Capítulo 02

Dino espreguiçou-se e colocou os óculos sobre a mesa. Seus olhos estavam cansados, seus ombros doloridos e seu corpo começava a demonstrar que era hora de fazer uma pausa. O trabalho não desapareceria ou diminuiria independente de sua disposição para realizá-lo. O relógio em uma das extremidades da mesa marcava pouco mais de 20hs naquela quarta-feira. Havia mais alguns relatórios para serem revisados, mas o louro não se sentia animado para ler nem mais uma folha se quer. O último relatório o deixou curioso e levemente temeroso, e seria preciso discuti-lo com um pouco mais de atenção.
Tsuna retornara há dois dias, e trouxe consigo vários problemas e suspeitas.

O Chefe dos Cavallone ficou de pé e espreguiçou-se novamente, deixando o cômodo que usava como escritório e seguindo para o outro lado da suíte. A porta do quarto foi aberta, e mesmo sem se virar, o italiano começou a falar. Pelo horário Romário provavelmente apareceria perguntando se ele não tinha intenção de jantar.

- Eu ainda não estou com fome, comerei alguma coisa mais tarde - Dino parou em frente à cama, desabotoando a camisa que usava - Sobre o relatório, vou conversar com Tsuna no domingo. Certas coisas não fazem sentido e acredito que entenderei melhor se ouvir do Chefe em questão.

- Eu pensei que você fosse retornar ao Templo no domingo.

O italiano virou-se, ficando surpreso ao ver que seu visitante não era seu braço direito.
Hibari estava de braços cruzados e recostado ao sofá, olhando indiferente para o homem a poucos passos de distância.

- Você deveria ser mais cuidadoso. Qualquer pessoa poderia ter entrado e ouvido sua conversa sobre a Máfia e afins - O moreno desencostou-se, aproximando-se devagar.

- Isso não acontecerá - O louro sorriu, mas desviou os olhos e voltou a ficar de costas - Eu escolho bem as pessoas que permito entrarem em meus aposentos.

O tom de voz e a maneira áspera com que aquelas palavras foram ditas não passaram despercebidos pelo Guardião da Nuvem. Os olhos negros de Hibari se estreitaram, mas ele nada disse.

- Sobre o próximo domingo, eu terei de cancelar. Tsuna me convidou para jantar em sua casa e eu preciso conversar com ele sobre alguns assuntos importantes - O Chefe dos Cavallone foi até o guarda-roupa, escolhendo o que vestiria. O verão japonês estava no auge, e infelizmente grande parte de suas roupas era de inverno.

- É sobre o último relatório? - O moreno sentou-se na cama, cruzando as pernas e encarando a suíte.

- Sim. O que você achou?

- Eu não confiaria nessa Família, mas bem, eu não confio em ninguém - Hibari virou levemente o rosto, encarando as costas nuas do italiano - Acho que estão planejando algo grande e acreditam que o Sawada Tsunayoshi não perceberá por ser jovem e tolo. Concordo com a segunda parte, obviamente.

- Tsuna não é tolo - Dino fechou as portas do guarda-roupa, colocando um meio sorriso no rosto ao ver que Hibari havia se arrastado até o meio da cama. - Nós somos bem parecidos em certas coisas, e acredito que ele esteja fazendo um excelente trabalho como Chefe.

- Por que acha que eu disse que ele é um tolo? - O Guardião da Nuvem virou o rosto ao sentir uma das mãos do italiano em sua pele. O Chefe dos Cavallone havia se sentado na beirada da cama, aproximando-se devagar. - No final, vocês são dois idiotas.

Dino sorriu, achando impossível negar aquele comentário.
Somente alguém completamente idiota continuaria se arrastando dia após dia atrás de outra pessoa como ele fazia. Entretanto, todas as vezes que via Hibari, seu corpo simplesmente se movia, procurando ficar próximo, tocá-lo e estar junto o quanto antes.
Mesmo estando chateado, o italiano não conseguia negar o quanto amava o Guardião da Nuvem com todo seu ser.

