Rejeição

Capítulo 2: Tortura

O que aconteceu a seguir estava além de sua capacidade de raciocínio. Não conseguia entender aquilo. Nem queria entender. Não conseguia suportar aquilo. Ela não queria ver, nem ouvir, nem sentir. Se fosse permitido morrer de susto, ela gostaria de estar morta. Pelo menos desmaiar, fechar os olhos e ir para outro lugar. Onde não havia horror, nem dor. Onde sua mente pudesse ficar em paz, tranqüila, sossegada. Onde tudo fazia sentido, seu presente era estável, seu futuro previsível e nada lhe causaria nenhum mal. Pelo menos nenhum mal irreparável. Sempre ouvira dizer que quando a gente morre, nossa vida passa diante de nossos olhos, antes de fechá-los para sempre. Não foi isso o que aconteceu. Talvez já estivesse morta, quem sabe? Talvez seu passamento tivesse sido tão rápido, que ela nem percebera.

O que aconteceu não fazia sentido. Sensações. Dores. Gritos. Angústia. Desespero. Agonia. Sofrimento. Sofrimento além do que ela estava habituada. Sofrimento além da idéia de que um dia isso iria acabar. O que mais doía era justamente isso. Não haver lenitivo. Não haver consolo. Não haver esperança. Imagens sucediam-se na sua frente, no seu cérebro. Sangue, carnes, ossos, apodrecimento, insetos e vermes e outros animaizinhos nojentos. Instrumentos de tortura, afiados, enferrujados, sujos de sangue. A visão de seu algoz era igualmente torturante. Ele era o ser mais repugnante que alguma vez ela já vira. Outra visão que a chocava e maltratava, muito mais do que dor física, era a visão do seu próprio corpo sendo destroçado e mutilado.

Por vezes sua mente conseguia escapar, e ela então ia para junto de sua mãe e de seu pai. Sentavam-se na mesa da cozinha para ver novelas, na pequenina televisão antiquada. Seu pai bebericava e assoprava sua xícara de café preto fumegante. Enquanto sua mãe trazia-lhe uma caneca de mingau de milho verde com polvilho de canela. Sua mãe sempre tão gentil, chorava como uma adolescente assistindo novelas. Pegava seu lencinho com o bordado nas pontas, e enxugava delicadamente os olhos, ao ver o casal de protagonistas da novela, fazendo as pazes após uma longa separação. Seu pai era impassível. Seus olhos estavam na tela, mas sua mente estava distante, em um mundo com preocupações e problemas mais corriqueiros, como dinheiro e dívidas.

Então a doce e confortante companhia de seus pais se tornava esmaecida e ia se desfazendo aos poucos, até só restar o defunto descosturado e sua sessão de tortura. Sebastiana então tentava inutilmente voltar àquela realidade de sonhos dourados, mas não era sempre que conseguia. Às vezes lembrava-se de Álvaro e da rejeição sofrida. Lembrava-se da família de Álvaro. A mãe dele, suas tias, seus irmãos, seu pai, os amigos de Álvaro. Lembrava-se das risadas deles, de seus olhares de desprezo. Lembrava-se da expressão no rosto de Álvaro, vergonha. Ele sentia-se humilhado por estar com ela. Como se ela tivesse uma grande letra A na blusa, ou um M na testa.

Esta dentre todas, era a lembrança que mais a maltratava. O desprezo que Álvaro passou a sentir por ela, por não conseguir ser aceita por sua família e seu círculo de amizades. E quando ele lhe disse: "Acho que nos precipitamos. Talvez seja melhor repensar esse relacionamento. Eu preciso de um tempo sozinho, analisando o que eu sinto por você. Se eu achar que há algum futuro para nós, eu ligo pra você". Ele praticamente a enxotara de sua casa. Como uma mendiga, penetra de festas, que invadiu propriedade alheia. Foi escoltada pelos serviçais, pois Álvaro estava muito ocupado atendendo seus amigos e sua família. Sentiu forte a exclusão quando os seguranças fecharam os portões da entrada, deixando-a do lado de fora.

Passara as primeiras duas horas ligando para o celular de Álvaro. Ele nunca lhe atendeu às chamadas, nem lhe respondeu os "torpedos". Até que ela desistiu. Foi para sua casa como autômato. O que ela fizera de errado? Comprara roupa nova para aquele almoço em família. Passara o dia anterior no cabeleireiro, cuidando da pele, do cabelo, das unhas. Até comprara um livro de boas maneiras, para aprender a se portar entre gente tão sofisticada. Além de tudo isso, Álvaro a amava. Tinha certeza disso, pelo menos até antes do maldito almoço acontecer. Mas ela não fizera nada de errado. Não tomou iniciativa, esperou que todo mundo se movimentasse à mesa, para repetir-lhes os gestos.

