- Seu quarto é esse – Lauren apontou na direção de uma entre diversas portas brancas.
Camila estava tendo que andar rápido para acompanhar os passos de Lauren. Ela finalmente alcançou a garota e apoiou as mãos nos joelhos, um pouco sem ar.
- O – o que? - Camila perguntou. Ela não tinha conseguido ouvir o que Lauren havia falado, porque estava muito longe da garota.
- Eu disse que... o seu quarto é esse aqui. – Lauren ergueu uma sobrancelha, apontando para a porta novamente. Ela notou que Camila continuava respirando rápido e agachada com as mãos na coxa. – Ei, ta tudo bem? – Lauren a olhou, assustada.
- Si- Sim. Eu – Eu não respiro muito bem. – Camila ficou com o corpo ereto novamente e puxou sua mala em direção a porta. – Você tem a chave do quarto?
Lauren resolveu não fazer mais perguntas. Afinal, elas nem se conheciam. – Ah, na verdade nós não podemos ter a chave do quarto, ele tem que ficar aberto o tempo todo.
- Você ta falando sério? – Camila se virou de frente para Lauren de novo, com uma expressão incrédula.
- Sim... – Lauren deu de ombros. – São regras do internato...
- Eu não acredito nisso! – Camila saiu batendo o pé, empurrando sua mala e abriu a porta do quarto. Era sem graça. Todas as paredes eram brancas e a roupa de cama também. O guarda roupa era branco. A escrivaninha era branca. Ela se sentiu mais sem ar ainda quando viu aquilo.
Era um pouco enlouquecedor olhar para a mesma cor por todos os lados. Pelo menos ela havia trazido praticamente toda a decoração do seu quarto de Miami, já imaginando que precisaria deixar o lugar aconchegante, se quisesse passar aquele tempo sem ficar louca.
Lauren disse que as regras do internato também incluíam: nada de celular, computador e nenhum tipo de aparelho eletrônico! As garotas tinham o direito de fazer uma ligação por dia, as 18:00 horas e podiam usar o computador todos os dias durante uma hora. O que era aquilo? Um internato ou uma prisão? Uma prisão seria melhor que aquilo. Pelo menos existia um motivo para as pessoas irem para a prisão... Mas ela? O que ela tinha feito? Se apaixonado por uma pessoa.
Lauren ficou ali, de braços cruzados, observando Camila enquanto ela aparentemente tinha uma conversa interna, enquanto desarrumava a mala. Quando ela viu que Camila não iria sair de sua bolha, disse:
- Bem, eu vou indo. – Lauren se virou, indo em direção a porta. – E ah – Se virou de frente pra Camila novamente e colocou a mão no bolso, tirando um molho de chaves. – Relaxa, ta aqui sua chave.
Camila parou de tirar suas coisas da mala e olhou na direção de Lauren. E olhou pra mão da garota. E pro rosto dela de novo. – Mas... Como assim... Você disse que nós não ganhávamos chave!
- Bem... – Lauren se aproximou mais, com a mão esticada enquanto segurava a chave – Tecnicamente não... Eu não faço isso normalmente... Você sabe, entregar a chave pras pessoas. Mas você parece tão... deslocada. – Ela pegou a mão da Camila e colocou a chave, depois fechou a mão da garota – Se você contar que eu tenho as chaves pra alguém eu vou ter que te matar. – Camila arregalou os olhos, mas Lauren apenas sorriu, colocou as mãos nos bolsos e saiu dali, fechando a porta atrás de si.
E deixando Camila novamente com seus pensamentos. Ela colocou a chave junto com seus chaveiros. Ela tinha um chaveiro de cada lugar que já tinha viajado com a sua família. Ela sorriu ao lembrar de todas as viagens, e de como sentia falta daquilo. Da sua família unida. Ultimamente ela tinha se afastado tanto deles, mal conseguia sentar na mesa para jantar com eles sem sentir vontade de chorar. A verdade é que eles já sabiam sobre seu relacionamento, mas fingiam que não. E toda vez que ela tentava entrar no assunto eles davam um jeito de sair fora da conversa. Camila ficava chateada porque nunca achou que seus pais reagiriam desse jeito. Eles sempre foram muito compreensivos com tudo. Acho que talvez eles estivessem esperando que aquilo fosse " uma fase", afinal, ela só tinha 15 anos.
