Capitulo II

Santuário, dias atuais

Tudo havia sido explicado aos demais remanescentes do Santuário. Agora a rotina voltava ao normal, cavaleiros e amazonas treinavam com afinco embora não houvesse nenhum indicio de uma batalha próxima. Shina, diferente de June e Marin, treinava como se sua vida dependesse disso. Seu humor estava pior que o habitual, e descontava sua frustração em qualquer um que visse pela frente, ou seja, os aspirantes que pagavam com um treinamento fora do comum. Saga e os demais já haviam percebido o estado de nervos em que ela se encontrava, todavia, nada faziam. Saga lembrou do ocorrido enquanto os três mais poderosos cavaleiros invadiram o santuário como espectros de Hades. Talvez houvesse alguma ligação. Mas o que ele poderia fazer para comprovar sua tese? E o que poderia fazer para solucionar a questão? A resposta veio após o chamado do Grande Mestre. Lá estava ele, em frente a atual maior autoridade do Santuário:

- Saori Kido convidou os cavaleiros de ouro para um coquetel de confraternização. Entretanto, não poderei mandar todos devido à falta de segurança que se encontrará o Santuário. Gostaria que indicasse três cavaleiros para representar o Santuário.

- Grande Mestre, eu posso ser um desses que irão ao coquetel. Quanto aos outros dois, sugiro que seja Kamus e Shina.

- Kamus eu até entendo que esteja apto, mas por que escolher uma amazona?

- Para representar a outra classe do santuário, as amazonas.

- Entendo. Todavia, não seria melhor outra amazona, Saga?

- O senhor deve estar preocupado com o modo como Shina vem treinando os aspirantes. Acredito que seja melhor ela sair um pouco do santuário para ver se ela acalma um pouco. Não a culpo. Embora seja uma amazona, não deixa de ser uma mulher, e como tal são suscetível aos maus momentos. As batalhas que enfrentamos abalou muito os habitantes do santuário, principalmente as amazonas.

- Você se mostrou muito perspicaz, Saga. Orgulho-me de tê-lo escolhido como meu sucessor.

- Obrigado pelo elogio, e pela confiança, Grande Mestre. A propósito, não acredito que seja necessário o uso de máscara no caso de Shina. Seu rosto já foi visto por um cavaleiro de bronze.

- Você tocou em um assunto no qual pretendia mesmo lhe falar. Daqui a alguns meses, chegarão algumas amazonas seguidoras da deusa Hera, que vem trazendo duas discípulas cada uma. Elas irão concorrer as duas armaduras do templo da deusa, e como no caso da Shina foi vista sem a máscara, as duas que não conseguirem as tais armaduras deverão concorrer a armadura de Cobra.

- O que acontecerá com Shina neste caso?

- Se tornará uma mestra-amazona. Até lá, espero que ela encontre a paz de espírito de que precisa para tal cargo.

- E se por acaso ela se recusar?

- Deverá encontrar o amor no primeiro cavaleiro que viu seu rosto. Não posso permitir que uma amazona desonrada deixe de seguir as leis do Santuário. – percebendo o silencio que se instaurou no salão, o Grande Mestre resolveu entrar em outro assunto. – Mande Kamus a cidade para providenciar vestimentas apropriadas para o coquetel.

- E quanto Shina? Também precisará de roupas adequadas, ela não pode...

- Comunique a ela sobre o coquetel, e que deve ir a cidade para tal finalidade. Dispensado.

Saga fez uma mesura respeitosa saindo logo em seguida. Descendo a escadaria foi direto ao templo de Aquário onde encontrou Kamus compenetrado na leitura de um livro. Comunicou o que havia sido discutido no templo principal, ocultando a identidade da amazona que o acompanharia ao centro e ao coquetel. Logo depois, procurou por Shina encontrando-a na arena, treinando um garoto. Teve até pena do pobre-coitado. Apanhava muito. Interrompeu o massacre chamando a amazona de lado. Assim como fez com Kamus o fez com Shina. Embora ela tentasse contestar, Saga se mostrou firme no que falava. Praticamente ordenou que ela fosse tomar um banho e trocasse de roupa.

