Dois

- Você não devia ir lá sozinha - diz Abbe do outro lado da linha, uma curta semana depois das minhas núpcias abortadas. - Irei com você.

"Lá" é Scarsdale, para onde estou indo buscar pelo menos algumas das minhas roupas, por sugestão do próprio Kohaku - que aliás está muito vivo, mas depois eu falo sobre isso. Abbe e eu nos telefonamos várias vezes desde o domingo, mas ainda não nos vimos. Uma situação que pretendo manter pelo tempo que for possível. Ei, já tenho dificuldade suficiente para conseguir o meu próprio espaço; disputá-lo com a minha mãe poderia ser fatal. Ainda assim, por um instante, sinto-me tentada a ceder à sugestão contra a qual não tenho a força nem o entusiasmo necessários para argumentar. Até porque o erro estúpido de contar-lhe sobre os meus planos foi meu.

E o meu instinto de sobrevivência salva o dia com a frase:

- Só por cima do meu cadáver.

Essa declaração, contudo, não atrapalha uma mulher cuja idéia de um programa interessante é ser retirada de uma manifestação de protesto político. Como a conheço bem, percebo que ela está se preparando para o desafio. Resolvo interrompê-la.

- Isso é algo que preciso fazer sozinha - digo, e penso: Hmm... nada mau.

Encho um copo com suco de laranja e apanho a pílula, apesar de obviamente não haver necessidade de evitar filho num futuro próximo; mas a idéia de voltar a lidar com menstruações intensas e cólicas, depois de dez anos sem isso, me dá calafrios. Em seguida, engulo a pílula e acrescento:

- Já sou adulta. Não preciso da minha mãe para me levar pela mão.

- Por acaso eu disse isso? Mas como pretende trazer toda a bagagem de volta no trem, sozinha?

Eu não planejara essa parte. Mas há ocasiões em que a autopreservação suplanta a lógica.

- Darei um jeito.

- Você não deveria enfrentar aquela mulher sozinha.

Por que razão Abbe detesta tanto Kanna Munson, não faço idéia. A mãe de Kohaku sempre foi simpática com a minha nas poucas vezes que se encontraram. Mas Kanna é simpática com todo mundo. Enquanto a minha mãe queimava bandeiras e sutiãs na década de 1960, a mãe de Kohaku tentava agradar juizes em desfiles de beleza. Houve um ano, não sei ao certo qual, em que conseguiu chegar a Atlantic City como Miss Nova York. Alguma coisa me diz que ela nunca superou o fato de não ter sido uma das dez mais. Mas tenho a impressão que Kanna não sabe ficar sem sorrir. Se bem que é o caso de nos perguntarmos se todos esses anos sendo sempre ah, tão simpática, não tiveram um preço.

Em todo caso, as coisas tendem a ficar um pouco tensas entre mim e Kanna, já que o filho dela fugiu do nosso casamento. E é provável que nós duas nos estranhemos e não saibamos o que dizer. Incluir a minha mãe nessa confusão seria o mesmo que colocar molho apimentado em um frango agridoce. Além do mais, a última coisa que eu quero é que a minha mãe veja o quanto estou com medo de enfrentar o mundo real.

Por isso, digo, com toda a convicção possível:

- Irei sozinha, e ponto final.

Minha mãe solta um suspiro longo e sofrido do tipo que as filhas no mundo inteiro temem, e diz:

- Está bem, está bem... - o que obviamente significa que não está bem, mas que ela vai aceitar a situação. Por um momento, eu saboreio a pequena, mas preciosa vitória. E só então ela continua: - Você sabe, não é que eu vá atrapalhar ou algo assim.

Se eu tivesse energia, soltaria uma gargalhada.

- E então - diz ela, como se o fato de eu não refutar seu comentário não importasse -, quando pretende partir?

Procuro disfarçar.

- Lá pelas onze. - Meu coração começa a bater forte dentro do peito. Eu abro o freezer, encontro três embalagens de refeições prontas da Healthy Choice, uma forma de gelo pela metade e um solitário picolé Hãagen-Dazs. Com nozes. - Talvez. - Rasgo o papel, suspiro com a sensação do chocolate cremoso derretendo na boca. Sim, eu sei que são nove horas da manhã. E daí? - Não tenho certeza. - O que evidentemente é uma mentira deslavada, pois, se a Kanna vai me encontrar, é óbvio que eu não posso aparecer lá quando me der vontade.

- Telefone quando voltar - diz Abbe.

