Hogosha
Capítulo 2
A neblina deslizava lentamente pelos flancos escarpados da montanha. A vegetação densa e o chão húmido coberto de musgo e fetos abafava qualquer ruído. Estorvado pela sua bagagem, o Ginko tinha dificuldades em seguir a Iwako que saltitava agilmente pelo trilho íngreme. Ele decidiu falar com ela, para evitar perdê-la de vista:
- Não te vi no festival de ontem... Não deixaste nenhum desejo atado às folhas de bambu?
Iwako respondeu sem se voltar:
- Não estou interessada em desejos. A maior parte das raparigas da aldeia não sabe escrever, e pedem-me para que as ajude. Elas não pedem auxílio aos adultos ou rapazes que podem escrever, porque se sentem mais à vontade comigo.
- Ontem também me cruzei com o Keiji, que parece ser um bom amigo teu.
A Iwako voltou-se para ele e esboçou um sorriso:
- Keiji? Sempre foi um grande amigo, e companheiro de brincadeira.
Ela suspirou, antes de retomar a marcha:
- Infelizmente ele tem cada vez menos tempo livre… E pelo que vi ontem, não me espantaria que ele se casasse antes do próximo festival, mesmo que ele provavelmente ainda não o saiba...
O Ginko desistiu da conversa, e eles continuaram silenciosamente a sua marcha pela floresta.
xOx
- Então pensas que é aqui? - Murmurou o Ginko, enquanto observava o pequeno lago de montanha.
O lago tinha inundado um pequeno vale, e a vegetação das encostas abruptas abrigava-o da luz e do vento. As suas águas imóveis e sombrias eram raramente perturbadas. O silêncio era absoluto.
Fascinado, o Ginko debruçou-se sobre a superfície do lago, observando atentamente. Ele notou salamandras parecidas com as de Iwako que se escondiam por baixo de plantas aquáticas. Ele também reparou que de vez em quando girinos vinham à tona respirar. Eles ainda tinham cauda, mas os seus membros estavam mais ou menos desenvolvidos. O Ginko sentiu um calafrio: "Agora percebo o que me parecia estranho neste lago: há girinos a nadar nele, mas não se ouve nenhum coaxar de rã… Onde estão os adultos?" O Ginko viu que o lago também era povoado por vários tipos de peixes. "Os peixes não parecem ter problemas em tornar-se adultos, enquanto as rãs e salamandras param de crescer quando… começam a respirar!". O Ginko olhou para as águas mais profundas, e passados alguns instantes disse à Iwako:
- Pequena, tive muita sorte em ter-me cruzado contigo, encontrei o que estava à procura.
A Iwako aproximou-se, interessada:
- O que é que está a ver?
- Poeira... Poeira dourada. Ela aproxima-se da superfície porque gosta de ar, mas não pode sair da água. É típico do Kinchiri, o mushi descrito pelos textos antigos.
Iwako suspirou frustrada:
- Não consigo ver nada.
- Como te disse, só algumas pessoas podem ver os mushis. Não poderia ser um mushishi se não tivesse essa capacidade.
O Ginko levantou-se e começou a recolher hastes de bambu de vários diâmetros. Usando a sua faca e cordel entrelaçou-as para formar uma larga peneira grosseira.
A Iwako trazia mais ramos de bambu e arrancava as folhas:
- Acha que vai conseguir apanhar a poeira com isso?
- Não, antes pelo contrário, isto vai servir para afugentar a poeira.
Ele abriu uma gaveta da sua bagagem, e pegou num frasco contendo uma espessa substância escura. Com a ponta de um bambu ele começou a aplicar pequenas quantidades nas varas da peneira.
- Esta substância afugenta a poeira. Seria melhor se utilizasse mais, mas como é muito rara, teremos de nos contentar com isto. Agora podemos construir a verdadeira armadilha.
Ele recuperou um tronco de bambu mais largo, e cortou-o pelo comprimento, deixando uma extremidade intacta. Depois afastou as duas metades do bambu com uma vara formando um V. Por fim pegou numa grande garrafa de vidro, que fixou à ponta do V pelo gargalo.
- Está pronto, agora basta meter um tecido de seda na garrafa e humidifica-lo. Vamos colectar poeira dourada!
Ambos despiram-se das suas roupas, e entraram no lago até que a água chegasse ao peito da Iwako. O Ginko deu-lhe a peneira, enquanto ele mantinha os braços do bambu em V deitados à superfície da água.
- A poeira dourada só é uma parte do Kinchiri. Na realidade o seu corpo está algures, no fundo do lago. Quando tu incomodas a poeira passando a peneira pela água, ela terá tendência a fugir ao longo da superfície do lago em direcção do Kinchiri. Se eu me interpuser no caminho da poeira, ela será canalizada pelos braços de bambu como num funil e recolhida no pano molhado dentro da garrafa.
