Back At Your Door


Capítulo II –

'Construindo um mistério'


Aquele dia ia ser horrível, Draco tinha certeza. Primeiro ele acordara muito atrasado, não tivera nem tempo de se arrumar propriamente e descera correndo as escadarias da Mansão Malfoy, apenas para encontrar seus pais sentados na mesa já posta para o desjejum.

Lucius lançou-lhe um olhar reprovador por causa de sua gravata torta, enquanto Draco ainda trabalhava em arrumar a franja bagunçada. Mais uma vez ele amaldiçoou-se por ainda morar com os pais. Mas com o salário que ganhava ele não conseguiria comprar uma casa a sua altura, então preferia continuar sem uma.

- Não vai tomar café, querido? – Narcissa perguntou ao ver Draco pegar uma maçã e colocar dentro de sua bolsa.

- Não, mãe, obrigado. Já estou indo para o trabalho. – Ele enfiou algumas uvas na boca e foi até a lareira que havia naquele cômodo mesmo, pegando um punhado de Pó de Flu e se lançando nas chamas esverdeadas.

Ao sair aos tropeços da lareira do Ministério, Draco lembrou-se porque odiava tanto aquele transporte. Seu cabelo estava bagunçado novamente e agora cinzas se espalhavam por suas roupas. Murmurou um feitiço de limpeza e, por mais que odiasse arrumar seus cabelos com magia, naquele momento era o único jeito. Estava com a varinha apontada para a própria testa quando reconheceu o grupo de Aurores se dirigindo para o local onde poderiam aparatar.

Esquecendo-se do próprio cabelo, Draco andou o mais rápido que conseguia sem parecer que estivesse correndo.

- Aí está você, Malfoy. – Potter, que estava na frente de todos os Aurores, disse assim que Draco alcançou-os. Os lábios do moreno lutaram contra um sorriso quando ele notou a bagunça das mechas loiras. – Não se atrase da próxima vez.

Um tanto emburrado, Draco concordou, arrumando seu cabelo. De novo tinha se feito de idiota na frente de Potter. Mas que droga.

Assim que localizou Smith, Draco se aproximou deste. Zacharias lhe olhou como se fosse algo inferior.

- Chegando atrasado, Malfoy?Estamos numa missão, não devia agir com tanto descaso. – Disse como se estivesse falando com uma criança particularmente burra. Draco trincou os dentes.

- Me poupe de seu sermão, Smith. – Ele disse, sem disposição nem para pensar em algo ofensivo. – E então, com que bairro ficamos?Você se provou útil e pesquisou alguma coisa?

Draco estava, na verdade, esperançoso de que Smith tivesse se dado ao trabalho de pesquisar, porque ele próprio não tinha feito nada daquilo. Assim que chegou a sua casa tudo o que fizera foi tomar um banho relaxante e se jogar na cama, exausto, para ainda acordar atrasado no outro dia.

O outro loiro fez uma cara de desagrado.

– Você pode achar que sou muito idiota, mas eu não sou não, Malfoy. Ficamos com South Kensington ¹. Nosso objetivo é encontrar alguma casa suspeita.

Draco bufou. – Claro, como se os ex-Comensais fossem colocar uma faixa brilhante na porta da frente "Estamos aqui, Aurores!". Ou quem sabe entre as mansões de trouxas riquinhos tenha um castelo negro com uma enorme bandeira onde está escrito "QG dos Malvados" embaixo de um desenho da Marca Negra.

Smith pareceu enfezar-se ainda mais, e Draco teve finalmente alguma alegria em seu dia moribundo.

- Não é assim, Malfoy. Harry Potter já nos explicou o plano. Nós temos que tentar rastrear algum traço de magia sendo executada por ali.

- Como se só nós dois conseguíssemos cobrir South Kensington inteira. – Tirando que Comensais da Morte não deixam traços de magia, Draco pensou, mas decidiu não falar nada para não ser novamente acusado por causa de seu passado.

- Terão mais Aurores na área. E achamos que Inomináveis também estão trabalhando no caso.

Draco rolou os olhos, desistindo de continuar argumentando com alguém tão irritantemente otimista. Os Inomináveis trabalhavam do jeito deles e não gostavam de Aurores. Era bem capaz que eles dificultassem as coisas.

Chegando ao local de aparatação, cada Auror foi para sua região. Draco combinou com Smith de se separem e se encontrarem num pub meio desconhecido, freqüentado também por bruxos. Enquanto Zacharias foi para a rua, Draco ficou para ver se conseguia alguma informação.

Duas horas depois, tudo o que Draco conseguira fora perder dinheiro pagando bebida para os outros numa tentativa de fazê-los falar. A maioria não sabia de nada, e os que pareciam saber de alguma coisa estavam mais calados que um túmulo.

