Chrno Crusade é de autoria de Daisuke Moriyama, todos os seus direitos resguardados.
Na manhã seguinte o café transcorreu de forma tumultuada, como já era de se esperar de uma casa onde continha Rosette e Satella dividindo o mesmo pão, literalmente.
"Você viu que eu ia pegar esse pedaço, sua bruxa" - dizia a freira segurando firmemente seu garfo fincado sobre o filão que estava no meio da mesa.
"Oh claro, vou fingir que meu único objetivo na vida é oportunar você, sua freira assanhada".
"Eu? Assanhada? Desculpe, mas sou só eu que estou quase caindo dentro do seu decote? Despudorada!".
"É só não olhar" - replicou tentando tomar o alimento para si.
"Rosette... Satella... por favor, não é motivo para brigar".
"CALE A BOCA, CHRNO" - responderam em uníssono.
"Ahhh, mas é apenas nisso em que elas concordam?" - ele murmurou desanimado - "Azu, quer que eu pegue mais chá para você?".
"Sim, por favor" - pediu Azmaria estendendo seu pires e sua xícara para o demônio que estava localizada de fronte a ela, só que do outro lado da mesa de jantar.
"Bom dia" - saudou o mais novo hóspede da mansão Havenheit após espiar o ambiente - "Tão cedo e já tão unidas, você me emociona, irmã Rosette".
"Está vendo? Até o padre almofadinha tira uma com a sua cara" - retrucou Satella com um sorriso vitorioso nos lábios.
Rosette bufou e aplicou ainda mais força no seu punho, de tal maneira que o pão escorregou e saiu voando pelo ambiente enquanto sua cadeira escorregava e ela caia de pernas para o ar e de costas. Satella ria escandalosamente, divertindo-se com a visão da freira espatifada.
"Rosette!" - gritaram Chrno e Azmaria ao mesmo tempo.
"Hahaha... você é ridícula, Christopher".
"Você está bem, Rosette?". - perguntou o homem loiro que não demorou a ajudar a levantar.
"Sim. Sem problema, não foi nada demais. Ai" - murmurou quando o homem tocou seu ombro.
"É melhor você dar uma olhada nesse braço...".
"Pare de brigar com Satella, Rosette". - pediu Azmaria indo do lado da freira - "Vou chamar Steiner".
"Não precisa, eu mesma vou falar com ele" - disse a freira tentando evitar a preocupação dos amigos.
"Eu vou com você" - ponderou Chrno definitivo.
"Ok" - disse Rosette com um olhar agradecido - "Vem conosco, Azu".
"Sim!"
"Acho que você já tem bastante companhia, então permanecerei aqui com a senhorita Satella" - disse Remington com um sorriso sincero.
O grupo distanciou-se e não demorou a ganhar o corredor da mansão, deixando a dupla sozinha e silenciosa. Tão silenciosa ao ponto de se ouvir os ponteiros da miniatura do "big bang" que ficava na sala ao lado.
"Tomei a liberdade de pegar o jornal que estava em sua porta e poupar o trabalho de seu gentil criado".
"Steiner é feliz por me servir. Não precisa se preocupar com isso" - disse arrancando o exemplar estendido da mão dele.
"Como queira. Hoje estarei na cidade resolvendo alguns assuntos e amanhã de manhã estarei partindo, espero que não se incomode se eu pernoitar mais por hoje".
"Já que não tem jeito" - replicou a ruiva perpassando seus olhos sobre a folha de papel, já aberta sobre seu colo.
Ambos não se incomodaram com a presença um do outro e continuaram a executar suas mecânicas tarefas, até que a mulher disse sem pudor algum:
"Padre, pare de olhar para mim".
"Como?" - ele mantinha-se distraído fitando os quadros da sala - "Eu não entendi bem".
De fato, o homem parecia se divertir mais com outras coisas do que com sua presença. Estava a analisar com o olhar os quadros de sua parede, mas porque sentia-se tão incomodada com a presença dele? Era como se estivesse sendo constantemente vigiada por aquele par de opalas azuladas.
"Nada... desculpe".