- Claro - respondo. Embora nós duas saibamos que não o farei. Desligo e suspiro aliviada por poder voltar aos meus pensamentos e ao mesmo tempo odiando isso. Deus, isto é tão assustador, esta sensação de andar na corda bamba sobre as cataratas de Niágara em um nevoeiro denso. Continuo pensando: se eu simplesmente ficar quieta, não apressar as coisas, a Rin verdadeira voltará à cena. A Rin verdadeira voltará a viver.

Transformei-me em uma verdadeira lesma. Permaneci a maior parte da semana no sofá, de pijama, devorando Cheetos e Hãagen-Dazs, tomando Cherry Coke e assistindo novelas. E a Sally Jesse, e a Oprah, e todos esses programas de televisão nos tribunais de justiça que são ao mesmo tempo fascinantes e mórbidos. Caramba, onde eles conseguem achar essas pessoas?

Afasto-me tomando o sorvete e olho para o vestido de noiva ainda estendido no chão como uma magnólia murcha. Não tenho idéia do que fazer com ele. Não posso exatamente jogá-lo fora, e muito menos pensar em guardá-lo como lembrança, ou dar a outra pessoa algo que carrega um karma tão ruim. Por isso, ele fica ali. Com alguma sorte, a seda eventualmente se biodegradará, deixando para trás uma pilha pequena e arrumada de botões cobertos de cetim que eu poderei enterrar ou algo assim.

Quando passo pelo vestido me arrastando a caminho do sofá, o tule esbarra nos pêlos eriçados da minha perna. Acho que estou precisando me depilar.

E tomar banho também.

Afundo no sofá (minha única concessão à "limpeza" tem sido guardar a cama embaixo do sofá em algum momento do dia), a boca cheia de chocolate e sorvete. Sou uma garota infeliz, devo dizer. O estranho é que, de fato, eu me senti melhor alguns dias atrás do que agora. Houve um período...

Está bem. Espera. Vamos voltar atrás no tempo, e eu vou colocar você a par dos acontecimentos.

O dia seguinte ao casamento foi totalmente perdido. Quem disse que champanhe não dá ressaca mentiu. No outro dia, contudo, eu já me recuperara o suficiente para encarar a cozinha, bem como o telefone, o qual, quando finalmente tive coragem para verificar, já continha 25 mensagens. Um novo recorde mundial. (Também desligara o celular pois imaginei que o mundo poderia viver sem mim por dois dias.) Reuni os farrapos de coragem - e o fabuloso bolo de sementes de papoula e limão do Jakotsu -, empoleirei-me no banco do bar e apertei a tecla "play". As primeiras 13 mensagens, como eu suspeitara, eram todas basicamente variações do tema "Você está bem? Me telefone", da minha mãe.

Depois:

"Oi, Rin, aqui é o Sesshoumaru. Só estou ligando para saber se você tem alguma notícia. Me mantenha informado."

"Sesshoumaru". E não "Sesshoumaru". Entendi. Também percebi outra coisa, uma preocupação genuína que não era de natureza sexual. Não mesmo. Ele é da família, afinal, de uma forma periférica. E, uma vez sóbria, percebi que minha reação a ele devia-se apenas à bebida e ao choque. Além do mais, na última vez que conversei com a Kikyou, ela me contou que Sesshoumaru - Sesshoumaru - tinha uma nova namorada, que a conhecera uma vez, que era legal, mas, pelo amor de Deus, já era mais ou menos a sexta em um ano, e Deus sabe que ela adorava o cunhado, mas quando é que ele ia crescer? Mais outras três mensagens da minha mãe, e depois: "Garota, atenda o raio do telefone!"Teme. "Anda logo, anda... merda. Eu sei que você está aí e que deve estar se acabando de chorar, o que é uma pena porque o canalha não merece..."

Uma coisa vou dizer em favor de Kagome. Ela nunca vai deixar uma mensagem para levantar a moral do tipo "há outros peixes no mar", porque, para ela, a única coisa que acontece quando você tira um peixe da água é que ele começa a cheirar mal.

"Tudo bem, acho que isso significa que você está aí sentada sem atender o telefone, ou que desligou o som para não ouvi-lo tocar. Não possoculpá-la. Mas, se ouvir este recado em algum momento da próxima década, lembre-se que NÃO é culpa sua. Está bem, querida - me dê uma ligada quando voltar para a terra dos vivos, e nós vamos sair nus divertir."

Hã-hã. Naquele momento, eu estava sentindo uma forte afinidade Dom a Sra. Krupcek do apartamento 5-B que, segundo a lenda, um dia, década de 1980, ficou presa no elevador por duas horas quando faltou energia no prédio e, conseqüentemente, mijou-se toda. Desde então, nunca mais a viram sair do prédio.

