HARRY POTTER E DRACO MALFOY
02- Um ilustre hóspede na masmorra.
Quando Draco chegou até a última cela gradeada do terceiro andar julgou inicialmente que o maldito elfo lhe tinha mentido... mas forçando a vista percebeu algo lá... no canto da cela... uma mancha negra... achou que era uma falha nas pedras ou um amontoado das correntes que pendiam do teto, mas não era, se aproximando até encostar-se na grade gelada Draco insinuou a varinha para ver um pano negro que cobria algo que parecia quase nada no chão, mas lá estava um pulso preso a ferros e uma mão.
Era Potter, sabia porque reconheceria aquela mão no inferno... maldito apanhador da Grifinória.
Potter! Ei Potter! Está vivo?- riu.- Não me diga que já está morto?
Não houve movimento, som... nada, só os pingos distantes, se aproximou mais e algo se moveu muito devagar e no instante seguinte achou que tinha se enganado e que era apenas um animal o olhando... mas não, era o reflexo quase fantasmagórico dos olhos do outro.
Como se um animal o olhasse, o brilho veio e se foi num piscar cansado e a cabeça voltou a se virar para o outro lado, negro do cabelo se confundindo com o negro do tecido sobre ele... e se o rosto de Potter estava rente ao chão...
Ou o braço dele estava quebrado, ou seriamente deslocado... não que se importasse, só achou um pouco... estranho. Incômodo.
Qual é Potter, meu amado pai não lhe arrancou a língua... ele gosta de ouvir os gritos de quem tortura...
Mas não havia nem sequer o sussurro ou um gemido, nada, se não tivesse visto os olhos dele por alguns instantes acreditaria que o outro estava morto... ou talvez estivesse quase morto, na dúvida entre entrar na cela e forçar o Grifinório a falar ou azará-lo ali mesmo a distância, Draco percebeu um leve calor entre seu corpo e a camisa sob a veste.
Pai...- disse ao levar a mão ao pingente em forma de Dragão serpentino atado a corrente de prata.-Eu volto Potter... não que você tenha outros lugares a ir não é?
E saiu com passos rápidos sabendo que o pai já devia estar na mansão.
O eco dos passos encobriu o som de um suspiro cansado.
A noite veio e passou e tudo que Draco conseguia pensar era se enfiar novamente nas masmorras para finalmente ver a cara humilhada de Potter... finalmente poderia rir da cara dele o suficiente por cinco anos de chateação por parte daquele Grifinório mestiço atrevido, finalmente iria poder olhá-lo de cima e ele ia ter que ouví-lo...
Sem Granger, Weasley ou professor para interromper...
Claro, infelizmente que seu pai não poderia saber... ele era ciumento com suas coisas e com certeza tinha tanta gana de Potter quanto podia imaginar... e não estava nem um pouco interessado em ouvir sermões sobre obediência seguidos de maldições imperdoáveis dolorosas... gostava demais do próprio couro para se arriscar... de modo tolo.
No entanto ao passar a segunda noite se entediou, não, tivera idéia melhor... depois de escutar uma nova briga dos pais que se trancaram no escritório, bom ele devia estar na biblioteca, mas não estava com vontade de ler fazendo menos que quinze dias que estava de férias... escutou que seu pai passava as noites com o prisioneiro e que sua mãe ameaçava entregá-lo a Not.
"Que idiota... mãe..."
A briga se elevou um pouco e sua mãe saiu furiosa, anunciando para um Draco escondido atrás de um tomo enorme, escondendo a face corada e suada por correr meia casa para não ser pego fora do lugar, anunciando que ia para seu chalé de inverno e que ele poderia ir para lá se quisesse.
No jantar seu pai acenou com o desejo para que ele também partisse... concordou em ir no outro dia para ver o pai satisfeito... isso queria dizer que se esgueiraria atrás do pai naquela noite mesmo... queria ver a cara de Potter de qualquer jeito.
Talvez fosse a última chance não é mesmo?
Cerca de onze e meia saiu do quarto da sua mãe com a capa de invisibilidade dela, claro que ela mesma, mãe zelosa, achava que o filho não sabia de tal artefato... mas sabia que era isso que ela usava sempre que queria que seu pai achasse que ela não estava em casa...
Talvez Lúcio não soubesse mesmo da capa, era bem capaz... e tanto melhor se não soubesse... pois Draco o seguiria com ela... não era o ideal, mas queria mesmo ver Potter, pelo menos ver antes do maldito morrer...
E um pouco antes da meia noite passou pelo dragão da sala de armas e esperou no corredor do primeiro andar... e escutou os passos do pai, rápidos, leves, constantes, o seguiu a distância segura.
Excitação do proibido.
