Oi,

Finalmente digitando o capítulo que está pronto há tantos meses no meu caderno de preparar aulas.

Nesse capítulo tento restabelecer o primeiro contato entre Fëanor e as cinco musas na Terra Média, Melpômene acompanha o caçador de Balrogs, Glorfindel, Clio em uma longa entrevista com Manwë.

Minhas intenções continuam a mesma criar um elo entre dois mundos que são opostos: um caprichoso e voluntarioso e o outro, guerreiro, lutador e marcado pelos primeiros anos da maldade de Melkor e Sauron.

Agradeço as reviews e também aqueles que leem, mas não conseguem deixar seu comentário.

Capítulo 4: Canção de Arda

Calíope admirou o elfo a sua frente, ela pouco sabia sobre eles, diferente de sua irmã, Clio, mas a musa que ela era pressentia a força e a energia daquela vida.

Uma paixão incontrolável, bem como uma autoconfiança invejável. Aquele ser não poderia ou admitiria ser manipulado.

- Milorde, sou Calíope, musa de terras distantes.

O elfo assimilou a informação de forma diversa de um mortal, Fëanor sustentou o olhar e a musa altiva viu-se cativa. Sim, ele não toleraria ser manipulado, usado ou tido como objeto de diversão. Seu olhar era profundo e instigador, leitor de almas seja mortais ou imortais.

A descrição dos livros de Clio, apesar de descritivas e líricas capturavam apenas um vislumbre da essência do elfo. Ele era soberbo, intenso e orgulhoso. E a despeito de qualquer aviso, Calíope marcou-o para si, aquele elfo estava a sua altura. Grandioso como um rei e confiante como um deus do Olimpo, com uma característica que a encantou, desconhecida mesmo entre os deuses: a nobreza.

-Musa? Desconheço a palavra, mas acredito na honestidade da sua voz. – o elfo sorriu – por um momento, um singular momento revi em minha mente o brilho das Duas Árvores e o canto do meu povo, antes da imprudência e da desconfiança destruírem a sua beleza.

Calíope silenciou-se ao ouvir a voz grave e ao mesmo tempo calorosa do noldor, sua descrição construiu imagens em sua mente. Ela estava habituada com deuses e homens caprichosos, muito falava e poucas vezes tinha algo para dizer. E o noldor dizia pouco, contudo, sua paixão em cada palavra podia ser sentida na imaginação e na pele.

Ela levou um tempo para perceber que ele não diria mais nada e viu-se desconcertada. Era primeira que isso acontecia.

- Eu e minhas irmãs precisamos de um local para ficar. – Calíope cogitou explicar o que significa ser uma musa, mas a altivez do elfo a interrompeu. Ela não queria se exibir ou se impor como tantas vezes fizera no passado, algo dentro de si diante de Fëanor exigiu que recuperasse sua posição. Ele teria que senti-la enquanto musa, sentir sua influência. E essa meta tornou-se mais importante do que utilizar dos artifícios que tanto gostava.

Fëanor refletiu alguns segundos, segundos que para as cinco musas semelharam-se a eternidade. A reverência de Clio ao elfos se justificava a cada instante.

Aos olhos de Fëanor, as moças eram intrigantes, não eram humanas, com certeza, mas havia características similares, algo irreverente e irresponsável. Fëanor sempre soube reconhecer as armadilhas do inimigo, mas a irresponsabilidade que tanto desprezou nos humanos, nas musas era suave e intoxicante como uma brisa suave, um bálsamo em vistas das dores que sua alma compartilhava com seus filhos.

Tempos atrás, ele e seus filhos chegaram àquela terra, Araman ficou para trás e eles estavam na Terra Média. Nunca ouviu uma queixa de seus filhos, mas sabia o peso que cada um deles carregava. E ele também conhecia o peso de suas atitudes.

Fëanor pressionou o maxilar.

Suas atitudes foram necessárias, convenceu-se mais uma vez, apesar do incêndio dos navios ao deixar Araman, não abandonasse seus pesadelos, mas o noldor que ele era conhecia o preço das atitudes e ele estava disposta a pagar por elas.

- Meus filhos partiram para suas próprias vidas, mas suas casas estão livres para hospedagem. Serão minhas hóspedes e nenhum malefício irá toca-las, enquanto estiveram sob minha proteção.

