Primeira Nota da Tradutora: Essa fic não é minha – ela é da Cosmic (http : / / www . cosmicuniverse . net /), todos os créditos são dela pela fanfic original em inglês (quem quiser ler no idioma matriz dê uma chegada em ); minha única função aqui é passar para o português e difundir em sites que se dediquem a fics potterianas na mesma linguagem. A Cosmic ficaria muito, muito feliz com reviews, pessoal, então, façam o seguinte, por favor – escrevam o que acharam e mandem pra ela, OK? Quem souber falar/escrever em inglês pode mandar direto para ela; quem não souber, manda pra mim que eu repasso traduzido com muito prazer. Bjinhus, passem direto pelo disclamer chato de praxe e boa leitura!!

Disclamer: Os personagens, mundo, e idéia originais de Harry Potter não são propriedade minha ou da Cosmic – tudo pertence a J.K. Rowling, às editoras que publicam os livros em todas as linguagens e à Warner Bros. Co. Nenhuma quebra dos direitos autorais e das trademarks é intencional, e essa estória não tem nenhum fim lucrativo.


TEMPO FORA DE LUGAR


Segundo Capítulo - Uma Visão de Dor

Os dias seguintes foram passados descansando. Harry e Malfoy tinham que recuperar suas forças, para então poderem voltar para a guerra contra Voldemort. Eles descobriram que eram Curadores, o que era um tipo de continuação dos medi-bruxos. Ambos podiam curar as pessoas com seu toque.

- É algo com que você nasce, - Dumbledore dissera quando mais uma vez Malfoy se fez de idiota e não entendeu porque nem todos podiam ser Curadores. – Está dentro de vocês. Eu sei que Lílian teria sido uma ótima Curadora se tivesse vivido o suficiente para isso. – ele continuou, triste. – E acredito que é da parte de Narcissa que você ganhou o seu dom. – ele contou a Malfoy.

Dumbledore pareceu perceber que os dois garotos não eram quem eles deveriam ser, por ele não ter pensado duas vezes em responder perguntas sobre coisas que ambos normalmente estariam cansados de saber. Entretanto, ele não disse uma palavra sobre isso.

Eles também descobriram muito sobre o paradeiro de várias pessoas que conheceram em seu próprio mundo – ou seria em seu próprio tempo?

Sirius, padrinho de Harry, ainda estava em fuga pelo crime que não cometera, e continuava fazendo coisas para a Ordem. A Ordem da Fênix era o secreto, mas poderoso grupo de pessoas em quem Dumbledore confiava e reunira ao passar dos anos. Mesmo antes do retorno de Voldemort no fim do quarto ano de Harry (era quase há um ano e meio que isso acontecera, para ele), Dumbledore fora sábio o suficiente para reunir as pessoas em quem mais acreditava para lutar contra o Lord das Trevas caso ele voltasse.

Severo Snape, o Mestre de Poções de cabelo oleoso, era outro membro da Ordem. Ele tinha a Marca Negra, a tatuagem que todos os Comensais da Morte recebiam, por ele realmente ter sido um. Todavia, ele trocara de lado há quase vinte anos, de acordo com o Dumbledore daquele mundo, e agora estava agindo como espião. Esse era um dos serviços mais perigosos na Ordem, motivo pelo qual Severo freqüentemente voltar para casa ferido e quebrado depois de Voldemort aplicar nele a Maldição Cruciatus.

Eles ainda tinham que se encontrar tanto com Sirius como com Severo. Harry não estava realmente ansioso para ver seu mais odiado professor em Hogwarts, enquanto Malfoy não estava realmente ansioso para ver um criminoso em fuga – Sirius. Não importava o quão insistente Harry fora ao tentar, ele simplesmente não conseguiu fazer que Malfoy acreditasse que seu padrinho era inocente. Ao mesmo tempo, Malfoy tentara lhe explicar que o seboso professor de poções não era tão mau quanto todo mundo pensava – e Harry não quis acreditar.

Enquanto isso, Harry e Malfoy se viram atuando nos papéis de amantes. Tudo muito bem, tudo muito certo, mas nada que é bom fica desse jeito por muito tempo. Rony e Hermione ficaram provocando-os e perguntando se eles eram tímidos demais para se beijarem na frente deles, e Dumbledore falava de uma maneira dissimulada, seus olhos brilhando com malícia. Os dois tinham que lutar para manter a farsa de uma relação sadia – amorosa! – entre eles.

