Capítulo 01- Investigações
Quando sua realidade muda, seus sonhos não precisam mudar.
A sala de reuniões do Departamento Antidrogas do Governo Americano — DEA, em Las Vegas, mantinha um clima tenso na reunião pós-operação. O chefe da divisão andava de um lado ao outro com um pacote na mão, descontente pela inaptidão do último trabalho. Depois de longos e exaustivos dias de investigação que envolvia a quebra do narcotráfico, com o flagrante iminente, inexplicavelmente os planos não lograram êxito. Os preparativos foram seguidos à risca, representantes de todas as equipes convocadas. Uma operação tática com ações pontuais e cirúrgicas, onde as pistas recebidas por informantes foram juntadas e decodificadas, direcionando-os a ocupar pontos estratégicos no local onde ocorreria a negociação e distribuição de um grande carregamento de cocaína. Entretanto, a operação foi um fiasco. Tudo que encontraram ao tentar flagrar a organização criminosa foram bolos. Bolos de laranja.
Isso era frustrante.
Todos os subordinados, agentes da Inteligência e agentes Especiais, encontravam-se encolhidos na cadeira, temerosos, pois quando se tratava daquele caso específico o chefe ficava irreconhecível. O normal e imparcial Edward transformava-se desproporcionalmente. A ansiedade e frustração eram claras em seu semblante.
"Não é possível que esses longos meses de investigação acabaram em bolos." Esfregou a testa, inconformado. "Os senhores sabem muito bem o que esse caso significa." Suspirou, internamente deparando-se com o cunho pessoal que o caso implicava. No entanto, não era sensato deixar que seus colegas suspeitassem seus motivos. "Significa acertar a ponta da pirâmide distribuidora, tirar as drogas das ruas, livrar adolescentes de vícios, diminuir a violência." Disse meramente retórico, enquanto gesticulava com as mãos no ar.
Do outro lado da sala, três integrantes da equipe Alfa, já cansados de duas noites mal dormidas pelo apoio dado à central de comunicação, cochichavam entre si, um deles pondo em questionamento os motivos do chefe.
"Os dois devem ter um caso mal resolvido." Michael comentou baixinho com Stephan, recebendo de Erick uma cotovelada de censura na costela. Michael continuou divertido. "Penso que tiveram um caso passional e o tenente foi traído. O tenente não tem jeito que gosta de mulher. Ninguém nunca o vê com nenhuma." Ironizou Michael.
"Posso saber o assunto que as moças tricotam?" O chefe perguntou austero, com os braços cruzados no peito, exalando sua insatisfação e mau humor.
Erick se adiantou, tentando desviar o foco. "Chefe, o senhor teria um tempo só com a minha equipe?" Pediu baixinho, o chefe estudou-o um tempo e logo imaginou que podia se tratar de informação obtida ilegalmente pela equipe de inteligência, portanto o restante das equipes não deveria estar presente.
"Os senhores estão dispensados. Só a equipe Alfa comigo." Avisou, os agentes despediram-se e deixaram a sala. Em seguida o chefe olhou ansioso para o oriental, esperando-o desenvolver.
Erick começou. "Eu consegui pegar algo em uma gravação que devia ser considerado." Explicou um pouco inseguro com o modo como a informação seria recepcionada. O chefe costumava ser caxias quando se tratava de informações obtidas ilicitamente. "É um telefonema de uma das meninas de Emmett lhe pedindo alguns itens." Pegou a gravação em sua mochila e entregou-a ao chefe. Edward recebeu o chip curioso e deu um meio sorriso para Erick, o novinho mais perspicaz da equipe Alfa, e seu amigo.
"Vejamos." Sentou-se em frente a um computador e ligou as caixas de som da sala de reunião. O som da conversa eclodiu no ambiente.
"... Florzinha, eu já disse para não ligar para mim desse telefone."
