VOYEUR

Capítulo 02 – Despertar para um pesadelo.

Os olhos esmeralda se abrem devagar, ainda embaçados, tentando fixar alguma imagem. Aos poucos os arabescos... As belas pinturas de origem árabe que se espalhavam na forma de ramalhetes no teto vão se revelando, deixando-o ainda mais confuso. Não consegue se lembrar do que acontecera... Como fôra parar ali? Apóia os cotovelos na cama e tenta levantar a cabeça, mas rapidamente uma forte tontura assola seu cérebro, fazendo-o cair sobre o travesseiro e seu estômago fica embrulhado no mesmo instante.

"O que está acontecendo comigo?" – Pensa com certa dificuldade.

Alguns minutos se passam enquanto Hisoka tenta controlar sua vertigem. Devagar as coisas voltam ao foco, mas continua enjoado e dessa vez tenta levantar, mas faz isso de forma lenta e segura, escorregando pela cama e sentando-se no chão, controlando sua respiração para que uma nova ânsia de vômito não o assole novamente. Acostumando-se com esta nova posição, aproveita para vislumbrar um pouco do ambiente do lugar onde está.

Hisoka percebe que é um quarto ricamente decorado, com um papel de parede com flores miúdas e cortinas floridas emoldurando uma grande janela. Em uma mesa, próxima da janela, algumas guloseimas e um requintado jogo de chá deixam a entender que seus raptores não pretendem fazer daquilo uma prisão a pão e água.

Sua atenção é então atraída por um leve gemido vindo da cama. Estava tão tonto ao deixar o colchão macio que nem olhara para o lado. Volta-se devagar e se depara com um garoto loiro, que começa a se mover lentamente. Pelo jeito ele também fôra capturado, desperta aos poucos e isso o deixa mais preocupado ainda, pois tudo lhe parece ainda mais assustador. Encosta o queixo no colchão, ainda se sentindo um pouco enjoado, fixando seus olhos no pequeno que abre os belos orbes sem pressa, revelando duas enormes safiras brilhantes, ainda embaçadas pela vertigem.

- É melhor não levantar depressa. – Um leve sorriso solidário surge em seus lábios rosados.

Os olhos de safira miram Hisoka e o foca aos poucos.

- ... Vai te deixar enjoado. – Respira fundo para deixar de sentir-se mal - Quando a tontura passar, escorregue pra fora da cama e sente-se no chão.

- O quê...? Onde...? – Omi ainda tenta definir o que está acontecendo.

- Também não sei. – Hisoka volta a sua posição original, pois a cabeça virada para trás piora sua sensação ruim no estômago. – Ainda estou lutando pra conseguir ficar de pé.

Omi vagarosamente segue o conselho de seu colega de cativeiro, escorregando da cama e sentando-se a seu lado. Realmente a sensação ao sentar é terrível, o quarto inteiro parecendo rodar diante de seus olhos. Procura concentrar-se em algum ponto do cômodo, esperando que isso minimize a sensação de vertigem. Volta-se então para o garoto a seu lado, de cabeça baixa e olhos fechados, um pouco mais alto que ele, tendo uma aparência frágil, quase etérea.

- Meu nome é Omi. – Fala, mas volta a olhar fixo um quadro na parede do outro lado do quarto.

- Me chamo Hisoka. – Responde ainda de olhos fechados.

- Parece que estamos numa bela enrascada. Como foi capturado? – Indaga em tom baixo.

- Estava no shopping... Senti uma picada nas costas e... – Abre os olhos e se volta para o outro.

Omi agora mantém suas brilhantes safiras em Hisoka.

- E você... Como o pegaram? – Dá um pequeno suspiro e pisca lentamente.

- Bem... Eu... – Como contar que é um assassino? E que fôra capturado durante uma missão? – Você tem idéia de por que nos pegaram?

- Não tenho idéia... Mas vou sair desse quarto assim que passar esse mal-estar. – Hisoka se concentra na procura de respostas. Omi tem razão. Qual seria a razão para terem seqüestrado os dois?

Lentamente Hisoka levanta e anda até a janela. Pode ver o lado de fora, uma propriedade enorme, cercada por um bosque fechado, de árvores altas. Nem imagina onde podem estar. Toca o vidro, tentando sentir a resistência deste, percebendo que provavelmente é blindado. A janela também não pode ser aberta, pois está soldada. Eles podem ver o exterior, mas não sair. Isso o deixa mais confuso.

- Vou ter de fazer algo para sair daqui, mas... Não quero que se assuste. – Diz isso sem olhar para o garoto. Preferia fazer seu truque sem chocar o pequeno adolescente, mas tem de fazer.

O jovem shinigami fecha os olhos e se concentra em se teletransportar dali, assim pode conseguir ajuda para Omi, mas há algo de errado. Por mais que se fixe em seu objetivo, não há qualquer movimento. Permanece exatamente no mesmo lugar de antes. O que poderia estar acontecendo? Toca a parede em busca de respostas e, através de sua empatia, percebe a realidade.

- Esta sala está selada. – Permanece de cabeça baixa, a desesperança evidente em seus olhos, que evitam os de Omi.

- O que? – O arqueiro tenta se levantar, mas ainda sente a vertigem, o que o força a sentar novamente. – Não entendo o que está falando.

- Esses seqüestradores sabiam muito bem quem eu era e... Quais os meus poderes. – Ainda não tem coragem de olhar para as safiras que o encaram ainda sem entender. – Eu sou um shinigami... Na verdade... Não estou vivo.

Os olhos azuis piscam um pouco mais rápido, ainda tentando captar toda a imensidão do que ouviu. Poderes... Shinigami... Não vivo... Como assim 'não vivo'? Aquilo não tem lógica e... Omi suspira, tentando raciocinar melhor. Já viu tanta coisa... O garoto não teria por que mentir em um momento como aquele. Fixa seus olhos nas costas do rapaz de madeixas loiro-areia e se acalma. Então Hisoka não é um garoto comum... Como ele.

- É por isso que te pegaram...? Você é diferente... – Ele se levanta devagar, escorando-se na parede, pensando a respeito, captando as semelhanças...

Anda na direção de Hisoka e se coloca a seu lado.

- ... Então temos isso em comum. - Os olhos verdes se erguem levemente entre os fios dourados que caem sobre seu rosto ao ouvir tais palavras. Há uma profunda surpresa neles.

- O que você quer dizer com isso? – Hisoka não entende como esse garoto nem sequer se abalou com sua revelação.

- Eu sou um assassino... Foi assim que me capturaram. Estava em uma missão. – Os olhos azuis o encaram, esperando ver o que o garoto não-vivo pensa disso.

- ...! – Hisoka apenas o fita. Assassino? Aquele menino é um assassino? Mas... Por que sente como se ele não gostasse do que faz? Ou melhor... Se Omi é um matador profissional, não mata sem um bom motivo. É o que sente enquanto olha nos olhos azuis...

- Nós dois não somos comuns... Somos garotos com habilidades especiais, não é? – Diz o chibi, vendo que o outro não estranhou, apesar de olhá-lo analiticamente após alguns instantes.

Realmente tudo o que Omi diz tem muito sentido. Foram capturados por suas habilidades e todo esse quarto está preparado para impedir que as usem. Olha para o menino de cabelos loiros, levantando sua cabeça de forma resoluta, percebendo que pelo menos têm alguma pista, mas nota algo que o faz parar. Por cima do ombro deste vislumbra a cama e mais um garoto deitado, ainda adormecido.

- Omi... Não fomos somente nós dois. – Fala pausadamente, quase num sussurro.

O jovem Weiss volta-se na direção da cama e percebe que o pequeno deitado sobre os lençóis é alguém conhecido, surpreendendo-se ao reconhecê-lo... Nagi Naoe também não é um garoto comum, em absoluto, o que torna a questão ainda mais séria.

- E como funciona o selo dessa sala? – Diz sem sequer se virar para Hisoka.

- Senti que todo e qualquer poder que for exteriorizado vai refletir e voltar. – Pensa numa analogia que possa representar o que tenta dizer. – É como se fosse uma sala de metal e você atirasse na parede. O ricocheteio poderia se voltar contra você, mas não abalaria a sala.

- E é bem forte? – O arqueiro ainda não tira os olhos do garoto de cabelos chocolate.

- Muito... Por quê? – Pergunta intrigado.

- Conheço esse garoto e... O poder dele é imenso. – Finalmente se volta para o companheiro. – Ele é um telecinético e, sob alto stress, seria capaz de pulverizar essa casa.

- Se ele tentar isso... Só vai destruir o que está nesse quarto, inclusive ele e nós.

O que quer que esteja acontecendo, é bem pior do que poderiam esperar.

ooOoo

Nagi desperta de seu sono abruptamente, ainda com toda a angústia do momento em que perdera os sentidos. A última visão que tivera daquele homem loiro, de meia idade, ainda povoa sua mente de forma perturbadora. Abre os olhos de uma vez, mas logo a vertigem o impede de levantar. Sua visão ainda está embaçada, mas duas imagens começam a se definir... Dois garotos conversam próximos da janela. Demora a definir suas formas, vendo apenas suas silhuetas, suas vozes não passando de zunidos em sua mente ainda desorientada.