Ela não colocou os cotovelos na mesa. Não tossiu, não arrotou, não fez comentários, para não dar uma ratada sem querer. E sempre sorria quando percebia que estavam olhando para ela. Ela dissera "Como vai tudo bem? Prazer em conhecê-lo" para todo mundo. Não fora mal educada, nem desrespeitosa. Não ficara corando desnecessariamente, nem ficou escondendo os olhos das outras pessoas. Tentara agir como igual a eles, mesmo sabendo não ser. Talvez este tenha sido seu maior pecado, pois eles sabiam que ela não era igual. Talvez por isso tenham se sentido ofendidos. Talvez por isso tenham sentido necessidade de deixar claro, qual o lugar dela naquela pequenina sociedade. O da porta da rua.

Chegara a casa e sentara no chão da sala. Sabia que já o perdera. Não o perdera para outra mulher ou outro cara. Perdera-o para o desprezo e rejeição que sofrera da família dele. Outras pessoas não gostaram dela, e isso foi o suficiente para ele também perder o interesse por ela. Um amor raso e fútil, pelo menos da parte dele. Ela sabia que o amaria para sempre. Ele era o homem da sua vida. Mas isso nem sempre é promessa de felicidade, porque nem sempre somos correspondidos. Ela o amara com todas as suas forças e sofrera com toda a frustração e desalento de sua alma. Como se seu coração tivesse sido rasgado e um pedaço tivesse ficado pelo meio do caminho, jogado no lixo.

Ela olhou para o defunto descosturado com frieza. Cuspiu sangue no chão. Levantou os olhos sem vida e atreveu-se a falar-lhe. "Eu também como você, posso me vingar de alguém"? O defunto pálido, de bocas roxas deu um puxão na corrente que estava rasgando uma lasca da pele dela. Abriu sua boca com hálito de formol. E ela ouviu na sua mente, pois os defuntos não tinham voz: "Claro". Cabeça de alfinetes aproximou-se, com seu horrível arrastar de roupas pelo chão. Ele a olhou com seus olhos leitosos e abriu um sorriso de dentes amarelados. Mais uma vez ela ouviu nos meandros do seu cérebro sem vida: "Você dará uma boa cenobita". Ela não sabia o que era isso. Mas se isso significasse fazer Álvaro pagar pelo que lhe fizera, então tudo bem.

A realidade a sua frente se modificou. Cabeça de alfinetes não estava visível, mas ela o pressentia. Nem era mais necessário ouvir o arrastar de sua batina. O descosturado às vezes ficava visível a seu lado. Às vezes puxava uma corrente atada à pele dela, descascando-a mais um pouco. Ela não se importava mais. Sabia que para o que se propusera fazer, ficaria a maior parte do tempo sozinha. Pelo menos o seu inferno interior não seria visível. Mas o seu exterior passou por uma transformação. Agora estava vestida de negro, da cabeça aos pés. Seu peito e seu abdome estavam descascados, sangrando um pouco de quando em vez, e por isso encharcando sua roupa negra. Fazendo com que sangue escorresse de sua roupa, aos pouquinhos.

Seus lábios estavam incrivelmente vermelhos, seus olhos e sobrancelhas bem delineados. Suas unhas negras e seus cabelos retorcidos em intrigadas tranças rastafári, no alto da cabeça. Ela estava bonita, de um jeito sádico e gótico. Sebastiana olhou para a pequena caixa metálica sobre a mesinha da cozinha. Fechou-a e a segurou na mão. "Ela agora me pertence, Descosturado". Não obteve resposta, mas sabia ser a verdade. O ambiente em seu apartamento voltou ao normal. Tudo ficou iluminado. Por um momento pensou que estivera dormindo e que tivera um sonho. Mas então a visão do sangue escorrendo de suas roupas, a lembrou de sua nova realidade.

Pensou em Álvaro, o grande amor de sua vida. Vida essa que já não existia. Pensou na família de Álvaro e em seu círculo de amizades. "Eu não preciso me vingar do mundo inteiro. Eu só preciso acertar as contas com Álvaro". Por um momento sentiu a estranheza daquilo tudo. Ela tirara a caixa do defunto que a castigou pelo seu ato errado. Agora ela iria castigar Álvaro porque ele a magoara. Quem sabe o que Álvaro iria fazer em seguida? Talvez ela pudesse esquecer aquilo tudo e poupar Álvaro desse sofrimento. "Não. Se existe um filho da puta que precisa pagar pelo que fez é ele. Eu não sei, nem quero saber o que o Descosturado fez. E eu fui apenas curiosa. Álvaro não, ele me dilacerou o coração em vida".

Sebastiana não soube como fez aquilo, mas no momento seguinte estava na propriedade da família de Álvaro. Passou facilmente pelos portões. Os seguranças pareciam entorpecidos. Caminhou até a grande casa. Os cachorros que estavam soltos, ao vê-la ganiam e iam esconder-se. Ela apenas olhava para eles e eles murchavam as orelhas. Ela entrou na sala e foi em direção ao quarto de Álvaro. Não havia ninguém para barrar o seu caminho. Como se não a percebessem, ou como se estivessem paralisados. O grande almoço já havia acabado há muito tempo. Ela entrou no quarto de Álvaro e ele estava lá. Sentado na escrivaninha do computador.

"Oi Álvaro, lembra-se de mim"?