Ainda não retornei o telefonema dela. De Kagome, não da Sra. Krupcek. Mas Kagome vai entender. Espero que sim.

"Alô?" começou a mensagem seguinte. "É o Tony da Blockbuster?" Naquele instante, perguntei-me qual seria a sua dúvida, se o seu nome não era Tony, ou se ele não trabalhava na Blockbuster. "Só para lembrar que Morte em Veneza está atrasado cinco dias? Bem, até logo."

Primeiro pensamento: Quem alugou Morte em Veneza?

Segundo pensamento: Tem alguma fita de vídeo aqui em algum lugar?

"Oi, querida, sou eu, Sango. Você está aí? É, acho que não. De qualquer modo, Miroku e eu pensamos que talvez você quisesse vir jantar conosco esta semana. As crianças estão perguntando por você. Tudo bem. Te amo, tchau."

Para responder à sua pergunta, não, eu não aceitei o convite. Apesar de ter retornado a ligação para agradecer. Mas Deus sabe que a última coisa que eu queria agora era passar a noite com Sakura e Shipoo Bernstein. Talvez no próximo mês. Ou coisa parecida.

Enfiei mais um pedaço de bolo na boca.

Depois:

"Alô, Rin..."

Ao ouvir a voz de Kohaku, peguei o fone esquecendo completamente que era uma mensagem, e o garfo voou longe. Que idiota.

"... Ouvi um boato de que meu pai ficou desesperado ao ponto de procurar a polícia, então achei melhor avisar a todos que estou bem. Eu só não consegui..." Ouço ele suspirar. "Droga, não existe uma maneira fácil de dizer isto..."

Você deve se lembrar que, até este momento, eu me convencera de que ou o cara estava morto, ou fora seqüestrado, ou teria uma explicação perfeitamente razoável para o seu sumiço. Quando ficou (imediatamente) óbvio que a primeira opção era improvável e que a segunda era altamente duvidosa - ele não parecia estar com uma arma apontada para a cabeça -, aquilo me deixou com a terceira opção. Que também não parecia muito promissora.

"...Eu sei que você deve estar com raiva - está bem, muita raiva. "É, foi o que senti uma ou duas vezes nas últimas 48 horas.

"...e tem todo o direito de estar. O que fiz foi imperdoável, e, se eu viver até cem anos, nunca compreenderei totalmente por que fugi assim. Não, não... isto não é inteiramente verdade. Acho que eu... hum... entrei em pânico. Sobre nós, sobre me casar, sobre a maneira como você me colocou em uma espécie de pedestal..."

Nesse momento, engasguei com o bolo.

"...e eu percebi que não tive tempo suficiente para pensar sobre isso..."

Àquela altura, a minha ira estava começando a crescer legal. Quero dizer, ei! Havia alguma razão pela qual ele não pudesse ter chegado a essa conclusão antes de eu gastar as economias da minha vida inteira em uma comida que ninguém sequer chegou a provar?

E que história é essa de eu tê-lo colocado numa espécie de pedestal?

"... quero dizer, eu realmente não percebi que isso estava acontecendo, portanto não quero que você pense que foi tudo um jogo ou algo assim. Mas... Deus, Rin, eu sou desprezível."

Isso nem se discute.

"... o que eu mais lamento é não ter percebido o que estava sentindo até começar a me vestir para sair de casa no sábado. Acho que fiquei tão envolvido em... tudo, que não tirei cinco minutos para me perguntar se estava pronto para aquilo..."

O homem está com 30 anos, pelo amor de Deus! Quando é que ele achou que estaria pronto?

"...quero dizer, o sexo era fantástico, não era?"

Olhei para a mesa de centro e suspirei.

"...e quem imaginou que os meus pais iriam registrar o meu desaparecimento, por Deus do céu? Aliás, eu espero que isso não tenha trazido nenhum sofrimento a mais para você..."

Ah, não. De jeito nenhum.

"...e que talvez um dia nós possamos ser amigos novamente, se bem que vou entender se você me odiar."

Você acha?

"...de qualquer forma, vou pagar a Blockbuster algum dia nesta semana..."

O que responde àquela pergunta. Mas eu ainda não achei a fita, por falar nisso.

"...se você não se importar de devolver o filme na locadora quando sair? E creio que talvez nós devêssemos combinar de você pegar as suas coisas,quando for conveniente? Talvez você pudesse telefonar para mamãe. Quero dizer, assim deve ser mais fácil, não acha?"

