II


"Tu és eternamente responsável pela Cannabis que Sativas" - Richards, Keith


Milo quase corria, dividido entre a indignação extrema decorrente de sua descoberta e a apreensão quase que em igual tamanho.

Sim – Dentro de um até certo ponto inocente maço de Marlboro Light - a propósito, quem diabos fuma Marlboro Light - estavam cinco cigarros caseiros de papel de seda, caprichosamente enroladinhos, contendo o que parecia ser, com toda a certeza, a mais pura Cannabis sativa.

Baseados de maconha em solo sagrado do Sagrado Santuário de Atena.

Passou zunindo na direção das escadarias dos Templos Dourados, pois tinha que chegar em sua Casa para analisar melhor o que tinha em mãos. Foi interrompido, porém, quando sentiu uma mão o puxando pelo ombro.

Não conteve o reflexo de liberar-se usando seu braço direito e quase atingindo seu captor com um safanão muito do bem dado; mas sentiu seu punho capturado pelas mãos firmes e de reflexos rápidos de outro Cavaleiro de Ouro.

- Credo, que é isso? Acordou com a macaca, foi?

- Camus. – Milo a duras penas acalmava sua respiração.

- Sim, Camus, cavaleiro de Aquário, e segundo dizem por aí um dos seus melhores amigos. – O ruivo rolou os olhos. – Que quase que leva uma patada sua neste exato momento, aliás.

- Você que quase me mata de susto, isso sim. – Milo tentou puxar o punho ainda nas mãos do francês, mas se viu impedido.

Camus, agora, olhava fixamente para o maço de cigarros em sua mão direita – a mesma que, maldita a hora, usara para quase atingir o amigo em um arco reflexo.

- Marlboro Light? – O francês ladeou a cabeça. – Nem sabia que você tinha começado a fumar, mas tinha que começar com Marlboro Light?

- Solta meu braço, Camus.

A resposta de Aquário foi torcer levemente seu punho com os dedos finos, porém muito mais fortes do que aparentavam. Milo franziu o rosto numa careta de dor, e não conseguiu impedir Camus de tirar o maço de sua mão.

- Camus, solta isso! – Milo deu um pulo ao ver que o amigo fazia menção de olhar dentro do maço. – Camus, isso é uma evidência de...

- Ooooh – O francês arregalou os olhos.

- Camus, me devolve isso, eu estou falando sério!

- Ooo-oooo-oooh – Agora Camus abafava suas risadas. – Quem diria, hein, Milô?

- É claro que isso não é meu! – Milo sentiu o rosto arder. – Você acha que eu sou do tipo que anda por aí com um monte de mac-

- Shhhhhhhh, connard! – Camus o interrompeu com um safanão, empurrando-lhe o maço de volta. – Gritando desse jeito, você vai acabar se explicando pra polícia e não pra mim! Quer parar na delegacia, quer?

- Pois até que seria uma boa ideia! – Milo esticou o indicador. - Afinal essa porcaria é a evidência de um crime!

- Você vai chegar na polícia dizendo o quê? "Oooh, senhor Delegado, esses cinco baseados estão em minha posse, mas evidentemente não são meus!" – Camus rolou os olhos. – Perfeito, Milo, nunca dantes na história da delegacia de Rodorio alguém usou essa desculpa.

- ...Eu sou o Corregedor das Tropas do Santuário! A polícia não vai acreditar em mim?...

- Num rapaz de vinte e poucos anos, cabelo comprido repicado com franjinha e com cinco baseados socados junto com um isqueiro num maço de Marlboro Light?

- ...Tem razão. – Milo baixou os olhos e o indicador em riste.

- O que me leva à minha segunda pergunta: O que pretende fazer com eles?

- O que você acha que eu vou fazer, Camus?

- Guardar pra gente usar depois?

- Óbvio que não, francês doido. – Milo bufou diante do risinho sardônico do outro. – Eu sou o Corregedor, e isso continua sendo a evidência de um delito que precisa ser punido. Assim sendo, vou investigar de onde isso veio.

O sorriso morreu nos lábios de Aquário.

OOO

Máscara da Morte sabia que não era exatamente o tipo de pessoa que se importava com o bem-estar alheio.

Tá, ele é um Cavaleiro de Atena e a definição de altruísmo certamente se encaixaria na essência de sua profissão, mas isso não quer dizer que ele realmente compactue com esse tipo de ideia. Assim sendo, não entendia por que estava ali tentando demover ninguém menos que Kanon de Gêmeos e Dragão Marinho, informalmente conhecido como General de Pilantra do Norte, de uma das piores ideias que já vira alguém ter.

- Cara, esquece essa parada... – O italiano suspirava, olhando o mais velho andar de um lado para o outro maquinando um jeito de recuperar seu precioso pertence. – Capaz até que, a uma altura dessas, já tenha ido tudo descarga abaixo.

- Deixa de ser trouxa. – Retrucou Kanon, fumegando de raiva. – Até parece que o Milo ia se desfazer desse tipo de evidência do mau comportamento de alguém. Se eu bem conheço, o maço deve estar lá, bonitinho, enquanto ele fica uma arara tentando descobrir quem neste mundo teria tamanha audácia.