Contudo, havia um problema que estava sempre martelando em suas cabeças.

- Como nós vamos voltar para casa? – Malfoy perguntou com sua voz arrastada e preguiçosa, como se ele realmente não se importasse se iam voltar ou não. Harry, que estava se trocando, virou para ele.

- Eu não sei. – ele disse. – Talvez devêssemos dar com a cabeça um no outro e cair inconscientes, e quando acordarmos, vamos estar de volta.

- Eu não acho que isso vá funcionar.

- Não, Malfoy, eu estava sendo sarcástico.

- Oh.

O silêncio tomou conta do quarto de novo, e Harry continuou se vestindo. Se vestir era interessante, porque lá ele tinha que vestir roupas de cores diferentes todos os dias, diferentemente de Hogwarts, onde os alunos eram confinados ao preto. Hoje, Harry decidiu usar vestes verde-escuras que lhe lembravam às vestes de gala que usara no Baile de Inverno do quarto ano. As vestes que ele vestia hoje eram diferentes, porém, porque eram abertas na frente, seguradas pouco acima do seu peito por um broche. Por baixo ele tinha uma camisa branca de gola alta – ela escondia a tatuagem no seu peito – e calças que faziam conjunto com as vestes. Malfoy ainda não sabia sobre a tatuagem, e não havia necessidade de que soubesse. Já era embaraçoso demais como era.

Num cinto largo ao redor da sua cintura, Harry tinha alguns utensílios de necessidade básica que Rony disse que sempre levava consigo – alguns frascos com poções curativas, uma faca e, claro, sua varinha. Rony parecera se divertir quando ele questionara sobre o cinto. – Quem trocou o Harry por um alien? – ele perguntara e pusera-se a rir.

Havia também um par de botas de couro deixadas no vestíbulo, mas Harry não queria irritar Hermione por usá-las dentro de casa, então por agora ele tinha apenas meias pretas nos pés. Ele não ligava nem um pouco.

Uma coisa que gostara muito naquele lugar é que não precisava mais usar óculos. Parecia que seu problema de visão tinha sido corrigido – magicamente ou de qualquer outro modo, ele não sabia – já há algum tempo.

- Pronto? – Malfoy falou, e Harry se virou para ele enquanto tentava levantar seu cabelo num pequeno rabo-de-cavalo. Ele ainda não tinha dominado essa perícia completamente. Duvidava que algum dia seu cabelo ficasse tão legal quanto o de Malfoy, mas essa era mais uma questão de genes do que de perícia.

Malfoy estava usando o mesmo tipo de roupas que Harry – as vestes abertas, camisa por baixo, calças e cinto – mas tudo no seu conjunto era azul-claro. Ele parecia um anjo, tão belo e puro, Harry pensou – e então ele imaginou de onde infernos aquele pensamento viera.

- Sim. – Harry respondeu, e eles tomaram seu caminho para fora do quarto.

- Bom dia. – Hermione disse quando eles entraram na cozinha, no andar de baixo. – Vocês dormiram bem?

- Maravilhosamente. – Harry respondeu. Era verdade; ele dormia ali melhor do que jamais dormira antes.

- Bom. – Hermione continuou. – Rony está fora fazendo umas coisinhas pra mim, então ele já tomou café, mas eu estou fazendo torradas, ovos e bacon pra vocês. Tudo bem?

- Parece ótimo. – o moreno falou. – Algo que nós possamos fazer pra ajudar?

Da primeira vez que Harry perguntara, ele não tinha percebido quão arriscada ela era. Contudo, ele descobriu isso – e se fez totalmente de bobo por não saber onde as coisas estavam na cozinha. Agora ele tinha memorizado onde todas as coisas estavam, depois que Hermione – com uma expressão de estranheza no rosto – lhe mostrara, então agora essa era uma pergunta livre de perigos.

- Vocês podem por a mesa. – ela falou.

Harry balançou a cabeça em afirmação e fez o que lhe foi dito. Malfoy só ficou parado e o olhou trabalhar, sem mover um dedo para ajudar com seu próprio café da manhã.

- Alguma coisa errada, Draco?

Malfoy sacudiu a cabeça – Quê?

- Você parece... distante. Alguma coisa errada? – Hermione perguntou de novo. – Vocês dois não brigaram ou coisa assim, brigaram?

Não soou como se ela meramente acreditasse que eles pudessem brigar, mas a preocupação era aparente em sua voz.

