Corri pela sala afofando as almofadas, verificando se o vaso estava realmente no centro da mesinha de café e alisando a saia de meu vestido.

Tudo pela décima vez.

Não aceitaria nada menos que a perfeição para a chegada de minha prima, me sentia muito sozinha naquela casa enorme.

Edward... Sentia tanta sua falta, só conseguia continuar a vida graças a suas cartas, que sempre demoravam meses para chegar, mas diziam tudo que eu mais precisava, e graças também ao Tenente Whitlock.

O pobrezinho era ainda mais sozinho que eu, voltou para casa partido, despedaçado, nos apoiamos um no outro, era só o que poderíamos fazer. Por ele e por mim.

Eu jamais admitiria tal coisa, mas eu simplesmente adorava seus flertes inocentes, era revigorante imaginar que ele realmente pensava que eu era bonita e que aquilo tudo não era apenas uma brincadeira. Precisava ir visitá-lo, já fazia muito tempo.

Duas batidas leves na porta e eu quase dei um grito de animação, disparei ao hall de entrada, tropeçando pelo tapete no caminho.

Levantei rindo de minhas maneiras, eu nunca fui graciosa, me recompus e abri a porta com o maior sorriso que tive no rosto há meses.

Mas não era minha prima, longe disso...

Senti meu queixo caindo a visão emoldurada por minha porta, fui cumprimentada por um sorriso de dentes brancos e perfeitos, que aqueceu imediatamente, os olhos azuis acinzentados, mesmo escondidos em parte pelos cabelos loiros levemente enrolados, estavam brilhantes e tão intensos que pareciam capazes de ver através de mim.

Ele estava fardado, seus ombros largos estavam em ainda mais evidência por sua postura perfeita, seu peito forte enfeitado com medalhas, o quepe embaixo do braço...

Acho que demorei demais para falar qualquer coisa, mais tempo do que o educado pelo menos, seus olhos agora pareciam preocupados, o cinza mais evidente que o azul.

"Bella?" como é que aquele homem sabia meu nome? "Se sente bem?" espera... Essa voz...

"Jasper?" perguntei, desafinada "Quero dizer... Tenente Whitlock... É mesmo você?" ele desviou o olhar para baixo, o sorriso tomando seus lábios cheios mais uma vez.

"Um pouco diferente, não é?" muito melhor... Mordi a parte interna da bochecha. Eu não deveria pensar desse jeito "E por favor... Me chame de Jasper! Ou prefere que eu te chame enfermeira Swan?" seu olhar encontrou o meu. Jamais poderia ter imaginado quando ele chegou ao hospital que seria um homem tão bonito.

"Sabe que não prefiro..." sorri, um tanto constrangida, sentindo minhas bochechas se aquecerem "Quando recebeu alta?"

"Hoje, na verdade. Acabei de sair e tive de ver como estava... Desculpe se estiver sendo algum incômodo!"

"Você não me incomoda..." sorri, só então reparando que ainda estávamos na porta e que o brilho que saia dele era na verdade o sol, o qual estava deixando suas bochechas pálidas levemente cor de rosa "Entre um pouco!"

Jasper subiu os três degraus até minha porta, pedindo licença antes de entrar, pela primeira vez pude ver sua verdadeira altura, ele era bem mais alto que eu, parecendo ainda maior por seus ombros largos estarem sempre perfeitamente alinhados.

Seu andar era seguro, firme, e mesmo que ele desse passos lentos, ainda me lembrava uma marcha.

O guiei até o sofá, enquanto ele examinava minha sala com um olhar curioso. Antes de se sentar virou para a lareira, pegando um porta-retratos que lá repousava.

"Esse é Edward?" me aproximei, esticando o pescoço para enxergar a foto de que ele falava.

"Sim..." sorri deslizando os dedos pela foto, pelo rosto do meu amor "Recebi uma carta dele ontem!"

"Boas notícias?" ele perguntou sem me olhar, colocando o porta-retratos de volta no lugar.

"Apenas... Notícias." completei frustrada, sentando e cruzando as pernas "Ele ainda tem de ficar lá, não tem previsões de volta."

"Sinto muito..." ele murmurou de costas.

"Por favor... Vamos mudar de assunto, venha se sentar comigo!" Jasper se virou lentamente, sorrindo para mim, esqueci de respirar por um instante.

Por Deus, o que estava acontecendo comigo?

"Bella..." ele começou, se sentando na poltrona a minha frente "Na verdade eu vim até aqui te agradecer."

"Pelo que?"