Os passos pararam e com a elegância de sempre usou de sua varinha para abrir as grades encantadas... não que fosse necessário, seu adorado hóspede não era capaz mais de se pôr em pé... se aproximou dele, aquele pequeno amontoado de tecido negro.
Boa Noite Potter...- disse friamente.
Outro meneio de varinha e um grupo de velas acenderam na parede dentro da cela, velas velhas, grossas, amareladas e derretidas em formas grotescas, Lúcio adorava essa última cela... pequena, mas não minúscula, as correntes enfeitiçadas que pendiam do teto e retiniam sempre surdamente... o som e cheiro das gotas de umidade das pedras...
Enfim o lugar perfeito para fazer o que queria... com o terceiro meneio de varinha as correntes lentamente ergueram o prisioneiro que jazia no chão... com o quarto gesto tudo estava limpo... afinal um Malfoy não fica em meio a sujeira.
Draco acompanhou a movimentação do pai, vendo e reconhecendo o encantamento das grades, se acostumando a luminosidade amarelada das velas, escutando o som das correntes e agradeceu muito quando o último feitiço foi feito, afinal o cheiro da cela, mesmo não sendo forte não era de todo agradável... sangue e urina.
Escutou um leve ganido quando as correntes içaram Potter... não que estivesse esperando que se adversário estivesse bem e saudável, só não imaginava a quanto tempo ele devia estar ali... porque o que via era muito forte...
A face pálida estava retorcida numa expressão de dor, provavelmente pelo braço ferido, devia estar deslocado, mas podia mesmo estar quebrado... difícil saber... Draco viu seu pai se aproximar enquanto estudou a feição do outro, conhecia Potter, e mesmo nunca tendo sido exatamente "gordo", o outro estava muito magro, tanto que as maçãs do rosto já evidenciavam o osso, e as olheiras totalmente negras contribuíam para o aspecto de caveira do rapaz que mantinha os olhos fechados... o rosto tinha hematomas e os lábios estavam brancos e feridos... assim como o corpo... porque...
Porque por baixo do casaco negro Potter estava nu.
E aquilo não era exatamente um casaco... era um daqueles enormes moletons que Potter usava... duas vezes maiores que ele, rasgado como uma camisa... a nudez pálida e maculada por hematomas era muito... crua, evidente e estranha.
A mão de seu pai segurou com força o pescoço longo e fino do rapaz e a cabeça dele bateu na parede com um "toc" surdo. Draco sentiu algo de angustioso assim como sentiu que suas mãos suavam apertou-as mais agarrando a capa de sua mãe.
Eu disse Boa noite, meu querido...- Lúcio falou friamente.
A frase foi recebida com estranheza por Draco, assim como o olhar de Potter.
Abriu os olhos sem vontade... sabia o que ia acontecer... sabia que não podia deter, sabia que se odiaria depois por tudo e sabia que resistir era tão doloroso quando desistir, apenas encarou o homem de longos cabelos loiros e frios olhos azuis...
O demônio... pensou lentamente, sabia que não conseguia mais pensar com a mesma clareza dos dias anteriores... dias sim, por que se fosse mais tempo estaria morto... se bem que fome já passava com os Dursleys... havia sido um bom treinamento, silencio, solidão... tudo isso não lhe era de todo desconhecido... dor... já sentira muitos Cruciatus, mas isso não...
Desejava morrer o mais rápido possível... todo dia, para não passar por isso novamente... mas não tinha escolha... e não tinha mais palavras...
Os olhos do rapaz estavam opacos, tristes, sem aquele brilho tão reconhecível, claro que o fato de um deles estar manchado com sangue contribuía... Lúcio passou de leve a outra mão no rosto dele, sem soltar do pescoço do garoto, pelo contrário apertou-o mais.
Você está perdendo o brilho Potter... deseja morrer?
Você não me daria esse gosto daria?- perguntou cansadamente além túmulo.
A voz era baixa e muito rouca... uma rouquidão dolorosa... E se muito se enganava algo estava errado, pensou Draco se afastando um pouco confuso com a proximidade do pai com o outro, não que não houvesse escutado sobre tortura psicológica, mas em tese sempre achara que varinha e magia eram boas formas de trazer dor não?
Mas nunca participara de nada e nunca fizera nada disso de verdade... e agora já tinha dúvidas se queria ver algo... se ia querer ver sangue. E nem sabia que o que ia ver era uma tortura verdadeira... a pior delas, sobressaltou-se com a risada de Lúcio.
Esse seu humor é cativante Potter.- disse na orelha do garoto, enquanto a mão do rosto desceu leve pelo corpo magro e nu.- Cansado? Acho que posso ajuda-lo.
E Draco arregalou os olhos com o que viu.