Edward fechou a mão em punho ao ouvir a voz de Emmett. Imediatamente lembrou-se de como ele gostava de chamar as pessoas em volta de nomes de flores. Inclusive, chamava Rosalie de Rosa, sua mãe, Elizabeth, de Líria, sempre com ar galanteador que conquistava todos à volta.
"Eu precisava de alguns itens. Mas se você quiser, eu mesma posso ir a um mercado no centro." Uma voz sussurrada se pronunciou. Era uma mistura de voz infantil, manhosa e terna. "Perto da casa do Daniel tem um mercado grande. Ele pode ir comigo." Propôs animadamente.
"Não. Você sabe que eu não quero que vá para aqueles lados. O que você precisa?"
"Açúcar, farinha de trigo especial. Acho que uns cinco quilos de cada. Também preciso de maçãs, embalagens."
No mesmo instante que Edward ouviu isso encarou Erick e cerrou os olhos. Todos na sala conseguiram ler o que Edward pensava, pois açúcar e farinha de trigo é uma gíria no submundo que se refere à cocaína. Com ânimo no rosto, inclinou e continuou ouvindo atentamente. "Também quero um pouco de fermento."
Excitado, Edward fechou os olhos e deu um murro no ar, certo de que dessa vez estavam no caminho certo. Se alguém de dentro da casa do bioquímico ligou pedindo o que parecia ser solvente, é porque a droga era modificada dentro de sua própria propriedade.
"Só isso?" A voz de Emmett foi brincalhona.
"Não." Ela sorriu em resposta. "Por isso eu queria ir. Tem muita coisa para comprar. Mas vou fazer a lista e te mandar por mensagem."
"Tudo bem. Mais alguma coisa?"
"Lice manda um beijo."Disse mais baixo. "Ela tá com saudade."
"Fala para ela não fazer esse drama. Eu estive o dia todo aí."Retrucou brincalhão.
"Mas você não entrou em casa. Foi como se não estivesse aqui." Reclamou, carinhosamente.
"Vou tentar passar aí quando vocês estiverem acordadas."
"Emm..."
"Hmmm."
"Eu também estou com saudade de passar um tempo com você." A voz saiu num fio. Emmett suspirou audivelmente.
"Eu também sinto, mas eu preciso trabalhar. Prometo que nesse fim de semana levo vocês em uma matinê para dançar." Disse parecendo apressado em encerrar a conversa.
"Emm, não queremos ir a uma matinê." Negou manhosa. "Queremos dançar em lugar de gente grande."
"Quando vocês forem gente grande pode ser que eu leve. Em primeiro lugar, vocês nem podem entrar em uma casa de festa."
"Na boite que você é sócio, a gente pode." Sugeriu matreiramente, completamente ardilosa.
"Flor..." Emmett censurou sua tentativa de manobra, impaciente.
"Tá, Emm." Deu um muxoxo. "Eu já cresci. É injusto. Para um monte de coisa eu tenho que ser adulta e para sair para dançar não posso." Reclamou.
Os homens da sala ouviam atentos à conversa. Eles já investigavam há alguns dias a movimentação externa da casa de Emmett e sempre viam saindo de lá, vez ou outra, um Porshe amarelo, ou um Lótus Lilás. Dentro deles saíam duas meninas, mas os vidros espelhados e óculos de sol os impediam ver seus rostos. Elas paravam sempre no High School Beverly Hills e Beverly Hills Junior. Os agentes imaginavam que elas tinham entre quatorze e dezessete anos. O que os boatos diziam era que essas eram as meninas de Emmett. Edward não tinha dúvidas de que, além de todas as suspeitas, Emmett também fosse um pedófilo. Lembrava que quando Emmett começou a ficar com Rosalie ela não tinha quatorze anos completos.
"Tudo bem. Quinta-feira eu vou pedir que Rilley leve você e Alice. Mas vocês só ficarão até uma da manhã." Condicionou aparentemente insatisfeito.
"Obrigada Emm!" Podia-se ouvir sons de palmas e de pulos do outro lado da linha.
"Mas e o Peter?" Emmett lembrou preocupado.