Aos poucos a tontura vai passando e as imagens e sons começam a ganhar forma. O rapaz de frente para ele não é conhecido, mas a voz do outro tem algo de familiar. Já a ouviu em algum lugar. Tenta se concentrar nisso, tentando entender o que está acontecendo. A roupa então chama sua atenção. Disfarça o fato de já estar acordado e observa aquelas roupas... Casaco preto, outro branco de capuz por baixo, bermudas e... A bandana! Tem dificuldade em disfarçar o nervosismo. Então os Weiss chegaram a esse ponto?! Isso o surpreende, pois sempre foram tão cheios de princípios, principalmente o pequeno arqueiro. E quando se volta para observá-lo. Sim! É ele mesmo. Então espera que lhe volte as costas novamente, falando algo que não consegue ouvir.

- Weiss! - Nagi levanta rapidamente, percorrendo a curta distância que o separa de Omi e pula sobre ele, que cai com o pequeno Schwarz sobre suas costas.

O loirinho tenta livrar-se do ataque, mas o garoto continua golpeando-o. Hisoka fica ali parado, desejando separá-los, mas temendo tocar qualquer um deles em um momento tenso como esse.

- Garoto, pare... Por favor. – Era a única reação que podia demonstrar, rodeando os dois no chão, tentando encontrar uma forma de intervir.

- Nagi... Me escuta... Ah! – Omi tenta argumentar, já que o habilidoso garoto o mantém preso naquela posição, apesar de ser mais fraco fisicamente, no entanto, uma pequena parcela de seu poder o mantém preso ao chão.

- O que vocês estão fazendo comigo? – Ele se recusa a ouvir qualquer coisa dita por seu inimigo. – Quando os outros vão aparecer?

Um novo soco acerta a nuca de Omi, deixando-o atordoado. O shinigami percebe que tudo isso pode sair do controle. Procura algo no quarto com o que possa separá-los, mas não deseja machucar o garoto. Ele também está confuso, até mais, pois acabou de despertar e então encontra alguma coisa com potencial. Corre até a cama e pega um dos travesseiros. Anda até ele e imprimi toda sua força para acertá-lo na cabeça, retirando-o de cima de sua vítima, que consegue sentar-se e se arrastar até a parede, tentando se refazer do ataque.

Nagi, por sua vez, cai de lado, atordoado, tentando se levantar para voltar a atacar, mas falhando miseravelmente, as pernas ainda bambas. Olha para o jovem de olhos esmeralda ainda de pé diante dele.

Hisoka continua segurando firme o travesseiro, pronto para qualquer tentativa dele atacar Omi novamente, mas logo percebe que isso não acontecerá, relaxando, sua respiração ainda ofegante com o esforço que fizera para atacá-lo.

- Será que você pode... Nos escutar agora? – O guardião da morte tem certa dificuldade para falar.

- Não tenho outra escolha. – Os olhos azul-índigo se levantam e o encaram em desafio. – Vamos, conte-me algumas mentiras...

- Pode acreditar ou não, mas estamos no mesmo barco. – Certa fraqueza fazendo suas pernas bambearem, forçando-o recuar e sentar na cama.

Nagi ainda o olha com reprovação, vendo também Omi do outro lado do quarto.

- Belo grupo somos nós! Se estes pervertidos queriam nossas habilidades, só estão vendo uns garotinhos desmoronando. – Comenta Hisoka, controlando sua respiração.

- Nossas habilidades?! – O moreninho o olha com interesse.

- Eu sou um shinigami... Já ouviu falar? – Sabe que tem que ir com cuidado com ele. O seu nível de hostilidade é ainda bastante alto, o que está bem claro em seus olhos.

- São seres mitológicos. Os guardiões dos mortos. – Solta uma risadinha irônica. – Pensei que viria com algo melhor. Essa mentira...

- Cala a boca, Nagi! Deixa ele falar. – Omi se levanta devagar, ainda encostado à parede.

O pequeno faz menção de reagir a isso, mas percebe que há seriedade na expressão do jovem sentado na cama.

- Eu vou te provar que estou dizendo a verdade. – Levanta, anda pelo quarto e se depara com um espelho. Pára diante dele por alguns minutos, percebendo como tudo o que ocorreu até agora... O seqüestro, seu despertar, a briga entre os garotos... O deixara ainda mais pálido, se isso é possível. Tira o espelho da parede e o joga no chão, deixando os outros dois surpresos. Hisoka toma um dos pedaços e fica entre eles.

- O que você vai fazer? – Pergunta Omi, enquanto olha intrigado para o shinigami.

- ...! – Nagi apenas observa sem nada dizer.

- Vou provar pra vocês que não estou brincando. – Fala Hisoka com frieza.

Com o pedaço de espelho ele faz um profundo corte no próprio braço, que sangra profusamente. É evidente a dor que sente, fazendo Omi e Nagi estremecerem, mas apesar da surpresa inicial, eles não conseguem tirar os olhos do ferimento auto-infligido. O sangue escorre pelo braço e pinga no chão imaculadamente branco, no entanto, logo o sangramento começa a parar e a pele se refaz devagar, ficando como se nada tivesse acontecido.

- ...! – O pequeno Schwarz se levanta, ainda é difícil acreditar no que seus olhos acabaram de testemunhar.

- Acredita na minha sinceridade agora? – Hisoka volta a sentar na cama, o esforço da regeneração drenando suas energias. – Fomos todos seqüestrados.

- Mas quem faria isso? – Ele lança um olhar para Omi, notando que esta sua pergunta encontra eco também no coração de seu velho inimigo.

- Não sabemos. Também acabamos de acordar. – O arqueiro se aproxima dele, percebendo que o pequeno machucara o cotovelo ao cair, porém vê que o moreno se afasta, provavelmente ainda desconfiando de toda essa gentileza. Ele então se afasta um pouco, dando as costas para o garoto. – Precisamos encontrar primeiro uma forma de sair daqui.

- Isso é fácil. – Nagi lança um sorrisinho sarcástico para Hisoka.

Mas logo os dois garotos loiros entendem o significado daquelas palavras.

- Nagi... Não! – Omi se volta depressa tentando segurar o pequeno pelo braço.

A energia telecinética de Nagi se expande na direção das paredes do quarto, antes mesmo que os outros dois conseguissem impedi-lo. Há alguma coisa errada e logo o Prodígio percebe isso. Nunca sua energia agira assim. Tenta manter o controle dela, concentrando-a na porta, mas ela parece chegar até ela e resistir... Tudo isso em uma fração de segundo, que para o garoto parece uma eternidade.

Sente então que toda a força que imprimira começa a ceder à resistência e faz o caminho inverso, ricocheteando no quarto, jogando os dois loiros contra as paredes, arrancando quadros e outras coisas que decoram o ambiente. Os garotos caídos no chão completamente sem sentidos. Nagi, de pé, usa toda a força que conseguira concentrar para proteger-se, mas o esforço o faz fraquejar e cair de joelhos, exausto.

Hisoka volta a si e levanta devagar, ainda sentindo-se tonto. Sua capacidade de regeneração novamente funcionando em seu favor, mas deixando-o ainda mais pálido. Fica parado um instante, observando todo o estrago, o garoto moreno praticamente sentado no centro do aposento. Omi estava certo, ele é mesmo muito...

- Omi! – Hisoka procura pelo arqueiro, até que o vê caído do outro lado da cama. Toda a energia o atingira em cheio, jogando-o contra a parede com grande intensidade.

Anda até ele, ajoelhando-se ao seu lado, colocando sua cabeça sobre seu colo. Afasta os macios cabelos loiros, passando a mão esguia por seu rosto e vê que um grande hematoma já se forma em sua testa. Os olhos azuis se abrem devagar, a consciência trazendo a ciência da dor na cabeça, levando a mão pequena a tocar o ferimento recente e logo tenta se levantar, mas o outro o impede.

- Calma, vá devagar. Foi uma pancada forte. – Passa a mão novamente sobre seu rosto e Omi toca sua mão em agradecimento. Aquelas esmeraldas são tão brilhantes e carinhosas, que fica alguns instantes observando-as.

- E o Nagi? – A preocupação do arqueiro é genuína.

- Estou aqui, Weiss. – O moreno surge pelas costas do shinigami e observa Omi. Seu olhar tem algo de novo... Uma preocupação que antes seria irreal naqueles frios oceanos profundos e escuros, agora é uma realidade e voltada para seu inimigo.

As safiras piscam lentamente e então se encontram com as íris azul-índigo do telecinético, reconhecendo dentro delas sentimentos que nunca pensou que o jovem Schwarz pudesse ter por ele e sua descoberta é percebida por Nagi. Tanto o jovem de madeixas chocolate quanto o arqueiro se sentem confusos com isso e rapidamente desviam o olhar um do outro.

ooOoo

Cyrus aguarda ansioso, um copo de conhaque na mão, enquanto observa a grande janela que se abre para o quarto. Do lado interno é apenas uma parede comum, mas para ele a visão é total. Seu pequeno aquário... Mas esses peixes são muito mais interessantes. É então que percebe um deles movendo a cabeça devagar.