"Você tem um belo quadro renascentista aqui" - ele se ergue e vai até a moldura, parecendo entreter-se apenas alisando o contorno de madeira.
"Herança de família".
"Admirável. Visivelmente bem conservado".
"Veio da Itália, mas não recordo de mais nada além disso,".
"Não sabe o nome de objetos que contam a história desse lugar?"
"Tenho muitas outras coisas com o que me ocupar" - disse levando a xícara à boca.
"Você há tempo perdeu o contato com o que realmente importa" - ele acrescenta rapidamente enquanto a encara de perfil.
"Eu não perguntei".
"Tem razão. Perdoe minhas colocações indiscretas".
"Você nunca perde a compostura e esse jeito tão calmo de falar?".
"Claro que sim, caso contrário eu não seria humano".
"Pois a última coisa que você parece é um humano" - ela frisou e por um momento teve a impressão de ver o riso do padre tremer diante daquela colocação.
"Você acha?" - seu tom de voz tornou-se mais grosa do que o habitual - "Pois, acho que eu realmente nunca consegui tamanha serenidade".
Satella teve vontade de gritar quando viu a sombra do homem se deslocar tão perto de si ao ponto de tampar a claridade da cortina. Ergueu o rosto em tom de desafio e encarou os olhos azuis no fundo do rosto e sentiu amolecer cada osso do seu corpo. Aqueles olhos não eram comuns, apesar daquele corpo ser tão real e maciço quanto se lembrava daquele sonho.
Em seu sonho, ele dizia:
"Quero te proteger, Satella"
Enquanto a pegava nos braços e dava-lhe um beijo meticulosamente bem calculado, ao ponto de sentir seu pulso acelerar a nível de um enfarte quase fulminante e, então, acordava.
Mas, agora, ele era bem mais real do que naquela alucinação doentia. Foi com um susto tremendo que ela sentiu a mão esquerda do homem acariciar seu lábio superior, as luvas brancas ainda metidas dentro delas. Como será que eram a textura daquelas mãos tão grandes? Será que sua pele teria a delicadeza da pelica ou seriam grosseiras como as de um ferreiro? Mãos castas que só acariciavam uma a outra durante as orações e agora massageavam sua boca. Sentiu-se febril pelo toque que lhe libertou o carnal e, ao mesmo tempo, perdoada pelas pupilas dele por pensar tal coisa. Ele disse quando suas mãos deixaram a boca fresca da mulher:
"Satella...".
"Sim?"
"Tinha um bigode de leite em você" - ele sorriu beirando o infantil.
"O QUE?".
"Hahaha, desculpe. Quando vi já estava te limpando, mas achei que se Rosette chegasse não deixaria essa possibilidade escapar para judiar de você".
"Então, eu ainda por cima lhe devo um obrigada?".
"Ohoho... seria ótimo".
"Pode esquecer, padreco" - retribuiu com escárnio se erguendo de sua cadeira, dobrando o jornal e se preparando para deixar o lugar.
"Mas, então, o que achou que eu estava fazendo?".
"Eu... eu sei lá!" - disse irritada indo rumo a porta e deixando-o completamente só, enquanto subia para suas instalações particulares.
"Puf, puf... o que deu em mim? Sonho idiota! Mas, é muita coincidência ele ser o mesmo homem do meu sonho e vir aqui na maior cara de pau. Ainda mais um sonho daquele... tão... AH!".
"Nhaaa... que porcaria de anfitriã é você? Deixou o pobre Padre Remington sozinho naquela sala nefasta" - Rosette atravessava o corredor entre Chrno e Azmaria.
"Não fale dele como se fosse um bebê! Agora vai lá fazer companhia com o padreco, vai...".
"Rosette, porque não pode deixar a senhorita Satella em paz?".
"Tem razão, Chrno".
"Isso mesmo... tenho?" - ele ergueu uma de suas sobrancelhas.
"É muito melhor sozinho do que mal acompanhado. É um favor que Satella faz se retirando e deixando Padre Remington só".
Satella continuou a subir para seu quarto - "Ah! Estou exausta! Vou me fingir de surda".