"Eu o deixo com Esme. Ele não vai sentir minha falta. Coloco-o para dormir antes." Disse com a voz implorativa.
"Como ele está?" Perguntou notoriamente contrito.
"Também sente sua falta... Hoje ele disse mamã. Fiquei tão feliz." Ela disse maravilhada.
"Dá um beijo nele por mim. E quanto às coisas que pediu, mandarei comprar e entregar aí."
"Ok. Te amo." Ela disse naturalmente.
Ele pareceu embaraçado, pois pausou um tempo antes de responder. "Eu também te amo."
E desligaram.
"Uh, que romântico." O chefe ironizou com um ofego sufocado, querendo com o ato quebrar o clima. Foi como se visse Emmett anos atrás conversando com Rosalie.
"Os Brutus também amam." Michael recitou uma frase conhecida, despertando automaticamente sorrisos.
"Bom, Erick, ótimo trabalho ter guardado essa gravação. Tudo indica que as garotas sabem do esquema. Pelo jeito, além de companhias do Emmett, elas ajudam a manipular e embalar as drogas." Disse enquanto andava pela sala, tentando parecer despreocupado. "Agora tínhamos que ter um jeito de investigar lá dentro." Sugeriu um pouco desanimado. Sabia que isso era algo irrealizável por meios convencionais. Emmett tinha as costas largas demais.
"Não conseguiremos autorização na Justiça." Erick lembrou. "Até essas fitas foram gravadas sem autorização." Disse referindo-se a todas as dificuldades que tinham ao investigar esse caso específico. Todas as provas obtidas com a operação eram recheadas de labirintos. Nada provava a participação de Emmett, que aparecia e sumia de cenas incriminadoras isentando-se sempre de qualquer acusação. "No entanto, poderíamos nos infiltrar no mundo delas para ganhar confiança." Instilou distraidamente, enquanto estudava suas anotações, deixando por um instante que o chefe digerisse o que ele sugeria.
"Como?" Edward finalmente perguntou e virou-se para seu amigo, instigando-o com o olhar a falar.
"Algum de nós poderia virar amigo delas." Complementou um pouco inseguro. Sugerir era fácil, mas não sabia como materializar sua idéia.
Edward olhou de esguelha para Michael e para o próprio Erick, imediatamente conjecturando a possibilidade deles se passarem por garotos mais novos. Seria fácil. Michael era recém formado. Tinha pouco mais de vinte e dois anos. Já Erick, tinha vinte e três, no entanto, por vestir-se com roupas desprendidas e tênis All Star, aparentava ter menos.
"Ok. Michael e Erick amanhã na Sky." Edward ordenou firmemente. "Eu e o restante da equipe daremos cobertura. Estaremos por perto."
"Mas chefe..." Erick retorquiu, exasperado. Ele não costumava fazer serviço de rua, no entanto, era a melhor opção naquele instante. Os antigões da equipe não poderiam se infiltrar no mundo delas sem levantar suspeitas.
"Sem mas." Levantou a mão no ar, interrompendo-o de se contrapor. "A idéia foi sua." Disse definitivamente, depois se sentou sobre a mesa, com olhar obscuro. "Bom, a abordagem não será nada chocante. Quero somente aproximação e conversa casual." Disse e olhou sério para Erick. Ele era seu mais recente e talvez único amigo, filho da ex-namorada de seu pai, o juiz Cullen, da Suprema Corte da Califórnia. Confiava nele. Sabia que ele se aplicaria ao máximo. Erick tinha funções específicas de especialista em suporte logístico, além de ter altas habilidades em desvendar intrincadas linguagens de comunicação. No entanto, como agente da Narcóticos, seu trabalho mais importante foi ficar atrás de um computador ou em salas de varreduras de escutas. E um agente deveria estar preparado para todas as tarefas. Agora o chefe lhe dava uma oportunidade de operacionalidade, entrar num caso diretamente. Isso era o que qualquer agente novinho aspirava.