"Por tudo que fez por mim, não sei se teria conseguido sem sua ajuda." seu rosto estava sério, mas seus olhos transmitiam muito mais emoção que ele que queria demonstrar.

"Não seja tolo..." sorri, abanando a mão a minha frente displicentemente, já começando a sentir o calor subindo ao meu rosto.

"Não finja que não fez nada demais, enfermeira Swan!" ele disse em tom de brincadeira, segurando minha mão e a levando aos lábios, beijando os nós dos meus dedos "Sabe o quão linda fica quando cora?" eu não tinha certeza se estava corada antes, mas agora definitivamente estava.

Permanecemos em silêncio, nos olhando, suas mãos segurando a minha, até que ele voltou a falar.

"Bella... Posso beber alguma coisa?" eu quase saltei da cadeira, não podendo acreditar no momento que acabamos de ter.

"Claro! Que falta de educação a minha, nem te oferecer nada..."

"Não se preocupe" ele sorriu aquele sorriso de tirar o fôlego "É que a farda é muito quente... Passei tanto tempo envolvido em gaze e gesso que tudo me incomoda."

"Isso passa..." comentei indo em direção a cozinha.

"Espero que sim! Se não vou acabar lançando moda andando sem roupas pelas ruas..."

Não pude evitar uma gargalhada, tentando expulsar a imagem que começava a se formar na minha mente.

Felizmente batidas frenéticas na porta me fizeram voltar a realidade.

"Pode abrir pra mim, Jasper?" pedi enquanto fazia uma limonada "É minha prima!"

"Claro..."

Fiquei feliz pela interrupção, eu estava sendo a pior das pessoas agindo daquele jeito.

Bella estava claramente incomodada com meu comportamento, mas ainda assim não me afastava e eu não queria ir, não ainda.

Abri a porta e percebi que essa família provavelmente seria meu fim.

Enquanto Bella era o anjo, a mulher parada diante da porta era uma fada.

Seus olhos castanhos não eram os mesmos de Bella, no sol eles estavam dourados e me encaravam com extremo interesse enquanto sua boca de botão de rosa estava puxada nos cantos por um leve sorriso.

"Olá!" ela disse em uma voz melodiosa, fina, completamente feminina.

"Ahm... Me desculpe..." sorri constrangido por deixar a moça parada lá "Sou Jasper Whitlock, você é a prima de Bella, certo?"

"Alice Brandon!" respondeu com um sorriso, estendendo a mão na minha direção.

Envolvi sua mão com a minha e beijei as costas brevemente.

"Ora, se não somos cavalheiros..." ela riu, me deixando ainda mais sem graça.

"Ele é do Sul, Alice! E é muito mais bem educado que você, prima." Bella ralhou com ela de dentro da cozinha, não sei como podia nos ouvir "Pare de perturba-lo."

"Desculpe..." foi o que ela falou, mas não parecia nem um pouco preocupada.

"Não se incomode..." sorri em resposta, pegando suas malas e esperando que ela entrasse antes de mim.

Alice passou pela sala rapidamente, em passos leves que combinavam com sua figura miúda, ainda menor que Bella.

Seu cabelo estava moldado em pequenos cachos e balançavam enquanto ela caminhava.

"Não vem me dar um abraço, prima?" ela disse, cantando a última palavra.

Bella surgiu, sorrindo e envolveu o pequeno corpo da prima num abraço apertado.

"Senti tanto a sua falta!" ela murmurou.

Eu estava invadindo o momento das duas, nem deveria estar ali pra começo de conversa, senti-me completamente inadequado.

Esperei que elas se separassem.

"Bella, acho que está na hora de eu ir..."

"Não! Por favor, fique mais..." ela pediu, segurando minha mão "Eu fiz limonada!" deu um sorriso divertido.

"Você não pode recusar uma oferta dessas..." Alice disse, girando os olhos atrás da prima.

"Tudo bem..." concordei sorrindo de volta para elas – Mas só mais um pouco.

Acabei passando a tarde toda com elas, nunca havia visto Bella tão relaxada quanto naquele momento, sem os sapatos, as pernas flexionadas ao lado do corpo no sofá, e Alice me conquistou com seu jeito descontraído e humor ácido.

Definitivamente, essa família seria meu fim.

Quatro meses se passaram desde a tarde regada a limonada na sala de Bella. Três desses que eu estava com Alice, quando eu disse que ela me conquistou, não pensei que estivesse falando tão sério.

Ela virou meu mundo de cabeça para baixo, não que eu tivesse um mundo muito grande antes dela.