O moreno não fugiu quando os lábios do Chefe dos Cavallone se aproximaram. O beijo começou devagar, mas se intensificou quando o louro posicionou-se no meio da cama e entre suas pernas, inclinando-se e fazendo com que Hibari tivesse de deitar-se na cama. A língua de Dino procurava com delicadeza a de seu amante, gemendo baixo quando ambas finalmente se encontraram. Os dois não se viam desde o último domingo quando o louro deixou o Templo sem nenhum tipo de explicação. No dia seguinte o italiano ligou e ambos conversaram por alguns breves minutos, mas nos dois dias que se seguiram, o Guardião da Nuvem não recebeu nenhum tipo de notícia, precisando comparecer pessoalmente ao Hotel para ter certeza de que Dino estava pelo menos vivo.

Ele sabia que com a chegada de Tsuna o Chefe dos Cavallone acabaria inevitavelmente ficando mais atarefado, mas no fundo o moreno pressentia que tinha alguma outra coisa acontecendo, e que não envolvia necessariamente mais uma das atitudes infantis e mimadas do louro. As palavras ácidas, os olhares que raramente se cruzavam, como se Dino estivesse com medo ou vergonha de encará-lo. O silêncio que crescia entre eles, as constantes ausências, e principalmente a sensação que Hibari sentia de que o que quer que estivesse aborrecendo o homem em seus braços, era relacionado diretamente à ele.
Os dois estavam juntos há sete anos, e se havia algo que o Guardião da Nuvem poderia se vangloriar era da forma como ele conseguia ler o italiano como um livro. O problema era que as últimas páginas pareciam ter sido escritas com terríveis garranchos.

O beijo durou mais do que um simples cumprimento e menos do que o tempo necessário para levá-los a um segundo gesto ou ação. Dino ainda brincou com os lábios de seu amante antes de ficar de pé, pegando as roupas que escolhera e seguindo na direção do banheiro.

- Eu vou jantar depois do banho, gostaria de me acompanhar? - O italiano parou na porta.

- Eu não me importo - Hibari colocou um dos travesseiros em suas costas, sentando-se melhor na cama - Eu passarei a noite por aqui de qualquer forma.

- Eu não demoro...

O Chefe dos Cavallone sorriu ao ouvir a última parte, entrando finalmente no banheiro.
Quando a porta foi fechada, o Guardião da Nuvem cruzou os braços e encarou novamente a suíte com um olhar sério. Aquele beijo, aquela conversa vazia e principalmente aquela última atitude por parte do louro só aumentaram suas suspeitas de que havia algo acontecendo. Aquela foi a primeira vez que o italiano não o convidava para juntar-se a ele no banho, além de ter trancado a porta ao entrar.
Nenhum detalhe passava despercebido por alguém tão observador como Hibari, que se sentia incrivelmente deixado de lado, mesmo sem entender necessariamente os reais motivos para aquelas atitudes.

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Dino apareceu pontualmente na casa de Tsuna na noite de domingo.
O Décimo Vongola ficou incrivelmente feliz em rever o amigo, e durante boa parte das horas que permaneceu sob o teto dos Sawada, o Chefe dos Cavallone poderia dizer com absoluta certeza que foram as melhoras horas daquela última semana. Ambos riram e compartilharam momentos engraçados na companhia de Nana, Reborn, I-Pin e Lambo. Durante aquele pouco tempo, o louro permitiu-se esquecer qualquer outro assunto que não estivesse relacionado àquela visita em especifico.
Somente quando ambos os Chefes retiraram-se da sala de jantar e seguiram para o quarto de Tsuna foi que o assunto tornou-se um pouco mais sério.