"Só de pensar nessas ninfetas já estou excitado. Daria tudo para cheirar as calcinhas delas." Michael comentou baixinho com Stephan, que o censurou com o olhar depois balbuciou: pervertido tarado.
"Então descansem hoje." O tenente completou sem ter ouvido o comentário obsceno de Michael. "Amanhã venham prontos para virarmos a noite." O chefe deu por encerrado o assunto e saiu da sala, deixando lá os cinco integrantes da equipe Alfa.
Sexta-feira, nove da manhã, todos os agentes encontravam-se em suas salas, entretidos em discussões com suas equipes, debatendo entre si métodos de transporte, áreas de risco, pesquisas sobre cultivo de drogas, protagonistas de distribuições de entorpecentes. Já o chefe da Divisão, traçava planos metodicamente sobre a disposição de suas equipes nas diversas investigações que levariam o fim de semana inteiro, enquanto isso ouvia pela quarta vez a gravação com a conversa de Emmett, tentando nesse tempo decifrar prováveis mensagens subliminares que ele exageradamente supunha que tinha. Todavia, seu sossego foi interrompido pela presença da psicóloga Rachel, que adentrou a sala e caminhou em direção à mesa em que ele se inclinava.
"Edward, preciso falar com você." Avisou e encostou-se ao seu lado.
"Assim que eu tiver um tempo marcarei uma consulta." Disse distraído, sem tirar os olhos do papel.
"Não estou falando como sua psicóloga, você sabe. Além disso, depois que saímos você nunca mais compareceu às consultas." Cobrou sem jeito. "Não acho que o que temos para conversar possa ser no consultório."
Ele finalmente levantou o olhar e olhou-a. Tão bonita. Ruiva, de cabelos cacheados e corpo exuberante. Todavia, nunca daria certo.
"Acho que a resposta que você precisa sempre esteve clara." Suspirou cansado, depois voltou a rabiscar o seu papel. Não queria magoá-la, só queria tirar-lhe as esperanças.
"Eu quero cuidar de você." Inclinou-se e pôs as duas mãos na mesa. "Quero cuidar de seu sono todos os dias." Disse carinhosamente. Ele tirou os olhos do papel e encarou-a cético por ela tocar nesse assunto tão delicado, principalmente por ela só saber disso por ele ter revelado como paciente seus problemas com sono. Ela continuou, ignorando seu olhar de censura. "O que há de errado comigo?"
"A questão não é você." Explicou embaraçado. Já não se envolvia com ninguém justamente para não ter esse tipo de conversa.
Ela tocou o seu rosto e o acariciou. "Só precisamos de uma chance. Eu amo você, você sabe disso. Mas não posso ser só sua amiga ou sua psicóloga quando eu gostaria de ter você na minha cama todos os dias."
Ele buscou paciência onde não tinha, reclamando internamento por sempre que algo se tornava rotineiro e cômodo em sua vida viesse as exigências. Antes, ele imaginava que por Rachel ser uma mulher mais velha que ele pelo menos sete anos e, supostamente, madura, não houvesse cobranças. No entanto, estava no mesmo ciclo vicioso. Depois de um ou dois meses com algumas saídas casuais, elas sempre cobravam.
"Eu não irei mais aparecer." Revelou, chateado por fazer isso mais uma vez ao longo de anos. Rachel era uma boa mulher. Sentia-se um crápula por fazer isso. Pensou que podia protelar até que ela percebesse seu desinteresse, ou talvez que pudesse esperar o fim de semana cheio de trabalhos passar, para então no domingo almoçar com ela calmamente e revelar que não estava pronto, como nunca esteve. No entanto, achou melhor aproveitar o ensejo. Não gostava de vê-la sofrer expectativas. Ela foi sua amiga, ouviu muito dele, mas no momento em que ela o seduziu, transou com ela uma vez por vulnerabilidade, desde então passou a ser por obrigação, por não saber como sair, embora não soubesse como levar isso adiante. "Eu não consigo, você sabe." Explicou gentilmente, tentando em seguida impedir sua mão de acariciar seu rosto.