Camila colocou a chave na escrivaninha e começou a guardar suas roupas. Toda vez que sua mãe a mandava arrumar o quarto, ela colocava os fones de ouvido e ligava seu ipod no último volume. Mas agora que as assistentes levariam seu ipod embora, ela não sabia como iria aguentar arrumar o quarto todo dia. Na verdade ela não sabia como iria aguentar fazer qualquer coisa naquele lugar sem seu ipod. Ela tinha levado seu violão com ela, pelo menos isso Camila achava que era permitido. Talvez fosse um bom tempo para ela compor e pensar. Pensar muito né...
Algumas horas depois, o quarto parecia outro. Ela quase se sentia em casa. Havia pôsteres e fotos espalhadas nas paredes. Ela havia levado sua luminária, já que não conseguia dormir no escuro. Era uma luminária antiga, daquelas que projetam as imagens. A dela projetava estrelas por todo teto. E ela gostava muito, a distraia e fazia ela dormir mais rápido.
Ela estava sentada no chão quando alguém bateu na porta e a fez levantar rapidamente, achando que era Lauren. Mas para sua surpresa era apenas a mesma assistente que tinha mostrado (tecnicamente) o caminho do quarto para ela. A mulher, que disse: "Boa noite senhorita Camila, você pode me chamar de Senhora Michelle", entrou no quarto e começou a olhar em volta, ela deu um sorriso e Camila achou que ela talvez tivesse gostado da decoração.
- O seu quarto ficou muito bonito Senhorita Camila. – A mulher disse, olhando para a jovem.
- Obrigado Senhora Michelle. E pode me chamar só de Camila mesmo. – Camila mordeu o lábio, sem saber se devia perguntar ou não. – Senhora Michelle?
- Oi Camila? – A garota sorriu, estava meio incomodada com alguém a chamando de "senhorita".
- Você veio aqui pegar todos os meus aparelhos eletrônicos?
- Ah – A Senhora Michelle deu um sorriso triste. – Infelizmente sim querida... São regras do internato.
- Urgh, por que ninguém me avisou isso antes?
- Provavelmente avisaram seus pais antes...
- E óbvio que eles não me contaram... – Camila revirou os olhos, esticando o braço na direção da cama para pegar o ipod – Isso é tudo que eu tenho de eletrônico. Meus pais pegaram meu celular antes de eu vir pra cá e eu não trouxe meu notebook... Se você quiser olhar no quarto, fique a vontade. – Camila sentou na cama, cruzando as pernas e apoiando o rosto nas mãos. Ela esfregou os olhos, querendo chorar.
- Bem... – Michelle olhou em volta – Normalmente eu não acreditaria em você e revistaria o quarto, mas, eu vou te dar um desconto ok?
" Ótimo, quer dizer que eu poderia ter escondido meu ipod e mentido e ela teria acreditado em mim? Eu odeio não saber mentir!" Camila pensou, revoltada.
- Ei, querida... Não me veja como uma superior sua, me veja como... uma amiga, ta?
- Mas... Você estava brigando com aquela garota... a Lauren!
- É diferente querida. Algumas garotas aqui precisam aprender a respeitar regras. Lauren é totalmente indisciplinada e não é uma boa pessoa... Fique longe dela ok?
- Mas foi você que me apresentou ela! E ela nem parece ser uma má pessoa! Ela até me deu... – Camila nunca foi de ficar quieta, ela sempre falava o que vinha em sua cabeça, sem se importar com as consequências. Mas dessa vez ela colocou a mão na boca, segurando suas próprias palavras.
- Camila, eu só pedi para ela mostrar onde era o seu quarto! Por acaso Lauren te disse alguma coisa?
- Não. Não! Claro que não... Ela só não parece ser uma má pessoa.
- Não deixe ela te influenciar Camila. Se você quer sair logo daqui, se comporte bem ok?
Camila não respondeu nada, apenas ficou lá sentada no mesmo lugar, agora com os braços cruzados, o que fez Michelle respirar fundo. Pelo jeito a garota era teimosa!