O Décimo Vongola compartilhava da mesma opinião que seu Guardião da Nuvem, com a diferença de que Tsuna tinha uma visão um pouco mais romântica e pura sobre as pessoas envolvidas. O homem de cabelos castanhos relatou os encontros que teve com o Chefe da Família em questão, e a forma como não conseguiu confiar totalmente naquele homem. Dino sabia de quem ele se referia. Há alguns anos o mesmo Chefe pediu aliança com os Cavallone.

- Eu vou ter uma reunião com meus Guardiões amanhã sobre o assunto. Se algo relevante surgir eu o manterei informado, Dino. De qualquer forma, tome cuidado.

Quando deixou a casa dos Sawada e entrou em seu carro, o italiano ainda tinha um meio sorriso nos lábios devido às agradáveis horas que passou em boa companhia.
Romário encarou seu Chefe pelo retrovisor, limpando a garganta e mostrando-se presente.

- Desculpe tirá-lo de seus devaneios, Chefe, mas para onde vamos agora?

A pergunta surpreendeu Dino, que virou levemente a cabeça sem entender.

- Você vai retornar ao Hotel ou vai para o Templo, Chefe?

O italiano desfez o sorriso, movendo os lábios somente para anunciar que estaria retornando ao Hotel. Seu braço direito nada disse, mas Dino sentiu os olhos de Romário através do retrovisor, fazendo-o sentir-se ainda mais infantil pelo que acabava de fazer.
Ele combinara de ir direto para o Templo depois do jantar na casa de Tsuna, mas não se sentia nem um pouco inclinado em estragar o resto de sua noite.

Aquela seria a primeira vez que o Chefe dos Cavallone agia dessa forma. Ele não telefonou para o moreno ou avisou que não iria. Sua consciência lhe lembrou durante praticamente toda a noite que aquilo havia sido tolo e imaturo. Sua companhia foi novamente o trabalho e uma garrafa de vinho, retirando-se para a cama no meio da madrugada apenas porque não havia mais nenhum relatório que precisasse de sua atenção.
E naquela curta noite, o louro teve o primeiro de muitos pesadelos que o acompanhariam pelas próximas noites.

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O céu estava azul, e a luz do Sol brilhava diretamente em seu rosto, lembrando-o de que ele não fechara as cortinas antes de se deitar. O italiano abriu os olhos, encarando o teto e tentando esquecer as péssimas horas dormidas enquanto revisava mentalmente o que teria de fazer naquele dia. O trabalho fora feito durante a noite, então aquele seria apenas mais um dia livre.

Dino sentou-se na cama, passando as mãos entre os fios de cabelo. O relógio ao lado marcava quase onze horas da manhã, e não foi preciso muito para que ele se levantasse e percebesse que de nada adiantaria fugir ou evitar seu principal problema no momento; pois a primeira pessoa que lhe passou pela cabeça ao abrir os olhos foi Hibari e no quão irritado seu amante não deveria estar.

O italiano arrastou-se da cama para o banho e do banho para o restaurante do Hotel. Romário não pareceu surpreso em saber que o trabalho daquele dia estava completo, muito menos de ouvir que seu Chefe gostaria de ser dirigido até o Templo após o café. Já era praticamente a hora do almoço quando o Chefe dos Cavallone deixou o Hotel, pensando no que diria ou no que faria quando encontrasse o Guardião da Nuvem. Conhecendo Hibari, o moreno provavelmente diria que não notou a ausência do dia anterior, e mudaria de assunto em seguida. A situação permaneceria a mesma, sem que nenhum deles tocasse no assunto novamente.

Era assim que eles resolviam os problemas desde o começo, e não havia sinal de que o método fosse mudar.
Quando o carro parou e o louro pediu que Romário o esperasse, uma parte de Dino desejou que o Guardião da Nuvem o recebesse com os tonfas em mãos e uma expressão nem um pouco amistosa, ameaçando mordê-lo até a morte ou coisa parecida. Pelo menos ele sentiria que Hibari se importava e que sentia alguma coisa.