Com um suspiro, ela levou a mão dele à sua boca e beijou-a, conformada. Ela já sabia que essa era sua posição. Conhecia-o demais. Ele não podia ser um homem completo. Não com tanta amargura que carregava. "Estou aqui para você, Edward." Disse e se levantou. "Se precisar de algo, estarei aqui." Deu as costas e saiu.
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Bella vestia uma saia de pregas preta com detalhes rosa, uma blusa branca de botões e uma bota rosa. Alice vestia um vestido curto vermelho, tomara-que-caia e uma bota da mesma cor. Ambas usavam cabelos artificiais com o intuito de dissimular ou esconder suas identidades. Bella sentia-se bonita com a cabeleira loura e cheia de cachos que escolheu. Já Alice, em todo o tempo olhava no espelho e retocava o batom vermelho, falando a qualquer instante sobre garotos, enquanto admirava seu cabelo artificial ruivo. Estavam excitadas por finalmente conseguir sair como adolescentes normais e, quanto mais o motorista se aproximava da rua Spring, mais davam pulinhos no banco.
"Rilley, você vai nos dar um tempinho para paquerarmos, não vai?" Foi Alice que perguntou. Ele não respondeu, mas olhou-a pelo retrovisor de um modo que ela já sabia a resposta sem que proferisse. Ele era baba-ovo demais, certinho demais, isso era irritante. Bella sorriu, sabendo que agora começaria uma briga. "Merda." Alice resmungou de braços cruzados.
"Alice! Meninas não falam esse nome." Bella reclamou com um belisco brincalhão em sua cintura. Fez isso porque sabia que a pequena temperamental já estava irritada.
Alice pôs no rosto uma máscara provocadora e mordeu os lábios, encarando Rilley pelo espelho. "Você até poderia ser o prato do meu dia, se fosse legal." Disse ironicamente.
"Quem disse que eu quero ser o prato do seu dia?" Rilley retrucou com escárnio.
"Você não me deixou completar." Disse e deu uma umedecida no lábio superior, sedutoramente. "Poderia ser o prato do dia, mas é velho demais para mim. Qual a sua idade? 30? 35?" Zombou, fingindo calcular. "O único homem mais velho que eu tenho as caras de degustar é Emmett, só porque ele tem a idade que tem, mas a alma é jovem. Já você, é um homem velho com alma de idoso. E quem gosta de velho é museu." Provocou sorrindo para o retrovisor.
Ele encarou-a. "Você é uma fedelha que mal saiu das fraldas!"
"Você é um velho." Repetiu teimosamente, cruzou os braços e olhou para a rua pela janela. Bella sorria disfarçadamente ao seu lado.
"Alice, você sabe muito bem que eu tenho 27 anos."
"É um velho. Vecchio. Idoso. Cheira a mofo!" Provocou. Rilley girou o volante, puxou o freio de mão e freou bruscamente, já em frente a Disco Club. Ela assustou com o drifting, mas não desistiu de implicar. "Tão velho que nenhuma gatinha como nós olharia para você." Rematou cheia de birra e ele encarou-a.
"Alice e Bella, desçam porque às 00h53 eu as pego exatamente aqui." Disse impaciente, sem ao menos descer para abrir a portas para elas. "Eu estou pouco me lixando para o que vocês vão fazer ou não. Estejam aqui esse horário e ponto."
Alice desceu empolgada com o resultado da provocação. Já Bella, desceu preocupada com o que aconteceria a seguir. Ela sempre tinha que ser o lado mais sensato.
"E Emmett, Rilley?" Inclinou-se sobre a porta. "Se ele souber que nos deixou aqui vai te esfolar."
"Vocês não falam. Eu não falo. Tô cansado de ser certinho e só agüentar encheção de saco dessa pirralha."
"Ok." Bella sorriu. "Até mais tarde." E caminharam de mãos dadas até a porta lateral da casa, entregando logo que chegaram os convites Vips. Sem que percebessem, eram seguidas por três homens que ao notar a placa do carro, deduziram serem elas as meninas de Emmett.
