CAPÍTULO 1 - GATILHOS

Se não fossem suas consultas com a doutora Hamada, Ren acreditava que já teria exibido seu pior lado ao mundo desde que recebera a mensagem de Kyoko avisando sobre sua partida. E com isso, provavelmente colocaria em risco toda a carreira que construíra. Sensações violentas como raiva, ameaça e ansiedade eram os gatilhos para seu lado sombrio, que longe de estar controlado, apenas era "engarrafado".

"Esteja certo, Kuon, que cada vez que você ignora ou reprime uma parte de si, exerce uma violência sobre si mesmo. E cada violência deixa uma cicatriz. Cada cicatriz é uma fragilidade, e cada fragilidade o torna mais vulnerável a reagir negativamente ao mundo que o rodeia. Logo você se verá diante de um mundo cruel e opressivo, e a única resposta que conseguirá dar será reagir de forma igualmente cruel e opressiva. E assim o ciclo recomeça: você se sente culpado por ter sido violento e trancafia dentro de si tudo que considera inadequado sobre si mesmo. Sua parte reprimida se torna progressivamente mais difícil de lidar, e as cicatrizes voltam a acontecer. Você fica frágil novamente, e mais suscetível às ameaças do mundo. Sua ira explode, você se acalma e se arrepende. E assim o ciclo recomeça".

Ren ouvia estarrecido a doutora Hamada resumir em tão poucas e certeiras palavras todo o dilema que ele experimentava desde os quinze anos. Parecia óbvio, agora que a ouvia, que ele fora ingênuo ao acreditar que daria tudo certo se simplesmente fingisse ser outra pessoa. "Uma mentira contada mil vezes torna-se verdade", dizia a si mesmo todas as manhãs enquanto colocava as lentes de contato para se tornar Tsuruga Ren. Até o dia em que o personagem estaria tão entranhado em si mesmo, que não se lembraria mais como ser Kuon. Morreria tentando, se fosse necessário. Graças a Hamada-san, percebia agora a necessidade de mudar de estratégia.

"Você pretendeu forjar uma nova pessoa. Eu compreendo que seu desprezo por si mesmo era tamanho, que quis rejeitar tudo que era e criar alguém que fosse digno da vida que Rick sacrificara. Mas se houve algum sacrifício da parte de Rick, não foi por Tsuruga Ren, que ele sequer conheceu, não é mesmo? Foi por Kuon Hizuri. Então, pelo que você está me dizendo, Rick se sacrificou por você, e você prometeu que o recompensaria por isso... sendo outra pessoa? Meu caro, eu vejo uma falha enorme nessa sua lógica!", disse-lhe a doutora com um sorriso bondoso.

A cada sessão, a cada palavra da doutora o ator compreendia com qual profundidade ele se enganara por todos aqueles anos, e como avançara na direção oposta que deveria seguir. "Como eu fui tolo. E arrogante! Pensei que conseguiria sozinho. Pensei que possuía as respostas! Como eu poderia, se estava me sentindo completamente perdido?". "Está tudo bem", continuou a doutora. "Você não se considerava merecedor de ajuda, e na época precisava pensar que tinha algum controle sobre a situação. Você estava de luto e é normal a pessoa procurar acreditar que tem controle sobre alguma coisa, diante da experiência da morte. Mas agora você está procurando ajuda, o que por si só já é um avanço incrível. Então, Kuon, façamos um trato: você não verá os últimos seis anos como 'tempo perdido', e sim como 'o tempo necessário'. É um ajuste de postura, e pode parecer mínimo à primeira vista, mas são esses mínimos ajustes tudo que uma pessoa precisa para lidar com a vida de uma maneira construtiva".

Logo as sessões com a doutora Hamada se tornaram o evento favorito da agitada agenda de Ren. O tempo parecia voar enquanto ele contava cada um dos momentos em que sentira seu controle ruir e juntos, paciente e terapeuta, pensavam de que maneira ele poderia ter lidado com a situação sem que ela resultasse em culpa, frustração, tristeza ou ira. "Não são sentimentos proibidos, Kuon. Apenas não são saudáveis quando tão intensos ou frequentes".

Aos poucos Ren aprendia que lidar com as emoções era uma tarefa bem mais difícil que atua-las. Ele precisava encontrar o ponto certo entre domina-las, que era o que ele tentava fazer enquanto Ren, e deixar-se dominar por elas, que era a especialidade de Kuon. Em algum lugar do meio-termo estava 'ele'. O 'ele' real que Kyoko queria conhecer.

Diariamente ele se perguntava quem era ele, afinal? Quanto de Ren era uma criação, quanto de Ren era ele mesmo? As palavras de Kyoko começavam a fazer um novo sentido. Ele era um homem atuando um ator, e só isso já era suficiente para confundir qualquer pessoa, especialmente uma com tantos problemas de confiança. E não só isso: ele ainda adicionara à equação o personagem Corn! "Pobrezinha! Eu deveria estar feliz por ela não me odiar completamente...".

Os dias passavam em intensa auto-observação e reflexão. Por orientação da doutora, Ren começou a escrever seus pensamentos em um aplicativo de texto que compartilhava com ela. Assim, a terapeuta tinha acesso em tempo real sobre o estado mental do ator e podia fazer observações fundamentais sobre detalhes que Ren deixava passar despercebidos.

Fora estranho, a princípio, ter alguém lendo seus pensamentos; àquele nível de intimidade o ator nunca fora submetido. Mas Hamada era tão pontual em suas observações e benevolente mesmo quando ele se envergonhava do que estava pensando e sentindo, que logo ele estava confortável para lhe contar tudo.

Ter alguém desvendando seu lado sombrio e fazendo aquela difícil jornada junto com ele era reconfortante e fazia maravilhas à autoestima de Ren. Aos poucos o ator adquiria a confiança de que havia alguém no mundo que o aceitava como era, defeitos inclusos. Rapidamente começou a flertar com a possibilidade de seus pais estarem dizendo a verdade quando afirmavam que o amavam de todo o coração, mesmo quando ele se tornou cínico e cruel. "E talvez Kyoko me ame também, mesmo quando eu me revelar a ela", desejava esperançoso.

A vida prosseguia e a turbulência diminuía. Quando Ren começava a se acostumar à calmaria, a visita desagradável de um moleque atrevido prometia colocar à prova todo o autocontrole que o ator estava desenvolvendo na psicoterapia.

N/A – Quem estiver curioso sobre o que estará acontecendo com Kyoko, não temam, haverá vários flashes de toda a sua ausência. Preciso apenas me controlar na quantidade de personagens paralelos que quero criar, para não perder de vista os personagens principais XD