- Não, não, nós não brigamos. – Malfoy replicou, ainda com o jeito vago em seu rosto. Harry o observou com curiosidade. Malfoy estava agindo estranhamente, pra dizer o mínimo.

Então tudo aconteceu rápido.

Num momento, a cozinha estava calma e quieta enquanto Harry continuava colocando os pratos na mesa, e Hermione ainda vigiava os ovos e o bacon. No segundo seguinte, Malfoy soltou um grito e caiu no chão. Harry sentiu uma dor aguda e dilacerante atravessar seu corpo, e perdeu o controle sobre os pratos em suas mãos, deixando-os cair e se partir em bilhões de pedaços. Harry caiu de joelhos sob a dor intensa, e os pedaços de porcelana cortaram suas mãos. Ele não notou. Ao invés disso, se moveu lenta e dolorosamente em direção a onde Malfoy estava largado no chão. O loiro por sua vez estava se contorcendo para todos lados, chorando e gritando.

- Pare! – ele exclamou de novo e de novo – Não faça isso... Não!

Harry continuou ajoelhado, uma mão pressionada contra sua cabeça latejante, cenas de tortura passando em frente aos seus olhos. Gente morta pendurada em cordas finas, e ele podia farejar o sangue, o medo e a morte. Criaturas sombrias moviam-se pelo recinto e Harry os ouvia rir. Seu estômago embrulhou, e ele lutou para não vomitar logo ali no chão.

Ele rastejou até Malfoy. Algo dentro dele lhe disse que ele precisava do outro garoto, e Harry seguiu o instinto. Ele não podia não segui-lo, por haver como que uma forte energia o trazendo para perto do loiro no chão.

- Não, não faça...- Malfoy continuou a falar, mas parecia mais fraco agora. – Por favor, não...

Harry estendeu sua mão e segurou o pulso de Malfoy. Ele puxou o outro garoto para si, até que ele estivesse em seus braços. O sonserino virou-se para ele, e chorou em seu peito.

- Não...- ele sussurrou, nunca deixando de se repetir.

Harry sentiu algo molhado, frio e aliviador em sua testa. Ele abriu os olhos, que não tinha percebido que fechara, para ver Hermione ali. Havia preocupação e medo em seus olhos, mas ela não disse nada. Ela apenas manteve o pano gelado na testa de Harry, e algo disse a ele que essa não era a primeira vez que algo assim acontecia.

Malfoy ainda estava com a cabeça apoiada no peito de Harry, tomando respirações fundas e tremidas. Harry não podia se forçar a afastá-lo de si; o loiro parecia precisar do conforto.

- O que você viu? – Hermione perguntou finalmente, quebrando o silêncio que tinha caído.

- Pessoas... torturadas até a morte. – Harry disse. – E sombras escuras se mexendo perto dos corpos, rindo.

- Comensais da Morte? – Hermione falou.

Harry assentiu. – Sim.

Hermione consentiu com a cabeça, se rosto grave e perdido em pensamentos; então ela se levantou, um tanto desengonçada porque sua barriga estava no caminho.

- Leve-o lá para cima e deixe-o dormir um pouco. – ela disse, fazendo menção a Malfoy. – Então ele vai poder nos dizer o que viu. Eu vou subir com café pra vocês daqui a pouco.

Harry fez o que lhe foi ordenado. Cuidadosamente ele se pôs de pé. Malfoy exclamou em protesto ao que Harry se afastou dele, e segurou seu pulso com firmeza. Harry imaginou se o outro estava consciente do que estava fazendo. Não parecia estar.

- Mal...Draco, eu preciso que você me solte. – ele disse gentilmente. Harry sentiu o aperto ferrenho no seu pulso se afrouxar só um pouquinho, e se esquivou. Malfoy choramingou como uma criança no chão, e novas lágrimas escorreram por suas bochechas ao que Harry não estava mais o tocando. "Estranha" nem começa a explicar o que Harry achava da situação. Então ele resolveu esquecer por hora, se abaixou e pegou Malfoy nos braços.

Essa era uma sensação estranha. Ele sentiu como se já tivesse feito isso antes... e não apenas uma vez, mas várias vezes antes. Malfoy parecia achar o mesmo, por ele ter apoiado a cabeça no obro de Harry, e ter se segurado em suas vestes como soubesse exatamente onde se prender.

Estranho.