O barulho no local era ensurdecedor. Encantadas com o lugar, elas pularam quando o DJ tocou Kate Perry, jogaram as mãos para cima, gritaram e dançaram, sendo observadas à distância por dois dos rapazes que as seguiram desde que entraram no recinto.
Após um tempo perscrutando o local, os rapazes receberam um aceno do terceiro homem, o chefe, e sentiram-se permitidos a aproximar-se. Do segundo andar, com a gravata afrouxada e uma coca na mão, o tenente analisava minuciosamente todos os lados, além de dar cobertura visual para seus agentes.
O chefe era um homem atraente. Muito mais quando se vestia despojado como estava, longe da austeridade do seu dia a dia, somente com a blusa branca dobrada em três quartos e dois botões abertos, isso além de seu cabelo liso, penteado de lado. Sua presença nunca passaria despercebida. Ele exalava seriedade e mistério. Não foi nem uma nem duas rejeições gentis que teve que dar no tempo que estava ali.
Embora seu objetivo fosse vistoriar a efetividade da operação, gostava de mulheres requintadas. Era exigente com o nível intelectual de suas companhias, por isso não era promissor desenvolver algum tipo de relacionamento ali, local que ao seu olhar clínico só tinha mulheres fúteis.
A presença dos seus homens próxima às meninas no andar de baixo chamou-lhe a atenção. Rapidamente observou que elas mais pareciam crianças. Pequenas, com corpinho miúdo, obviamente perceptível a quem quisesse ver a idade que tinham, já que eram bem diferentes das demais mulheres.
Uma das garotas sorriu para os rapazes, a outra, ao olhar um segundo para o mezanino, preferiu ignorá-los e continuar dançando. Algum tempo depois, viu a de cabelos ruivos puxar o braço da de cabelos louros e reclamar algo. A de cabelos louros balançou em negativa a cabeça e saiu. Não seria fácil, pensou o chefe. Elas amam Emmett, isso ficou claro na escuta telefônica. Não deixarão estranhos aproximar-se delas.
Bella seguiu para o banheiro irritada com Alice. Não gostava dessas situações que ela permitia, até porque tinha medo do que isso acarretaria. Certamente, Emmett não lhes permitiria mais sair sozinha se soubesse que estavam aprontando. Não gostava que armassem nada para ela, como por exemplo, Alice querer ficar com o japinha e pedir que ela desse atençãopara o lourinho. Era sensata, amava Emmett e não iria trair sua confiança. Se ele pediu que se comportassem e que não confiassem em ninguém, era isso que iria fazer, por isso girou sobre seus pés, deixou Alice só e dirigiu-se apressada ao banheiro.
Edward observou-a, notando que um de seus agentes a seguiu. Preocupado, desceu as escadas rápido atrás de Michael rumo ao corredor do banheiro feminino. Encontrou-o parado, sem nenhuma cerimônia, em frente à porta onde dezenas de garotas transitavam.
"O que diabos está fazendo aqui?" Perguntou logo que se pôs ao lado dele.
"Estou esperando a ninfeta." Explicou como óbvio. "Erick já está passando a lábia na outra." Disse com um risinho zombador.
"Eu vi um homem as observando. Devem ter lacaios dele por todos os lados." Edward disse e tocou o seu braço para tirá-lo de lá, no entanto sua atitude foi interrompida pela voz que soou próxima.
"Oi... Você veio atrás de mim." Soou mais como acusação. Michael ficou inicialmente sem palavras por ela ter dito isso tão naturalmente. Imediatamente Edward notou que era a mesma voz sussurrada que ouviu várias vezes no dia anterior e nessa manhã. Automaticamente, ele afrouxou o aperto e disfarçou, olhando a seguir para um quadro na parede. "Não gosto de me sentir perseguida." A garota disse e deu um meio sorriso brincalhão.