Casa de Shina

Praguejava Saga pelo que havia dito a ela: "Eu quero você na entrada do Santuário em trinta minutos. Não use estes trajes velhos de treino." Só porque ele agora é o futuro sucessor do Grande Mestre não significa que pode me mandar fazer o que ele quer, pensou Shina. Principalmente se mostrar impaciente com o que visto ou deixo de vestir, afinal era uma amazona e não uma mulher comum para ter roupas "apropriadas", pensou novamente com desdém. Nunca sairia em trinta minutos se a questão fosse usar outro tipo de roupa. Lembrou-se de algo que poderia ajudar nesta ocasião.Vasculhando o pequeno móvel do quarto encontrou o que estava procurando perdido embaixo de suas roupas do dia-a-dia. O vestido que pertenceu a sua mãe e que ela guardou de lembrança. Nunca em toda sua vida poderia imaginar que usaria aquela roupa velha. Talvez fosse melhor pedir uma roupa emprestada a Marin. Não, nunca se sujeitaria a ficar devendo um favor a uma colega de treino, principalmente quando as duas não se davam tão bem assim.

Entrada do Santuário

Kamus estava impaciente, esperando a tal amazona que estava atrasada cinco minutos. Usava uma calça de brim berge, e uma camisa pólo branca. Estava muito diferente do usual. Olhou para trás de cinco em cinco minutos, pois havia chegado ali há quinze minutos e nada da amazona aparecer. Eis que pôde avistar ao longe, um brilho. O sol batia no metal e refletia com toda intensidade cegando momentaneamente seus olhos. Virou-se, e esperou de braços cruzados ela chegar. Os passos estavam chegando mais perto, e sem se abalar de sua posição, anuncio com frieza:

- Está atrasada cinco minutos, amazona.

- Você! – vociferou entre os dentes – Isso só pode ser uma brincadeira.

Kamus se virou para Shina, fazendo um rápido exame em seu vestido. Shina estava usando um vestido godê que outrora fora branco, e agora parecia meio amarelado pelo passar dos anos. Olhou para o rosto dela se deparando com máscara cobrindo-o, e algumas mechas de seu cabelo solto caída sobre a máscara.

- Fomos indicados pelo Grande Mestre para representar o santuário no coquetel de confraternização de Saori Kido. Deveria se sentir honrada por ser uma dentre tantas outras amazonas a ser escolhida.

- Saori não é mais a deusa Athena, não tenho o porque de me sentir honrada com este "convite".

Kamus virou-se e seguiu o caminho para fora do santuário, sem se importar se ela o seguia ou não. Shina se sentiu uma verdadeira idiota por dizer aquelas palavras, e pior ainda se sentiu ao ser ignorada como se não tivesse nenhum valor naquele lugar. Tratou de seguir o cavaleiro de aquário sem abrir a boca. Já estavam a uma longa distancia do Santuário quando Kamus parou de andar abruptamente. Virou-se para ela, e em movimento rápido retirou-lhe a máscara, jogando-a longe:

- Por que fez isso? – perguntou pasma com a audácia de Kamus.

- Não precisará dela fora do santuário.

- Mas não passou por sua cabeça que não vou me sentir à vontade sem ela na frente de um cavaleiro? Nós amazonas não devemos ter o rosto revelado a todos.

- Não me importo com esta lei. Você também não deveria importar-se em usar a máscara depois que seu rosto já foi visto por um cavaleiro.

- Seiya viu meu rosto por acidente e...

- Isso é irrelevante, amazona. A questão é que estamos fora do santuário, e a sua máscara estava chamando muita atenção.

Andaram mais um logo tempo sem dialogar. Shina já se sentia arrependida por não ter insistido o suficiente para arrancar o nome do cavaleiro que a acompanharia ao centro e ao coquetel. Agora estava ali, na sala de espera de uma loja masculina que fornecia qualquer tipo de vestimentas para os cavaleiros há muitos anos. Kamus acabara de sair do provador e acompanhou o homem que o atendeu cordialidade assim que entrou na loja. Pouco depois voltou com os embrulhos e saindo da loja sem chamar Shina para acompanhá-lo. Segundos depois, Kamus voltou para dentro da loja fitando os olhos de Shina com um olhar reprovador.

- Você saiu como se não tivesse vindo comigo. – tentou se desculpar, mas mesmo assim, sua voz soou cínica que não dava para negar conhecer de quem se tratava.

Kamus pegou sua mão sem dizer nada e a conduziu por varias ruas. Parou para pegar e ler o cartão de visita da loja que estava procurando. Andaram mais um pouco e chegaram na loja indicada por Saga. Uma loira alta apareceu prontamente com um largo sorriso:

- Em que posso ajudá-los?

- Procuramos um vestido adequado para um coquetel de confraternização.

- Ah, vocês devem ser Kamus e Shina.

- Já sabia que nós viríamos? – Shina perguntou desconfiada como sempre.

- Claro. Saga ligou avisando sobre a visita de vocês. Embora esta loja sempre servisse ao santuário em questão de roupas para as amazonas e serviçais, nunca fomos agraciados com um pedido incomum como este.

- O que você quer dizer com isso? – seu tom agora era agressivo fazendo a outra sentir medo e procurar explicar rapidamente.