Definitivamente eu estava feliz, mais do que eu pensava ser possível.

Ficávamos deitados, um de frente para o outro, apenas estudando as feições, cada sarda, linha de expressão, cada detalhe.

Ela brincava com o meu cabelo, o qual ela nunca deixava que eu cortasse muito, e que cobria parte de meus olhos.

Eu deslizava os dedos por seu rosto, percorrendo seu pescoço e toda a extensão de seu corpo que meu braço pudesse alcançar.

Quando eu estava com ela, raramente tinha pesadelos, e sempre que os tinha, ela passava a noite afagando meus cabelos, às vezes até mesmo cantando pra mim, sem perguntar o que houve, eu nunca conseguiria dar uma resposta de qualquer maneira.

Bella ainda era extremamente presente na minha vida, nas nossas vidas, mas era diferente.

Não que eu tivesse deixado de me perder em seus olhos ou de quase ofegar com seu sorriso, ela nunca deixou de ser meu anjo, mas agora eu tinha Alice e ela me tinha em retorno.

Era tudo perfeito.

Infelizmente eu já vi imperfeição demais, ódio e guerra o bastante pra saber que aquilo acabaria, mais cedo ou mais tarde haveria a queda e ela seria enorme.

Empurrei esses pensamentos pro fundo da mente e por um tempo os esqueci.

E como todas as coisas que esquecemos, quando aconteceu, eu estava completamente desprevenido.

Sentei ao piano, a parte mais triste e mais reconfortante de toda a casa.

Triste porque era simplesmente impossível olhar para ele e não lembrar de Edward, de que ele estava longe de mim, e reconfortante por eu saber que era sua coisa favorita.

Comecei a tocar lentamente, sentindo com meus acordes fora de tempo que eu estava sujando o piano, mas era a única coisa que eu sabia tocar, mesmo que fosse tão mal.

Fora Edward quem me ensinara, sempre ria da minha cara de frustração quando eu errava e me beijava a testa, dizendo que eu estava indo muito bem.

Fechei os olhos, me esforçando para não errar as notas, e por um instante, ele estava lá, tocando para mim, dando o seu melhor sorriso, meio torto, puxado pro lado esquerdo, completamente divertido com a minha admiração, enquanto seus dedos longos percorriam o teclado sem qualquer esforço.

Batidas na porta interromperam a minha fantasia, levantei calmamente e espiei pela janela.

Se fosse mais uma esposa de algum soldado querendo me levar para alguma daquelas reuniões do grupo de apoio, eu não responderia por mim.

Nunca gostei do fato de Edward ter sido convocado, mas estava conformada, não queria qualquer apoio, não queria desabafar com perfeitas estranhas.

Jasper e Alice estavam lá para me ajudar caso isso fosse necessário, mas não era.

As cartas que eu recebia de além mar eram o necessário pra me manter viva.

Olhando por entre a renda da cortina, avistei um cabelo loiro de relance e insígnias militares e um sorriso enorme brotou nos meus lábios.

Jasper.

Adorava quando ele vinha me visitar, apesar de ser estranho que ele estivesse fardado.

Abri a porta de uma vez, mas meu sorriso morreu instantaneamente.

Não era Jasper, realmente a farda e os cabelos loiros ainda estavam lá, mas o rosto era completamente diferente, sério, marcado, frio, os cabelos eram lisos e curtos.

E não estava sozinho, outro homem o acompanhava, mas eu não consegui desviar o olhar do primeiro, mais especificamente de sua expressão de velório.

Velório?

Não.

Não, não, não, não... Por favor, Deus, não!

"Senhorita Swan?" ele perguntou com uma voz grave, mas eu não tive forças para responder, ele encarou o meu silêncio como uma afirmativa "Sinto muito." sua voz não correspondia a suas palavras, parecendo não se importar realmente.

"Sente muito?" perguntei bobamente e o outro homem me estendeu um envelope branco.

Minhas pernas começaram a tremer loucamente, peguei o envelope sem respirar e os dois se retiraram sem mais palavras.

'O Governo dos Estados Unidos lamenta muito em informar que o oficial Edward Anthony Masen...'


N/A.: Ai, ai, ai...

Também odeio receber cartas do governo, eles sempre tão tentando mandar meu nome pro Serasa... Espero de coração que vocês curtam essa fic, era uma das favoritas do público no orkut, mas eu sinto as bochecas queimando de vergonha quando to relendo pra postar aqui (e nem consigo tirar todos os erros...)

Até a próxima, e como sempre, reviews são muito apreciada!