Dino subiu a longa escadaria do Templo Namimori, parando somente quando seus pés pisaram no primeiro degrau de madeira que levaria a entrada da casa. Sua resolução não era forte o suficiente para permitir mais um passo, e ele sabia que não conseguiria simplesmente entrar como se nada tivesse acontecido. Os minutos que passou do Hotel até ali serviram apenas para deixá-lo ainda mais ansioso e preocupado com a direção que sua relação estava tomando. Era impossível negar que alguma coisa estava errada. O italiano não sabia se sua insegurança era causada somente pelo medo de perder Hibari, ou se tinha raízes mais fundas. Aquela era a primeira vez que ele se sentia tão descartável.

Sentando-se no degrau de madeira, o Chefe dos Cavallone abaixou a cabeça e permaneceu perdido em seus próprios pensamentos por um tempo indeterminado. Seus devaneios pareciam cada vez mais difíceis de fazerem sentido, e tudo apontava para uma conversa séria com o Guardião da Nuvem. Pois mesmo que soubesse que o moreno iria se sentir ofendido, era melhor do que continuar nutrindo aquelas desconfianças que não tinham base nenhuma além de pura especulação.
A atenção de Dino só foi roubada quando seus ouvidos captaram o barulho de passos e seus olhos se ergueram para saudar os visitantes. Kusakabe vinha ao lado do Guardião da Tempestade dos Vongola. O Chefe dos Cavallone esqueceu-se da reunião de Tsuna durante a manhã.

O braço direito de Hibari aproximou-se, fazendo um leve cumprimento com a cabeça ao passar pelo louro. O italiano sorriu de canto, mas permaneceu sentado, observando Gokudera Hayato aproximar-se.

- Boa Tarde, Gokudera.

- Boa Tarde. - O homem de cabelos prateados respondeu baixo, colocando as mãos dentro dos bolsos do terno.

O Chefe dos Cavallone voltou a encarar o chão e os dois permaneceram em silêncio.

- Hibari está? Eu preciso repassar algumas informações sobre a reunião de hoje. - O Guardião da Tempestade estava visivelmente se esforçando para iniciar uma conversa.

- Não sei - Dino virou levemente o rosto na direção da casa de madeira em suas costas - Eu ainda não entrei.

O italiano ficou de pé, passando a mão nos cabelos. Ao ver-se sozinho com Gokudera a pergunta brotou em sua mente sem nenhum aviso. Ele sabia que estava perdendo tempo e que seria bem mais simples e menos doloroso não saber.

- Todos os Guardiões participaram da reunião?

O braço direito do Décimo Vongola juntou as sobrancelhas prateadas, demorando alguns segundos para responder. Aparentemente todos os Guardiões frequentaram a reunião, mas a única parte relevante foi saber que Kusakabe representou Hibari, e que o braço direito do Guardião da Nuvem chegou acompanhado por Chrome.
As palavras não o deixaram feliz. Não fazia muito sentido se importar com aquele tipo de informação, mas o fato de que a coisa mais insignificante o incomodava fez com que Dino se sentisse extremamente patético.

- Entendo. Tsuna está feliz por retornar. Ontem jantamos juntos e ele parecia encantado por estar em Namimori - O louro bateu levemente a calça com as mãos. Seus pensamentos estavam confusos e realmente não havia sido uma boa ideia ter ido até lá sem nenhum tipo de aviso ou decisão firme - Bem, melhor eu ir agora. Boa tarde.

O Chefe dos Cavallone sorriu, mas antes que pudesse dar o primeiro passo, a pessoa que aparentemente ambos esperavam surgiu.
Hibari deixou a casa de madeira trajando um kimono negro. A expressão em seu rosto estava séria como sempre, e seus olhos pousaram automaticamente na figura do italiano.
Dino desviou os olhos, sentindo-se envergonhado.

- Ouvi que você gostaria de falar comigo - O Guardião da Nuvem mal olhou para o homem de cabelos prateados, mesmo a pergunta tendo sido direcionada a ele.