Ela não notou Edward, mas fitou Michael em expectativa, que começou a se explicar embaraçado diante do olhar da garota e da proximidade do chefe.
"Er, espero que não tenha ficado irritada. Eu queria dar um espaço para meu colega e sua amiga, e como você veio para esse lado eu pensei que podia te ver por aqui." Disse meio sem jeito. Edward gostou da saída do seu subordinado e continuou observando o quadro como se nem estivesse ali. "Eu queria muito te conhecer. Você é muito bonita." Completou, agora mais seguro. O chefe rolou os olhos ao ouvir a cantada clichê.
"A primeira coisa que precisa saber é que só vamos conversar." A garota disse voluntariosa. "Depois, precisa saber que não bebo nada que me dão em festas, não fumo e não vou sair daqui com você para lugar algum. Além disso, saiba que eu tenho 16 anos. Se não tiver interessado em conversar com uma adolescente, sai fora logo." Disse disparado, o que fez Edward torcer os lábios, quase sorrindo. Michael ficou em choque e sem palavras. Ela continuou. "Qual sua idade?" Perguntou e o olhou da cabeça aos pés, mudando imediatamente o tom de voz.
"Dezoito." Michael mentiu rapidamente. O chefe gostou de seu desempenho.
"Ah, legal. Você já se formou no colegial?" Arqueou as sobrancelhas e bateu o pezinho.
"Sim." Respondeu de imediato.
"Onde você estudou?" Continuou com as perguntas. Edward ouvia o interrogatório estupefato com a garota. Ela era intimidadora. Michael parecia estar em uma inquisição.
"Estudei em Nevada."
"Vem muito a essas festas?" Quis saber, ainda batendo os pés na frente, agora analisando detalhadamente os olhos do rapaz. Tinha algo nele que não que inspirava confiança.
"Er, sim." Respondeu sentindo-se desconfortável por ter o chefe tão próximo avaliando sua performance, afinal, era a primeira vez que entrava em uma investigação. Edward, de costas para Bella, fez um gesto com a mão para que Michael desenvolvesse, que continuasse ganhando a confiança dela, que conversasse. Ele atendeu. "E você? Seus pais deixam você vir, mesmo sendo tão nova?"
Ela sorriu e relaxou um pouco. "Essa é a primeira vez que eu venho. Um amigo da família nos trouxe sob seus cuidados." Gracejou e rolou os olhos. "Ele falou que ia nos deixar à vontade, mas quando estava lá na pista o vi nos observando de longe. Ele é certinho demais para nos deixar só." Explicou como se conhecesse Michael há tempos.
"Você está no segundo ano da escola secundária, não?" Michael inferiu, ao calcular sua idade e associar ao ano escolar. Imaginava que esse era o tipo de assunto que adolescentes conversavam: idade, escola, onde moram e, por último, se tinham namorados. Essa era a conversa bem típica de adolescente que se lembrava.
Ela abaixou a cabeça, pela primeira vez na noite relutante em responder.
"Não. Estou atrasada dois anos. Ainda estou no 8th Grade*, último ano do Junior." Explicou baixo.
*Aqui no Brasil eu considero como a 7ª série, já que lá a escola secundária são 4 anos.
Edward olhou-a de canto e notou que ela parecia chateada com a informação. Instantaneamente, deduziu que Emmett além de escravizar sexualmente suas garotas, atrasava seus estudos, proibia-as de conversar com desconhecidos, isso além de impedi-las de sair. Como ele podia descer seu nível de marginalidade a tanto? Isso era corrupção de menor e restrição de direitos, pontuou.
Observando-a de esguelha, notou seus grandes olhos verdes enfeitados por longos cílios escuros, em uma maquiagem sutil e delicada. Viu que seus cabelos eram longos e cheios de cachos e, entrementes, associou-os aos cabelos de Rosalie. Também percebeu que dela exalava um perfume adolescente. Porém o que era bizarro e o deixou confuso é que era a mesma fragrância que Rosalie usava; uma mistura de chicletes tutti-frutti com flores. Transtornado com as lembranças, cerrou os olhos e pensou: será que Emmett faz com que ela use o mesmo perfume de Rosalie? Isso é doentio!