Daí a peregrinação a Scarsdale.

"Ah, e ouça..." Ouvi o que poderia passar por um suspiro sincero. "Não era minha intenção que você ficasse responsável por todas as contas, eu juro. Por favor, mande-as para o escritório, está bem? Prometo que cuidarei delas. Muito bem. "Sons de pigarro. "Eu acho que... bem, tchau. E, Rin?"

- O quê? - respondi para a infeliz da máquina.

"Isso não tem nada a ver com você, viu? Falo sério. Você é realmente fantástica. Deus, eu lamento muito."

Esclareceu bem.

Depois de adiantar rápido o resto das mensagens, todas da minha mãe, olhei para o bolo e descobri que tinha comido a metade. Não que isso tosse uma grande coisa, pois - não me odeie - posso comer o que quiser e nunca engordar (se bem que eu tenho uma suspeita oculta de que todas essas calorias estão descansando em volta do meu corpo como um punhado de colchões de ar microscópicos programados para inflar no dia do meu quadragésimo aniversário). Mas tudo estava descansando na base da minha garganta, quando comecei a chorar - um ataque de choro tão forte que eu não conseguia respirar e que, combinado com o bolo na minha boca, me deixou tão engasgada que parecia que o meu cérebro ia explodir.

Cinco minutos depois, reduzida a um trapo de tão fraca, tremendo e suada, cheguei à triste conclusão de que, ao mesmo que preferisse arrancar as vísceras com uma faca cega do que sofrer daquele jeito, eu ainda amava o sacana. Quase uma semana depois, ainda me sinto assim. Quero dizer, por que outra razão eu teria guardado uma dúzia de sacos de Cheetos? Eu deveria odiá-lo, sei disso, mas nunca tinha me apaixonado antes, não de fato, e vejo que isso não é algo que eu possa desligar como se fecha uma torneira. O que indica que devo ser ou muito leal, ou muito idiota. Sim, estou ferida e furiosa, e quero provocar sérios danos corporais, mas, quando ouvi a mensagem pela segunda vez (ah, você não ouviria?), ele pareceu tão preocupado...

Enfim. Fiquei ali sentada, ainda comendo o bolo e deixando as emoções me dominarem, quando o telefone tocou, e eu levei um baita susto porque tinha aumentado a campainha novamente. Abalada demais para lembrar que eu não deveria atender, peguei o fone.

- Hei, Rin? É o Sesshoumaru.

Aposto que você percebeu que isso ia acontecer, há?

Eu, no entanto, não. E pensei, ah, sim, isso vai fazer com que eu me sinta melhor. Passei a mão pelos cabelos, só que o anel de noivado ficou preso em um emaranhado, o que me fez recuar, provocando um ataque de tosse.

Sesshoumaru perguntou se eu estava bem, mas é claro que eu não pude responder porque estava completamente engasgada.

- Espera - murmurei ao telefone. Em seguida, fui até a pia e tomei meio copo de água morna, pois a água da garrafa tinha acabado. Pois é.

Passado um minuto, peguei o fone de novo e consegui dizer:

- Adivinha de quem eu ouvi um recado agora?

- Eu sei - disse Sesshoumaru. - Acabei de saber. Munson está bem. Ele quase parecia desapontado.

Aposto que Sesshoumaru não fugiria assim, pensei, logo me lembrando que foi exatamente isso que ele fez no passado.

Meu olhar desviou para a minha mão esquerda e o anel de noivado do tamanho do Queens que eu orgulhosamente usava desde o Dia dos Namorados. Dois quilates, lapidação de esmeralda, engaste em platina. Diabos, por esta gracinha eu até deixaria as unhas crescerem.

Ainda não decidi o que fazer com o anel também.

Mas, de volta ao telefonema.

- É - disse eu. - Ótimas novidades, hein?

- Merda - disse Sesshoumaru baixinho. Como se não fosse um xingamento. - O que aconteceu?

Para o meu desgosto, as lágrimas voltaram a brotar nos meus olhos.

- Ele deixou uma mensagem na minha secretária eletrônica. Na minha secretária eletrônica.

- Está brincando? Nossa, isso é tão covarde - comentou Sesshoumaru, e a raiva ia tomar conta de mim de novo. E a sensação teria sido boa, eu acho, se eu tivesse deixado fluir por um instante. Mas, depois, lembrei-me da escolha consciente que eu fizera em criança de não deixar as emoções me controlarem e de tomar as decisões com base na razão e na lógica, e não na paixão e no impulso.

