Capítulo 1 - A sangue frio

A lua cheia que em seu alto esplendor se associava com as milhões de estrelas que inundavam a noite Grã-Bretanha não era um prenúncio dos tempos perigosos que se passavam. Perigo que apesar de ser muito alto, não era do conhecimento de grande parte da população.

Enquanto boa parte da população leiga aproveitava a noite agradável para uma boa noite de sono, uma menor não escondia o nervosismo porque sabiam dos perigos que eram camuflados pela bela noite que se apresentava.

Uma destas pessoas estava sentado à mesa escrevendo um enorme relatório, parando às vezes, hora para enxugar o rosto infantil infestado pelo suor, hora para verificar se havia algum barulho no primeiro andar, ou mesmo se perdendo em pensamentos batendo com seu chapéu coco na mesa.

Cornélio Fudge não era mais Ministro da Magia, agora era apenas um assessor do ministro Rufus Scrimgeour. Contudo, era ainda considerado um trabalho importante e uma figura respeitada no Ministério (embora grande parte da comunidade mágica não lhe desse mais crédito algum).

"Não é tão ruim assim", pensava Fudge, "ainda tenho uma boa proteção dos aurores e mesmo assim que comensal da morte viria atrás de mim, agora que sou apenas um desacreditado ex-ministro da magia?". Fudge se levantou foi até a janela ainda perdido em pensamentos longínquos. "Quem será a vítima desta noite? Nunca pensei que nossa situação piorasse só que a morte de Dumbledore...".

Um estalo seguido de um clarão verde trouxeram Fudge de volta a realidade. O bruxo sacou a varinha rapidamente e caminhou até a porta, ganhando o corredor Fudge estreitou os olhos e com muito cuidado foi até as escadas. O melhor era chamar os dois aurores que faziam sua segurança. Fudge alcançou o último degrau, examinou a enorme sala ricamente mobiliada onde as chamas na lareira iluminava o cômodo. Onde estariam aqueles dois? Relataria à Scrimgeour os tipos de aurores que lhe foi colocado à disposição. Escutou passos.

- Duggan? Walton? São vocês?

Não houve resposta. Fudge apertou ainda mais a varinha.

- Walton? Onde você está? – mais uma vez ninguém respondeu.

Aquele clima não agradava nada a Fudge. Deveria fugir? Fudge imaginou o que a comunidade bruxa diria se soubessem disso...

- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!AHHHHHH...

- Walton? Walton onde você está? – Fudge ficou mais alarmado se isso era possível. O suor cobria seu rosto, sem dúvida o grito veio da cozinha.

Cornélio Fudge sabia que era seu dever saber o que se passava em sua casa, limpou um pouco do suor que umedecia rosto, levantou ligeiramente a varinha, mas ao empurrar a porta da cozinha Fudge sentiu um calor repentino na maçaneta e foi jogado pra trás.

Caído no chão e sentindo gosto de sangue na boca, Fudge tateou a mão no chão a procura da varinha.

- Tentando achar isso Fudge? – perguntou uma voz feminina.

O ex-ministro virou-se imediatamente, conhecia a dona daquela voz e não ficou nada animado em escutá-la ainda mais naquela hora. Uma mulher de feições duras com aparência de ter sido muito bonita e olhar fantasmagórico apontava a varinha para o seu peito com uma mão e com a outra brincava com a varinha de Fudge.

- Belatriz Lestrange! Onde estão os aurores? O que você fez com eles?

- É engraçado Fudge a visão que você e seu ministério têm de um auror!Você julgava aqueles dois panacas que aqui estavam bons aurores? – indagou Belatriz.

- Você os matou? Sua... – Cornélio Fudge não sabia o que dizer, queria avançar naquela mulher senão sabia que morreria, porém no momento que lhe ocorreu tal pensamento, cordas surgiram do nada e o ex-ministro foi bem amarrado.

- Acho melhor você ficar quieto ministro, - disse a comensal com certo desdém – agora respondendo a sua última pergunta: não, não fui eu que matei os seus... Ah... Aurores. Outros tiveram esse prazer antes de mim.

- Não foi você? Então você não veio sozinha? Vocês são todos uns desgraçados, uns malditos! Vocês não podem fazer isso, quem você acha...

- Belatriz quer fazer o favor de calar o ministro, já estou cheio de escutar suas reclamações – cortou uma voz fria e autoritária que fez os cabelos da nuca de Fudge ficarem em pé.

Belatriz sorriu.

- Com prazer milorde! Crucio.

Os gritos de Fudge irromperam na sala. Sua cabeça doía, os braços torciam, estava sendo esfaqueado. De repente parou. Ele levantou a cabeça e viu, não acreditando nas pessoas que entraram na sala. Não... Não era possível.