Observando os movimentos da poeira, o Ginko pôde avaliar a posição do Kinchiri, e passados alguns momentos eles começaram a recuperar poeira na garrafa. O Ginko mexia-se com movimentos lentos pela água, e quando a Iwako escorregou ele admoestou-a:
- Tem cuidado! Evita mergulhar no lago, ou os teus pulmões cheios de ar acumularão a poeira como o pano dentro da garrafa.
Lentamente a poeira acumulava-se no pano da garrafa, que radiava uma luz dourada invisível para a Iwako.
Eles continuaram o trabalho durante horas, somente interrompendo a colheita para aplicar mais massa preta que era lentamente lavada pela água. Por fim, o Ginko deu-se por satisfeito.
- Podemos descer à aldeia. Se nos despachar-mos, ainda chegaremos antes do pôr do Sol.
- Porque não dormir perto do lago? Trouxe o que comer, e amanhã não seria preciso subir de novo até aqui.
- Não será necessário, já recolhi suficiente poeira. Amanhã partirei da aldeia.
A surpresa desenhou-se na cara da Iwako, mas ela guardou o silêncio.
xOx
O Ginko saboreava o seu último cigarro nocturno ao ar livre, antes de se ir deitar. O calor do dia tinha adormecido a aldeia, mas o silêncio foi interrompido pelo barulho de passos. O Ginko voltou-se e viu a Iwako iluminada no meio da noite pela lâmpada de papel que segurava na ponta de uma vara. Ela parou perto dele e perguntou-lhe:
- Senhor Ginko, gostaria de falar consigo. Podemos ir até ao riacho, estaremos mais tranquilos.
O Ginko levantou-se e acompanhou Iwako. Eles passaram por um denso bosque até atingir a margem do riacho, cujas águas vivas desciam pela encosta até ao arrozal. A Iwako voltou-se para o Ginko:
- Voltará em breve?
- Penso que não. Colhemos suficiente poeira para me durar anos.
Iwako hesitou, embaraçada:
- Sendo o senhor mushishi, não notou algo de estranho comigo?
- Sim, mas só ontem é que eu percebi que o aspecto do teu corpo não corresponde à tua idade.
- Disse que ajudava quem tivesse problemas com um mushi. Porque não me ajuda? Se é uma questão de dinheiro, tenho economias!
- Tu não me pediste ajuda. Quem sou eu para levantar problemas nos outros se eles próprios parecem satisfeitos?
A Iwako começou a chorar:
- Mas eu não estou satisfeita! Fico triste de ver os meus amigos crescerem e distanciar-se de mim. Se continuar assim, tenho medo de finalmente perder o Keiji. Com este corpo, não posso nem casar-me, nem trabalhar nos campos! Como é que poderei sustentar os meus pais na velhice? As crianças acham-me estranha e os adultos tratam-me como uma criança, sinto-me perdida e isolada!
O Ginko suspirou:
- Compreendo o teu desgosto. Eu pensei no teu problema, mas infelizmente penso que não te posso ajudar...
- Mas porquê? O senhor sabe dos mushis, até conhece o Kinchiri!
- Ouve, tu conheces bem este lago, e passaste muito tempo nele, visto a tua colecção de salamandras. Ora cada vez que tu mergulhavas no lago, os teus pulmões cheios de ar devem ter atraído a poeira dourada. Provavelmente é por isso que o teu crescimento parou, exactamente como as salamandras pararam de crescer quando começaram a respirar ar.
- Mas então porque é que não limpa os meus pulmões dessa maldita poeira? O senhor não pode fazer isso?
- Penso que seria possível, mas há um problema: Tu bem sabes que as tuas salamandras morrem quando tu as levas à vila. Eu pensei nisso, e acho que é possível que a poeira dourada não suporte ficar demasiado longe do Kinchiri. Tu disseste que não gostas de ficar muito tempo na vila… Não me parece que seja só porque estejas longe dos teus pais, mas também porque tu não te sentes bem lá. Não é verdade que quando voltas da cidade sentes vontade de te banhar no lago?
Sem responder ao Ginko, a Iwako perguntou:
- O que o senhor está a dizer, é que eu poderia morrer se me tirasse a poeira dos meus pulmões… Mas tem a certeza que será mesmo assim?
- Eu não posso dizer que tenho a certeza, mas parece-me que o risco é demasiado grande para o tentar. Sinto muito…
A cólera invadiu a Iwako, e ela gritou:
- Então é assim? O senhor não vai tentar nada? Agora que tem o que quer, vai-se embora? Mas quem é que pensa que é, para decidir isso por mim?
Num gesto furioso ela atirou a lâmpada ao riacho, e fugiu para dentro do bosque. As águas tragaram a lâmpada, e o Ginko ficou desorientado na escuridão da noite.
Quando ele voltou a casa da Iwako, ele percebeu que a sua mala tinha sido revistada, e que o frasco com o repelente de mushi tinha desaparecido.
Notas:
Kinchiri: kin (ouro) + chiri (poeira)