- Vestido de gala... Não é por este motivo que estão aqui? – perguntou tentando quebrar aquele clima tenso que vinha da amazona – Pois bem, além de fornecermos os vestidos iremos dar um trato completo em você. Mal dá para acreditar que vou providenciar tudo do melhor para uma amazona. É uma grande honra para mim.

Shina fez uma cara nada amigável. Nunca em toda sua vida alguém a tratou com tanta falsidade como naquele momento. Quem poderia acreditar que uma amazona seria tratada com tanta cordialidade? Honra? Só podia estar fazendo uma gozação com sua cara. As amazonas sempre foram tratadas como um estorvo que não faziam nada além de esconder a beleza atrás da máscara. Tirando de seus devaneios a loira colocava algumas peças de roupa em seu braço, e a conduzia ao provador. Mais e mais vestidos surgiam a sua frente. Uma hora depois de provar tantas roupas, Shina estava indecisa entre três vestidos. A atendente chamou Kamus para ver Shina desfilar timidamente com cada um daqueles que lhe chamava a atenção.

- E então, o que achou?

- Os três são perfeitos para a ocasião.

- Vamos acabar logo com isso, Kamus. Qual deles é o mais adequando? – perguntava Shina desapontada. Estava começando a se sentir como uma verdadeira princesa, e o único comentário de Kamus fora no mínimo indiferente.

- Sejamos práticos. Leve os três.

- E quanto ao tipo de calçado? Sandália ou sapato bico fino? Temos ambos aqui de salto alto.

- Um de cada. – a resposta de Kamus saiu seca.

- E quanto aos acessórios? Brincos, colares, pulseiras e bolsas... temos tudo aqui.

- Providencie tudo isso, senhorita. Preciso voltar ao santuário o mais breve possível.

- Kamus, isso tudo vai sair uma fortuna... o Grande Mestre não vai...

- Faça exatamente o que pedi e acrescente mais três vestidos informais, senhorita. – Kamus dizia frio, ignorando completamente o protesto de Shina. Virando-se para ela – Assim que terminar pegue um táxi, Shina. De preferência, use o vestido novo e jogue no lixo este que estava usando.

Saiu de lá sem dizer ou escutar mais nada, deixando Shina estarrecida para trás. Pela primeira vez depois de tantos anos ele a chamou pelo nome. Só não obedeceria a uma de suas ordens. Jamais poderia jogar aquele vestido. Era tudo o que tinha para lembrar de sua mãe que com o longo dos anos, seu rosto já estava apagada de sua mente.

Horas depois Shina saia do táxi cheia de sacolas, e passava pela entrada principal. Escutou um assovio, depois outro, e mais outro, tentando imaginar quem estava fazendo aquilo. Mais um pouco a frente encontrou um cavaleiro barrando sua passagem:

- Não sei de onde veio, senhorita, mas não pode passar sem que seja inspecionada. – o cavaleiro tentava demonstrar uma seriedade que estava longe de alcançar. Com um sorriso continuou – Poderia me seguir até o meu templo para...

- Cai fora, Milo. Não estou interessada nas suas brincadeiras.

Milo quase caiu pra trás devido ao susto e a forma que ela dizia entre os dentes.

- Shina?! É você mesma?

- E quem mais poderia ser?

- Mas você está sem a máscara, o seu cabelo está diferente... e tão linda!

- Guarde suas cantadas baratas para as mulheres sem cérebro que saem com você. – dizia deixando Milo para trás boquiaberto. – Vê se pode? Milo acha que sou idiota ou coisa parecida.

Confessou a si mesma que estava realmente diferente. O cabelo exibia um novo penteado e uma nova cor também, tudo graças à cabeleireira que era amiga da vendedora que havia atendido mais cedo. Shina sempre teve vontade se saber como ficaria com os cabelos negros, e falou isso como se fosse ao vento, mas a outra mulher escutou. Minutos depois a encaminhou para a tal amiga mesmo depois de seus protestos os quais diziam que não tinha dinheiro para pagar. Assim como a vendedora disse que seria uma grande honra oferecer do bom e do melhor que havia na loja, sua amiga cabeleireira disse o mesmo. E lá estava ela, no santuário usando um vestido tubinho tomara que caia azul, e com os cabelos negros. Olhou de soslaio e percebeu que alguns olhares se voltavam para ela. Já na frente da cabana alguém a impediu de seguir:

- Um conselho para sua própria segurança: Nunca entre na casa de Shina quando ela não está. Acredite, ela é tão terrível que muitos a chamam de Máscara da Morte de saia... ou melhor, de máscara.