Palavras de um rei – comparou Calíope, cada vez mais fascinada, quando foi a última vez que conhecera alguém assim? Tália tinha razão, há milênios a Terra não produzia seres daquela estirpe. Sim, a última vez foi durante a formação da Magna Grécia. O nome dele, como era mesmo? Brincou, Calíope com sua memória perfeita. Heitor de Tróia. Sim, a distinção e espectro da tragédia também marcou troiano. E como Fëanor, ele era irreparavelmente leal aos seus e sua esposa.

O que só fazia do fruto proibido ser ainda mais tentador. Observar a paixão e a vontade desses seres grandiosos.

- Seus filhos não irão se importar?

- Não existe honra maior do que oferecer hospedagem – clamou Fëanor oferecendo seu braço a mais velha das musas e a guiou até a residência do seu primogênito, Maedhros.

As musas acompanhavam cada detalhe da paisagem, cada inspiração no solo.

Terra-Média

Um ambiente intoxicante para os sentidos, as musas se alimentaram daquele aroma como do mais doce hidro mel.

Batalhas, canções e danças, poemas e amores germinavam naquela terra. Erato curvou-se delicadamente e tocou a campina verdejante, as histórias de amor que nasceriam, encontros e desencontros. E um amor que a fez corar devido a sua paixão e intensidade, mesclada a imensa compaixão e clemência que despertaria em seus súditos.

Concentrou mente, coração e alma abençoando aquela paixão inspiradora, eles eram um só e ao mesmo distintos, como constelações de estrelas, referência para aqueles que caminham sobre a terra e navegam o mar, perdidos em busca de uma luz. Eles seriam assim. E aquela terra festejava ansiosa pois sabia dos anos que aquela história tardaria a desenrolar aos olhos humanos, e inacreditavelmente, um conto já iniciado em seus ancestrais.

Tranquila, Erato retirou suas sandálias, ela precisava sentir o contato com a terra e sentir o impacto e a ansiedade da terra. A terra que aguardava a história do homem que seria rei.

Mas o tempo era senhor da razão e nada acontecia antes da sua hora, por mais irritante que fosse. A terra dos mortais possuía uma força caótica, desesperada e intensa de uma espécie que busca sua divindade e ignora quando a encontra na simplicidade. Na Terra Média reinava a harmonia, mesmo na dor, a harmonia estava presente.

O altivo elfo também abria os seus olhos para aquela realidade, Fëanor passou tanto tempo concentrado na dor e na amargura da traição que não se permitiu a beleza da Terra-Média.

Sob a influência das musas, o coração de Fëanor acolheu a promessa da alegria e conquistas da Terra-Média. O noldor sorriu, um daqueles sorrisos inocentes, ele se surpreendeu, não sabia que ainda tinha a capacidade de um sorriso dentro de si...

Esperança...

Discreta, suave, florescendo ganhando espaço dentro dele.

E o vento da memória o atingiu implacável, Nerdanel, a imagem da sua beleza retornou, bem como a sua amizade com seu sogro, Mahtan, foram anos felizes, resplandecentes, quando a chama que existia em si, clamava apenas para cultuar a vida e o amor que sentia.

E essa alegria voltou a trazer a leveza para o seu coração. A exuberância do seu afeto passou a correr como fogo pelas suas veias, mas dessa vez o fogo era brando, acolhedor, como o abraço de uma mãe.

Mãe. Míriel.

Sim, sua mãe, e desta vez a lembrança não trouxe dor, apenas amor. Fëanor lançou um olhar enigmático para a musa em seus braços. O sorriso dela estava cheio de insinuações e não escondia as armadilhas que lhe preparava.

Fëanor criava sua própria definição da palavra musa.

As construções de seus filhos formavam um equilíbrio com a natureza. E o estilo da personalidade de cada um estava representado de alguma forma em usa própria residências. Ele viu a musa ruiva dançar ao entrar na casa de seu filho Maglor, como se a música do filho estivesse presente.

Duas irmãs, Euterpe e Erato acomodaram-se na casa de Maedhros. Com discrição elas agradeceram e Fëanor encaminhou Terpíscore e Calíope a próxima casa.