"A preguiça é um pecado, sabia?" - disse a freira debochada, rindo enquanto tapava sua boca.
"A insolência também deveria ser" - retrucou com ironia.
"Rosette, deixe a senhorita Havenheit em paz".
"Padre?" - eles se depararam com a figura.
"Ela está realmente cansada e não é para menos depois deu ter dado tanto trabalho para todos vocês durante essa madrugada".
"Você não causa problema algum, padre" - retribuiu a loira sorridente.
"Eu causo sim, Rosette. E muitos" - disse parecendo um pouco triste - "Lamento, Satella".
A mulher subiu as escadas ás pressas e trancou-se em seu quarto.
"O que há comigo?" - perguntou-se - "Ele é um padre! AH! Tenho que tomar cuidado. Hoje me interesso por um homem de saia, amanhã começo a reparar da beleza da Christopher... que ódio!"
Naquele dia, Rosette e Chrno foram passear por São Francisco acompanhando Remington e Azmaria para tratar de assuntos da Ordem de Magdala e ao retorno do grupo, perto do entardecer, Satella pode perceber um legítimo desconforto na face de todos, em especial no de Rosette deixando-a incapacitada de fazer qualquer comentário indiscreto.
Jantaram o exímio ensopado que Steiner tinha preparado e falaram pouco durante a refeição. Parecia à antiga mansão Havenheit, quieta e sombria, como costumava ser antes da chegada dos viajantes. Aquilo era realmente estranho e Satella até tentou puxar papo algumas vezes, mas nem mesmo Rosette aceitou suas provocações.
Deitaram-se na frente da lareira e ficaram a conversar e mais uma vez Satella se auto-excluiu em seus aposentos, arrumando-se embaixo das cobertas quentes. Sem sucesso, pois mais uma vez não conseguira pregar o olho. Ergueu-se de seu leito uma hora depois e desceu as escadas enrolada em seu habitual roupão, arrastando os chinelos macios e descendo até a sala de estar, agora vazia de qualquer um.
Sentou-se na cadeira e ficou vendo as últimas fagulhas do fogo ainda pularem por entre as frágeis toras da lareira. Pegou um utensílio próximo - e de função específica - e passou a mexer na madeira, reavivando as fagulhas.
"Sempre sobra alguma coisa de um desastre não é?"
Ela estava encolhida e agachada, mas parou o que estava fazendo para ver o homem que se encontrava diante do batente.
"Está pagando Steiner para avisá-lo quando estou acordada?" - ela perguntou com escárnio e com um meio sorriso zombeteiro em sua face.
"Não precisa fazer esse papel perto de mim".
"Não é papel, padre. Esta sou eu. Irônica como pode ver".
"Está certo, mas gostaria muito de poder ver um lado mais amável seu. Deixe que eu faça isso para você" - se aproximou e fez menção de retirar o material de sua mão branca e gélida.
"Obrigada, mas não precisa".
"Por favor, quero fazer isso".
Virou-se e deparou-se com seu rosto muito próximo ao seu, o bafo quente próximo de seu pescoço e sua mão a segurar seu pulso para retirar o objeto de seus domínios. Por falar em mãos, ele não usava as luvas e nem a sua batina azul esdrúxula. Estava livre de qualquer coisa que lembrasse sua função, despido de rótulos e apenas um belo sorriso humano figurava em seu semblante belo e, até mesmo seus cabelos, pareciam mais bagunçados do que de costume.
Ele tomou seu lugar e passou a flagelar a madeira, enquanto sentia o calor emanando por todos os poros de seu corpo. Seriam as chamas? Ou será que o problema era mais consigo mesmo?
"Você é estranho".
"Obrigado" - ele disse calmo - "Não é todo dia que ouço algo do tipo".
"Está acostumado com maravilhoso Padre Remington? Ou, quem sabe, querido Padre Remington?".
"Hahaha... é, coisas do tipo".
"Por que está sendo tão gentil comigo?".
"Você me deu abrigo, apenas gosto de retribuir. E por falar nisso, senhorita Satella, amanhã estarei deixando as dependências dessa casa. Pode ficar tranqüila. Vai poder colocar a cabeça no travesseiro e dormir calmamente".