O garoto não-vivo, Hisoka, tenta se levantar, voltando a cair sobre o travesseiro. Vance se levanta, colocando o copo sobre a mesinha ao lado de sua poltrona. Aproxima-se do vidro, tocando-o, como se desejasse tocar aquela criatura angelical que escorrega devagar pela cama, sentando-se no chão.

Observa aqueles olhos verdes tão brilhantes, ainda não os havia visto e contemplá-los o deixa maravilhado. A pele pálida como alabastro, parece ser macia como um pêssego... O olhar triste e cabisbaixo fazendo-o ainda mais tentador. Morde os lábios tentando resistir a toda aquela delicadeza, aquele corpo eternamente juvenil, principalmente ao ver a camiseta levemente levantada, deixando entrever seu corpo magro, de cútis igualmente macia.

Percebe então quando outro dos garotos também acorda e Hisoka se volta para observá-lo, ficando com a cabeça apoiada na cama de forma infantil. Ansioso, engole em seco ao presenciar o momento em que os jovens olhos se encontram, as duas grandes safiras brilhantes o fazendo tremer. Como duas criaturas podem ser tão belas?! Logo os dois estão sentados no chão, um ao lado do outro... E Vance está extasiado!

- Eles já acordaram? – Ben entra carregando uma bandeja com o almoço do patrão. Deposita-a na mesinha e se aproxima também do vidro.

- Os dois loirinhos estão sentados juntos... – Cyrus suspira profundamente.

- E o que está achando? – Pergunta com um sensual sorriso nos lábios.

- Você havia me dito como os dois eram maravilhosos, mas... Extrapolaram minhas expectativas. – Fala com a voz embargada. Vê-los se movendo tão lentamente, os olhos com aquele lindo brilho, o jeito perdido de ambos... Tudo isso apenas o deixa mais elétrico.

- A pele deles é incrível! O sabor dos lábios... – Ben fecha os olhos se recordando do momento em que tivera cada um deles em seus braços, tocando, lambendo, beijando-os.

- Mas chegou a ver os olhos? – Vance volta a olhar para os dois seres sentados no quarto, admirando-os. – São tão brilhantes, expressivos, sofridos... E isso os torna ainda mais lindos... Perfeitos!

- Sim... – Ben responde, mas não é para os garotos que está olhando e sim para Vance, reparando em como ele está se sentindo deliciado ao apreciar os garotos juntos.

Cyrus se senta, colocando a bandeja sobre o colo, dando a primeira garfada no filé de salmão que fôra preparado com um suave molho de mostarda. De sua poltrona é possível observar toda a movimentação dentro do quarto, claramente vendo quando Hisoka vai até a janela e testa-a, no primeiro sinal de que já pensa na fuga. Um sorrisinho maldoso surge nos lábios do americano, antes de colocar mais um pedaço de peixe em sua boca.

Os dois conversam, suas deliciosas vozes deixando Ben excitado, olhando para eles, encostado no canto do vidro. A forma como se movem... O pequeno assassino e suas pernas divinas, macias, fortes, mas ainda assim com o frescor da juventude. Pôde tocá-las, apertá-las, e entre elas também, onde o garoto não é infantil, em hipótese alguma. Nenhum deles é criança. Quis conhecê-los muito bem, cada centímetro de seus corpos, para apreciar ainda mais o jogo.

- Vance... Ele está tentando se teletransportar! – Os dois olham para o pequeno shinigami, se entreolhando com satisfação quando o garoto se dá conta da impossibilidade desta ação.

- Logo os pobrezinhos vão se dar conta que é impossível sair. – Mais uma garfada, mas os olhos fixos nos dois de pé.

- O garoto... O outro está acordado. – Ben não consegue tirar os olhos de Nagi, que fingi estar adormecido.

Ben sabe que o pequeno é muito poderoso, mas de corpo tão frágil, esguio, contrastando com sua atitude forte e fria. Fascinante! E seu despertar traz um novo elemento ao jogo... Emoção, muito mais emoção. Um sorriso sarcástico aparece em seu rosto ao perceber a intenção do garoto moreno, seus olhos passando dele para Omi e vice-versa.

O patrão levanta de um pulo ao ver Nagi atacar o arqueiro, a bandeja caindo ruidosamente, o prato se quebrando em mil pedaços. Ele se aproxima do vidro, acompanhando cada segundo da reação violenta do confuso garoto, Hisoka circulando-os sem nada fazer.

- Por que ele não reage e puxa o pequeno? – Ben está grudado ao vidro, procurando não perder nenhum detalhe.

- Esqueceu que ele é um empata. Segundo nossa fonte, ele ainda não tem completo controle dessa habilidade e emoções fortes o abalam demais. – Cyrus se pega torcendo para que Omi reaja e comece uma briga entre eles, apesar de não desejar vê-los realmente se ferindo.

Ben e Vance vêem Hisoka andar pelo quarto e atacar o moreno com o travesseiro, este caindo contra a parede que disfarça o vidro que os separa de seus seqüestradores, interrompendo a briga entre o telecinético e o arqueiro.

- Isso! Ele é muito inteligente! – Vance delira com o seu jogo já em andamento.

Os dois ficam ali grudados ao vidro, acompanhando tudo aquilo pelo que tanto esperaram por todos esses anos, petrificando-se quando o shinigami corta o próprio braço para provar aquilo que os homens já sabem. Hisoka já teve uma existência, mas este corpo existe e serve apenas para caçar gente que se recusa a deixar esse mundo.

Os olhos do milionário percorrendo todo aquele rosto resoluto, apesar de toda a fragilidade. Seu corpo parecendo sofrer demais com a regeneração, perdendo energias rapidamente, fazendo-o sentar na cama. A palidez...

Os garotos menores se levantam, ficando diante um do outro. Os olhos azuis claros preocupados, gentis, rechaçados pelos escuros, desconfiados e frios. Toda essa riqueza de sentimentos deixando os dois homens excitados, o que fica altamente evidente quando os dois se afastam do vidro atacado pela energia de Nagi. O poder do garoto deixando Ben em situação vergonhosa diante do patrão, retirando-se rapidamente.

- ...! – Cyrus apenas sorri e morde o lábio inferior, vendo com o canto do olho seu braço direito abandonar a sala por estar tão excitado e ri baixinho, achando tudo eletrizante.

Cyrus Vance se sente satisfeito. Se antes os garotos que tentara utilizar já estavam chorando nesta fase do jogo, estes meninos são perfeitos! Inteligentes, fortes, com personalidade, ao mesmo tempo em que são frágeis. E mesmo vendo-se privados de suas habilidades, suscetíveis e despidos daquilo que estão acostumados a usar contra os perigos de seus mundos, ainda estão firmes, tentando compreender por que estão ali.

"Não poderia escolher garotos melhores que estes!" – Conclui satisfeito.

Logo inimigos se aproximam e o pequeno poderoso dá passos lentos em direção ao arqueiro, caído junto à parede, tendo a cabeça colocada no colo do shinigami e pode ver um grande hematoma em sua testa. Há solidariedade entre eles, apesar de serem diferentes, rivais colocados em uma situação que não podem controlar.

Tudo isso é demais pra Vance. Ele volta a sentar em sua poltrona, sem nem sequer perceber a bandeja e os pedaços do prato diante dela... Só precisa se sentar, pois suas pernas estão bambas devido à excitação que se apodera de seu corpo. Suspira longamente, molhando os lábios secos e logo seus olhos castanhos se voltam para a 'janela', por onde pode apreciá-los mais um pouco.

Vance se acomoda, gemendo à visão dos dois garotos apoiando Omi delicadamente e o levando até a cama... Hisoka passando a mão por seus cabelos loiros, observando o ferimento, enquanto Nagi coloca um travesseiro atrás das costas do Weiss, fazendo-o se sentar encostado à cabeceira da cama. Estes meninos mal se conhecem, aparentemente se odeiam, mas estão ali... Juntos.

Sem demora, o milionário abre o zíper da calça, tocando-se e sentindo toda a excitação que tudo isso lhe produz. Geme alto olhando os três sentados um ao lado do outro, procurando evitar que o arqueiro durma depois da pancada séria. Lambe os lábios ressecados pela respiração entrecortada, enquanto o movimento de sua mão sobre seu membro o leva a loucura, sem tirar um segundo os olhos dos garotos do outro lado do vidro.

- Aahmm... – Vance geme roucamente, em tom baixo, mordendo os lábios quando sente que não vai agüentar mais...

Seu gozo é rápido, sua excitação deixando-o zonzo, agarrando forte o braço da poltrona. Queria tê-los ali, em seu colo, mordendo, lambendo, gozando dentro deles, mas isto é muito bom. Vê-los juntos... Mais juntos... Sua imaginação deixando-o alheio a tudo...