Ele então se sentou no balcão e pediu um copo de água para a garçonete. Ela lhe olhou com pena e certa curiosidade. Draco fingiu que não notou o interesse dela, apenas bebendo sua água e pagando por ela antes de sair do pub.

Rodou as ruas por um longo tempo, murmurando discretamente feitiços rastreadores, por mais que soubesse que era em vão. Não deu em nada, como já havia previsto. Apenas encontrou Smith.

- E então, descobriu alguma coisa? – Perguntou Draco, totalmente entediado.

- Não. Acho melhor pararmos por aqui. Precisamos de mais pistas, procurando a esmo desse jeito nunca conseguiremos nada. – Disse Smith, não mais tão otimista quanto estivera mais cedo.

- Vejo que finalmente concordou comigo. Nem preciso dizer que estive certo o tempo todo. Eu vou embora, e você deveria fazer o mesmo. Pode deixar que eu faço o relatório.

Smith pareceu surpreso com a repentina boa vontade de Draco. Mas o que o ex-sonserino queria mesmo era esfregar na cara de Potter o quão mal planejada fora aquela missão e que provavelmente não levaria eles a nada.

- Eu vou ficar mais um pouco. – Zacharias disse.

Draco concordou com a cabeça e, sem dizer nenhum adeus, aparatou.

-x-

Pansy resolvera fazer outra visita a Mansão Malfoy aquela noite. Cumprimentou Narcissa e Lucius, que lhe informaram que Draco estaria em seu quarto. E quando ela chegou ao cômodo, encontrou o jovem Auror só de roupão de banho, uma toalha enrolada na cabeça, uma pena na mão e vários pergaminhos espalhados pela cama em que estava sentado.

- Pansy? – Ele disse ao levantar o rosto. – Entre.

Ela olhou hesitantemente para os pergaminhos, mas resolveu entrar no final das contas, fechando a porta atrás de si.

- O que está fazendo? – Disse sentando-se numa poltrona ao lado da cama, afinal, esta parecia ocupada demais para haver um espaço para Pansy.

- Um relatório para Potter. – Disse parecendo muito concentrado. – O que acha de "suas táticas grifinórias de agir sem pensar são totalmente ingênuas e patéticas"?

Pansy riu.

– Não muito profissional.

Draco fez um bico. – Eu sei. Mas gostaria de poder dizer isso a ele.

- Mas não pode. – Ela disse abandonando as mãos como quem deixa o assunto de lado. – E então, me conte, o que Potter fez para você em vingança pelo que disse a ele na festa?

O loiro deixou os pergaminhos de lado um pouco, já tendo praticamente terminado seu trabalho. Retirou então a toalha que tinha enrolada na cabeça e começou a secar cuidadosamente os cabelos.

- Ele resolveu colocar todos nós nessa estúpida missão de caça aos ex-Comensais. Está mais do que óbvio que ela precisa de mais planejamento em cima, mas ele me colocou nela só de castigo. E ainda por cima estou de dupla com Smith!

Pansy arregalou os olhos. – Agora entendo porque você queria dizer aquelas coisas a ele. Realmente muito irresponsável. E você já começou a investigação?

- Sim, passei o dia todo rodando South Kensington. – Ele resmungou. – Não achei nada. Uma completa perda de tempo.

Draco então deitou na cama, sentindo-se repentinamente cansado agora que falava sobre todo seu esforço. Pansy saiu da poltrona e foi sentar-se na cama perto dele, afagando-lhe os cabelos loiros e sedosos. Draco não reclamou, sabendo que seus cabelos eram quase uma obsessão da morena.

- E Potter?Sabe com que região que ele ficou?

- Não sei. – Ele disse, e então franziu as sobrancelhas. – E eu também não deveria te falar sobre minha missão, Pansy. É assunto confidencial dos Aurores.

Ela riu.

- Ah, Draco, que bobagem. Mas tudo bem, não pergunto mais nada. – Ela balançou a cabeça. – De qualquer forma, eu acho que você precisa colocar Potter no lugar dele. Ele anda achando que está podendo muito, fazendo o que quer de você...

O loiro suspirou cansado.

- E o que quer que eu faça, Pansy?Não posso contra ele. Seria pedir para perder meu emprego.

Pansy franziu o cenho e sentou-se ereta, colocando as mãos na cintura. Draco olhou para a súbita mudança de postura dela com uma sobrancelha levantada.

- Onde está o Draco Malfoy que eu conheço?O Draco que eu conheço iria procurar um modo de virar o jogo!

- Este Draco já sofreu o suficiente para saber que não vale a pena lutar contra Potter. – Ele disse, num tom tão derrotado que chegava de dar pena.

- Pare com essa auto flagelação! – Ela exclamou, irritada. – Sabe o que tem que fazer?Procurar um ponto fraco em Potter, achar algo que possa usar contra ele!Assim é você que irá ameaçá-lo, e não o contrário.