- Eu preciso repassar os relatórios referentes à reunião - Gokudera respondeu em tom monótono.

- Vocês parecem ocupados e eu preciso voltar ao meu trabalho – Dino mentiu e meneou a cabeça na direção dos dois Guardiões. Seus olhos encararam o moreno por um momento e ele se virou, afastando-se.

Hibari permaneceu no mesmo lugar até que o Chefe dos Cavallone sumisse conforme descia as escadas do Templo. Sua atenção foi então para o homem de cabelos prateados, lembrando-se de que ele era um dos motivos que o levou a deixar o conforto de sua casa.
O Guardião da Nuvem estava sentado na sacada de seu quarto quando Kusakabe chegou e anunciou que tinha visitas. O rosto do italiano foi o primeiro a brotar em sua mente, mas seu nome foi o segundo a chegar a seus ouvidos. Ao encarar Dino com seus próprios olhos, o moreno não soube dizer qual sentimento o dominou com mais ímpeto. A raiva era forte, e foi responsável por fazê-lo colocar o par de tonfas dentro do kimono antes de deixar o quarto.
Entretanto, ao ver a maneira como o louro estava agindo, Hibari começou a se preocupar. A ideia de mordê-lo até a morte por deixá-lo esperando na noite anterior não era nada se comparada a incomoda ansiedade que se instalou em seu coração ao ver o italiano lhe dando as costas, e sumindo de vista sem nenhuma palavra.

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Romário não era uma pessoa extremamente falante. Por trás dos óculos que usava o braço direito dos Cavallone havia presenciado muitas situações envolvendo a Família que decidira servir. Durante os anos que permaneceu ao lado de Dino, ele serviu muitas vezes como amigo e até mesmo a figura paterna que o louro precisou diversas vezes. Quando o italiano desceu as escadarias do Templo e anunciou onde gostaria de ir, o braço direito dos Cavallone apagou o cigarro e entrou no carro no mais puro silêncio. Seus olhos não encararam o Chefe pelo retrovisor. Seus lábios não o repreenderam ou proferiram palavras que pudessem mudar os planos iniciais.

Durante todo o curto caminho Romário dirigiu em silêncio. O carro parou em uma esquina, os dois homens desceram e caminharam por alguns minutos. O destino era um dos raros bares que abria durante o dia em Namimori. Alguns membros da Família ficaram surpresos por ver o Chefe, mas nenhum deles fez perguntas, cumprimentando o homem que entrava com todo o respeito e carinho que sua posição exigia.

Sentando-se em uma das banquetas, Dino permaneceu na mesma posição por horas. Seus olhos só se moviam para encarar o próprio copo. Seus lábios só proferiam palavras se fosse para pedir outra dose. Seus ouvidos não escutavam nada. O efeito da bebida foi rápido, já que o italiano só havia tomado café naquela manhã. Após a terceira dose o Chefe dos Cavallone começava a sentir o rosto corado.
Romário sentiu os olhares dos subordinados, mas permaneceu no mesmo lugar durante todo o tempo. O momento de intervir ainda não havia chegado.

O louro teria deixado o bar se em determinado momento uma figura conhecida não tivesse se juntado a ele. Dino ficou surpreso ao ver o Guardião da Tempestade sentando-se ao seu lado. Gokudera parecia visivelmente transtornado, e se não partisse do italiano a ideia de iniciar uma conversa, ele tinha certeza de que o homem ao seu lado não teria notado sua presença.

- Pelo menos não vou beber sozinho.