Ben, que retornara em absoluto silêncio, observa o seu êxtase, quieto, calado, ainda tentando acalmar a própria respiração, recompondo-se e ajeitando rapidamente sua roupa. Voltara há alguns segundos, tendo suportado o máximo que pôde, mas o gosto do patrão por este jogo já o contaminara e ele tem suas vantagens, pois estivera muito próximo deles, os sentira, os tocara, e isso torna sua masturbação mais palpável, mais real.

Ben não tem muita certeza do que Vance pretende fazer, mas ele sabe que quer tê-los mais do que apenas observá-los. E se o milionário simplesmente deixar toda a limpeza em suas mãos, como sempre, vai provar cada um deles e sentir na realidade toda a delícia de seus pequenos corpos.

"Ah, Vance! O que você vai querer fazer?" – Se pergunta, observando seu chefe amolecido na poltrona, ofegante pelo orgasmo que acabou de ter.

ooOoo

Meifu, Mundo dos Mortos.

Tsuzuki permanece sentado de cabeça baixa observando os pés, mas com o pensamento no vazio que o domina. Por sua culpa, somente sua, Hisoka desaparecera e a única coisa que pode fazer é ficar ali sentado, ao lado da escrivaninha de Watari e com o tempo a angústia se tornara desespero.

Somente por sua causa seu parceiro deixara a segurança de Meifu, ficando à mercê de quem quer que o tenha levado. Sua mente nem consegue pensar direito sobre quem o levou, apenas remói a idéia de ser o responsável por seu desaparecimento.

"Hisoka..." – Suspira, chateado e irritado consigo mesmo.

Se pelo menos conseguisse controlar esse seu vício! Mas nunca pôde controlar nada em sua vida... Vida! Vamos dizer morte, pois quase nada se recorda de sua vida de verdade. Mas não consegue dominar sua fome incontrolável, suas bebedeiras e tantos outros excessos que o tornam tão previsível e foi essa sua característica que tornou tão fácil preparar essa armadilha. Sim, é óbvio que essa fôra uma muito inteligente armadilha, porém fôra aleatória, em busca de um shinigami ou algo direcionado contra ele? Afinal, sabe que fizera inimigos nos setenta anos de serviços prestados na Enmacho.

Se for esse o caso se sentirá ainda pior, pois agora não está mais sozinho. Passara por muitos parceiros, muitos mesmo, mas finalmente encontrara um que demonstra paciência com a sua pessoa, coisa que faltara em todos os outros. Na verdade, sente que Hisoka é sua família, alguém que se importa com ele. Não que os outros não se importassem, mas o pequeno se preocupa em entendê-lo, o que sabe que não é nada fácil. Ao invés de Tsuzuki, o mais velho e mais experiente dos dois, cuidar do garoto, sempre acontece o contrário. Sorri com esta idéia. É a profunda verdade e foi exatamente por isso que Hisoka desaparecera.

- Não adianta ficar assim, Tsuzuki. – Watari tira os olhos da tela de seu computador e os concentra no homem cabisbaixo, os cabelos castanhos encobrindo seu rosto bonito, marcados pelos misteriosos olhos violeta.

- Não ficar assim?! – Os olhos se levantam devagar e encontram os castanhos do amigo. – Não sei o que está acontecendo com ele e... Por minha culpa...!

- É... Lamento dizer, mas dessa vez você se superou. – Watari não pretende ser sarcástico, mas isso é impossível nesse caso. – Mas o Tatsumi vai descobrir o que aconteceu e o Hisoka voltará bem.

Tsuzuki senta-se direito, apoiando um dos braços na escrivaninha, observando o amigo com aquele seu olhar que faz todos se derreterem por ele. Watari se empertiga, pois conhece o amigo bem demais para deixar passar o fato dele estar usando este seu olhar.

- Como vão as investigações? – Tsuzuki pergunta como se isto fosse uma simples curiosidade, mas não é isso em absoluto.

- Não pense que me engana. Você está proibido de se envolver nesse caso. – O loiro joga seus longos cabelos dourados para trás. – Está sendo punido... E proibido de deixar Meifu até segunda ordem.

- Mas... – Tsuzuki leva as mãos ao rosto, de uma forma que o amigo jamais vira. Percebe claramente a dor em sua atitude. – Eu preciso encontrá-lo! Não me importo se ficar neste trabalho eternamente. A culpa é minha e não quero que Hisoka sofra mais. Ele já sofreu demais durante sua vida.

- Eu... Não posso. – O loiro sabe que as palavras do amigo são sinceras e também fica revoltado com a possibilidade de mais alguém ferir o pequeno shinigami. – Tatsumi vai me matar, mesmo eu já estando morto.

- Ele não precisa saber. Assumo toda a responsabilidade sozinho. – Os olhos violeta se concentram ainda mais no loiro. – Só preciso saber o que ele descobriu até agora.

- Tudo bem... – Respira fundo, pois não está acostumado a desobedecer às regras. – Ele só conseguiu descobrir que não foi nada de natureza sobrenatural.

- E o... – Ainda lhe causa arrepios apenas lembrar daquele homem.

- Muraki?! – Watari percebe como a menção desse nome provoca uma raiva contida em seu velho companheiro, o rosto bonito ficando vermelho muito depressa. – Tatsumi está trabalhando nesta possibilidade. Afinal, ele já seqüestrou Hisoka antes, mas parece que o 'bom doutor' tem um álibi para o dia.

Tsuzuki fica uns minutos pensando em tudo aquilo. Não sente que estão mais perto de encontrar seu parceiro do que estavam no momento em que se deu conta de seu sumiço. Não pode ficar ali esperando sem fazer nada. Ele se levanta tão depressa que sua cadeira cai para trás.

- Aonde você vai? – Watari sabe o que o amigo vai fazer, mas ainda assim tem de perguntar. Preocupa-se demais com sua impulsividade.

- Não vou esperar Tatsumi. Vou investigar sozinho. – Os olhos violeta estão resolutos.

O mais poderoso dos shinigamis coloca a mão no bolso do sobretudo e tira um fuda, um papel mágico onde está escrito um feitiço. Este se dobra, como um origami, tomando a forma de um pássaro, que rapidamente ganha vida e se transforma numa bela ave branca, que fica pousada sobre sua mão.

- É um feitiço de perseguir. – Seus olhos brilham de forma sobrenatural. – Vá e encontre o Hisoka.

O pássaro levanta vôo rapidamente e sai pela janela aberta. Os dois homens o observam enquanto ele se afasta do prédio da Enmacho. Watari se volta para Tsuzuki, sabendo que sua intervenção não vai se limitar a isso.

- Vou até aquele shopping. Seguir o caminho que o Hisoka tomaria. Ele sim é um ótimo detetive. – Sorri ao pensar nas inúmeras discussões que tiveram pela total inabilidade de Tsuzuki para a investigação. – Ele procuraria no último lugar onde a vítima foi vista.

- O Tatsumi vai acabar com você. – Sabe muito bem que isso é inútil, mas precisa dizer. Por que sempre diz as coisas que sabe muito bem que Tsuzuki não vai ouvir? Nem ele sabe...

- Não me importo. – O moreno vai saindo decidido, mas antes de sair pela porta do escritório, ele se volta. Seus cabelos castanhos se movem de forma suave, os orbes violeta brilhando entre os fios. Ele sorri, apesar da seriedade da situação. – Me perdoa por não te ouvir, mas preciso fazer isso por ele.

Watari suspira quando vê Tsuzuki sair, pois espera que ele tenha sorte e ache Hisoka.

ooOoo

Os garotos não sabem exatamente há quanto tempo estão presos, só sabem dizer que a noite chegara. Nagi observa a janela, tentando precisar a localização da casa, observando a posição das estrelas. É difícil ficar assim, de mãos atadas, sem saber nem sequer o que está acontecendo ou quem os mantém presos. As mentes argutas começam a sentir as rudezas do cativeiro.

Omi ainda está sentado na cama, a cabeça lhe doendo terrivelmente, mas procurando respostas satisfatórias para explicar o porquê dessa prisão luxuosa e, ainda mais, colocando os três garotos juntos em um mesmo quarto. Não é apenas explorar suas habilidades, sabe disso. A sala estando selada... Essas habilidades não seriam postas em prática. Então... Por que eles?

- Estava pensando sobre a razão de estarmos aqui. O que temos em comum. – Omi comenta calmamente.

Hisoka, que observa cada detalhe da fechadura da porta, se volta para ouvi-lo.

- Temos habilidades, mas não podemos usá-las, então não estamos aqui por causa delas. – Aquilo era uma coisa óbvia para Omi agora.

- Concordo. – O shinigami senta-se nos pés da cama. – Temos que pensar em outra razão. Talvez assim consigamos uma pista.

- E o que temos em comum? – Nagi permanece encostado na janela, olhando para os dois com frieza. – Somos diferentes demais.