Uma vez que estavam no andar de cima, Harry colocou Malfoy na cama – mas dessa vez, quando ele lhe pediu para soltar suas roupas, Malfoy não fez o que lhe foi falado. Por fim, incapaz de forçá-lo, Harry ficou junto ao loiro. Malfoy enroscou-se mais perto dele, sua respiração ainda irregular e tremendo. Suas bochechas continuavam lavadas de lágrimas, mas novas não vieram.

Harry ficou deitado, com um braço em torno de Malfoy – era o único modo dele ficar confortável com o loiro ainda agarrado às suas roupas, ele disse a si mesmo – e pensou sobre os acontecimentos da última meia hora. Ele estava acostumado com a dor na sua cicatriz e com as breves visões sobre Voldemort; isso já acontecera antes. Mas porque Malfoy sentira isso? Ele não tinha uma cicatriz, e que Harry soubesse também não tinha nenhuma outra ligação com o Lord das Trevas. Ainda assim, ele tinha que admitir que era provável – óbvio, até – que alguma coisa acontecera com o Malfoy desse mundo.

Talvez tivesse algo a ver com suas habilidades curativas?

Era possível. Harry não sabia o suficiente sobre ser um Curador para dizer com certeza. Dumbledore lhe dera uma descrição rápida do que os Curadores faziam, mas estava longe de ser um retrato completo. Harry estava nervoso só de pensar em como seria quando Malfoy e ele fossem obrigados a ir a um campo de batalha para ajudar os feridos – nenhum dos dois sabia como.

Todavia, Harry tinha feito isso uma vez – em Malfoy. No primeiro dia deles naquele mundo esquisito, Harry curara o machucado na têmpora do loiro, e poucos momentos depois ele acordara.

Houve uma batida na porta, tirando Harry dos seus pensamentos.

- Entre. – Harry disse suavemente para não acordar Malfoy. De repente ele imaginou o porquê de se importar se o sonserino acordava ou não.

Hermione entrou no quarto com uma travessa em mãos. O delicioso cheiro de ovos e bacon fez o estômago vazio de Harry gritar "Eu quero comida!". Hermione deixou a travessa na mesa ao lado da cama, para que Harry pudesse alcançar seu desjejum com a mão livre. Ele pegou uma torrada e começou a devorá-la, faminto. A moça se esticou e pegou a outra mão dele nas suas, limpando os cortes. Elas não estavam mais sangrando, mas pareciam nojentas com o sangue seco.

Ao que ela continuou com a mão dele nas suas, Hermione disse, – Vocês ficam tão perfeitos juntos.

Harry se engasgou levemente com sua comida, antes de engolir em seco e falar, - O quê?

- Vocês dois. – Hermione respondeu, fazendo menção a Malfoy e Harry. – Ficam tão perfeitos juntos.

Harry a olhou e tentou esconder a descrença que sentia. – Hm, é...

- Eu sei que fiquei chocada da primeira vez em que vocês estiveram juntos, mas foi porque... bem, era o Malfoy. E além disso, nós estávamos um tanto despreparados. Quer dizer, de repente você começou a beijá-lo, Rony desmaiou e...- ela parou e ficou quieta um momento antes de continuar. – Esse não é o ponto. – Ela sorriu, como se lembrasse de uma memória querida. – Eu vi o quão bom ele era pra você. E ademais, ele trocou de lado, então não podíamos mais acusá-lo de ser um Comensal da Morte em treinamento. Então o pai dele – ela cuspiu as duas últimas palavras – o seqüestrou, e nós vimos o quanto isso te machucou. Você não falou com a gente por dias... você estava com Dumbledore o tempo todo, e queria sair e procurar por ele. Você ficou tão raivoso quando ele não quis te deixar sair da escola... – ela sorriu tristemente para a memória. – E então nós o achamos... Surrado e deixado sem comida quase até a morte. Mas o jeito em que os olhos dele brilharam quando te viu... Eu juro, se ele tivesse morrido naquela noite; e não estou dizendo que ele não estava perto disso; ele teria morrido feliz porque você estava lá.

- E Lúcio? – Harry perguntou, contudo o Harry daquele mundo deveria saber o que tinha acontecido ao Malfoy mais velho, já que era suposto que ele estivesse lá.

- Eu pensei sobre como Draco lidaria com as notícias de que você matou o pai dele. Eu tinha vários cenários na minha cabeça, mas choro definitivamente não era um deles. Eu achei que ele ficaria fulo, ou talvez pudesse voltar a ser frio conosco como sempre foi, mas eu não imaginei mesmo que ele fosse chorar. Ainda assim, ele chorou. Eu acho que foi nessa hora que eu percebi que ele era humano de verdade, e que ele realmente te ama.

