pensando agora? Será que ela tinha ficado angustiada por eu não ter atendido? Fui interrompido pelo celular que tocava novamente. Eu não podia ignorá-la sem correr o risco de magoá-la e estragar tudo. Atendi ao telefone com o coração aos pulos.
_ Oi, docinho! – disse tentando controlar a minha voz. Ouvi seu suspiro aliviado antes de falar.
_ Oi, bebê! – ela respondeu com voz trêmula me deixando ainda mais angustiado – O que você está fazendo agora?
Olhei para Seth sem saber o que responder. O que eu diria? Falei a primeira coisa que me veio à mente.
_ Estou indo a uma pizzaria com uns amigos para comemorar o fim do semestre. E você? O que está fazendo agora? – perguntei.
Houve um silêncio angustiante na linha antes que ela respondesse.
_ Estou na casa da vovó Esme. – sua voz era triste agora e eu podia jurar que ela se esforçava para não chorar – Ela vai fazer um jantar e a família toda está aqui. Só falta você. – sua voz saiu em um sussurro.
Meu coração bateu espremido no peito com o seu tom de voz magoado. Arrependi-me imediatamente de ter dito que estava saindo para me divertir com meus amigos. Era lógico que aquilo iria magoá-la. Ela tinha passado a tarde chorando com saudades de mim e eu dizia que estava me divertindo sem que ela estivesse por perto? O que eu estava pensando, afinal? Onde eu estava com a cabeça? Droga!
_ Eu preciso ir agora, bebê. A vovó já está nos chamando para o jantar. – ela mentiu. Era óbvio que minha avó não começaria o jantar sem que eu tivesse chegado.
_ Docinho, eu ... – tentei dizer, mas ela me interrompeu.
_ Eu tenho que desligar agora, Brian. Tchau! – ela disse com a voz embargada e desligou sem esperar a minha resposta.
Merda! Merda! Merda! Eu tinha feito besteira e magoado a minha menina. Agora, mais do que nunca eu tinha que chegar o mais rapidamente possível na casa dos meus avós e acabar de vez com a angústia dela. Afundei o pé no acelerador e levei o motor do carro ao limite máximo de potência. Não existiam mais semáforos vermelhos e nem leis de trânsito que me impedissem de chegar lá em velocidade máxima. O motor do carro protestava pelo esforço extra e tudo em que eu conseguia pensar era no rosto triste e nos olhos marejados da minha vida. E tudo por minha culpa! Imbecil!
Seth falava com Sofia ao telefone avisando sobre nossa chegada enquanto eu estacionava o carro na garagem. Abri a porta do carro e saí em disparada na direção da porta da sala, mas senti uma mão decidida segurando meu braço me impedindo de prosseguir.
_ Calma, Brian! Se você entrar desse jeito em casa vai assustar a todos. – ele me repreendeu.
Seth estava certo. Eu tinha que me acalmar para não meter de novo os pés pelas mãos e acabar fazendo mais besteiras. Fechei meus olhos e respirei fundo algumas vezes tentando encher meus pulmões com o ar fresco da noite. Quando tornei a abri-los me vi sozinho do lado de fora. Seth já havia entrado e agora só faltava a minha chegada. Meus pés hesitaram ao passar pela porta. Eu tinha medo de ver a dor estampada no rostinho delicado de Mel e saber que eu era responsável por isso. Entrei silenciosamente na sala em busca de ver o seu rosto, mas ela não estava ali. Todos sorriram ao me ver, mas permaneceram em silêncio até que ela apareceu vindo do banheiro de cabeça baixa. O silêncio na sala pareceu chamar-lhe a atenção e ela ergueu os olhos avermelhados pelo choro em minha direção. Atento e apreensivo, eu observei a sua reação enquanto ela colocava a mão no coração com a respiração acelerada, seu rosto delicado ficava novamente molhado por suas lágrimas e um sorriso enorme e brilhante nascia em seus lábios rosados e macios.
Eu estava paralisado da mesma forma que fiquei há quase três anos atrás quando a vi pela primeira vez, depois de muito tempo longe de casa, naquela mesma sala. Tudo ao meu redor desapareceu e perdeu totalmente a importância. Só havia ela e eu ali. E eu estava mais uma vez preso no olhar daquela menina que agora corria em minha direção e se atirava nos meus braços. Uma lufada de ar escapou dos meus pulmões e só então percebi que a minha respiração havia ficado suspensa por todo aquele tempo. Meus pulmões queimavam em busca do ar que chegava junto com o calor daquele abraço maravilhoso que eu tanto desejei receber. Fechei os olhos sorrindo enquanto inspirava o perfume natural que exalava da sua pele: o cheiro doce, delicado e feminino de flor de laranjeira. Meus braços agora a envolviam com força como se quisessem fundi-la ao meu corpo.
_ Oi, docinho! – eu sussurrei em seu ouvido sentindo seu corpo estremecer ainda mais junto de mim.
_ Oi, mentiroso! – ela respondeu com a voz ainda chorosa, porém aliviada. – Eu senti tanto a sua falta!
_ Eu também, docinho! Eu também! – respondi acariciando seus cabelos e beijando suavemente seu pescoço, suas bochechas, seus olhos, sua testa, a pontinha do seu nariz, seu queixo e, finalmente, seus lábios.
Agora sim, eu me sentia completamente em casa.