Omi olha para ele, tentando entender um pouco do inimigo que sempre vira por frações de segundos, até que sua telecinese o jogasse longe. Nagi pouco fala e nunca sorri, são apenas os olhos azul-índigo observando-o com uma triste frieza... Exceto no momento em que suas íris haviam se cruzado um pouco antes, quando ainda estava caído.

- Já pensou nas vidas que levamos? – As grandes safiras o observam com firmeza, vendo um vislumbre de solidão em seu rosto. – Nós três levamos vidas duras, apesar de sermos jovens... Temos que ser fortes... Sempre.

Todos eles permanecem pensativos, meditando sobre tudo que os fazia diferentes dos outros garotos de suas idades. Lembram das durezas de suas infâncias, da falta de amor, da solidão, do abandono e das profissões violentas que haviam abraçado. Aquilo os fazia sofrer, mas também os tornara mais duros.

- Você tem toda a razão... Mas para eles terem chegado até nós... – Hisoka está com os olhos perdidos em seu próprio processo de raciocínio.

Os outros o observam, começando a entender a linha de seu pensamento.

– Alguém teve que nos entregar... A ficha completa... – Os olhos verdes se estreitam. - E eu até imagino quem teria feito isso comigo. Afinal, quem ensinaria como selar uma sala?

Os demais, por sua vez, também param e tentam imaginar quem teria a coragem e o conhecimento para entregá-los desta forma. Um sorriso de entendimento surge nos lábios de Nagi, que olha para Omi de forma estranha, isto chamando a atenção do arqueiro.

- Eu sei quem me entregou. – Desencosta da janela, olhando fixo para seu inimigo.

- E por que você me olha assim? Não fomos nós. – Sente uma sensação ruim de que Nagi novamente deixa a hostilidade tomar conta de si. – Mal o conhecemos!

- Foi aquele crápula... O velho... O seu pai! – O moreno aponta o dedo em sua direção, fazendo Omi se levantar depressa, fogo em seu olhar.

- Ele não é meu pai... – Nada o tira do sério como a menção de seu parentesco com a odiosa família Takatori.

- Você pode negar, mas o sangue dos Takatori corre em suas veias. – Nagi já fala em um tom alto.

- Eu não sou um Takatori! – Os dois se encarando de forma ameaçadora, os olhos azuis faiscando. – Eu sou Omi e jamais... Ouviu... JAMAIS vou ser um Takatori!

- Diz isso porque se acha melhor que eles? – O moreno percebe que atingira o ponto fraco de Omi e, mesmo sem saber por que, sente-se compelido a ir além. Todo o seu ser quer fazê-lo perder a cabeça, abandonar sua aura eternamente gentil, como se odiasse isso nele.

- Você não sabe do que está falando! – Omi tenta ao máximo se controlar, mas Nagi não para...

- Eu imagino quem te entregou. – Um sorrisinho sarcástico surgindo em seu rosto. - Foi o seu herói... Seu ídolo... O poderoso Weiss... A...

Omi se lança sobre Nagi com violência antes que o mesmo pudesse terminar de pronunciar o nome do líder dos Weiss, desfere socos em seu corpo e rosto, como se o moreno representasse, nesse momento, todas as pessoas que o feriram e o magoaram, ferindo ao outro fisicamente, mas a si mesmo emocionalmente, pois toda essa raiva o machuca por dentro.

Hisoka novamente se vê sem ação, temendo tocá-los, mas não podendo usar do mesmo artifício de antes. O arqueiro está ferido e não pode em hipótese alguma atacá-lo. Então pensa rápido e segura no capuz do casaco do garoto, puxando-o com firmeza, até que o consegue tirar de cima do moreninho.

- Deixa o Aya fora disso... Ele poderia me odiar por ser filho de quem sou, mas... – As lágrimas escorrem por seu rosto, encarando com firmeza o garoto que ainda tenta se refazer, caído no chão. – Ele é a minha família... Daria a vida por mim! Você não tem ninguém que faria isso por você.

- ...! – Estas palavras ecoam na mente de Nagi como se adagas a invadissem.

"Eu não tenho ninguém que daria a vida por mim. Ninguém se importa comigo." – Pensa, sentindo como se seu coração estivesse rasgando.

Logo Nagi se recorda de Brad e dos demais Schwarz, mas duvida que seja mais do que uma forma de ganhar dinheiro. Está com eles por causa dos seus poderes, nada mais e esse pensamento o revolta. Há muito tempo não pensa em como se sente sozinho e Omi é o culpado. Ele o lembrou que não é ninguém... Esse garoto, que está encostado na parede, ainda olhando para ele com a mente em fogo.

- Vou te matar! – Ele avança na direção de Omi, preparado para abatê-lo de qualquer forma.

Seu avanço é então impedido. Não consegue sair do lugar, olhando para o lado e cruzando com os olhos esmeralda, sentindo o braço forte de Hisoka segurando o seu. Mas aqueles olhos parecem atravessá-lo, penetrar sua alma de forma assustadora. Pára e o encara, percebendo que a mão firme já não consegue soltar seu braço. Hisoka não parece estar mais presente...

- NÃO! – O shinigami grita e desfalece, sob o olhar assustado dos dois inimigos.

ooOoo

Em um luxuoso escritório na Mansão Takatori

- Não. Nem pensar. – Brad se afasta de Schul que gesticula nervoso. – Temos um acordo com o Senhor Takatori e ele é bem claro... Não podemos usar nossas habilidades contra ele.

- Mas você sabe que ele está envolvido no seqüestro. – O alemão tenta acalmar-se, pois ele e o americano vinham fazendo um jogo de gato e rato em torno da escrivaninha do escritório.

- Não vamos quebrar nosso acordo. – Brad pára de frente para o ruivo, encarando o companheiro.

- Ele quebrou a parte dele quando usou seu poder contra nós! – Schul fala alto, sem preocupar-se com quem quer que possa ouvi-lo.

- O problema é que não temos certeza se o velho está envolvido. – Ele espalma as mãos sobre a escrivaninha e o encara. – Este é o nosso melhor trabalho em muito tempo. Não podemos simplesmente correr o risco de perdê-lo sem saber se estamos certos.

Schuldich se deixa cair sobre a cadeira, sentindo todo o peso da vida que levam sobre sua cabeça. É sempre o dinheiro, o poder, a ambição, mas neste momento isso tudo lhe parece um entrave para fazer o que acha certo.

Brad senta, olhando fixo para o rolex em seu pulso, tentando se concentrar em algo, mas encontrando apenas o vazio. Sabe que o alemão está certo, mas é o líder e tem que fazer o que é melhor para o grupo. Sua posição é difícil, por isso ele e Schul estão sempre em conflito... A razão contra a emoção.

- Eu simplesmente não posso ficar aqui sentado esperando você decidir se o velho é o culpado ou não. – O ruivo olha para Brad, que também o encara, sem sair do lugar.

- Schuldich... – Brad suspira, começando a falar, mas é interrompido.

- Podemos não ser grandes amigos... A natureza do nosso grupo... Eu sei... Mas eu me importo com o Nagi. Você não? – Seus olhos se fixam nos de Brad de forma profunda.

O americano tenta evitar a pergunta. Durante todos esses anos estabeleceram limites bem definidos para a relação que tinham dentro do grupo. O excesso de aproximação os debilita, criando laços que se tornam os seus pontos fracos, portanto, o relacionamento entre eles é e deveria ser sempre, estritamente profissional. Infelizmente isso é mais fácil na teoria do que na prática. E o germânico toca neste momento no ponto nevrálgico de tudo isso.

- E então? Você se importa com o garoto? – Ele se levanta da cadeira e o encara, fazendo o americano erguer-se também. Os olhos deles se confrontam em mais um duelo dessas duas mentes poderosas. – Ou só é importante por causa do poder dele?

- Acho que você não devia me fazer essa pergunta... Não você. – Crawford ajeita os óculos, sem tirar os olhos do rosto firme do ruivo. – Você estava comigo no dia em que encontramos o Nagi... E decidimos juntos trazê-lo conosco.

A expressão forte muda de repente. As lembranças daquele triste dia gravadas em sua mente como se tivessem sido impressas por fogo... Sua primeira morte, quando ainda era um adolescente, as imagens gravadas em sua retina. O olhar vazio do homem cuja vida se esvaía devagar não lhe saía da memória. Tinha a mesma idade que Nagi tem hoje. Nunca se sentiu tão oco por dentro e nunca mais se sentiria assim depois disso. Foi quando viram o pequeno sujo, maltrapilho e ferido.

- Lembra por que decidimos trazê-lo conosco? – Brad se aproxima ainda mais do alemão, dando a volta na escrivaninha. – Sabíamos que o pequeno era um telecinético?

- Não. – A voz rouca sai quase como um sussurro, os olhos baixando, evitando aqueles que o fazem lembrar do passado, coisa que odeia. – Ele nos fazia lembrar de nós mesmos e decidimos estender-lhe a mão como ninguém fez conosco.

