Capitulo II
"Madre de los Dioses" exclamou Shura estupefato sem conseguir reagir de outra forma diante do que acabara de ver. As flores que ele trazia escondidas atrás de seu corpo caíram no chão. Que tipo de vingança Marin queria agindo daquela maneira nada condizente com a amazona responsável e respeitadora das leis? Agora sim que as coisas não teriam mais volta mesmo. De quê adiantaria tentar fechar os olhos, virar o rosto ou colocar as mãos protegendo seus olhos se o estrago já havia sido feito? Sim, Shura viu todos os detalhes do rosto de Marin. Ela realmente era muito bonita. Poderia passar cinqüenta anos e mesmo assim conseguiria lembrar minuciosamente sobre o que vira. Aquele nariz aquilino, aquela boca carnuda que esbanjava sensualidade, aqueles olhos... por todos os deuses, era linda demais. Como todos os homens do santuário puderam viver tanto tempo sem ao menos ver tão linda mulher que ela era escondida atrás daquela máscara? Sentindo-se um calhorda por agradecer o mau entendido entre Marin e Aiolia só para tê-la somente com ele, pegou as flores que caíram no chão e entregou a Marin sem dizer nada. Mesmo que conseguisse falar, o que diria? Vamos desistir do jantar e ir pra sua ou para minha casa? Não, claro que não. Não queria assustá-la. Mas bem que essa idéia passou por sua cabeça, não tinha como negar. Marin enviou-lhe um sorriso encantador que faria qualquer homem ajoelhar a seus pés e jurar fidelidade para toda a eternidade.
- Obrigada, Shura. Não precisava se dar ao trabalho.
- Oras, não foi nada. – não foi nada o quê, teve que se sujeitar a pedir a Afrodite e receber todo tipo de cantada dele, pensou Shura. – Afinal, você quer que o Aiolia prove do próprio remédio não quer?
- É lógico. Caso contrario não estaríamos indo para um restaurante como se fossemos apaixonados.
Parecia que Shura fora apunhalado varias vezes no peito. Depois de todo o esforço que fez, escutar Marin dizendo isso foi pior do que qualquer batalha já travada em sua vida. Como fora ele mesmo que havia proposto aquela farsa, não se tornara difícil aceitar que Marin não gostasse dele como ele queria. Mas daí a escutar Marin dando vida a seus temores, isso não dava para ruminar com facilidade.
- Aonde iremos? – Marin perguntou sem perceber a expressão abatida de Shura.
- Em um restaurante espanhol na parte antiga da cidade. A menos que queira ir a outro tipo de culinária...
- Não, assim está ótimo. Vamos?
No restaurante
Comeram maravilhosas comidas da culinária espanhola, e Marin sorria feliz:
- Nunca tinha experimentado algo semelhante, Shura. É realmente uma delícia.
- Que bom que a comida lhe agradou.
- Não foi só a comida. O ambiente, sua companhia...
- Marin, a quem você está querendo enganar? Só estamos nós dois aqui.
- Pois saiba que embora não tenhamos um relacionamento como o que eu queria ter com Aiolia, não significa que eu seja indiferente a você.
- Desculpe-me por minhas poucas maneiras.
- De forma alguma me senti agredida por suas palavras, Shura. Gosto da sua sinceridade e de muitos outros atributos que tem. Sei como se sente em relação ao que tem acontecido entre nós dois.
- Você sabe?
Shura estava perplexo com o que acabara de ouvir, e sua voz soou insegura. Já que ela sabe, o que irá acontecer com eles? Ela iria se afastar desistindo de toda aquela farsa, ou simplesmente deixaria como está?, pensou Shura.
- Claro que sei. É óbvio que você se sente pouco à vontade ao ter que fingir e magoar Aioria que de uns tempos pra cá se tornou seu companheiro de treinamento.
Shura sentiu seu estomago dar reviravoltas. O que Marin pensava era totalmente o contrario do que ele estava sentindo mesmo. Estava pouco se lixando se Aiolia estava magoado, ou se ele queria tentar retomar Marin para si. Antes do episodio da escadaria nunca havia prestado atenção em Marin, e nem tão pouco se meterei entre aqueles dois que nunca se decidiam. Contudo, depois de tentar ajudá-la naquela vingança começou a nutrir um sentimento, e tinha certeza que não era de compaixão pelo que houve entre eles.