"Como sabe?".
Remington engoliu seco e, com um pouco de temor, ergueu o rosto para fitar o semblante da ruiva.
"Intuição" - disse vendo-a
Remington sentiu-se abandonado da razão que o acompanhou grande parte da sua vida. Por um momento parou para fitar aqueles cabelos ruivos e esbeltos e que, de forma inexplicável, o assombravam desde que chegara até ali. Satella tornara-se uma bela mulher desde os acontecimentos com Aion naquela noite horrível em que a família Havenheit tinha sido exterminada quase que completamente. Naquela época chegara demasiado tarde para poder dar conta dos demônios e só conseguia se lembrar de ver a garota chorar nos braços de Steiner após a tragédia.
Apesar de ser um pouco nervosa e petulante, ainda podia ver - poucas e raras vezes - um olhar curioso como o de uma menina abaixo daquelas pálpebras grandes e de seus cílios negros. Cresceu, superou parte de seus traumas, jurou vingança por sua irmã e, além de tudo, tornou-se uma das mais belas obras de Deus. E reconhecer isso era uma das maiores honras que poderia propiciar ao Criador.
Aquele ambiente era demasiado frio e parcialmente escuro o que fazia com que - involuntariamente - os corpos dos dois se aproximassem para se esquentar. Remington aconchegou seu rosto nos cabelos dela e aspirou parte do inebriante cheiro de sua colônia. Efeito assim só sentira uma vez quando fora a uma casa de chá, na China, há muitos anos antes, local em que o ópio era comercializado sem problema algum. Tal efeito de estupor só lhe era proporcionado agora por aquela bela ninfa que mirava o fogo a saltitar.
"Sempre sobra algo de uma tragédia, por mais ínfima que seja..." - ela balbuciou pragmática - "E você, Padre? Como vão suas relações com a Ordem de Magdala? Vão, finalmente, pegar Aion?".
"Estamos encaminhados, senhorita".
"Tomara que não consigam" - bufou.
"Como disse?".
"Serei eu a capturá-lo e mandá-lo de volta para o inferno. Por isso espero poder colocar minhas próprias mãos nele".
"Aion é muito poderoso e não é, nem de longe, uma decisão sensata".
"Não me importo com sensatez. Só quero vingar meus pais. Do resto, pouco me preocupo".
"E planos? Não quer fazer como todas as outras jovens? Entrar na vida social? Casar?".
"Títulos sem a menor importância... um valor de um homem se faz pelo que produz e o que é, nada mais. Não quero um marido para exibir como um cachorro poodle em eventos sociais".
Ele sorriu ao vê-la pronunciar aquilo e apenas tocou seu cabelo com a ponta dos dedos longos.
"Você é muito íntegra, Satella".
"Pare de me bajular".
"Está certo" - ele permitiu - "Como você qui... opa".
Ela virou-se rápido demais e pode sentir seu nariz dar uma topada rápida com o queixo fino dele. Ela ergueu um pouco o rosto, numa atitude mecânica, e pode ver os olhos azuis a fitá-la. Teve a impressão de vê-lo prender todo o ar dos pulmões.
"Cuidado" - pediu abaixando um pouco o rosto para massagear seu rosto - "Vai acabar se machucando numa dessas".
Ele era atencioso e com delicadeza conseguia tudo o que queria. Sem se alterar, um extremo da personalidade de Satella que nunca conseguiu alcançar. Sentia-se tão só, tão carente, tão triste. Mas, não mexeu um músculo para se distanciar do homem, esperava como numa última esperança que ele pudesse ver o suplício que estava destinada. Remington percebeu que ela aguardava algo e queria muito, muito mesmo, ter deixado às coisas como estavam, mas seu corpo retribuiu ao gesto antes que as informações fossem digeridas pelo cérebro.
Tocou seus lábios com doçura e delicadeza, sem atrever a profaná-lo ainda com sua língua, apenas sentindo a textura da pele carmim contra seus lábios finos e sem cor, enquanto suas pestanas ficaram cerradas.