- E assim mesmo você tem coragem de dizer que não me importo com ele? – Há ressentimento em sua voz. - Posso não ser passional como você, mas... Dane-se o que pensa de mim!

Brad Crawford anda até a porta, ainda exasperado com as palavras do alemão. Suas mãos tremem de raiva, apertando os dedos em busca da calma que é sua principal característica... A calma que apenas a racionalidade pode proporcionar. Na verdade, não está sendo absolutamente sincero com o ruivo, mas precisa disfarçar bem. Schul não pode ler sua mente, mas conhece muito bem suas expressões.

Brad pisca os olhos escuros, lentamente, acalmando-se, recompondo-se de sua irritação. Sim, ele sabia que o garoto tinha poderes especiais e o recrutara da mesma forma como fizera com o perdido telepata pré-adolescente, mas o ruivo não precisava saber disso agora, principalmente porque, na verdade ele... Fecha os olhos por um instante e então se volta então para o alemão, que continua de cabeça abaixada.

- Se você conseguisse pensar... Ao invés de sentir... Poderíamos chegar a algum lugar. – Um sorriso sarcástico surge em seus lábios quando os olhos de Schul voltam a encará-lo.

- ...! – O telepata fica em silêncio, esperando que Brad fale logo o que pensa.

- Não importa se o velho é o responsável pelo sumiço do Nagi. O importante é... Por que ele faria isso? O que ele ganha? Pois os Takatori só fazem as coisas visando algum lucro... – Ao ouvir aquelas palavras a mente de Schuldich rapidamente busca as possibilidades, não demorando a encontrar uma resposta...

- Ele não precisaria seqüestrá-lo por seu poder, pois o garoto já estava a seus serviços... Só se... Lucrar. – Um sorriso de entendimento também surge nos lábios do ruivo.

- Isso mesmo. – Brad ajeita seus óculos, ainda fitando o ruivo.

- Ele vendeu o Nagi! Mas pra quem? – Essa é uma pergunta mais difícil de se encontrar a resposta, mas ele não iria descansar até descobri-la.

- Comprar um garoto não é uma coisa que podemos colocar nos classificados do jornal. – Finalmente os dois parecem entrar em equilíbrio, suas mentes pensando em uníssono.

- Sim, só há um local onde poderia haver essa transação... – Schul quase sorri.

- Sim, ela só pode ter sido feita no submundo e é lá que saberemos quem o comprou. – Havia uma quase satisfação nas palavras de Brad, afinal, haviam chegado a um consenso e principalmente... Onde poderiam conseguir respostas.

- E o velho esqueceu de onde viemos, não é? – A ironia carregada em suas palavras.

- Em absoluto. – Mira as íris esverdeadas de Schul ao concordar com ele.

- Vou acionar minhas fontes e vamos pegar esse cara. – Sorri cruelmente ao se pronunciar.

- E quando encontrarmos... Ele vai lamentar o dia em que atravessou nosso caminho. – Crawford conclui, os olhos escuros lampejando de forma ameaçadora.

ooOoo

Hisoka tira Omi de cima de Nagi puxando-o pelo capuz do casaco, fazendo-o perder o equilíbrio, forçando o pequeno corpo a encostar-se à parede para não cair. Mas o grande problema não é o arqueiro, que depois de dizer "você não tem ninguém que faria isso por você.", se arrepende instantaneamente ao ver a solidão no rosto de Nagi... Mas o pequeno prodígio, que continua arfando, caído no chão, como se as palavras do loirinho o tivessem ferido mais do que tudo que já havia passado em toda a sua vida.

A reação do moreno é tão rápida, que o shinigami não tem tempo para pensar. O ódio nos olhos azul-índigo deixa claro que o limite de sua razão fôra ultrapassado e ele está disposto a matar. Instintivamente o segura pelo braço, usando toda a força que consegue reunir, detendo seu avanço, mas... Seus olhos se cruzam e tudo sai de foco...

As emoções de Nagi fluem por todo seu corpo e sua mente, contra sua vontade, a raiva dele perfurando seu coração. A dor é lancinante, o que o deixa fora do ar, a sua vida deixando de existir, para todo o seu ser mergulhar nos dramas do jovem telecinético... E logo Hisoka está visualizando todo aquele triste e sufocante passado.

A imagem distorcida permanece envolvida pelas brumas do tempo, mas aos poucos os personagens começam a tomar forma. Uma mulher morena está na cozinha, enquanto um menino pequeno, de uns cinco anos, brinca na sala ao lado. Ele, tão parecido com a mãe, tenta ficar quieto, brincando com um carrinho de madeira, olhando para a cozinha cada vez que um ruído um pouco mais alto sai de seu brinquedo. Há medo em seus olhos, muito medo.

Logo as imagens se desfazem como desenhos na areia e outra imagem começa a se formar... O pequeno tenta desenhar, mas o traço não fica bom. Tem de ser o menino gênio, perfeito, o melhor de todos, assim ela não liga mais para as coisas que provoca. Ela o odeia, o teme, acredita que está sendo punida por Deus... Mas ele deseja que ela se orgulhe, por isso TEM de ser perfeito! Essa é sua razão de viver. E o desenho não fica bom, o traço não é reto o bastante e depois da quarta folha amassada, começa a se irritar. Precisa ser...

E um vaso voa, atravessando a pequena sala.

Os olhos dele se arregalam, sem se desgrudarem da porta da cozinha. Então ela aparece, seu rosto transtornado. O pequeno sabe que ela o odeia, o teme, o vê como um castigo... E isso está ali, claro em suas pupilas, enquanto ela avança contra ele. A mulher o puxa pelo braço e o levanta, quase o tirando completamente do chão, sua mão se levanta e desce para acertá-lo, no rosto... Uma, duas, três vezes. As lágrimas descem pela face infantil, que mesmo apanhando procura nos olhos dela um vislumbre do amor que possa ter por ele. Nada vê nos orbes da mãe, além daqueles sentimentos que tão bem conhece.

Ela o larga no chão, sem qualquer cuidado, andando até os cacos do vaso espalhados pela sala. A raiva dela é evidente, exacerbada ainda mais pelo choro fino que vem da criança, enrodilhada próxima do sofá. Ele tenta evitar, mas a dor emocional é tão grande que o choramingo é espontâneo e isso a irrita ainda mais, tomando de um pedaço de vidro do vaso e avançando contra o filho.

No entanto, desta vez, quando novamente o puxa pelo braço, seus olhos se encaram e os dele estão transtornados, revoltados com a absoluta falta de amor. Há raiva em seus olhos, a mesma que faz as coisas estranhas acontecerem. Súbito, a mulher voa pela sala, sendo jogada contra a parede, da mesma forma que o vaso fôra há alguns minutos antes... Ela fica ali, imóvel, numa posição pouco natural. O menino está estático, sentado sobre as pernas, respiração alterada e olhos parados, como se observasse o vazio... Sentindo-se ser consumido por uma estranha angustia e dor.

As imagens se desvanecem novamente, perdendo-se para em segundos dar lugar a outras... Carregadas de tantos sentimentos fortes quanto antes. O pai chega à casa, vê a esposa caída, o menino imóvel no centro da sala... O pequeno nada lembra do que aconteceu, sua memória destruída pela dor, sua mãe está morta e o seu poder fizera isso.

O homem precisa livrar-se do menino, o castigo divino que os persegue e que agora levara sua mulher. Toma então sua mãozinha e o puxa até o carro velho parado diante da casa. Seguem pela estrada em silêncio, lágrimas descendo pelo rosto paterno, sofrendo antecipadamente pelo que precisa fazer... O menino então o olha, sem saber por que o pai está chorando.

Deixando a pequena cidade do interior, o homem anda por um bom tempo pela estrada, a vista turvada pelas lágrimas que descem sem querer. Sabe o que precisa fazer... Mas aqueles olhos que o observam não tornam a tarefa mais fácil. Logo chega à cidade grande, o movimento das ruas tão diferente do que está acostumado e tudo parece tão perigoso... Não! Não pode pensar... Pára próximo de um beco obscuro e desce. Fica um instante encostado na porta do passageiro, tremendo, tentando se convencer do que deve ser feito e, decidido, a abre finalmente e faz o menino sair. Coloca dinheiro em suas mãos pequenas, passa a mão por seus cabelos, vendo os olhos azul-índigo fixos nele, cheios de confusão e fugindo daqueles inocentes orbes, ele entra no carro e parte, deixando a criança ainda sem entender o abandono.

O que o fez... Para merecer isso?

As imagens se embaralham, com visões de uma criança faminta, hostilizada e perdida. O medo do mundo e das pessoas, que passam por ele como se fosse invisível... Solidão, solidão, solidão... Aqueles que o vêem, o agridem. Muitas vezes sentem a força de seu poder, ainda sem controle, mas cada vez mais destruidor, porém um dia alguém o vê, se aproxima devagar e se agacha diante dele. O adolescente de cabelos ruivos compridos e os olhos azuis, tão tristes, o observa com curiosidade. Ao lado dele, um homem moreno, de olhar frio. Tem medo dele, mas não do garoto que lhe estende a mão. Há solidariedade nele.