- Que tal dançarmos um pouco? Já que estamos aqui, vamos aproveitar cada minuto desta noite maravilhosa. É só uma pena que não sei dançar flamenco, nem entender o qual é o nome da musica.
- O nome desta musica é "Duérmete, Curro". – respondeu Shura saindo de seu devaneio – Um dia, se você quiser é claro, posso te ensinar a dançar flamenco. Por hoje podíamos ir à boate que tem aqui perto.
- Ótima idéia.
O animo de Shura logo tornou a tomar conta de seu corpo novamente. Embora vez ou outra Marin acabava com todo o encanto da noite, acabava inventando algo que o fazia esquecer sua decepção como estava acontecendo naquele exato minuto. Chegaram a boate que estava abarrotada de gente. Dançaram varias musicas, da mais agitada a musica lenta. Claro que era bom ver como os movimentos de Marin surgiam graciosos no meio de toda aquela agitação, mas o bom mesmo era quando a musica lenta exigia que colassem seus corpos. Ele queria mesmo dançar com Marin bem juntinho, mas sua consciência exigia muito cuidado com suas ações. Para sua sorte, Marin resolveu seu impasse dizendo ao mesmo tempo em que agia deixando Shura um pouco constrangido:
- Por Athena, Shura, eu não mordo! Não dá para dançar esta musica com toda esta distancia.
Quem poderia resistir aquele sorriso? Não ele. Aceitou com muito grado e os dois dançaram esta e varias outras musicas lentas. Para os outros casais, aqueles dois estavam dançando a uma eternidade, mas para Shura pareceu poucos minutos de tão compenetrado que estava em sentir aquele corpo junto ao seu, aquele perfume delicioso. Marin só mostrou um pouco de cansaço quando recostou seu rosto no ombro de Shura. Pareceu que milhões de volts circundava seu corpo. Pôde sentir o aroma daqueles cabelos sedosos invadir suas narinas. Aproximou o rosto daquela vasta cabeleira que estava um pouco abaixo de seu alcance para sentir melhor aquela fragrância. Em seu intimo, uma batalha estava sendo travada ferozmente. Seu corpo clamava que a tomasse em seus braços e desse um beijo inesquecível, sua consciência dizia que era melhor afastar-se. Sentiu-se surpreso com suas próprias palavras:
- Acho melhor a gente voltar. Está ficando tarde e você me parece cansada.
- Estou sim, mas você dança tão bem que nem dá para perceber que dançando á horas seguidas. Quero ao menos terminar esta dança.
Shura quase não consegue conter o impulso de tomá-la nos braços ao sentir o ar morno de sua respiração que se seguiu quando Marin lhe respondeu. Estava imaginando como aqueles lábios estariam. Claro, pela forma que estava sentindo o calor da respiração bater no tecido de sua camisa e interpor sobre ela, era possível que estivesse com os lábios entreabertos loucos para receberem uma carícia. Shura afastou estes pensamentos e dedicou-se a dançar. Quando a musica terminou, protestou baixinho, sendo o único a escutá-la. Sentiu-se surpreso quando uma mão fina segurou a sua com um pouco de firmeza e conduzia com dificuldade para fora dali. Percebendo a dificuldade dela, ele trocou de lugar com ela. Agora quem conduzia com sucesso era Shura. Ao chegar do lado de fora, Shura quase esqueceu de soltar a mão de Marin.
- Está na hora de voltar.
- Ainda está cedo, Shura. – Marin dizia isso em tom alto de voz ao mesmo tempo em que enlaçava o pescoço dele com os braços e ficava nas pontas dos pés para chegar mais próximo ao seu rosto – Vamos aproveitar mais um pouquinho para namorar, querido...
Querido? Desde quando ela o chamava assim? E qual era o motivo daquele sorriso enigmático? Ah, não. Não podia ser o que estava imaginando. Nem teve tempo de emboçar alguma reação. Marin já se apoderava de seus lábios com sofreguidão e seu coração manifestava-se com um ritmo que jamais havia feito com outras mulheres. Logo Shura sentiu um forte puxão em sua camisa e logo a seguir um soco atingiu seu rosto. Sua face estava pegando fogo, e não era por causa do soco que acabara de receber mas sim por causa da raiva que se seguiu após ele. Não sabia se sentia mais raiva de Aioria por ser o causador da dor em seu maxilar, ou se por Marin ter lhe dado o beijo já pressentindo a presença de Aioria, e o fizera para irritá-lo. Sentindo que precisava extravasar sua raiva em algum objeto, direcionou seu punho contra Aioria que estava com uma feição estranha. Marin se interpôs entre os dois:
- Ele pode estar em estado de embriagues, mas isso não significa que tem o direito de me atacar sem que eu dê a resposta a este ato traiçoeiro.