Ela silenciou sua voz, e o olhar de Harry se desviou de Hermione para permanecer em Malfoy.

- Então, é, vocês são perfeitos juntos. – Hermione afirmou com outro pequeno sorriso. Uma de suas mãos estava pousada na perna de Harry, a outra, no topo de sua barriga grávida.

- Você e Rony também são perfeitos, Mione. - Harry disse – E vão ter um filho maravilhoso.

Alguma expressão esquisita esvoaçou pelo rosto de Hermione por um momento, mas tinha sumido antes que ele tivesse tempo de dizer o que era. Então ela sorriu para ele. – Eu vou deixar vocês dois sozinhos agora. Não esqueça de lhe dar alguma coisa pra comer quando ele acordar também.

- Promessa. – Harry disse, enquanto pegava um prato de ovos com bacon. Ele o colocou ao seu lado na cama, e começou a dar algum jeito complicado de comer ovos e bacon com uma mão só, deitado numa cama. Foi um milagre ele não ter feito uma bagunça completa. Hermione se levantou e saiu, deixando Harry sozinho com Malfoy mais uma vez.

Ele não sabia por quanto tempo continuara lá, deitado com Malfoy, antes que esse começasse a se mexer, mas foi por algumas horas, pelo sol brilhando mais alto que a extensão da janela. Malfoy, ainda enroscado perto de Harry, gemeu e levantou a cabeça.

- 'Dia. – Harry disse com um sorriso.

Malfoy praticamente voou para fora da cama. – O que você fez comigo, Potter?! – ele berrou acusadoramente, cambaleando para trás quando se deu conta de que suas pernas não o sustentavam.

Harry se pôs de pé e aproximou-se de Malfoy. O loiro estava apoiado na mesa, tentando focar a visão de novo. Ele piscou rapidamente, e Harry ficou preocupado de que ele pudesse desmaiar. Ele não o fez, para o alívio de Harry. O grifinório não queria ter que lidar com um Malfoy inconsciente outra vez.

- Quer se sentar, talvez? – Harry perguntou, oferecendo sua mão. Malfoy não aceitou a mão estendida, mas fez seu caminho de volta para a cama, onde se sentou pesadamente.

- O que você fez comigo, Potter? – ele perguntou de novo, mas dessa vez num tom mais baixo.

- Eu não fiz nada com você, Malfoy. De repente você estava caído no chão da cozinha, chorando e gritando como um bebê pra alguma coisa parar. Eu te segurei – Harry decidiu não dizer a Malfoy o quão perto ele o segurara.- e você não me largou desde então.

- Você deve ter me azarado! Você ou aquela Granger! Eu não devia nunca...-

- Você devia, seu infeliz. – Harry cortou. – Você estava no chão, chorando como se sentisse dor, e levou quase meia hora até você se acalmar e dormir. Agora, o mais importe não é o fato de que você estava dormindo me usando como travesseiro – Malfoy o encarou -, mas apenas saber porque você caiu, implorando pra alguma coisa parar. Então, se lembra de alguma coisa?

Malfoy continuou encarando-o, mas Harry manteve o olhar, e venceu a batalha em menos de um minuto. Os olhos do loiro baixaram, e ele lamuriou alguma coisa.

- O que você disse? – Harry perguntou, gentil.

- Eu disse que vi sangue!! – Malfoy berrou, e Harry pôde dizer que ele estava à beira de perder o controle de novo. – Sangue e morte... Trouxas, pendurados em cordas nas paredes... Figuras... Comensais da Morte... movendo-se ao redor do lugar, rindo dos corpos. Ainda havia um vivo, ele implorou por misericórdia, ele implorou pelos outros...mas eles não iriam conceder isso... Eles o amaldiçoaram, e ele ficou tão chocado quando sentiu isso pela primeira vez. Então eles o cortaram com facas; eles queriam ouvi-lo gritar, mas ele não iria fazer isso. Eu pude ver ele mordendo sua língua para não lhes dar o que eles queriam... E aí eles já tinham se divertido o bastante... Mas eles não usariam apenas a maldição da morte; acharam que era muito fácil. Então continuaram cortando-o, e o azararam com a Maldição Cruciatus... Tinha tanto sangue... E eles abriram o peito dele, enquanto ainda estava vivo. O mantiveram consciente com mágica, tinha que ser mágica, porque nenhum trouxa teria resistido àquilo... Cortaram o coração dele fora... E ele viu bater uma última vez...