Depois de um silêncio, Michelle continuou:
- Eu olhei sua ficha antes de entrar e esta escrito que você tem asma, eu vou precisar que você passe na enfermaria para que caso você precise de alguma coisa, nós tenhamos condições de ajudar.
- Eu não preciso de nada.. Eu tenho remédio suficiente para dois meses, e eu realmente não espero passar mais tempo do que isso aqui.
- Camila, sua asma é de terceiro grau. Você vai precisar passar na enfermaria.
Camila novamente não respondeu nada e Michelle resolveu deixa- lá sozinha. Ela entendia que a garota estava ali obrigada, e de que obviamente estava revoltada. Era questão de tempo até ela aceitar aquele lugar.
Michelle começou a caminhar até a porta e disse:
- O jantar começa as 19:00... Eu sinto muito Camila – Ela disse apontando para o ipod – mas você vai ter que aceitar que essa é sua vida agora.
Mais uma vez Camila ficou em silêncio. Ela queria muito chorar. Assim que a porta bateu, ela foi correndo até uma das fotos que tinha pendurado na parede e arrancou, abraçando- a bem forte.
- Eu sinto tanto sua falta Alice, tanto. Eu espero que você me perdoe. – Ela deixou apenas algumas lágrimas saírem, depois colocou a foto do lado de seu travesseiro e ficou deitada ali, observando o rosto da sua namorada.
Ela tinha colocado sua bombinha e seu inalador na mesinha que tinha ao lado da cama. Olhou no relógio e viu que já estava quase dando o horário do jantar. Camila queria dar uma volta pelo internato ainda, para conhecer os melhores lugares para se esconder do resto das pessoas. Junto com sua bombinha tinha um cordão, como se fosse um colar. Ela precisava usar o remédio várias vezes ao dia, então sua mãe a fazia andar com a bombinha no pescoço sempre.
Talvez fosse um dos motivos das pessoas acharem ela mais estranha ainda. Mas Alice nunca tinha ligado, nem perguntado nada sobre aquilo pendurado no pescoço de Camila, até a garota resolver contar o que era.
Foram várias as vezes que ela teve crise quando estava junto com Alice, mas sua namorada não se importava, pelo contrário, ela mantinha a calma. Diferente de Camila que sempre achava que ia morrer quando não conseguia respirar.
Camila secou as lágrimas dos olhos e segurou o choro. Se levantou, colocando a bombinha no pescoço. Sua mãe não estava mais lá para obriga-la, mas ela ainda meio que precisava respirar, então...
Ela ajeitou aquele uniforme ridículo e estava prestes a sair do quarto quando lembrou que fora do horário de aula, ela podia usar suas roupas. Nem sabia porque a diretora tinha mandado ela trocar de roupa? Acho que a mulher só queria que Camila se acostumasse com a ideia.
Depois de colocar uma calça jeans e uma de suas blusas de algodão, essa era lilás e tinha várias flores coloridas, ela foi em direção a porta novamente, colocando a foto de Alice no seu bolso.
-x-
Camila's POV:
Bem, o lugar não era tão ruim assim. Quer dizer, não tinha grades nas janelas nem nada. Não era como se não pudéssemos colocar o pé para fora ou andar livremente pelo internato.
Mas eu descobri , por causa de uma garota chamada Helena que me encontrou no meio do caminho e disse: " uma pessoa mandou eu entregar esse mapa para você" e eu respondi: " Por que não entregaram esse mapa quando eu cheguei?" porque ali tinha cada detalhe do internato, cada sala, cada coisa que você podia fazer lá dentro. Tudo isso desenhado e escrito em um grande papel. A tal garota Helena respondeu, num sussurro: " Por que esse mapa foi feito por uma das alunas, não pela diretoria. Sempre entregamos esse mapa para as garotas novas, mas o seu foi feito especialmente pra você. Foi o que me disseram." E assim Helena saiu andando. Ela andava de um jeito engraçado porque era muito alta. Eu quase torci o pescoço tentando olhar para ela. Por causa das suas longas pernas ela tropeçava o tempo todo em si mesma, e seus braços pareciam grandes tentáculos, de tão compridos.