Aldebaran soltou uma gargalhada ao mencionar aquela piada que os cavaleiros sempre faziam quando a via massacrar com muitos exercícios os novatos. Olhou para o rosto da mulher para ver se ela ao menos sorria já que não a escutou imitá-lo, e se surpreendeu com aquele olhar hostil ao extremo:

- Quer dizer que vocês riem as minhas custas...

- Shina?! Desculpe, eu não quis...

- Não se preocupe em explicar, cavaleiro de Touro. Podem me chamar de Máscara da Morte de saia, e todo tipo de gozação que quiserem. Afinal, uma amazona serve apenas para o divertimento dos cavaleiros.

Shina nem esperou Aldebaran tentar se desculpar mais uma vez, entrou logo em sua casa jogando aqueles embrulhos encima da mesa e depois retirou aquelas roupas que a vendedora fez questão de pedir para já sair vestida. Na hora que vestiu ficou tão feliz por estar diferente, mas agora, sentia nojo daquela roupa. Vestiu seu habitual traje de treino, pegou a máscara sobressalente colocando no rosto e saiu de casa rumo ao salão do Grande Mestre pensando: "Então todos caçoam de mim? Kamus também deve se aliar aos outros nessas horas de lazer. Como pude um dia acreditar que sentia algo por alguém assim?" Por onde passava as pessoas faziam comentários sobre quem poderia ser aquela que estava usando a máscara de Shina. Mas como ela estava rumando para o salão do Grande Mestre, acreditaram se tratar de mais alguma novata que por certo ainda não tinha sua própria máscara e estava usando uma emprestada de Shina.

Entrada do templo principal

Os soldados não permitiam de jeito nenhum que a amazona de cabelos negros entrasse. Mesmo ela dizendo se tratar de Shina, os soldados tratavam-na como uma indesejada como faziam com a maioria das novatas. Sabia disso porque passara por isso no início. Logo assim que sua mãe falecera fora levada para o santuário onde tivera uma entrevista,e depois de aprovada passara a pertencer aquele lugar. Passou por duras provações para chegar aonde chegou, e alguns simples soldados não tinham nenhum direito de agir assim com ela. Sem manifestar seu cosmo, atacou os soldados com dois potentes chutes que os fizeram entrar porta adentro. O Grande Mestre levantou-se do trono diante daquela entrada abrupta, e violenta. Shina não teria parado somente em dois chutes se não fosse pela voz inquiridora que impediu seus punhos de seguirem o curso rumo ao rosto dos soldados:

- Mas o que está acontecendo aqui?

Shina meneou a cabeça se reprovando por ter perdido a cabeça justamente na hora que precisava mostrar-se controlada e confiável. Afastou-se dos soldados indo prestar uma reverencia respeitosa ao Grande Mestre e pondo-se logo a explicar o mau entendido:

- Desculpe-me pela intromissão rude, Grande Mestre. É que eu precisava pedir uma coisa, só que esses soldados inúteis e... – Shina se interrompeu. Proferir imprecações sobre os soldados naquele momento não seria nada bom para sua imagem. – Bom, eles não queriam permitir que entrasse e...

- E achou que a melhor forma de resolver seus problemas seria a força bruta?

- Não. Desculpe-me, Grande Mestre. Não acontecerá novamente.

- Assim espero. E a que se deve sua visita, Shina?

Shina sentiu-se nervosa neste momento. Enquanto muitos se deixavam levar pela aparência, o Grande Mestre era tão poderoso que embora tenha falado com Shina apenas uma ou duas vezes, sabia quem ela era facilmente:

- Acho que não sou a amazona mais indicada para ir a esse coquetel.

- Já está tudo decidido, Shina. Você vai a este coquetel acompanhada de Kamus e Saga. Além do mais, vocês representarão o Santuário como pessoas comuns e não como amazona e cavaleiros de Athena.

- Mas pode simplesmente mandar a Marin ou June em meu lugar. Não serei muito útil nesse coquetel.

- Por qual motivo? Sei exatamente que a demonstração gratuita de violência de agora a pouco é rotineiro de sua parte, e mesmo assim concordei com Saga.

- Quer dizer que é Saga que está por trás de tudo isso?

- A que se refere, amazona?

- Nada que seja relevante, Grande Mestre. Sentirei-me muito honrada em representar a classe das amazonas neste coquetel. Com licença.

Shina já atravessava o salão rumo à saída quando escutou o que o Grande mestre disse:

- Shina, ficou muito bonita com essa mudança na aparência.

- Obrigada. – respondeu sem jeito e saiu praticamente correndo assim que atravessou o portal do templo.

Continua...

Espero que estejam gostando, e comentem o que estão achando desse fic. Beijos e até o próximo capitulo.