- Por isso mesmo, Kanon. Se ele tá com o negócio na mão, deixa os bagulhos lá com ele. Ele vai rodar, rodar e rodar, vai ter um ataque de raiva e não vai dar em nada. Aí todo mundo sai de boa, e...

- Carcamano, cê não tá entendendo. – O mais velho interrompeu sua nervosa caminhada e se voltou para ele. – O Milo tá com meus negócios na mão. Que me deram um puta trabalho pra eu arrumar, diga-se de passagem.

- Sim, certo. Mas cara, agora eles tão com o Milo, perdeu!

- Como que perdeu, cê tá é doido. – Kanon voltou a andar de um lado para o outro.

- Kanon, cara, esquece esse maço e esquece o Milo, cê tem que aprender a exercitar sua resiliência!

- Ora diabo de resiliência! Ninguém aqui tem mais 'resiliência' do que eu, eu sou praticamente o Rei da Resiliência desta porra toda! – Kanon esbravejou, dedo em riste. - E porque eu sou resiliente pra cacete eu vou lá e vou pegar meu negócio de volta. Ah, se vou!

- Aí o quê, o Milo te pega e você se estrepa todo?

- Máscara da Morte de Câncer...– Kanon bufou. – Se você acha que eu vou deixar um tipinho como Milo de Escorpião me pegar, certamente você não me conhece.

Evidentemente não conhecia, pensou o italiano. Mas conhecia Saga de Gêmeos, até melhor do que gostaria. E o tempo de convivência de Máscara da Morte com o irmão do dito 'resiliente' à sua frente já o tinha ensinado a duras penas que o melhor em casos como aquele era não contrariar.

OOO

- Milo, eu acho que você devia esquecer isso...

- Isso está fora de cogitação, Camus. – Milo continuava andando pelas imediações da área externa do campo de treinamento das amazonas (e saintias), maço guardado no bolso enquanto ele seguia procurando pistas. – E você falando na minha orelha só está atrapalhando minha concentração.

Camus bufou discretamente, soprando a franja para longe de seus olhos.

- ...Isso entrou no solo sagrado de Atena através de alguém. Que comprou de alguém. E pela lei ambos podem pegar cana.

- Certo. A propósito, onde você achou isso? Isso não é o tipo de coisa que cai do céu.

- Perto das arquibancadas da arena de treinos das amazonas e saintias. – Milo disse, e imediatamente se pôs a matutar. – Mas com certeza não vou encontrar mais evidências por lá. Isso veio de fora, lógico, mas como e através de quem?

- Milo, pelo amor dos deuses do Olimpo, você só pode estar querendo acabar preso! Joga essas merdes fora e esquece isso enquanto é tempo!

- Camus, eu não virei corregedor ontem. Acha mesmo que eu não sei investigar o que se passa no Santuário?

- Você quer uma mentira agradável ou uma resposta sincera?

- O que é que você está sugerindo?

- Milo, tenha dó. Isso – Apontou para o famigerado maço. – são cinco baseados cuja origem você não tem a mais remota ideia. Como você disse, você achou um maço de cigarros caído no chão, perto da arena de treinos das amazonas.

- E saintias.

- Sim, claro. As saintias do teu fã-clube.

- Ah, não. Você também vai ficar insistindo nessa história de que as meninas ficam me-

- Foco, Milo, foco! Sim? Então voltando ao meu ponto: Você achou esse bagulho jogado num canto onde quase todo mundo do Santuário transita. Inclusive você, que vai lá toda santa tarde dar uma carimbada no poste do teu clubinho.

- Camus-

- Eu não terminei, connard.

- Então resume, francês!

- Beleza: Se você for atrás dessa história, sabe o que vai acontecer? É você quem vai acabar indo em cana porque é com você que o bagulho está. Cinco aninhos de xilindró por porte de uma droga que nem sua é, já pensou?

- Camus, é meu dever. Eu não posso simplesmente olhar pro lado e fingir que não é comigo. E olha que eu já tolerei muita coisa nesse Santuário. Fiz muita vista grossa. Mas isso? Drogas no Santuário? Não dá para deixar passar essa...

O cavaleiro de Aquário derreou a cabeça para trás.

- A propósito, por que a sua insistência em querer me desviar do foco da investigação?

- Hã?

- Você me ouviu, Camus. - Milo apertou os olhos azuis.

- ...Você está me investigando, Escorpião? - A voz de Camus se tornou ameaçadoramente pausada.

- Eu tenho que pensar em todas as possibilidades, - Milo devolveu no mesmo tom. - Aquário.

- Pois muito bem, Milô. Avisado você foi. Só depois não invente usar seu telefonema comigo quando estiver na delegacia, porque eu não vou gastar meu precioso tempo tentando te arrancar do xilindró.

- Ei, Camus, espere aí. Não leva pro pessoal, também. Eu não tenho como negar que você está interessado demais em me fazer desist-

- Milo de Escorpião... - A voz baixa, rouca e irritadíssima de Shina de Cobra interrompeu sua fala. - Mas será possível que você ainda está por aqui?

- Guarda essa merda. - Camus soltou um sussurro quase imperceptível. - Guarda. Essa. Merda.

OOO