Trajava vestes negras, sem sobrancelhas, os olhos muito vermelhos e no lugar do nariz possuía fendas.

Quando Lord Voldemort se materializou na sua frente sentando num sofá próximo a onde estava amarrado, Cornélio Fudge percebeu que sua hora chegara. Contudo quando olhou para a outra pessoa que viera com o Lord das Trevas o queixo de Fudge caiu. Era Snape.

- Vocês! O que vocês querem de mim? – berrou Fudge, o suor não sendo contido inundava seu rosto.

Voldemort sorriu e soltou aquela gargalhada fria e terrível.

- Fudge você não tem educação? Deveria dizer um "como vai?", você não é homem de perder as estribeiras. – Belatriz gargalhou com as palavras de seu Lord, mas Severo Snape continuou nas sombras apenas examinando Fudge em silêncio.

- O que vocês querem de mim? – berrou Fudge novamente. Não seria um brinquedo nas mãos deles, sabia que iria morrer, mas morreria com dignidade e muita coragem.

- Se querem me matar, acabem com isso logo. Estou desarmado e bem amarrado. Vamos acabem com isso! Vocês não passam de uma ralé de...

- Você vai ver quem é ralé! – Belatriz disse isso muito vermelha e deu uma batida na varinha, a corda que amarrava Fudge o apertou ainda mais e ele urrou de dor.

- Pare Bela – ordenou Voldemort – Você não vê que é isso que ele quer?

Com a ordem de seu mestre Belatriz abaixou a varinha e imediatamente a corda afrouxou um pouco, Fudge voltou a respirar, Voldemort o encarou.

- Bom ministro, vejo que você quer mesmo morrer, e você não tem outra opção tem?

A pouca cor que havia no rosto do ex-ministro desapareceu, estava muito pálido. Lord Voldemort gargalhou.

- Fico imaginando Fudge, há pouco tempo Dumbledore foi morto, hoje será você. Poderíamos é lógico enfeitiçá-lo para você trazer informações úteis para mim. Mas o terror da sua morte sobre a comunidade bruxa somado a morte de Dumbledore trará um caos, e isso sem comentar de como atingirá o ministério. Como será a capa do Profeta amanhã?

- Por mais que eu morra e Dumbledore também já esteja morto, você ainda não matou Harry Potter. Ele sempre escapa de você e você não consegue acabar com ele. Enquanto ele estiver vivo, ele será uma ameaça para você e seus comensais e uma esperança para a comunidade bruxa.

O sorriso de Voldemort amarelou.

- Potter só sobreviveu há antigos atentados por pura sorte ou com ajuda de amigos mais talentosos do que ele – agora não era Voldemort que falava e sim Snape que saíra das sombras – Agora que Dumbledore está morto Fudge, nada nos impedirá de matá-lo.

Fudge olhou para Snape. Era difícil descrever aquele homem, mas ele era sim um assassino. Belatriz também fitava Snape com um profundo olhar de ódio.

- O que você falou está completamente certo, Severo – disse Voldemort – Em breve à última proteção de Dumbledore que cerca o garoto não existirá mais e ele será morto.

Voldemort se ergueu do sofá e olhou o homem amarrado a sua frente que o encarava também e aparentemente muito aterrorizado para falar.

- Ministro sua hora está finalmente chegando, conversamos até de mais não é mesmo? Tem uma última coisa a dizer? Acho que nunca pegamos alguém da sua laia tão facilmente. Adeus Fudge mande lembranças a Dumbledore.

Fudge abriu a boca para falar algo, mas antes de conseguir dizer a primeira palavra, Voldemort levantou a varinha: Crucio. Os gritos de Fudge irrompiam pela casa, quando Voldemort baixou a varinha, Fudge ofegava de dor.

- Acabe com ele, Bela – ordenou Voldemort – pode se divertir a vontade, só não demore muito! – e virando-se para Snape – Vamos Severo, vamos ver se há algo valioso na casa ou alguma informação importante do ministério. Mas duvido muito que esse idiota ainda tenha acesso há algo de valor.

Os dois bruxos subiram a escada deixando Belatriz Lestrange e Fudge a sós.

- Fudge acho que você não teve muita sorte outra vez. Se fosse Snape ele te mataria de uma vez, porém eu não sou tão boazinha quanto ele. Fique a vontade, espero que você grite a vontade. Pronto?

Belatriz levantou a varinha e Fudge mais uma vez voltou a ser torturado. A comensal gargalhava com os gritos do ex-ministro.


Os primeiros raios de sol que iluminavam a rua dos Alfeneiros anunciavam a chegada de um novo dia. A maioria das pessoas ainda desfrutava da ótima noite de sono que não tinham há tempos.

