Vermelho e Preto

Por Azami-San

Capitulo II – Entretempo

-X-

"Tira esses dedos, peço-te, do meu pescoço,

Pois se não sou irrefletido nem colérico.

Tenho contudo em mim algo de perigoso,

Que deve ser receado pelo teu juízo."

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Hamlet, Ato V, Cena I

-X-

Era noite, ela sabia que era, pois vira o sol se por enquanto se aproximava da sua vila após mais uma missão exaustiva. Mas então como sua rua podia estar refletindo um tom alaranjado no véu negro da noite?

Correu mais depressa para ver o que acontecia afinal. No momento em que sua vista pode alcançar sua casa ela parou. Todos os vizinhos estavam em frente ao sol particular, os rostos sem expressão, as faces ainda molhadas. Pode então ver o Naruto, que estava tremendamente agitado, o rosto molhado como os outros as mãos tentando cobrir os olhos dela enquanto a abraçava muito forte murmurando coisas das quais ela só conseguiu ouvir as palavras "seus pais", "me perdoe por favor" e "nós tentamos mas era tarde demais". Aquilo na voz dele era desespero? E porque estavam chorando? Era só uma casa, não era?

Sentiu alguém a sacudir com força, pessoas falavam com ela. "Muitos rostos" pensou aturdida. Focou-se naquele que lhe era mais familiar. Naruto de novo, reconheceu.

- Sakura? Sakura! – ele ainda a chamava com a voz que ela reconhecera como desesperada – você ta me ouvindo?

Ela piscou e olhou para ele.

- Eu... Sim. – sussurrou para que o Naruto parasse de balançá-la.

Ele parou e suspirou de alívio.

- Sakura-chan... e-eu sinto muito... Nós tentamos entrar mais o fogo tava alto demais e então nós tentamos apagar o fogo, mas foi um jutso, ele não se apagava fácil e... E então foi tarde demais...

Porque ele falava tão rápido? Ela não conseguia entender do que ele estava falando. Afinal onde estavam seus pais?

- Naruto – interrompeu o jovem que ainda falava – e onde estão meus pais?

Ele arregalou os olhos e depois os fechou com força, lágrimas mais grossas saindo deles. O que estava acontecendo com o Naruto afinal?

- E-eu sin-sinto muito Sakura-chan... Eles estavam... Estavam dentro da casa.

Ele falou de vagar, olhando pra ela. Esperando a reação dela.

Mas ela apenas piscou lentamente e desviou os olhos para o fogo que começava a se extinguir em um lado da casa devido aos serviços de muitos ninjas que jogavam enormes quantidades de água. Reconheceu Kakashi, Lee, Tenten, Sai... Seus amigos e conhecidos pareciam estar todos ali.

Ela estava morta? Sim, ela devia estar morta e no purgatório. Porém o abraço do loiro era real demais. Mas, se não estava morta, então porque o seu coração não estava batendo? Ela não sentia ao menos. Ah, e o principal, porque não estava doendo? Devia estar. E muito. Afinal é o que se sente quando se vê a sua casa pegando fogo não é? A luz alaranjada que clareava a noite era conseqüência das chamas altas que acabavam de varrer seu lar. Com seus pais lá dentro.

Ouviu um som auto e estridente na noite escura. O que seria aquilo? Alguém havia gritado? Porque o Naruto a olhava daquele jeito? Como se ela estivesse louca ou algo do tipo. Ela não estava. Mas... Ouviu o som mais uma vez. Talvez estivesse então. O som vinha da sua boca.

Olhou para as mãos ao senti-las molhadas quando passou os dedos nos olhos para que sua visão ficasse clara. Aquilo eram lágrimas?

De repente a água salgada em seus dedos escureceu. Vermelho. Era sangue. E ela estava encima de um homem de cabelos pretos e grandes com uma cicatriz horrível na face esquerda. Os dois estavam sem roupa e os lençóis estavam pouco a pouco se tingindo de vermelho. O líquido ainda quente saindo do peito daquele que ela devia matar. E matou. Mas agora ela estava coberta com o sangue dele, descendo pelo seu pescoço, pingando de seus cabelos. Um grito agudo saiu de sua garganta ao ver o morto abrir os olhos.


Acordou suada e ofegante. Outro pesadelo. Merda. Eles haviam se tornado bem freqüentes ultimamente. Desde aquele dia. A jovem passou a mão na testa e no pescoço que estavam banhados de suor. Levantou da cama em um salto e foi tomar um bom banho gelado.

Era o dia.

Finalmente veria a cara do maldito que assassinou toda sua família. Menos ela. Era justo isso? Ela não sabia, mas que Kami-sama a perdoasse, pois ela iria se vingar. Com as próprias mãos. A morte de quem ela amava não era uma coisa a qual ela sequer pensava em perdoar.