Porque eu não sou a minha mãe.

E, naquele momento, senti uma tranqüilidade reconfortante. Ou pode ter sido uma brisa entrando pela janela da cozinha. Mas, por alguns segundos, acreditei que tudo acabaria bem, que talvez a tempestade tivesse inclinado o meu barco, mas eu tinha condições de controlá-lo outra vez.

Espreguicei-me, e os músculos tensos na base do pescoço estalaram.

- Mas ele pediu muitas desculpas. - Minha voz parecia sinistra, até mesmo para os meus ouvidos. - Quero dizer, ele não está querendo me empurrar o resto das contas ou algo assim.

- Não acredito.

- O quê?

- Você está me assustando.

- Assustando você? Por quê?

- Você não deveria estar completamente descontrolada e quebrando tudo a essa altura?

Não sabia ao certo se devia ficar chocada ou indignada.

- Isso seria o mesmo que dizer que todos os homens passam as tardes de domingo na frente da televisão assistindo aos esportes e se entupindo de nachos e torresmo.

- Sim. E daí?

Soltei um leve suspiro.

- Kohaku não fazia isso.

- Não, ele só abandonou você no dia do casamento.

Franzi a testa. Um pouquinho.

- Mas ele disse...

- Estou cagando para o que ele disse. Ele sequer teve colhões para falar com você pessoalmente. Ele a tratou como lixo, Rin. Eu também deveria ter telefonado depois de... você sabe. Do casamento de Kikyou. Mas não telefonei. E mesmo nos meus 21 anos, funcionando com metade do cérebro, aquilo ainda faz eu me sentir um lixo. Mas o que aquele cara fez... merda! Por que você não está cheia de raiva?

- Porque a raiva não leva a nada...

- Isso é papo furado. E guardar isso não é saudável.

- Então você não deve estar prestando atenção nas aulas de controle da raiva que obrigam vocês a assistir - disse eu, sentindo o rosto enrubescer. Que diabo esse camarada estava tentando fazer comigo?

- Controlar não é o mesmo que sufocar.

- Falando em sufocar...

- Aposto que você ainda está usando o anel de noivado.

- Isso não é da sua con...

- Tire-o, Rin. Agora.

Foi nesse momento que, ao passar a mão no rosto, arranhei o nariz com uma das garras do anel (coisa que acontecia pelo menos uma vez por dia desde quando comecei a usar o infeliz do anel, se você quer saber), o que foi suficiente para me tirar do sério. Então, tirei-o do dedo e arremessei-o contra a parede atrás da bancada. O barulho foi surpreendentemente forte. E prazeroso.

- Já tirou? - perguntou Sesshoumaru.

- Espero que esteja sozinho - disse eu, reprimindo a vontade de catar o anel entre meus livros de cozinha antes que as baratas o carregassem (sim, nós as temos no East Side, mas elas são todas estampadas de pequenas iniciais de Louis Vuitton em dourado) - porque para quem ouve só o seu lado da conversa...

- Já... tirou?

- Você tem um sério problema de paciência...

- Pelo amor de Deus, Rin...

- Sim, Sesshoumaru. Estou sem o anel. Contente?

- Delirante. Jogou-o longe? Afastei o cabelo do rosto.

- Sim. Para dizer a verdade, joguei.

- Com força?

Com um suspiro pesado, fiz um esforço para sair do banco e inclinei-me para dar uma olhada na parede atrás da bancada. De fato, havia um leve arranhão. Que vou jurar que já estava ali quando me mudei. Aproveitei para pegar o anel, sentei de novo resmungando e fiquei brincando com ele, passando de lá para cá, entre o polegar e o indicador.

- Força suficiente.

- Bom - disse Sesshoumaru, com um ar de dever cumprido. - Enfim. Só queria saber como você estava. E informá-la oficialmente que está livre e qualquer suspeita.

- Ah, sim. Obrigada.

Fez-se um prolongado silêncio.

- Então cuide-se, está bem? E, Rin?

- Sim?

- Não coloque o anel novamente.

Depois que Sesshoumaru desligou, fiquei sentada a ouvir o sinal de discar durante alguns segundos, sentindo um vazio no corpo como se tivesse bicado de dar uma rapidinha.

Bem, agora que você já está a par dos acontecimentos do terceiro dia de Como Rin Passou a Lua-de-Mel, podemos pular para o presente igualmente muito divertido, no qual estou catatônica em frente à televisão. Sesshoumaru não telefonou mais. Não que ele tenha alguma razão para isso.

E o anel está descansando seguro na sua caixinha da Tiffanys, escondida embaixo das minhas calcinhas.