O espanto no rosto do Guardião da Tempestade o fez sorrir.
Os dois se entreolharam, mas nenhum tipo de conversa foi travada entre eles. A presença de Gokudera serviu para que o Chefe dos Cavallone tirasse a atenção de seus problemas, e pensasse um pouco no que poderia estar acontecendo ao homem de cabelos prateados. Algumas ideias passaram por sua mente, mas no fundo o louro tinha uma leve certeza do que poderia ser. Ele ouvira umas duas vezes de Tsuna que seu braço direito não parecia totalmente feliz, além de ter sido esse um dos motivos pelo qual a estadia na Itália havia sido reduzida em dois meses. O Décimo Vongola correu com as reuniões e suas tarefas como Chefe para retornar antes ao Japão, e o principal motivo foi seu Guardião e também melhor amigo.
Ninguém além de Dino tinha conhecimento de tal coisa, e enquanto admirava Gokudera virar o quinto copo de whisky, o italiano suspirou. No fundo a natureza dos problemas de ambos era basicamente a mesma. Nenhum deles estava ali por estar feliz e satisfeito.

Os dois homens deixaram o local ao pôr do Sol. O Guardião da Tempestade não parecia inclinado em negar a carona oferecida pelo Chefe dos Cavallone, e o louro não se importou em adiar em alguns minutos seu retorno ao Hotel. O silêncio durante o caminho foi o mesmo. Um mudo acordo de que palavras não eram necessárias para explicar o que estava acontecendo.

Gokudera agradeceu a carona ao descer do carro, e Romário esperou o tempo suficiente para que o homem de cabelos prateados subisse as escadas e aparecesse na sacada de seu andar. O braço direito dos Cavallone seguiu então para o Hotel, olhando pela primeira vez pelo retrovisor. Dino tinha o olhar em algo além da janela, e mesmo tendo bebido muito mais do que estava acostumado, o italiano mantinha a mesma expressão e porte. Só havia uma coisa capaz de fazê-lo mudar de sua personalidade habitual.

- Eu pedirei o jantar no quarto daqui algumas horas. Obrigado por me acompanhar, Romário.

O louro sorriu e meneou a cabeça para seu braço direito, vendo-o desaparecer conforme a porta do elevador se fechava. E então, longe dos olhares de qualquer pessoa conhecida, o Chefe dos Cavallone pôde fechar os olhos e recostar-se ao fundo, vestindo a amarga e infeliz expressão que tanto gostaria. Seus reflexos e atenção estavam fracos, e ele precisou retornar ao seu andar ao perceber que havia perdido a oportunidade de sair.
O caminho até o quarto foi feito lentamente, imaginando o longo banho que tomaria e as horas de sono que dormiria em seguida. A porta foi aberta com a chave eletrônica, seus sapatos ficaram na entrada, e enquanto caminhava pela suíte Dino afrouxava a gravata, deixando-a sobre a cama.

- Onde você estava?

A voz coincidiu com o barulho da porta do guarda-roupa sendo aberta, e fez com que o italiano piscasse, achando que havia delirado por causa da bebida. Suas sobrancelhas louras se juntaram, e mesmo achando que estava ouvindo demais, o Chefe dos Cavallone virou-se na direção em que pensou ter ouvido a voz. Seus olhos se arregalaram levemente, duvidoso entre o delírio e a realidade.
Se o Hibari que estava próximo a porta de vidro da sacada fosse uma ilusão, então não havia nada para se preocupar. Ele sumiria quando o efeito da bebida fosse embora. Entretanto, se o Guardião da Nuvem era real, então Dino estava com sérios problemas, pois até mesmo para uma ilusão, o moreno parecia sério demais.

- Eu perguntei onde você estava, Cavallone.

O tom de voz arisco. As palavras ditas entre lábios semicerrados. Os olhos negros e assassinos que o olhavam... Nada disso foi suficiente para provar ao louro que ele não estava sendo vitima de sua mente lhe pregando peças. Foi somente quando Hibari retirou o par de tonfas de dentro do terno que o italiano teve certeza de que era real.
Seus problemas estavam personificados à sua frente e pela maneira como o Guardião da Nuvem o olhava, aquele inevitável encontro não poderia ter acontecido em pior momento.

Continua...