Eu passei os olhos pelo mapa. Aquele lugar era...grande. Meus pais deviam estar gastando uma fortuna naquilo, sem necessidade. Eles nem tinham dinheiro para sair gastando assim, com bobagens. Estavam passando por problemas financeiros fazia quase um ano e eu nunca fui muito de pedir nada, ainda mais sabendo que eles não tinham como me dar as coisas que eu queria. A única coisa que eu tinha pedido, de aniversário, foi o meu violão. Minhas roupas eram compradas em brechós ou feitas por uma costureira amiga de minha mãe que cobrava baratinho. Mas eu nunca pedia pra ela comprar, ela que chegava com algumas roupas em casa as vezes de presente. Meus pais eram boas pessoas, muito fechados, mas boas pessoas.
Virei em direção á piscina, pelo menos era o que dizia no mapa. No final do corredor, realmente tinha uma saída que dava direto para a piscina. Mas no mapa tinha um círculo vermelho, apontando uma outra saída, dentro do vestiário. Fui andando até lá e novamente, o mapa estava certo. A saída dava direto para um jardim bem pequeno, onde não tinha ninguém. Sorri, imaginando que esse seria um dos meus lugares preferidos.
No mapa tinham muitos círculos vermelhos e eu não fazia ideia de quem tinha feito aquilo, mas a pessoa parecia querer me mostrar exatamente o que eu precisava, lugares para ficar sozinha.
Além da piscina, no primeiro andar elas tinham: Uma sala de televisão, uma biblioteca, academia, uma lanchonete ( estava escrito no mapa que a lanchonete só podia ser usada duas vezes por semana! Para evitar que as garotas passassem a semana inteira comendo só porcarias), um sala de relaxamento ( que podia ser usada uma vez por semana), o refeitório (onde era servido o café da manhã as 7:00, o almoço ao 12:00, o café da tarde as 16:00, e o jantar as 19:00), além disso tinham alguma máquinas espalhadas pelo internato onde você colocava um ticket ( que as assistentes iriam me entregar no primeiro dia de aula) e poderia escolher entre algumas opções de lanches. Barrinhas de cereal, chiclete, sucos, etc. Ao lado do refeitório, no corredor, ficavam aqueles sofás que eu passei assim que cheguei. Onde Lauren estava sentada.
Bem, eram muitas coisas para eu lembrar, com certeza vou demorar um tempo para me acostumar. E fora que pelo jeito vou ter que usar muito minha bombinha, já que o lugar é grande e eu preciso andar muito para ir de um lugar para outro.
No segundo andar do internato tinham poucas salas. A maior parte do espaço era cheia de pufes e aquelas cadeiras grandes que você pode ficar deitado. Tinha vários quadros espalhados, provavelmente de fundadores do lugar. E eu acabei descobrindo que aquelas eram as salas de aula. Uma mesma sala para todas as matérias, e várias turmas divididas por sorteio.
Eu não sabia quem tinha feito aquele mapa, mas com certeza tinha me ajudado muito, e ainda me ajudaria até eu me acostumar com a rotina. Desci as escadas para seguir em direção ao jardim. Olhei algumas vezes no mapa, para ter certeza que estava indo pela direção certa. A porta que nos levava em direção ao jardim era oposta a porta de entrada, por onde eu tinha chegado.
Até agora, era o meu lugar preferido. Além de um jardim enorme e muito colorido, tinha uma placa indicando o caminho para uma trilha! Com muitas árvores e bancos . Definitivamente seria o lugar onde eu passaria a maior parte do tempo. Tinha uma outra placa indicando uma sala onde as garotas podiam pegar coisas como: patins, bicicletas e skates emprestados para andar na trilha.
Eu sei que falando assim parece um lugar maravilhoso para estudar, mas, em cada canto do internato tinha uma câmera te vigiando. Elas até viravam na sua direção quando você andava! E era tipo, em cada lugarzinho que você andava. Até na trilha! Ali eles tinham colocado mais câmeras ainda, muitas muitas muitas câmeras. Talvez imaginando que aquele seria o lugar onde muitos "problemas" poderiam acontecer.
É compreensível. Quer dizer, óbvio que eles vão querer vigiar as garotas o tempo todo. Mas era um pouco irritante saber que cada passo seu estava sendo vigiado, e que você nunca estava sozinha.