Em uma das casas, no entanto, um adolescente estava muito bem acordado. Tinha os olhos muito verdes, cabelos negros, mas o que o destacava era a fina cicatriz na testa que hora era ocultada pela franja.
Harry Potter estava no momento sentado de frente para a janela, olhando para o horizonte. Colocara a cadeira ali porque pegou o costume de olhar as estrelas durante a noite.

A noite... sempre bela, sempre o maior dos mistérios. A última noite fora muito bela, sem dúvida, mas fora durante ela que a cicatriz de Harry formigara, não doeu é verdade, mas formigara, e a última vez que isso aconteceu tinha sido há mais de um ano. Pensando no motivo da sua cicatriz ter formigado Harry acabou perdendo o sono, sabia que Voldemort não andava por perto, de alguma forma sabia e tinha certeza disso. "Onde quer que Voldemort estivesse, pensou Harry, ele estava muito feliz com algo que havia acontecido."

E agora lá estava ele sentado à espera do Profeta Diário para confirmar suas suspeitas.

Harry ergueu-se da cadeira e foi até a porta, não os Dursley ainda não haviam acordado. Voltou-se para sua cadeira e viu que duas corujas entravam no quarto, uma era sua fêmea Edwiges que vinha com um rato morto na boca e foi direto para sua gaiola, a outra era uma coruja marrom que trazia consigo um jornal.

Ao vê-la, Harry esqueceu de tudo à sua volta, pagou três sicles a coruja e abriu o jornal, o coração batendo forte. Havia uma foto de uma casa senhorial no centro da primeira página com a marca negra a sobrevoando e embaixo...

Ex-ministro encontrado morto.

Cornélio Fudge é assassinado depois de ser violentamente torturado.

Cornélio Fudge, ex-ministro da Magia e atualmente servindo como assessor do ministro Rufus Scrimgeour foi encontrado morto em sua mansão em Londres.
O alarme foi dado quando dois aurores passando próximo ao local avistaram a marca negra sobre a casa. Imediatamente o ministério foi chamado, foram encontrados mortos na casa além de Fudge os aurores Alexander Duggan e Philip Walton que faziam a segurança do ex-ministro.

O ministério soltou uma nota lamentando a morte de Fudge e afirmando que o culpado será pego e punido. Resta saber se a comunidade mágica levará o aviso a sério.

Há suspeitas de que o próprio Lord das Trevas tenha cometido o homicídio de Fudge. Vale a pena lembrar que há menos de um mês o ex-diretor da escola de Hogwarts, Alvo Dumbledore foi assassinado nas próprias dependências do castelo...

Harry não precisou acabar a leitura da notícia. Sua cabeça foi a mil, custava acreditar. Cornélio Fudge estava morto? Essa era uma notícia pela qual ele realmente não esperava... Agora tudo se encaixava.

O garoto jogou o jornal no chão e voltou aos pensamentos. Realmente não sentia simpatia por Fudge, se o quinto ano dele em Hogwarts fora péssimo foi porque Fudge contribuiu para isso. Mas jamais desejou a morte do ex-ministro, ou de qualquer outra pessoa, exceto Voldemort. Harry se lembrou que Fudge o tratara muito bem no terceiro e no seu quarto ano em Hogwarts e inclusive o salvara de uma provável expulsão quando transformou tia Guida em um balão.
Olhando a rua, Harry visualizou o homem trazendo leite e entregando na casa da frente. Era chegada a hora de começar a agir, não podia ficar ali mais sentado e esperando que o Lord das Trevas viesse ao seu encontro.

Amélia Bones, Emilina Vance, Cedrico Diggory, Cornélio Fudge, seu padrinho Sirius Black, Alvo Dumbledore... Todos foram mortos por Voldemort e seus seguidores, e o pior é que Harry sabia que haveria mais mortes. Faltavam poucos dias para ele completar 17 anos. Contudo, ele teria de começar a agir agora, ou outros corriam o risco de perder suas vidas.

Dumbledore e todos os outros deram a vida acreditando nele e antes de não querer desapontá-los, Harry não queria desapontar a si mesmo.
Seu estômago roncou alto, agiria sim, mas antes tomaria um café da manhã e desafiaria os Dursley.


Quando Harry entrou na cozinha os Dursley já se encontravam à mesa. Estavam todos muito concentrados na televisão que pelo visto anunciava a morte que ele vira noticiada no Profeta Diário.

–... o empresário Fudge tinha 69 anos e era viúvo, não foi divulgada as causas da sua morte.

Harry se sentou e começou a servir um pouco de bacon, ainda não era hora de testar a paciência dos tios, melhor esperar eles conversarem.

– Que tempos são esses? – perguntou tio Valter – Todos os dias o que vemos são apenas mortes e mais mortes sem explicação! Do que a polícia e a justiça desse país estão brincando?

– Os Polkiness que moravam no final do quarteirão se mudaram para a Espanha, – informou tia Petúnia – eles também estavam incomodados com essas mortes e os Henry estão procurando uma casa na França.