Trocou-se, pondo um vestido curto verde escuro, de alças e um decote considerável. Não estava mais em Konoha, então não havia necessidade de suas roupas ninjas habituais, além de que não queria que ninguém soubesse que ela era uma kunoichi, precisava que o Haitate a achasse atraente. Seduzir-lo era a única chance que tinha de conseguir estar a sós com ele e fazê-lo confessar seu crime antes de implorar pela morte rápida de suas mãos que seriam excessivamente cruéis nesta ocasião.

Fez uma maquiagem mais carregada, destacando bem os olhos verdes, pegou sua capa preta pondo-a sobre a roupa, não havia necessidade de se mostrar sem que ele estivesse ainda estivesse lá para apreciar, e saiu do quarto da hospedagem. Iria comer alguma porcaria no bar, não sabia a que horas o maldito chegaria, segundo a sua informante ele não costumava ter hora marcada, então teria que enrolar um pouco enquanto esperava.

Sentou-se em seu habitual banco de madeira, no canto mais escondido do balcão e pediu um rámem. Faziam dias que ela não comia algo descente e andava bebendo com muito mais freqüência do que estava acostumada para entrar no clima do ambiente, essa falta de alimento estava começando a ser incomoda, precisava por algo sólido no estomago.

Começou a comer lentamente assim que o atendente trouxe-lhe seu pedido. Estava deveras com fome, mas não tinha pressa de sair dali. Olhou para o prato e quase sorriu. Havia se habituado tanto a ver o Naruto comendo rámem que havia pegado a mania de comer também. Tomara que ele estivesse bem.

No silencio que o bar adquiria àquela hora da manhã seus pensamentos começaram a vagar. Estivera impedindo sua mente de chegar naquela linha de pensamentos, mas agora que só podia aguardar ela se recusava a obedecer-lhe por mais tempo e lhe trouxe em um fleche rápido a imagem do jovem de cabelos negros e olhos vermelhos.

Passaram-se dois dias desde aquele encontro inusitado com o Uchiha. E ela pode constatar que ele continuava frio e sem sentimentos, como sempre. Mas ele também estava ainda mais magnífico. O ódio que ela sentia agora não era capaz de cegá-la a tal ponto que ela não pudesse notar isso. Embora ela não mais quisesse ou pudesse, ainda não sabia bem, sentir qualquer outra coisa a não ser uma onda intolerável de ódio e desejo violentos quando pensava nele. Quando lembrava dele.

Odiava-o agora porque foi por ela conhecê-lo que sofrera tanto, porque fora enquanto estava em mais uma de suas missões inúteis a procura dele que conhecera o maldito Haitate e matara o crápula do pai dele em uma batalha sangrenta, despertando-lhe assim o ódio para si, porque fora durante mais uma missão em busca de informações sobre a akatsuki e o possível envolvimento do Uchiha com ela que seus pais foram mortos queimados dentro de casa, sem ela para protegê-los. Porque foi por ter visto a história e a escolha dele que ela tomara a sua três meses atrás. Tudo culpa dele. Quem sabe se ela não soubesse que se podia conseguir vingança ou que se podia sentir tanto ódio, ela estivesse sofrendo ainda, porém na sua vila, e um dia a dor cessaria, e ela pudesse enfim ter uma vida normal de novo? Mas agora de nada mais ela tinha certeza. Nem sabia se ainda tinha uma vila para a qual voltar se aquilo tudo acabace e ela ainda estivesse viva.

O dia transcorreu lentamente e, a cada hora que se passava, Sakura ficava mais impaciente. O Haitate não aparecia em lugar algum, nem mesmo na cidadezinha ele pisara, e já era a quarta vez que entrava naquele bar imundo, agora lotado por ser noite.

Por fim decidiu ir para seu quarto quando o dono começou a fechar as janelas. Aquele dia havia sido um desperdício! Afinal o que havia acontecido? Porque o maldito assassino não havia aparecido?

- Maldição – ela xingava baixinho enquanto caminhava rápido pelas ruas desertas – onde aquele condenado esta?

Estava tão cansada e absorta em sua raiva que não percebeu um shinobi se aproximar, só dando por si quando estava presa contra a parede da hospedagem, uma mão estranhamente quente em seu pescoço.

- O que ainda faz aqui? – a voz de Sasuke não passava de um sussurro agressivo e rouco

A garota revirou os olhos, extremamente chateada.

- De novo não – falou calma – eu já disse que não vou embora.

Ele a prensou ainda mais com o corpo quente. Estava visivelmente zangado, vírgulas negras nadando no vermelho. Sharingan ativado.

- Não é uma brincadeira! Mas já que você não se importa em morrer... – ele sorriu maldoso – Eu tenho uma idéia na qual você pode me ajudar.