"Por favor, Satella, seja forte por nós dois... expulse-me de perto de você" - pensou com intensidade.
Foi com surpresa que sentiu que ela abriu a boca e o que não estava se atrevendo a fazer foi iniciado por ela. Enroscou sua mão embaixo dos cabelos loiros e pressionou com convicção contra sua boca ávida. Não sabia por que estava retribuindo ao gesto ousado daquele homem, mas sentia que fazendo aquilo teria um pouco dele para sempre, aquela aura abençoada que todos enxergavam nele, mas ninguém via nela. Remington segurou-a pelos braços e a empurrou um pouco para longe.
"Não podemos. Você é uma moça solteira e eu... sou padre" - disse com um pouco de razão - "Não poderei nunca retribuir a isso".
"Eu não estou te pedindo nada, Remington. Estou?" - ela ergueu uma sobrancelha - "Eu já disse que não me importo com rótulos, nem títulos, nem nada. Certo, honre sua batina e saia de perto de mim".
"É o que deveria fazer" - disse mais para si do que para ela.
"Então, porque não vai?" - desafiou um pouco ofendida pela recusa dele, uma vez que homens nunca fora um problema em sua lista de ambições.
"Até que ponto é pecado corresponder ao desejo do corpo? Senhor, você nos criou para que cuidássemos dessas almas e levássemos junto de si. Esses seres tão encantadores e mesquinhos...".
"Vá! Senhor Perfeito".
Ele sentou-se no chão novamente e colocou suas duas mãos a segurar seu rosto, como num sussurro disse:
"Obrigado!" - disse o homem percebendo a ironia por parte dela.
"Obrigado?".
"Por tirar esse peso de mim. Por perceber que eu não sou o santo que todos querem e por ver que eu sou tão sujo quanto qualquer humano".
Satella sentiu um sentimento estranho se apoderar de si e, de repente, percebeu que não era a única com problemas consigo mesmo. Toda sua busca atrás de vingança pela sua família e a luta contra os demônios as deixaram desacreditada, mas agora, percebia que não estava sozinha. Seria pecaminoso envolver-se com um Padre? Poderia até ser, mas queria saciar sua curiosidade embrenhando-se embaixo daquela batina e deixando ser levada. Queria ocupar sua cabeça com outra coisa. Ele lhe pareceu tão diferente e no instante seguinte muito parecida com ela mesma. Iriam matar a sede de um ao outro e se iriam se arrepender?
"Eu quero ser imperfeito..." - retribuiu puxando-a para si - "Mas, esse pecado não tem volta. Nem para mim e nem para você".
"Não tenho mais nada a perder, Padre" - apenas assentiu com a cabeça e fechou os olhos - "Esse será o nosso segredinho e ninguém nunca descobrirá o que se passou".
"Deus nos perdoe".
Sentiu a língua quente dele invadir sua boca e com delicadeza manusear seu pescoço para que ela virasse o rosto de acordo com as suas necessidades. Como cegos foram à procura um do corpo do outro e Satella não o impediu de tombá-la no chão e segurar com firmeza seus cabelos ruivos enquanto depositava seu corpo de encontro ao chão.
Abriu os olhos e pode vê-lo um pouco acima de si, encarando-a, seus cabelos muito pouco compridos acompanharam-no enquanto descia novamente rumo a sua boca e beijava-a com vontade e dedicação de um devoto. Sentia-se incrível com o toque da pele máscula contra o pouco de pele lisa exposta por seu colo. As pernas dele se intercalaram a dela e arfou ao toque de sua boca atrevida contra seu pescoço casto. O que estaria fazendo? Aquilo era muita ousadia em plenos anos vinte, mas não conseguia segurar-se diante daquele belo homem de 1,80 m de altura e ombros tão largos e firmes que agora a pressionavam com força contra o piso. Queria usar alguém para seu deleite pela primeira vez na vida, de forma inexplicável e animalesca, apenas para saciar um incompreensível e estranho desejo que vinha muito mais de dentro de sua alma do que debaixo de suas saias.