Voltei para dentro do internato e olhei no relógio que estava pendurado em uma das paredes, já eram 19:30. Resolvi descer para jantar, antes que além de ficar naquele lugar, tivesse que ficar naquele lugar passando fome.
Assim que cheguei na entrada do refeitório, minha respiração ficou mais rápida e meus pulmões pareciam estar desesperados por ar. Eu só usava a bombinha em último caso, ou seja, quando eu estava quase morrendo sem ar. Eu não sei porque... mas eu gostava da sensação de quase ficar sem ar nenhum, e de repente estar respirando normalmente por causa do remédio. Era idiota, eu sei. E eu podia acabar desmaiando qualquer dia, ou morrendo, mas...
O refeitório estava muito cheio. Praticamente todas as garotas do internato deveriam estar ali. E isso era muito assustador. Muito mesmo. Porque eram muitas garotas! Eu abaixei a cabeça e fui em direção a fila para poder pegar minha bandeja. Tentei o máximo possível não olhar para ninguém, apenas me focar na minha comida.
Eu estava me esforçando tanto para respirar que eu mal notei o que a mulher colocou no meu prato, era pegajoso e tinha um cheiro meio estranho. Peguei um copo de suco de laranja, coloquei na bandeja e finalmente olhei pra cima, procurando alguma mesa para sentar. Lauren estava ali do meu lado, colocando suco no copo dela, e até acenou pra mim! Mas eu nem respondi, estava muito ocupada tentando conseguir respirar. Comecei a andar, evitando qualquer tipo de contato visual e procurando uma mesa vazia.
Existiam três tipos de mesa. Uma mesa gigantesca, onde ficavam a maior parte das garotas. Algumas outras mesas que cabiam seis pessoas, e outras que cabiam duas pessoas. Essa de duas pessoas ficavam no fundo do refeitório, e a maioria delas estavam vazias ou no máximo com uma pessoa sentada.
Cheguei no final do refeitório praticamente sem conseguir respirar, sentei na cadeira mais distante e coloquei a bandeja na mesa. Sem pensar muito coloquei a bombinha na boca e apertei muito forte, duas vezes, sentindo meu pulmão se encher de ar.
Encostei o corpo na cadeira, me sentindo aliviada. Fiquei ali com a cabeça virada para o teto por alguns segundos, respirando muito rápido, até conseguir me recompor. Assim que achei que a crise havia passado, me arrumei na cadeira e peguei os talheres para começar a comer. Nem consegui disfarçar minha cara de nojo... Aquela comida parecia...vômito. Era uma creme verde de espinafre, arroz e feijão.
Quase me arrependi quando resolvi olhar pra cima, porque ali, algumas mesas distantes da minha e sentada sozinha em uma mesa de duas pessoas também, estava Lauren. Me olhando com um sorriso.
Assim que ela viu que eu tinha olhado de volta, ela acenou de novo pra mim. Abaixei a cabeça rapidamente, enfiando uma garfada de creme de espinafre na boca. Sério mesmo que nós só poderíamos comer na lanchonete duas vezes por semana? Eu quase nunca comia comida em Miami! Eu nem lembrava de como comida era ruim! Urgh.
Continuei focada no meu prato, tentando não pensar muito no que eu estava comendo, e mantendo a cabeça baixa sempre.
Depois de alguns minutos notei alguém se aproximando e tentei não olhar, mas minha cabeça levantou um pouco, meio que automaticamente. Era Lauren. Ela estava vindo pra cá, segurando sua bandeja. Segurei o ar, mordendo o lábio.
Lauren parou de frente pra minha mesa e disse:
- Você não deveria largar isso em cima da mesa, alguém pode ver. – E saiu.
Isso. Apenas isso. Ela não disse mais nada. Eu ainda cheguei a olhar pra trás pra ter certeza de que ela não ia voltar e se oferecer pra sentar comigo. Era o que eu achava que ela ia fazer, quer dizer, pedir pra sentar comigo. Não que eu fosse aceitar, mas...
Mas não! Ela apenas falou para eu guardar meu mapa! Que eu tinha jogado na mesa quando cheguei, por causa do desespero. Dobrei o mapa e guardei no bolso da minha calça jeans. Dei mais uma garfada na comida e me levantei, indo de volta para o meu quarto.