Ainda avaliando-a abertamente, lembrou-se de quem se tratava: uma criança com sua inocência usurpada. Ela não parecia tão miúda como quando a olhou do andar de cima. Não tinha o corpo tão infantil, mesmo assim, ainda era uma menina.
"Por que atrasou dois anos?" Michael perguntou, interrompendo sua distração. "Reprovou?"
"Não completamente. Um ano eu reprovei por falta, o outro eu parei no início do ano. Mas mudando de assunto, onde você mora?"
"Aqui em Los Angeles mesmo. Em um apartamento."
"Ah, então você não faz parte desses riquinhos mimados de Beverly Hills." Comentou e balançou a cabeça, lembrando-se automaticamente que não deveria generalizar. Michael riu do comentário. Ela nem cogitou consertar o teor pejorativo. "Gostei de conversar com você." Disse e apertou brincalhona a bochecha dele. "Agora que você me conheceu vou voltar a dançar." Disse naturalmente e, no instante seguinte, deu as costas. O chefe imediatamente fez um gesto para que Michael a seguisse.
"Não vai nem pegar meu telefone?" Perguntou e segurou o ombro dela amistosamente. Antes de responder, ela viu a figura de Rilley os observando a alguns metros de distância, encarou Michael com olhar impugnativo, depois abaixou o olhar para seu braço, alertando-o com o gesto que ele avançou limites.
"Não. Eu não vou te ligar." Disse seguramente, um pouco temerosa por Michael.
Nesse instante, Edward tirou os olhos do quadro, moveu um pouco o rosto e olhou-a de frente, notando ao olhá-la que ela mudou completamente o humor. Seus olhos se encontraram, ela segurou o olhar curiosamente nele, depois, com um ato brusco, tirou a mão de Michael do seu ombro e fitou novamente o fim do corredor.
"Eu fiz algo errado?" Michael perguntou ao notar o gesto hostil. Edward acompanhou de viés o olhar dela, notou o que ela via, depois disfarçou, fez um gesto com a mão para Michael, e caminhou em direção contrária a Rilley.
"Não. Er, a gente se vê por aí." Torceu os lábios, chateada, depois caminhou rapidamente para o lugar onde Alice estava.
Alice dançava e conversava com Erick espontaneamente. Bella ficou próxima a ela e dançou, ainda notando Rilley à distância. O chefe a observou curiosamente todo o tempo que dançava, conjecturando nesse tempo todas as hipóteses possíveis de ligação que elas poderiam ter com Emmett, idéias essas que lhe causavam asco. Para ele, a relação deles era cheia de lacunas. Além de ser uma das meninas dele, ela o temia muito, pois ao ver seu capanga próximo no corredor esquivou-se completamente.
Na hora combinada, Bella chamou Alice e saíram para encontrar Rilley. Após vê-las sair, Erick seguiu animado para o estacionamento pago e lá encontrou o chefe e o resto da equipe.
"Ela ficou com o meu telefone, chefe." Avisou com um sorriso de um canto ao outro. "A garota é chapa quente."
O chefe rolou os olhos e lhe deu um sorriso satisfeito. "Isso é trabalho, Erick. Não se anime." Lembrou também cheio de expectativas.
"Eu sei. Um trabalho melhor que ficar ouvindo escutas." Completou com uma piscada.
Michael, do outro lado, olhou Erick de canto de olho, com ciúme e inveja inundando sua racionalidade, e fez uma careta de desdém. Enquanto ele não conseguiu nada, a não ser uma conversa atenciosa, Erick conseguiu dançar, sorrir, até mesmo o telefone, isso além de um sorriso incentivador do chefe. Tudo devia estar contra ele, pensou. Erick não passava de um puxa-saco de merda, resmungou mentalmente, depois deu as costas e caminhou rumo a Stephan, que tinha ficado de apoio à distância.
Continua...