"Então, isso é o que os humanos sentem?" - perguntou-se quando - com um pouco de temor - passou a procurar o belo corpo por baixo daquela roupa toda e sentia os estímulos involuntários de seu corpo de homem contra o baixo ventre da parceira - "E já chegaram a dizer que os anjos não têm sexo. Bem, podemos não usá-los muito, mas... não quero pensar nisso agora".
Abaixou o rosto e distribuiu beijos por seu colo, vendo-a se contorcer embaixo de si enquanto suas mãos tocaram-lhe as coxas. Satella ergueu-se e o empurrou um pouco para trás, procurando os botões de sua camisa de algodão. Em meio a beijos rápidos ele ajudou-a a se livrar daquela peça de roupa e deixar seu tórax a mostra. Beijou seu pescoço e, como já tinha feito tantas vezes em seus sonhos, passou a fazer o mesmo com o tronco branco do amante, deixando seu rosto tocar os pelos loiros que se estendiam por toda a região e que as chamas da lareira faziam questão de iluminar e deixar tão claro quanto o ouro. Gemeu com a boca úmida e deliciosa de Satella sobre seu corpo tenso e apenas podia apoiar-se em seus próprios braços e se deixar levar pela aquela situação maravilhosa.
"Vamos sair daqui" - ele pediu entre um abafado grunhido e outro. Sua voz tornou-se grossa e sequer parecia a sua, tamanho seu desejo.
Recolheram suas roupas e pés por pés subiram as escadas rumo ao quarto de Satella. Por sorte não havia ninguém no corredor, mas se tivesse também não se importariam, uma vez que estavam cegos pelo mais interessante dos pecados: a luxúria.
Satella foi depositada com tranqüilidade na cama enquanto sentia o corpo do homem sobre o seu, e sua respiração se acelerar muito, deixou-se ser desnudada completamente por Remington que encheu os olhos com as curvas suntuosas da bela mulher. E ali, naquela cama, ela era seu único objeto de adoração profundo. Apagou por milésimos de segundo a imagem de tudo e de todos. Não seria esse seu maior pecado e nem o primeiro, mas estava embebido pelos olhos castanhos amendoados daquela linda garota que tanta paz trazia ao seu coração e uma sensação completamente nova fazia rufar em seu peito.
"Você é... tão lindo" - ela disse quando ele voltou a surgir por entre os lençóis e se preparava para se apoderar de sua boca novamente.
Experimentou de um sentimento diferente e gabou-se por um segundo de ter tão dócil criatura a lhe dirigir tamanho elogio. Beijou-a mais uma vez e se preparou para fazê-la sua mulher definitivamente. Não se atreveu a estragar o momento com divagações já que não vira nada além de certeza em seus olhos. Seguiu com movimentos ritmados fazendo-os gritar de prazer e depois de algum tempo ele caiu exausto sobre o corpo da mulher que deixou que ele repousasse sobre seu peito.
Ela foi guiada até os braços dele e ele ficou velando-a até o sonho vir lhe pegar também. Ali estava a prova de um dos seus maiores erros e dádivas e por aquele tempo achou que tinha virado humano também, como todos os outros. Porém, estava enganado. O peso de suas obrigações não era menor por causa daquilo e até mesmo sua cruz pesava mais em suas costas por se entregar aos prazeres da carne daquele modo.
"Eu deveria protegê-la e não fazê-la se apaixonar por mim" - sorriu beijando sua testa - "Ah! Mas, sabe querida, você foi um presente enviado para essa época! Amo por ter me deixado ser humano com você, pelo menos, por hoje" – sussurrou – "Será que vai me perdoar por isso?".
A luz fraca do lampião foi se apagando devagar e quando Satella acordou na manhã seguinte, estava só, como em todos os seus sonhos passados.
N/A: Será que eu exagerei no tempero? Ah! Nem ficou tão forte assim! Eu gostei do resultado, estou cansada de todo mundo tratar o Remington como um santo anjo eunuco. Vamos mudar isso... hahaha...
O próximo capítulo será o último! Aguardem!
Atenciosamente.
Pisces Luna
22/07/07