E, como você deve ter imaginado, a sensação de "eu vou corrigir o motor deste barco" passou. Posso ter estado na crista da onda por um instante ou dois, mas depois a onda veio e me derrubou novamente. Eu nunca percebera o quanto detestava fazer programas cada dia com um cara diferente, até que não precisei mais disso. A terrível perspectiva de ter que começar tudo de novo é demais para mim.

Os créditos passam na tela, o que significa que é mais tarde do que eu supunha, e que, conseqüentemente, preciso encarar a realidade, que no caso é o chuveiro, e melhorar a aparência para não assustar as criancinhas quando sair lá fora. Da última vez que me olhei no espelho, eu parecia um poodle eletrocutado. E está mais do que na hora de devolver o prato do bolo a Onigumo e Jakotsu. Talvez uma expressão bem triste faça com que eles sintam pena de mim e me tragam um novo quitute. Estou pensando talvez em biscoitos com pedaços de chocolate, macadâmia e aveia. Brownies também seriam uma boa pedida...

Meu telefone toca outra vez. Hesito, mas acabo atendendo.

- Cara?

Meu coração pára. É a minha avó.

Que nunca, jamais, telefona para alguém.

- Nonna? O quê...?

- É a sua mamma. Ela está a caminho da sua casa. Em um táxi. Mas você não recebeu nenhum telefonema meu.

Depois que a Nonna desligou, pus-me a refletir sobre a minha sorte de o Kohaku não estar morto e, conseqüentemente, o meu nome ter saído da lista de suspeitos do .Y. Pois, agora, levarão mais tempo para ligarem o meu nome ao assassinato da minha mãe. Claro, se e quando eles finalmente o fizerem, talvez Sesshoumaru volte aqui para me interrogar de novo - uma perspectiva assaz atraente, muito mais do que livrar-me da minha mãe -, só que eu não suportaria a expressão de desapontamento nos olhos dele quando descobrisse que a culpada era eu. Portanto, acho que vou poupar a minha mãe.

E por favor não me leve a sério. Eu sequer sei armar uma ratoeira.

Em todo caso, enquanto estive aqui planejando a morte da minha mãe, o tique-taque do relógio continuou. Calculo rápido quanto tempo vai demorar para um táxi chegar aqui vindo da Riverside Drive com a Rua 116 e percebo que terei que escolher entre me arrumar ou dar um jeito no apartamento, o que provoca um dilúvio de palavrões. Não que a minha mãe seja maníaca por limpeza e arrumação, acredite (antes de a Nonna vir morar conosco após a morte do meu avô, quando eu tinha dez anos, eu nem sabia que se fazia a cama), mas, quando ela entrar aqui, saberá que eu não estou de fato no controle da situação.

E agora?

Naturalmente, cada músculo meu logo se contrai, uma situação que poderia ter durado horas se a campainha da porta não tivesse tocado. Solto uma única exclamação do tipo que serve para tudo e me forço a caminhar até a porta. Não me diga que Abbe pegou o único táxi em toda Manhattan que de fato sabia para onde estava indo.

Olho pelo buraco da fechadura e quase solto um grito de alegria. Quando abro a porta, Verdi invade meus ouvidos vindo do apartamento em frente, quando Kotoko, a filha de doze anos do meu vizinho Jakotsu, sorri para mim, com suas pernas compridas, o aparelho nos dentes, o cabelo sedoso cor de mel e grandes olhos verdes. Fico tão grata por não ser a minha mãe que nem me preocupo com o meu cabelo de poodle eletrocutado ou a mancha de chocolate no pijama, exatamente entre os peitinhos, o que chama a atenção para o fato de não estar usando sutiã. Não que Jakotsu vá se importar, mas tenho minhas dúvidas se estou sendo um bom exemplo para Kotoko.

Apesar do meu pânico, retribuo o sorriso, ainda que um pouco tremido. Kotoko é minha amiga; já tomei conta dela tantas vezes que nem me lembro, desde que Jakotsu ganhou sua custódia há quatro anos, uma façanha difícil para um cara gay, mesmo nos dias de hoje. No ano passado ela começou a interessar-se por garotos, creio que mais ou menos na mesma época que o pai dela. Mas, você sabe, é sempre mais fácil conversar sobre esses assuntos com alguém que não seja da família...

Percebo que as mãos dela seguram firme um prato de biscoitos. Ah, sim, com certeza as coisas estão melhorando.

- Ficamos preocupados porque não ouvimos você sair do apartamento - diz o pai dela, aparecendo por detrás da filha.