Uma igreja substitui as ruas, a visão dela se fixando, a calorosa imagem de uma freira se materializando. Carinho, atenção... Este lugar fôra seu lar desde que o adolescente lhe estendera a mão, ali aprende a controlar seu dom e deixa de temê-lo. O passado lhe é obscuro, apenas a lembrança do abandono do pai atormentando seu sono. A mãe... O que acontecera com ela? Por que deixara o pai se livrar dele daquele jeito? Mas logo, como tudo em sua vida, a felicidade se acaba, a Irmã é assassinada por quatro jovens... Aquele Ken em quem confiou tira-lhe a vida... Omi está entre os assassinos.

Por quê?Por quê?

Novamente o homem moreno aparece, mas desta vez não o teme. Ele promete lhe oferecer vingança... Contra os quatro assassinos... Contra a sociedade... Contra o mundo...

A visão vai se desvanecendo, a dor de tudo aquilo tirando as energias de Hisoka, fazendo seu mundo rodar... Seus olhos vão se perdendo dos azul-índigo, saindo da dor do pequeno. Olha em volta, ainda perdido na experiência que sempre o destrói um pouco por dentro... Sua mente vai se apagando... Sua dor... Minha dor... Um par de olhos azul-acinzentados...

ooOoo

Koneko no Sume Ie.

Yohji entra na sala, encontrando Aya e Ken em torno do laptop de Omi. Sua entrada chama a atenção dos dois, mas apenas o ruivo se levanta, o moreno permanece mexendo no computador que é tão sagrado para o arqueiro e seu único motivo de ciúmes.

- E então? Conseguiu? – O espadachim não consegue disfarçar a aflição que o domina desde o desaparecimento do garoto.

- Claro! – O loiro entrega um envelope lacrado para o líder dos Weiss. – Pagando a gente consegue tudo. O DNA do cara está aí, mas temos que ter com o quê comparar.

Aya senta novamente diante de Ken e este continua mexendo no laptop, concentrado como o playboy nunca o vira. Sabe que o ex-jogador não gosta dessas atividades sedentárias, mas desta vez ele mais parece o hacker loirinho, que descobre qualquer coisa com um PC.

- Estamos trabalhando nisso. – O ruivo aponta para o computador. – Sabemos que o Omi tem uma câmera neste laptop, para evitar que mexam nele sem o seu conhecimento.

- Ele tem?! – O loiro engole em seco, pois muitas vezes levara o aparelho para o seu quarto e navegara por sites pornográficos, sem o conhecimento do garoto.

- Tem sim. – Ken fala, mas sem tirar a atenção daquilo que está fazendo. – E eu quero fazer funcionar para podermos ver se registrou o momento do ataque. Ei! Acho que consegui.

As imagens da movimentação do pequeno durante a missão estão ali, toda sua preocupação com os detalhes e o planejamento. Ele, indiscutivelmente, é o cérebro da equipe. Mas há um leve tremor na câmera e podem vislumbrar a luta de Omi pra esquivar-se do golpe do atacante, sendo nocauteado pelo conteúdo da seringa, injetado em seu pescoço. Neste instante, quando o corpo pequeno perde os sentidos e as pernas se dobram, o rosto do atacante aparece de forma clara.

- Paralisa a imagem e dá um Printscreen. – O ruivo concentrado no rosto daquele homem, percebendo não ser ninguém que já tivessem encontrado, pois tem cada rosto impresso em sua memória. – Este é o homem que procuramos.

- Mas é um rosto sem nome. Pode demorar séculos para descobrir sua identidade. – Ken está desanimado. Sua preocupação com Omi evidente em suas mãos nervosas. – Não sei nem por onde começar.

- Vá até o quarto do Omi e procure um caderninho vermelho em um compartimento debaixo da primeira gaveta da escrivaninha. – Os dois ficam olhando para o ruivo com curiosidade, jamais haviam ouvido falar desse caderno ou do compartimento secreto. – Nele você vai encontrar códigos para entrar nos computadores do Pentágono, FBI, CIA e Interpol.

- O quê? – Yohji continua boquiaberto. – Ele tem isso?

- De onde você pensa que ele tira algumas de nossas informações? Acha que aquelas coisas estariam na internet? – Um sorriso irônico surge nos lábios vermelhos. Sabe o quanto Omi trabalhara para decifrar esses códigos.

Ken se levanta também, ficar sentado agora lhe dá uma sensação de imobilidade, precisa fazer algo para encontrar Omi, o melhor amigo que já tivera em toda sua vida. Coloca-se ao lado dos companheiros, se preparando para procurar o tal caderno vermelho.

- Mas por que você quer que eu procure nestas organizações? – O moreno tenta entender todas as orientações de Aya. O que ele planeja exatamente? – Poderia procurar na Polícia local.

Aya se volta para a tela do computador. A imagem do homem cristalizada na tela do laptop.

- Olhem para a imagem. – Aponta para um ponto no braço do atacante, chamando a atenção dos dois para o detalhe.

- Uma tatuagem... – Ken diz, olhando fixamente para a mesma.

- Esta tatuagem no braço dele é dos Seals, então obviamente ele deve ser americano... E extremamente perigoso. Combinando a imagem e o DNA, quem sabe não descobrimos quem ele é. Talvez tenha trabalhado para uma dessas organizações. – Diz Aya, enquanto olha a imagem do homem na tela.

- Nossa! Você tem razão. – Yohji sempre se surpreende como a mente do espadachim pode ser tão observadora.

Ken corre para subir as escadas e pegar o caderno com os códigos, enquanto os outros dois permanecem na sala.

- E o que nós faremos? – O loiro se sente um tanto estático, o nervosismo da situação o deixando inquieto. Não pode apenas esperar os resultados da pesquisa de Ken, fumando um cigarro atrás do outro. Omi é como se fosse seu irmãozinho...

- Eu tenho que descobrir quem nos traiu. – O líder fala, um tom de ódio passando por sua voz. – Vou acionar aquela minha fonte dentro da Kritiker. Ela me deve muitos favores e é o momento de cobrá-los.

- Você sabe muito bem quem é o traidor. – Os olhos de Yohji faíscam de raiva.

- Mas temos de ter certeza. – Aya coloca a mão no ombro do amigo para acalmá-lo. – Quero estar absolutamente certo disso, pois... Ele vai se arrepender de ter nos apunhalado pelas costas. Pedaço por pedaço...

A frieza com que essas palavras são ditas faz o playboy estremecer. Nunca vira tanto ódio na voz, nos olhos e no corpo de Aya como neste momento... Talvez somente quando ele fala do Takatori. Chega a ter medo do espadachim e apesar de ser capaz de lhe confiar a própria vida, sabe como ele é perigoso.

- E você... É o momento de suas saídas terem alguma utilidade. – Olha para o loiro, que se sente alfinetado pelo modo como o ruivo se refere a "suas saídas".

- Er... – Yohji fica inquieto por um instante.

- Se alguém nos traiu, só pode ter sido por dinheiro. Tente descobrir se alguém procurava comprar um garoto como o Omi. – As palavras de Aya soam como uma ordem.

- Pode deixar. – O loiro pega rapidamente suas chaves do carro. – Conheço muita gente do submundo e, quem eu não conheço, vou passar a conhecer.

A imagem do agente Bangkok vem à mente de Aya, assim que Yohji sai. Sabe muito bem que foi ele, mas... Chega a ter pena dele quando for descoberto, pois vai até o fim do mundo para pegá-lo... Ainda mais se algo acontecer com o garoto. Essa é uma promessa... E Fujimyia sempre cumpre suas promessas.

ooOoo

Hisoka abre os olhos devagar, aos poucos consegue ver os dois garotos observando-o, suas íris cheias de preocupação. Percebe então que o haviam colocado sobre a cama, a cabeça sobre o travesseiro, um pano molhado sobre sua testa.

- Está bem?! – Omi fala quase em um sussurro. Não quer perturbar o garoto, que ainda parece pálido demais.

- O que houve? – Nagi tenta parecer mais frio do que realmente se sente. – Você só agarrou meu braço e...

Ele procura sentar, ainda sentindo-se fraco demais para levantar, mas sabendo que deve uma explicação aos dois, principalmente ao pequeno telecinético, vendo que os dois, sentados diante dele, o observam curiosos.

- Você perdeu os sentidos e... – O arqueiro olha para ele de forma mais atenta, tentando analisar suas reações. – Nós o trouxemos para a cama.

- Eu sou um empata. – Abaixa a cabeça devagar, pois isto sempre fôra a razão de seu sofrimento, mas sente o calor do olhar dos dois sobre ele, ainda interrogativos, tentando entender toda a dimensão de suas palavras. – Posso ver e sentir o passado de quem eu toco. Fico fraco... Ainda não sei controlar direito e...

- Você viu o meu passado?! – Nagi fica de pé, tenso, olhos fixos sobre os orbes esmeralda que se levantam lentamente a sua procura.