– Vamos olhar uma também Petúnia, querida, é só nos livrarmos desse problema – tio Valter mirou Harry, enquanto Duda apenas olhava do pai para o primo, o comportamento de Duda mudara muito em um ano e Harry se perguntava o que havia acontecido – que iremos olhar uma casa na Espanha ou mesmo na América. Guida até comentou que Cleveland é um ótimo lugar.

Harry sentiu o olhar dos tios e do primo Duda sobre ele. Então era isso? Ele era o problema? Queriam se livrar dele para poderem ir para o exterior! Muito bem, agora era a hora do contra-ataque.

– Tio Valter, - começou Harry, Tia Petúnia e Duda continuavam a mirar o garoto – acho que o senhor vai se livrar desse problema logo. Minha hora de partir dessa casa chegou e devo fazer isso amanhã ou depois de amanhã.

Os olhos de tio Valter se estreitaram, mas foi tia Petúnia que se recuperou primeiro.

– Você vai embora então? E com ordens de quem? Mesmo para o seu mundo moleque você ainda é menor de idade. Você vai ficar aqui entendeu? Até completar seus 17 anos!

– Não mamãe – disse Duda, que na opinião de Harry, gostaria de vê-lo o mais longe dali o mais rápido possível – agente não sabe o que está acontecendo, vamos escutá-lo. Seria ótimo.

Harry que estava pensando em rogar uma praga para eles, mirou o primo desconfiado. Ele ouvira aquilo direito?

– Garoto – começou tio Valter, estava muito vermelho – você está decidido a ir embora? Pois bem, mas você não irá sair daqui assim. Você chegou aqui e não tinha nada! Durante toda sua vida, Petúnia e eu, gastamos uma fortuna para sustentar você e agora você vai embora assim?Queremos ser pagos por cada centavo pelo prejuízo que você nos deu...

A raiva de Harry crescia, ele esperava por uma coisa mesquinha daquelas, enfiou a mão no bolso por segurança. Ainda tinha uma carta na manga, não queria recorrer a magia.

–... e não pense que não sabemos que você tem dinheiro, no ano passado aquele velho idiota falou que você...

– CALE A BOCA! – Harry explodiu, levantou da mesa e puxou a varinha.
Duda ao ver o primo empunhando a varinha soltou um berro e segurando as nádegas saiu da cozinha o mais rápido que pode. Harry não se importou.

– Lave a sua língua antes de falar do professor Dumbledore – disse apontando a varinha para o tio.

– Abaixe essa varinha Harry – ordenou tia Petúnia.

– Não! – Harry estava muito nervoso, mas tentava se controlar, algumas fagulhas saíram da varinha e tio Valter caiu da cadeira causando um estrondo que balançou a cozinha inteira – Agora vocês vão mês escutar e não me interrompam.

Tia Petúnia que ajudava o marido a se levantar com uma força tremenda para alguém tão magra abrira a boca para contestar, porém com o aviso do sobrinho permaneceu calada.

– Vocês viram aquele homem no noticiário em que anunciaram a sua morte? Ele não era empresário! Era o Cornélio Fudge ex-ministro da magia que foi assassinado ontem por Voldemort e seus seguidores, o professor Dumbledore que veio me buscar aqui no verão passado também foi morto por um seguidor de Voldemort. Todas essas mortes de que vocês têm notícia na TV estão ligadas a guerra que acontece nesse momento no mundo bruxo e que Dumbledore avisou a vocês no ano passado.

Harry respirou fundo. Tia Petúnia e tio Valter olharam para ele atordoados. O garoto respirou fundo novamente e continuou.

– Já era para eu estar morto há tempos. Eles estão tentando me matar desde quando eu tinha um ano e só não aparecerem por aqui ainda porque eles não podem me tocar ou me fazer mal aqui nessa casa enquanto o feitiço de Dumbledore persistir, ou seja, até quando eu completar 17 anos, a maioridade. Podem ter certeza que se eles souberem que eu estou aqui depois disso eles aparecerão. É por isso que eu vou embora – Harry mirou os tios – para me salvar e salvar vocês também.

Como os tios não falaram nada, Harry abriu a porta da cozinha e faria o que teria de ser feito. A vida dele nunca tinha sido fácil, se fosse, ele não seria Harry Potter, seria alguém comum. Era chegada a hora de partir, era o momento de rastrear os objetos que continham pedaços da alma de Voldemort e destruí-las. Todas elas. No final ele destruiria o Lord das Trevas. Seria difícil, mas ele ia conseguir. Não deixaria ninguém mais se interpor entre Voldemort e ele. Iria sim lutar, recomeçar a lutar e continuar a lutar. E ele iria vencer, mesmo que precisasse abdicar da sua própria vida para isso.