Descendo os olhos do cabelo escuro com mechas prateadas, ondulado como o meu, vislumbro uma camiseta azul-marinho desbotada cobrindo um tronco sólido e as pernas nuas e cabeludas projetando-se de um short surrado - o uniforme de verão de um escritor freelancer que passa o dia no computador. A preocupação toma conta dos seus olhos castanhos quando ele percebe a minha aparência horripilante.

- Espero que não tenha gasto mais de dez minutos para se produzir, querida, porque, acredite, essa não é você.

Quero muito, muito voltar a atenção para os biscoitos, mas de repente me lembro do perigo em que me encontro.

- Ah, Deus. Minha mãe está vindo para cá. De táxi.

Os olhos de Jakotsu pulam de mim para o apartamento. E juro que ele fica pálido. Também já conheceu a minha mãe.

- Entendi. Vamos dar um jeito já, já.

- Ah, não, vocês não precisam...

Jakotsu me lança um olhar que não admite discussão e diz:

- Ko, vá lá em casa e pegue a caixa de sacos de lixo. E traga o Onigumo.

Saber que a cavalaria está chegando acorda-me do torpor. Volto a entrar, e mais uma vez me assusto. De onde veio tanta porcaria? Eu assino mesmo todas essas revistas? Por que tenho tantos pratos? E onde irei guardá-los?

Pego o vestido de noiva e fico ali, em pé, sem saber o que fazer com ele - não há chance de essa gracinha caber em nenhum dos meus armários, e a única porta atrás da qual eu poderia pensar em escondê-lo dá para o banheiro. Que é para onde eu preciso ir agora...

Onigumo, o namorado de Jakotsu, bonitão, entra com seu ego confiante e entusiasmado pela porta aberta e solta uma grande gargalhada. Está no estilo casual elegante - calça cargo, camisa oxford azul, gravata listrada e mocassim. E um brinco de diamante.

- Minha nossa, mulher, você estava em uma orgia de consolação ou o quê?

Pelo canto do olho, vejo Jakotsu e Kotoko voltarem. Para meu imenso alívio, ela traz os biscoitos e os coloca na bancada.

- Não sei - respondo. - Isto é, não. Quero dizer, eu não sei como ficou assim. São para mim? — concluo com um grande sorriso para Kotoko.

- A-ham - responde a menina. - Papai me ensinou a fazê-los esta manhã. Ela retira o invólucro de plástico e me entrega o prato. Onigumo tira o vestido amassado das minhas mãos, antes que eu comece a babar e o manche todo. Pego um biscoito e o observo sair pela porta levando o vestido. E um momento amargo.

- O apartamento ficou neste estado, querida - diz Jakotsu que, com certeza, pescou o fio da conversa -, porque você junta muita quinquilharia e mora em uma caixa de sapato. Ko - diz ele para a filha, atacando o canto onde a escrivaninha ficava-, a idéia não é limpar, é fazer parecer limpo.

- Quer dizer, como fazemos quando a mamãe vem nos visitar?

- Isso mesmo.

Eu fico ali mastigando, e a criança calmamente abre um armário e começa a enfurnar coisas dentro dele como uma profissional, enquanto o pai trata de arrumar, empilhar e afofar.

- Você sabe - diz ele -, um primo meu acabou de conseguir um apartamento de três quartos em Hoboken, provavelmente pela metade do que você paga por este lixo.

E o suficiente para me fazer parar de mastigar.

- Mas é em Jersey.

Jakotsu pensa por um instante.

- Boa observação.

Onigumo retorna, sem o vestido.

- O que fez com ele? - pergunto.

- Você se importa mesmo?

- Eu... na verdade, não.

Pode ser a minha imaginação, mas acho que vejo algo parecido com alivio nos seus olhos escuros. Acho que Jakotsu e Onigumo não gostavam muito de Kohaku, se bem que nunca tenham dito nada. Depois, um sorriso se abre no rosto cor de melaço de Onigumo, um conjunto de covinhas adoráveis aparece, e ele diz algo sobre esconder um vestido de noiva ser muito mais fácil do que esconder o Jakotsu quando a mãe dele aparece sem avisar. Eu pego outro biscoito, já que eles estão bem ali na mesa de centro, e começo a comentar que, se Ongumo já passou dos trinta há algum tempo e não se casou, os pais dele poderiam suspeitar de alguma coisa, quando Jakotsu se endireita e diz:

- Alô, Srta. Tagarela? Eu estou me matando de trabalhar aqui, enquanto você fica aí distribuindo conselhos sobre questões de sinceridade?