- Traiçoeiro? Que eu saiba a pessoa que traiu o santuário foi você quando quis matar Athena ainda bebê, e como se não bastasse aceitou a dádiva de Hades para matá-la anos depois. Traiçoeiro aqui é você, que sabendo como sentia em ralação a Marin tomou-a de mim sem pestanejar. E eu não estou embriagado.
Shura tentou afastar Marin sem que lhe machucasse, mas ela voltou-se com firmeza segurando em seu braço.
- Shura, não vale a pena. Vamos voltar para o santuário agora.
- E o que você sugere que faça com meu orgulho ferido, Marin?
- Engula-o. Pode-se notar que Aiolia não se encontra em seu estado normal.
- Não preciso de nenhuma mulher para me defender. Principalmente uma que...
Aioria sentiu na pele a dor que a pouco causou a Shura que acabara de afastar Marin e interrompia a frase com um soco em sua face. A ira contida naquele soco fora tão forte que recuou um pouco. Sem perceber que estava no limite da calçada, tropeçou para trás caindo com toda violência no chão. Shura deu um passo a frente, com os olhos brilhando de ódio. Mais uma vez Marin se pôs na frente dele:
- Volte para o santuário e acalme-se, Shura. Aioria não está em condições de medir suas palavras.
- Você o protege depois da calunia que ele pretendia falar? Você ainda ama uma pessoa que nem se importa com seus sentimentos.
Marin olhou para o chão, vendo Aioria inconsciente devido a forte pancada na cabeça e auxiliado pela embriagues. Shura saiu dali furioso ao ver que ela nada dizia para discordar de sua opinião. Tinha a esperança de que ela falaria algo que mostrasse apenas piedade a qual seria igual, sem distinção de caso ou sexo, para qualquer ser que precisasse. Mas o que ele pôde ver ali foi duas pessoas que se gostavam muito, e que agora, magoados, agiam de forma condizente a seus atos. Sim, Aioria com ciúmes ataca-o, e Marin transtornada pelo efeito desfavorável a sua vingança, apieda-se dele porque ainda ama-o muito a ponto de perdoar desde a sua pequena falha a aquela maior de todas.
Santuário
Um certo alguém estava sentado a beira da cama, usando apenas uma bermuda. O peito forte arfava a mais de um minuto com todos os tipos de praguejar:
- Aquel perro viejo, Hijo de... – parou de falar ao perceber quem adentrava seu quarto como um furacão. Com amargura lhe dirige a palavra. – Y usted, Marin le gusta mucho tratar a uno como a um perro.
- Poderia falar em um idioma que eu possa entender?
Shura nem percebia que falara em seu idioma natal, tamanha ira que sentia e que fazia esquecer onde estava e com quem estava falando.
- Digo que você gosta muito de tratar alguém como um cachorro. Que não passo disso para você.
- Shura! – Marin repreendeu magoada com ouvira, não era de todo o certo – Eu não queria que você agredisse Aioria por que quero uma vingança, e não um massacre.
- Desculpe-me, não tinha a pretensão de causar grandes danos a uma pessoa tão generosa e amável como você. – falou com ironia. Querendo reparar seu erro ao ver quão magoara a pessoa amada com palavras rudes, continuou com sinceridade absoluta. – Meu orgulho é algo que estimo muito, e nada posso fazer para agradar a gregos e troianos.
Shura usou este ditado popular para disfarçar seus ciúmes, tendo em conta que não era nada mais que um amigo e confidente a partir daquele momento em que a avistou tão sentimental e frágil. Entendendo completamente, respondeu a esta replica de forma compreensível e amável:
- Shura, agradeço tudo o que fez por mim do fundo do coração. Acredito que seu orgulho não deve ser manchado por algo tão vil quanto a minha vingança. Entretanto, algo me diz que Aiolia fará acusações a você posteriormente. Nada me importa o que dirá de mim, e sim de como se sentirá meu bom amigo que conheci a um mês com acusações infrutíferas a sua pessoa. Conheço seu orgulho, e só fiz manchá-lo com minhas atitudes egoístas.