Ela ergueu uma sobrancelha. O humor do Uchiha era mesmo totalmente instável. Ele não estava irritado um segundo atrás? Como poderia agora parecer divertido e... Malicioso? Mas ainda sim ela pode notar que o Sasuke estava bem alerta. O que estava acontecendo? E porque ele tinha que ficar tão perto? Droga! Assim ficava difícil pensar. O corpo dele estava encostado no dela e ela podia sentir o calor dele. Como seria poder tocar a pele quente sem aquelas roupas inúteis? Sakura trincou os dentes irritada com o rumo dos seus pensamentos.

- O que houve? Você parece nervoso – debochou a kunoichi com um sorrisinho divertido na face – o que pode estar abalando o grande Uchiha Sasuke?

Ele lhe lançou um dos seus olhares mais gélidos.

- Caso a grande kunoichi não tenha notado estamos cercados de shinobis – um sorrisinho se formando ao ver a Sakura abrir mais os olhos, surpresa – estão vigiado.

- Vigiando o que? – perguntou seria agora, atenta a qualquer movimento embora ainda não conseguisse sentir os chakras – eu não sinto os chakras...

- Eles são ninjas de elite. Os melhores assassinos que o dinheiro pode pagar – ele se aproximou mais para sussurrar no ouvido da jovem, a mão descendo ate a cintura da moça – precisa fingir que eu sou seu cliente.

Sakura se arrepiou contra vontade. O hálito dele era quente, demais ate para alguém tão frio, queimava a pele dela onde tocava.

- Cliente? – ela perguntou sem conseguir assimilar muita coisa com o corpo ainda coberto de arrepios. Maldito Uchiha!

- É Sakura, você terá que fingir que é uma prostituta... – ele sorriu malicioso, parece que a Sakura ainda era bem inocente afinal.

- Eu não vou fingir nada! – a voz saiu entre dentes, raivosa – Eu... Eu posso lutar com eles.

O Uchiha trincou os dentes. Como alguém podia ser tão teimosa? Embora estivesse contando com a teimosia dela para achá-la ainda na aldeia. Seria mesmo bem difícil trabalhar com ela nisso.

- Não seja ridícula. – a voz mais uma vez irritada – são mais de cem ninjas, mas realmente não é isso que me preocupa. Eu quero o Haitate vivo, e se o meu plano falhar isso não será possível.

- Mas eu o quero muito bem morto – ela falou fria.

Ele apertou a pressão na cintura, sem paciência.

- Não conseguirá. Antes talvez sim, mas agora ele esta muito bem protegido. Só há um jeito. Mas eu posso explicar lá dentro, no seu quarto, agora eles irão desconfiar se ficarmos apenas conversando por mais tempo ainda. – de repente as mãos dele abriram a capa preta e a seguraram firme na cintura, a boca dando uma leve mordida na orelha antes de sussurrar – entre no jogo ou eles vão atacar.

E de repente ele a suspendeu no chão a obrigando a abraçar sua cintura com as pernas. Ela prendeu a respiração. Constrangedor demais para a antiga Sakura, excitante demais para a atual. Ela estava confusa, tudo acontecendo rápido demais, sentia a própria pele arder onde a boca do vingador estava chupando. Ele não era gentil, pensou com o corpo todo arrepiado e segurando firme nos cabelos pretos enquanto ele raspava a pele dela violentamente com os dentes, e apertava seu quadril de modo impetuoso.

Ela ofegou. Sua mente nublada. Mas que porcaria! Ela não podia deixar ele ter tanto controle assim sobre ela, sobre o corpo dela. Lutou para se libertar dos braços dele o empurrando pelos ombros.

- Que pensa que esta fazendo Uchiha? – ela estava vermelha e o Sasuke achou uma gracinha a timidez dela – me coloque no chão!

Ele pressionou umas das mãos na boca dela.

- Shii – ele impôs severo – você prefere que eles ataquem? Depois do que aconteceu eles não vão correr o risco de mais um ataque, estão por toda a aldeia e vão atacar qualquer suspeito. Você deve saber que o Haitate manda aqui.

- E o que aconteceu? Que ataque? – Sakura perguntou quando a mão dele se afastou de sua boca.

- Eu te conto quando estivermos lá dentro. – ele sussurrou no seu ouvido a fazendo tremer mais uma vez – agora fique quieta. Isso é necessário.

Ela sentiu vontade de gemer quando ele sugou o nódulo de sua orelha.

- Vamos logo para dentro, eles devem estar esperando pelo resto.

Sakura congelou na hora.

- Re-resto?– gaguejou

- Não se preocupe – ele a olhou com um brilho tremendamente divertido nos olhos vermelhos – nós não faremos nada.

Tsuzuku...