O loiro ponderou a sugestão por um momento. Seu lado que ainda permanecia um menino sonserino queria muito fazer o que Pansy dizia, mas seu lado mais maduro e racional achava que estaria pondo muito em jogo ao fazer chantagem com o Salvador do Mundo Bruxo.

- Não, Pansy, não posso fazer isso. – Ele disse, conformado.

Ela apertou os lábios, prestes a gritar com ele para arrancar-lhe alguma reação mais entusiástica. Mas ela parou um segundo antes, um enorme sorriso malicioso nascendo em seus lábios.

Draco tremeu, já imaginando o que viria por ai.

- Por que não pode, Dray? – Ela falou numa voz baixa e lenta, falsamente sedutora. – Será que você não quer fazer isso com o Potter?Quais são seus verdadeiros sentimentos por ele?

O loiro arregalou os olhos, seu rosto começando a avermelhar-se em vergonha e raiva.

- Como ousa dizer uma coisa dessas?Eu quero mais é que Potter caia morto! – Exclamou, mas em sua cabeça ele pensava que seria um enorme desperdício se o moreno morresse... Alguém tão naturalmente bonito e charmoso assim era difícil de encontrar.

Malditos pensamentos idiotas!, Draco chacoalhou a cabeça, como se para se livrar das idéias que tanto lhe atormentavam.

- Acho que não, Draco... Acho que você gosta dele... – Ela continuou.

Draco gritou, escandalizado.

- Não gosto não!E vou te provar isso, amanhã mesmo começarei minha investigação, mas esta não terá nada a ver com ex-Comensais. Terá mais a ver com os segredos de Harry Potter que podem manchar sua reputação impecável! – Ele disse, determinado e confiante.

Pansy riu de pura alegria ao ver que finalmente havia conseguido faze-lo tomar uma atitude.

-x-

No outro dia, Draco não havia se atrasado para o trabalho. Estava vestido e arrumado impecavelmente. Chegou à sala de reuniões dos Aurores, não esperando encontrar ninguém lá. Iria apenas deixar seu relatório e aparatar para South Kensington para mais um dia de muito trabalho e nenhum resultado. Mas qual não foi a sua surpresa ao ver Potter sentado na mesa, relatórios de várias duplas em uma de suas mãos enquanto a outra bagunçava os cabelos já revoltos.

Depois do choque inicial, Draco caminhou lentamente, sem fazer barulho, mas ciente de que seu chefe já havia notado sua presença ali.

- Aqui está. – O loiro disse, entendo o pergaminho cuidadosamente dobrado em espiral.

Potter, estando sentado, olhou para cima.

- Não preciso nem olhar o seu para saber que está cheio de críticas sobre a missão. – Ele disse, então voltou a olhar para os outros relatórios. – Todos eles estão.

Draco jogou seu pergaminho no meio dos outros.

- Tem razão, está cheio de reclamações. Mas você queria o que?Tem que admitir que isso foi muito mal planejado.

Potter inalou profundamente, como se procurasse forças dentro de si.

- Não tenho alternativa. As atividades dos ex-Comensais estão se intensificando muito rapidamente. Trouxas têm morrido e desaparecido misteriosamente, e achamos que eles são os culpados. Não há tempo para pensar, temos que agir antes que as coisas tomem dimensões ainda maiores.

Draco olhou para o lado, sem saber o que falar e um pouco envergonhado. E ele achando que Potter havia os enviado naquela missão puramente por pirraça. E agora não obstante estava procurando um jeito de prejudicar o moreno!

Bom, mas isso não muda o fato de que ele te colocou com o Smith, uma voz que estranhamente lembrava a de Pansy soou na cabeça de Draco, fazendo seu desejo por vingança acender-se novamente.

- Entendo. – O loiro finalmente respondeu enquanto observava Potter. Uma hora o moreno era pura confiança, em outra estava parecendo desesperado. Não importava o quão intrigante fossem as atividades dos ex-Comensais, o verdadeiro mistério ali era Harry Potter.


¹ — Pelo o que eu achei na internet, South Kensington é uma região basicamente residencial de Londres.


N/A: Esse capítulo não é muito movimentado, mas eu não quero apressar as coisas. Ele está um pouquinho maior que o anterior, sei que não é muita coisa, mas pelo menos eu cumpri o que havia prometido.

É surpreendente escrever essa fanfic!Quando eu acho que já tenho o roteiro todo em mente, algo novo surge. O que me inspirou, e ajudou, nesse segundo capítulo foi a música "Building A Mystery", da Sarah McLachlan.

Muito obrigada pelas reviews!Infelizmente as anônimas não têm como eu responder, mas agradeço mesmo assim. Não se esqueçam de comentar nesse capítulo também, ok? ;D

Lindsay