Malfoy levou a mão à boca, e correu para o banheiro. Harry pôde ouvi-lo enjoar, e o seguiu. Malfoy estava de joelhos frente ao vaso sanitário, chorando e tentando limpar lágrimas e vômito do seu rosto.

- Eu não podia fazer nada... Eu não podia fazê-los parar...- ele choramingou, caindo e rolando para o seu lado.

Harry sentou-se no chão em silêncio. Sem uma palavra, ele puxou a cabeça de Malfoy até o seu colo e passou um braço em volta dele enquanto ele continuava a chorar, vivendo a visão mais uma vez. Nenhum dos dois disse nada durante muitos minutos, até as lágrimas pararem de escorrer pelo rosto de Malfoy.

- Eu tive a visão também. – Harry contou. – Mas não foi detalhada como a sua. Eu senti a agonia; pude cheirar o sangue e a morte. Eu vi os corpos...

Ele se calou novamente; não podia pensar em nada que pudesse ajudar a melhorar o estado de Malfoy.

- E se meu pai era um deles?

A pergunta era inesperada, para dizer o mínimo. – O quê?

Malfoy olhou para cima do colo de Harry – dessa vez ele parecia não se importar ou ligar que estava onde estava – e repetiu o que dissera.

Harry suspirou – Ele não era. – ele falou, e não sabia se devia parecer triste ou feliz ao dizer isso a Malfoy. Ele tentou dizer num tom que esperava que soasse neutro.

- Como você sabe?

Harry tomou uma respiração profunda. – Porque ele está morto.

Malfoy se sentou de um só movimento. – Ele está o quê?

Harry olhou para as próprias mãos, vendo-as mas sem enxergá-las, na realidade. – Nesse lugar, seu pai está morto. Ele morreu porque eu o matei. Ou o Harry Potter desse lugar, o que o valha.

Malfoy abriu a boca como se fosse falar alguma coisa, contudo fechou-a de novo. Emoções passaram pelo seu rosto tão rapidamente que Harry não teve nem chance de interpretá-las, antes que o loiro vestisse uma máscara de indiferença.

- Eu sinto muito, Malfoy. – Harry disse.

Malfoy o mirou. Seus olhos prateados pareciam vazios, desprovidos de qualquer emoção. – Você sente muito, Potter? Você sente muito por ter matado meu pai? – Ele fez uma pausa, e Harry esperou que o que viesse em seguida fosse um sonserino furioso. O que veio, entretanto, o surpreendeu até o último fio de cabelo. – Eu não sinto muito.

- Hã? – Harry perguntou, imaginando se tinha ouvido direito.

- Eu. Não. Sinto. Muito. – Malfoy soletrou para ele – Meu progenitor nunca foi meu pai. Eu sou; era; seu servo, seu herdeiro, mas nunca fui seu filho. Eu te disse, se algum dia ele descobrisse que eu não ia me juntar a Voldemort, ele me mataria.

Harry abriu sua boca, fechou, abriu pra dizer algo mais e depois fechou de novo. Sua mente reprisou a conversa com Hermione, e ele percebeu que com certeza Lúcio tinha descoberto, e seqüestrara seu próprio filho. Ele sabia que Malfoy estava certo sobre seu pai, a assim sendo, ele não conseguia achar nada nem remotamente inteligente para dizer em resposta ao loiro.

- Você parece um linguado quando faz isso, Potter. – Malfoy comentou.

Harry o encarou. – Eu gosto de linguado.

- Eu gosto de espaguete, isso não significa que eu queira parecer com um prato de macarrão.

Harry ficou de pé abruptamente. – Nós provavelmente devíamos descer. Mione queria que você comesse alguma coisa, mas eu duvido que a comida que ela me deu ainda esteja quente.

Ele deixou o banheiro sem dar a Malfoy uma chance de falar. Entrou no quarto e pegou a travessa de comida na mesa de cabeceira. Ele escutou Malfoy se limpar no banheiro, e já estava alcançando a porta quando ouviu:

- Potter?

Harry parou com um suspiro. – Sim, Malfoy?

- Obrigado por... bem, você sabe.

Malfoy lhe deu um pequeno sorriso e deixou o quarto à sua frente. O Garoto-Que-Sobreviveu foi deixado para trás, observando o loiro.