Entendendo de súbito em que lugar aquelas palavras iriam chegar, Shura se antecipou temente ao futuro e aos sentimentos de Marin, corrigindo sua ação que foi no mínimo egoísta e sem base:
- Não se preocupe com essas tolices. Aioria está magoado e só depois que eu esfriei a cabeça pude ver que ele jamais faria algo como aquelas acusações em seu estado normal. Infelizmente ele está se denegrindo por causa de toda essa farsa.
- Está sugerindo que terminemos com a farsa? Não acho que Aioria tenha pago tudo o que me deve. Todavia, entendo que essa situação se tornou insustentável para você, e por este motivo, não pretendo continuar minha vingança com sua ajuda.
- Espere ai, Marin. O que você quer dizer com isso?
- Que procurarei outra pessoa que se enquadre neste papel.
- De forma alguma permitirei que cometa uma insanidade dessas. – ao ver estampado no rosto de Marin um assombro por causa da forma brusca que segurou seu braço com firmeza chegando até mesmo a marcá-la um pouco afrouxou um pouco e tentou mudar sua atenção – Meu orgulho sempre vem em primeiro lugar. Como acha que ficará minha reputação se sair por ai com qualquer um? As pessoas entenderiam se você voltasse para Aioria, mas uma pessoa qualquer, nunca.
- Shura, eu e Aioria nunca passamos de amigos porque nunca tivemos oportunidade para isso. A minha relação com ele não passava de rápidos encontros relacionados ao santuário.
- Marin... você quer dizer que eu sou o primeiro homem a ver seu rosto?
- Sim.
- Por Athena, Marin. Essa foi a maior confusão em que me meti em toda minha vida. Não é à toa que Aioria ficou transtornado a ponto de agredir-me. Você não parou para pensar nas conseqüências de seus atos.
- Desculpe-me. Realmente não pensei no que estava fazendo. Oh, Shura, o que eu faço agora?
- Embora a noite tenha sido agradável até aquele momento, ficamos cansados com toda aquela agitação. Vamos cada um dormir em nossas próprias camas, e amanhã veremos o que fazer em relação a esta questão. Boa noite, Marin. Durma bem.
- Você também. Até amanhã.
Assim que Marin saiu, Shura se jogou na cama e ficou olhando fixamente para o teto e pensando: "Isso vai dar confusão, ah vai. Mas o que importa quando isso acontecer? Marin vale cada gota de suor, cada dor de cabeça devido ao temperamento tempestuoso de Aioria, e cada punição do grande mestre. O que me preocupa agora é o que acontecerá amanhã. E se ela desistir de tudo e correr a pedir perdão a Aiolia? Não poderei fazer nada, e sofrerei até meu ultimo segundo de vida. Sea lo que Dios quiera".
Encostada a coluna do templo de Capricórnio, Marin lembrou-se de toda as horas que ela e Shura passaram juntos. No momento que dançaram até a hora do beijo que diga por sinal, fora muito bom. Era realmente uma pena que nunca havia olhado para Shura com outros olhos. Ele era encantador. E sem camisa então... Um homem como aquele deveria ser preso por atentado violento ao pudor se andasse por ai com calça e camisa justa. E suas mãos? Eram perfeitas. Nunca pensou que um dia acharia as mãos de uma pessoa atraente. Como seria sentir cada centímetro de seu corpo acariciado por aquelas mãos calejadas pelos exercícios deveras rígidos? Nunca saberia, afinal de contas o que existia entre eles era apenas amizade e um acordo. Uma coisa era certa, pensou Marin, a mulher que conquistar seu coração será a mais feliz de todas.
- Marin, o que faz ai?
- Ah, oi Afrodite. Eu...
- Por minha deusa, você está sem sua máscara! – assim que Afrodite se desfez do susto lembrou de algumas coisas – Então é verdade mesmo acerca daquele boato. Você e Shura estão tendo um caso.
- Que forma mais rude de dizer que estamos namorando. – ralhou Marin constrangida com a falta de tato do cavaleiro de peixes.
- Desculpe-me, querida, mas só podia deduzir isso, afinal de contas você e Aioria...
- Não existe e nem nunca existiu eu e Aioria.
- Não era o que todos diziam. – rebateu maliciosamente.
- E o que todos diziam, posso saber?