Quando vou em direção à cozinha, ele barra a minha passagem com seu braço comprido e me empurra para a porta do banheiro.

- Nós cuidamos disto. Você cuida de você. E queime essa... coisa que está usando.

Em poucos segundos, entro no chuveiro e imagino ouvir a vozinha alegre de Sango dizendo: "Agora, pense positivo, querida. Vai dar tudo certo." E, logo em seguida, a voz de Kagome: "Não precisa daquele cachorro na sua vida, garota, e você sabe disso."

Para falar a verdade, acho que elas estão certas. Tenho amigos fantásticos, água quente quando preciso, um cliente novo para ver na segunda-feira, e um xampu que acabou de ser lançado para experimentar. E a minha menstruação só vem daqui a três semanas. Eu deveria estar na minha lua-de-mel agora. O meu coração está partido. Vai curar, a vida vai continuar, porque eu sou mulher e sou forte, e homem nenhum irá me derrubar, se eu moro em uma cidade onde posso ter frango Kung-Pao entregue na minha casa 24 horas do dia, sete dias na semana.

No entanto, se eu pudesse convencer esta dor incessante no meio do meu peito a ir embora, estaria feliz.

Quando reapareço, dez minutos depois e sem um pêlo no corpo (a minha mãe acha que a depilação é uma submissão aos padrões masculinos de beleza; quanto a mim, prefiro que não me vejam como um ser que perdeu vários degraus na escada da evolução), meu apartamento voltou a ter a aparência de uma moradia de alguém razoavelmente civilizado, e Jakotsu, Onigumo e Kotoko desapareceram. Por outro lado, a caixa da Blockbuster finalmente apareceu. O que significa que o filme agora está tão atrasado que me surpreende eles não terem mandado os capangas atrás de mim. Em vista disso, pego outro biscoito (epa, parece que eles levaram alguns de volta) e penso o quanto amo este apartamentinho simples, com sua cozinha de Barbie, o pé-direito alto e os dois janelões virados para leste dando vista por cima da Segunda Avenida para o apartamento em frente ao meu.

Há cinco anos, eu o subloquei de uma estilista chamada Annie Murphy por seis meses, enquanto ela estaria em Los Angeles para trabalhar em um filme. Só que Annie ficou por lá e nunca mais voltou. E, ao longo dos anos, a sua irmã de Hoboken pegava os seus móveis - com a aprovação da dona - e eu os substituía. Atualmente, tudo que existe dentro dele é meu, em todos os sentidos, menos no contrato de aluguel.

Mas eu também teria sido feliz no subúrbio. Teria comprado um cachorro. Grande. Alguma coisa que me babasse toda.

Ah, bem.

De qualquer modo, enquanto estou pensando nisso, mordo a metade de um biscoito e abro uma das malas que arrumei para a lua-de-mel, aonde estão todas as minhas roupas. Todo tipo de roupa escorregadia, brilhante, leve - algumas novas, outras preferências antigas - cintilam para mim quando abro a tampa. Para o dia-a-dia no trabalho gosto de trajes simples e neutros: preto, bege, cinza, creme. Nada que possa distrair meus clientes - quero que eles olhem para os meus projetos, não para a projetista. Nas horas livres, gosto de roupas extravagantes. Cores quentes. Estampados chamativos. Coisas que me deixem feliz.

Limpo os farelos dos lábios com a língua e digo para mim mesma que não preciso de outro biscoito, especialmente depois do picolé Hãagen-Dazs. Visto uma calcinha vermelho-sangue nova em folha e um sutiã de renda super-reduzidos combinando, uma minissaia violeta e um top de seda turquesa. Posso ter seios pequenos, mas as minhas pernas são bonitas, até eu acho isso, especialmente nestas mules que me deixam com quase l,80m de altura. Na minha lista de objetos favoritos, sapato está no topo, logo abaixo de comida e sexo. Sendo que, às vezes, em dias como hoje, sexo cai para terceiro. Olho para os meus pés encantada. Ah, esse sapato é muito sexy.

Um par de presilhas para prender o cabelo para trás, um pouco de perfume, um brilho nos lábios...

Olho para a minha imagem e penso: Kohaku, olha o que você está perdendo.

E o interfone toca.

E eu só penso: Ai meu Deus.


obrigada pelos reviews

Meyllin: que bom que vc gostou! espero que tenha aproveitado esse cap, bjs

Kuchiki Rin: muito boa né a hitória. quando eu li eu amei esse cap tb é mt engraçado, não é? bjs