Ao vê-lo fechar a porta, Euterpe comentou com sua irmã.

- Você sentiu?

- Sim, a casa exala a essência do morador, uma alma envolta na tragédia ainda mais do que o próprio pai. Meu coração quase se partiu quando entrei aqui. Tália dançou na casa de Maglor, mas o lamento também era sentido. Independente de nossa vingança, acredito que viemos até aqui por outro motivo, eu vou fazer o possível. Sei que devíamos nos divertir e Calíope anseia por vingança, mas esse local, bem, eu gostei dele.

Erato concordou com sua irmã, também gostou de Fëanor, e a vingança mesclada a diversão as trouxera para aquele mundo, contudo como elas poderiam saber a força que encontrariam?

- Calíope está caída por ele. Você reparou? Como diz os mortais, acho que esse remendo ficará pior que o soneto! Esquecemos do principal: quando nós apaixonamos pelos seres mortais ou imortais, a nossa essência passa a influenciar o ambiente. Sentiu como ele ficou diferente ao dar o braço para nossa irmã?

Euterpe soltou uma risadinha.

- Por favor, quem não o amaria? Aquela paixão que o alimenta consome a imaginação até mesmo de uma musa! E ele é belo, não acha?

Erato olhou com um ar melancólico. - quantas paixões já inspirei, Euterpe?

A irmã lançou os braços para cima. - exatamente, o coração de Fëanor é tomado pela chama da paixão e do remorso, não quero feri-lo ainda mais, ele anda como alguém que já caminhou no Olimpo e decidiu abandoná-lo por conta própria, seremos cautelosas, a nossa diversão deve respeitar os nossos anfitriões, trazer fortuna e paz pelo tempo que nos for permitido. E quem sabe fazer o nosso trabalho... Inspirar... Isso sim seria realmente divertido.

Polímnia observou suas irmãs Calíope e Terpsícore disputando a atenção de Fëanor, contudo o que mais chamava sua atenção era a própria Terra-Média. Uma inspiração vibrante, toda a terra era uma canção, isso mesmo, uma canção de reverência ao Criador.

Ela, inspiração de tantas obras clássicas, podia sentir no próprio ar o sopro de vida da criação. A Terra Média soava como uma partitura de Beethoven, inexpugnável e violenta. Como na nona sinfonia, paixão somada a reverência, mas havida dentro daquela música um toque de dor, como se no momento de sua criação uma outra canção fora entoada. Uma canção que ambicionava a guerra e o poder, a destruição e os corações partidos, um riso que satisfazia-se com a desgraça. Um desejo que só se sentia pleno com espasmos de decadência e aniquilação.

E no entanto, a reverência da canção era forte e lutava contra aquela decadência quase sedutora graças a sua paixão, Polímnia preocupou-se com suas irmãs, Melpômene e Clio perdidas naquele mundo onde as conhecidas paixões humanas tinham suas próprias regras, era como ser personagem de uma história cuja as regras elas desconheciam, crianças abandonado a caverna como Platão ensinou aos helenos e apenas agora percebia o grau da irresponsabilidade da vã vingança de suas irmãs. Quem poderia deter aquela força que ela pressentia. Elas foram em busca de divertimento, mas a Terra-Média tinha os seus próprios segredos, elas seriam musas, deusas ou fantoches nas mãos daquela canção complexa que mesclava vida e morte, desejo, paixão e arroubo? Quem poderia garantir que elas sobreviveriam ao intenso ardor daquela terra.

Suas irmãs estavam cativas da atenção do elfo e esse fato era apenas uma amostra do que a Terra-Média podia fazer com elas.

Elas inspiravam a arte, a música, a sedução, mas também eram vítimas de sua própria inspiração. Não fora a paixão insatisfeita que as trouxera até ali? Que certeza elas tinham se não trilharam um caminho que poderia se fechar em sua própria prisão?

Além de Fëanor, quem mais poderia surgir em nos caminhos de suas irmãs, pois elas também eram vulneráveis, vulneráveis aos desejos de encontrar atenção após séculos de esquecimento. Que notas musicais haveriam na Canção de Arda que narravam o destino das Nove Irmãs? Polímnia percebeu que elas descobriam e só podia torcer para os elfos serem os únicos que encontrariam no seu caminho e de suas irmãs.