- Oras, que vocês dois praticamente moravam juntos, já que na calada da noite ninguém sabia o que vocês faziam. – sorriu cinicamente e se corrigiu. – Não, correção, todos imaginavam sim.
- E quem é o autor de tal difama? – inquiriu prontamente com o rosto sério.
- Olha, querida, acabei de lembrar-me que tenho um compromisso inadiável. Boa noite.
Afrodite saiu de fininho para não ter que responder o bombardeiro de perguntas que se seguiriam. Marin poderia procurar saber quem foi o infame que espalhou essa mentira descabida, mas desistiu. Pensassem o que quisessem. Agora estava saindo com Shura, e não poderia causar alarde em relação ao que ainda sentia por Aioria. Claro que os comentários aumentariam a proporção do problema, e logo seu amigo Shura não teria onde enfiar a cabeça. Era melhor voltar para sua casa e descansar como aconselhara Shura. Foi exatamente o que fez. Ao contraio de Shura, Marin teve uma boa noite de sono.
Na manha seguinte, Marin estava resoluta. Não abdicaria de continuar com a farsa junto a Shura, que mentalmente lhe foi muito grato por esta decisão. Mas ela voltou a usar sua máscara para não atiçar mais ainda a ira de Aioria. Queria vingança sim, e não um desnecessário derramamento de sangue. Shura e Marin sentiam o olhar mortal de Aioria. Sabia que tudo o que eles faziam era seguido pelo par de olhos atentos do leonino.
- Ele está olhando?
- Pela milésima vez, Marin, sim. Aioria não tira os olhos da gente.
- Problema dele então. Venha, vamos almoçar.
- Não vai almoçar junto conosco não é?
- Claro que vou. Só usava aquela sala porque ninguém tinha visto meu rosto, mas agora...
- Não provoque mais ainda Aioria. O leão que dorme em sua alma pode despertar sedento de sede. Sede de sangue.
- Tudo bem então, Shura. Talvez seja melhor almoçar com June e Shina mesmo. Ao menos podemos ir ao refeitório juntos, não é?
Shura deu de ombros aceitando sem muita convicção. Aquele plano fora idéia dele, e agora tinha que arcar com as conseqüências. Se bem que estava sendo até bom contar com a companhia de Marin. Era uma mulher agradável, e acima de tudo, atraente.
Mas um dia havia se passado envolto de preocupações com o próximo passo do cavaleiro de Leão. Felizmente nenhum incidente aconteceu depois daquela noite desastrosa. Mas o pressentimento de Shura estava em alerta, e seu coração bateu descompassado ao ver que estava certo, algo acabara de acontecer. Marin adentrava o salão de seu templo com os olhos rasos d'água. Sem dizer uma palavra, aninhou o corpo menor em seu peito passando a mão em suas costas para tentar consolá-la. Quando os soluços diminuíram, Marin começou a contar ainda chorosa, o que havia acontecido.
- Aquele monstro... Tudo o que eu queria era ajudá-lo.
- Marin, respire devagar. Da forma que está, não conseguirei entender nem muito menos tentar ajudar. – Shura imaginou que Aioria havia dito alguns desaforos.
- Aioria me abordou embriagado novamente... na verdade eu estava vindo para o templo principal, e o vi com um corte sério na mão. Ao que parece, ele quebrou um copo e estava sangrando muito. Então quando me aproximei, ele arrancou minha máscara me beijou e depois... ah, Shura, foi horrível. Nunca pensei que pudesse ser tão humilhada em toda a minha vida.
- Por la madre de los Dioses, Marin, o que aconteceu?
Shura indagou desesperado diante daquele silêncio, que nem percebeu estar falando dois idiomas misturando-se. Uma idéia passou por sua mente, e não era nada reconfortante. Separou-a de seu corpo fitando aqueles olhos marejados com seus olhos arregalados. Com a voz insegura conseguiu soltar uma exclamação seguida por uma pergunta que assombrou sua mente:
– Por Athena, Marin! Vocês não... ?
Shura se interrompeu atônito com o fato de Marin desviar o olhar dele. Sentiu um gosto amargo em sua boca, que logo depois descobriu ser seu próprio sangue. Na tentativa de conter todos aqueles sentimentos conturbados de ira, revolta e preocupação com estado de Marin, mordeu seu lábio inferior arrancando-lhe sangue.
Continua...