Hisoka vê toda a dor, todo o sofrimento que fizeram de Nagi o garoto frio que é hoje. Mas também vê nele o menino perdido, sem memória, para quem o passado é tão importante, mas ao mesmo tempo tão destrutivo.

- Você viu... – Há certo tremor, enquanto o moreno tenta falar.

- Sinto muito! Não posso tocar as pessoas... Principalmente quando tem emoções fortes envolvidas. – Hisoka se sente cortado ao meio ao ver a expressão do pequeno mudando, o menino das visões diante dele neste momento. – Não fiz por mal...

- Você viu minha... Por que ela... – Nagi dá as costas para os dois. – Deixa pra lá!

Ele anda até o canto do quarto e senta no chão, tão distante quanto estivera logo depois da morte da mãe. O shinigami se volta para Omi, um sentimento ruim ainda povoando sua mente... E a pergunta que sentira no coração de Nagi vindo a sua boca.

- Por quê? – Ele diz para o arqueiro em um sussurro. – Por que vocês mataram a freira que criou o Nagi?

- O quê? – Os olhos azuis se arregalam com surpresa. – Eu não sei...

Por alguns minutos a mente do garoto fica recapitulando cada rosto, cada pessoa que terminara sua existência pelas mãos dos Weiss. Uma freira... Não... Espera... O que Nagi tem a ver com a freira...?

- Ela criou o Nagi?! – Se aproxima mais de Hisoka, temeroso que o moreno ouça qualquer coisa. – Mas eu pensei que ele tivesse sido encontrado pelos Schwarz...

- Eles o entregaram a ela. – Segura a gola do casaco de Omi, aproximando ainda mais o rosto do arqueiro do seu. – O garoto viu quando vocês a mataram!

Os olhos azuis se voltam para o menino encolhido no canto do quarto, sentindo como se tudo que ele se tornara tivesse passado por suas mãos e... Culpa, sente culpa. Aquele sentimento dói em seu peito, ameaçando sufocá-lo por completo... E dissera que ninguém se importava com ele...

- Por quê? – Hisoka insiste com a pergunta.

- Ela cuidava de garotos com problemas psicológicos, mas... – Ainda se recorda do olhar inocente que voltara para eles, como se o que fazia fosse a coisa mais certa do mundo. – Mas condicionava os garotos para serem seus próprios assassinos. E o pior é que eles deveriam se suicidar logo em seguida.

Como tudo, essa questão também tem dois lados, duas perspectivas, mas que esclarecem a razão das coisas. Por isso Nagi odeia os Weiss, não pode condená-lo, mas da mesma forma Omi fizera aquilo por suas convicções... E sente que elas comandam sua vida.

Todos os pensamentos se quebram ao ouvirem a porta se abrir e um homem surgir por ela, o loiro de meia idade está ali, como fôra visto por Nagi e Omi. Os três se levantam depressa ficando um ao lado outro, encarando-o com raiva.

- Olá garotos! Estava com saudades. – O sorriso irônico dele os irrita profundamente. – Vim buscar um de vocês.

- O quê? – Nagi tenta avançar contra ele, mas Omi o detém, colocando os braços em torno dele, segurando-o firme de costas de encontro a seu peito.

- Espere! – Sussurra no ouvido dele, enquanto olha nos olhos do seqüestrador.

- Me solta, Weiss!!! – Nagi grita, furioso, enquanto ainda tenta se soltar.

- Ele está nervoso? Precisa ser acalmado? – O homem dá alguns passos a frente.

O arqueiro segura seu pequeno inimigo com força, colocando a mão sobre sua boca, tentando evitar que ele continue a gritar ou se debater. Pensa no que aquele homem poderia fazer com aquele menino de coração tão ferido... Que ele feriu... Não quer nem pensar e muito menos permitir que isso aconteça!

- Não! Ele só precisa dormir um pouco. – Omi responde, mantendo a calma.

Nagi se debate em seus braços, revoltado.

- Se quiser me levar... – O arqueiro sugere. Prefere ir a deixar que leve Nagi.

- O patrão não quer você. – Ben fala calmamente e então seus olhos repousam sobre Hisoka.

Omi fica sem reação por um instante e tenta pensar em uma solução.

- Ele quer você, shinigami. – Revela o loiro, sorrindo para o garoto não-vivo.

- Eu vou. – Olha para os outros dois, acenando para Omi.

- Hisoka! – Omi chama, sentindo seu coração falhar uma batida e o mesmo ocorre com Nagi.

- Cuida dele. – Pede Hisoka docemente.

O garoto não-vivo se aproxima de Ben, que sorri para ele... Um sorriso incômodo, maldoso, que faz um medo terrível surgir no âmago do rapaz de madeixas areia, fazendo-o tremer. O homem toma sua mão e a envolve com um fio muito fino, cortante, que logo fere sua pele extremamente branca.

- Fio de cabelo de mulher! Então o... Só ele sabe que... – A constatação de que Muraki está de alguma forma envolvido em tudo isso quase o paralisa.

- É bom não tentar nada, pois temos estes dois ainda. – Ele olha para os outros garotos próximos da janela, Nagi ainda se debatendo nos braços de Omi.

- E você... Foi muito inteligente. – Sorri, fechando a porta.

Quando a porta se fecha os braços de Omi se afrouxam, deixando que Nagi se solte e o encare raivoso. O moreno empurra o loirinho contra a janela, com força, ainda sentindo a revolta, porém o hacker fica ali, sem nada dizer.

- Você é um covarde! Nós poderíamos ter nos unido e derrubado o cara. – Ele avança novamente contra o garoto e desfere um soco em seu ombro.

- Nagi... – Sussurra, sentindo a dor do golpe.

- Você simplesmente deixou que o miserável o levasse. – Diz exasperado, preparando-se para um novo golpe.

- Calma... Calma... CALMA, NAGI! – Segura os braços do garoto que novamente vinha para golpeá-lo.

- Calma, droga nenhuma! Como você pôde?!? – Os olhos escuros cintilam de raiva.

- Ele me mostrou que estava com uma arma de choque, em potência máxima... Uma daquelas teria matado você!!! Ou o próprio Hisoka. – Explica, ainda segurando-o.

- ...! – Nagi ainda se sente revoltado, a impotência ante ao que ocorre com eles no momento o deixando desnorteado.

- A gente ainda vai ter a oportunidade de acabar com ele, mas... Pra isso precisamos estar vivos. – Omi diz em tom baixo, calmo, querendo passar tranqüilidade ao pequeno garoto de madeixas chocolate.

Puxa o garoto para si, abraçando-o com força, sabendo o que ele sente... A mesma frustração e revolta que também assola o seu coração. Se alguma coisa acontecer ao Hisoka... Poderá se perdoar? Estar preso, impotente, sem perspectiva... Pela primeira vez em muito tempo não tem como se defender sozinho. Nunca se sentiu tão indefeso... Desde quando... Rapidamente sente que Nagi entende, ao perceber que ele se acalmou, e se solta em seus braços, correspondendo ao abraço, que também o faz sentir que não está sozinho.

Eles permanecem assim... Unidos por aquele abraço reconfortante, onde o calor de seus corpos é compartilhado, mas não apenas isso. Suas emoções também são dividas, num alento silencioso, mas extremamente eficaz. Relaxam e logo os orbes azuis de ambos se fecham por minutos que nenhum deles sabe precisar...

Os dois se afastam devagar... Seus olhos se encontrando sem pressa... Toda a solidão e o medo que sentem expressos em suas pupilas. E, quase que instintivamente, eles se aproximam novamente... Seus lábios se tocando delicadamente, suas respirações se misturando, enquanto apenas sentem a temperatura da boca um do outro... Aquele calor seduzindo-os, transmitindo toda a carência e solidão que sentem, se aprofundando um pouco, provando o gosto suave que se mescla durante a carícia labial... O abraço se apertando e...

Repentinamente eles se afastam com força, desnorteados com o que acabou de ocorrer. O que estão fazendo? Há medo nos orbes que continuam se encarando... Medo, não mais da situação, mas de algo novo que surge... Algo diferente... Assustador... E entre dois inimigos.

Continua...

ooOoo

Prontinho, o presente da minha filhota Sakuya já tem um segundo capítulo. Neste vamos finalmente vendo como os nossos chibis reagem ao cativeiro. E toda a reação dos dois vilões a esse relacionamento complicado entre os meninos. A coisa vai começando a esquentar.

Agradeço de coração aos reviews que me incentivaram a continuar essa fic de tema espinhoso e que tende a piorar ainda mais. Beijos especiais para Kiara Salkys, Michelle, Mystik, Freya de Niord, Neko Lolita, Mestra Suryia, Yue-chan e Babi-chan.

Para a minha beta Yume Vy, que me brindou com sua deliciosa betagem e comentário quilométrico, um beijo do fundo da alma. Dessa sua amiga de verdade.

Espero que gostem! COMENTEM!!!!!!!!

25 de Maio de 2007.

23:55 PM.

Lady Anúbis