In the deep
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夜明け前
The birds fast asleep.
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O Sr. E a Sra. Uzumaki moravam na Rua dos Sorvedouros nº 26, em uma cidadezinha localizada nos arredores londrinos, e uma das únicas que você poderia sair do carro sem medo de inalar a fumaça marrom-escura de óleo diesel que o cano de descarga vertical de um caminhão Reo exalou no céu. Comerciantes gritavam barganhas à respeito do que vendiam para as casas de janelas vazias enquanto caminhavam em ruas tão íngremes quanto a lei permitia. Crianças trocavam seus doces e salgadinhos por figurinhas colecionáveis, e roupas úmidas sacudiam ao vento num jardim, postas para secar em uma grande corda esticada por varapaus.
O Sr. Uzumaki tinha olhos azuis resplandecentes como safiras e um cabelo dourado espetado que apontava para todas as direções. Era chefe de gabinete, ou seja, ocupava um cargo absolutamente comum em corporações públicas, onde ele é o executivo que cuida dos afazeres do condutor maior da cidade, no caso, a Prefeita Tsunade, uma mulher energética e de geniozinho difícil que podia muito bem esvaziar garrafas de uísque como se fosse água. A Sra. Uzumaki era dona-de-casa. Suas habilidades e conhecimento sobre afazeres domésticos dispensavam uma equipe inteira de faxineiros, e seus cabelos cetrinos eram longos o suficiente para prender no cinto. Os Uzumaki tinham um filhinho, o Naruto, que gostava de bater no chão e se esconder debaixo do berço. Não havia muitos traços de Kushina no rostinho de Naruto; A cabecinha redonda do menino era coberta por cabelinhos ralos de um louro muito claro, e os olhos azuis eram aguados. Tudo apontava que o garoto seria idêntico à Minato, exceto pelo formato dos olhos, olhos grandes que em breve seriam, Kushina quase podia sentir isso, luminosos e cintilantes.
Numa manhã cinzenta de terça-feira, a Sra. Uzumaki estava tentando fazer Naruto comer uma papinha para bebês de ervilha e presunto quando disse ao marido:
- Fui ao ginecologista ontem.
Minato desviou os olhos de seu miojo matutino e olhou para a esposa.
- Eu havia marcado um exame de Papanicolau – ela continuou, sem olhá-lo nos olhos. – As prisões de ventre estão ficando mais fortes. E tenho tido náuseas, aumento de peso... e outras coisinhas.
Ele a fitou por mais um momento antes de perceber que havia macarrão escorrendo por seu queixo. Tratou de engoli-lo.
- Hum, Kushina, querida, – ele começou, após pigarrear um pouco – você não acha que...
- Não – ela disse rapidamente. – Mas todo o cuidado é pouco não é?
Ele sorriu e ela sorriu de volta, um pouco encabulada. Voltou a tentar forçar um pouco de proteína para dentro do sistema digestório do seu filho. Este fez a colher voar da mão da mãe com um safanão e parecia estar preparando um acesso de raiva, quando o Sr. Uzumaki o fez engolir, sem aviso prévio, uma colher de caldo de miojo. Foi naquele momento que Naruto despertou a mesma paixão que o pai tinha pelo macarrão cozido. Kushina desistiu de fazê-lo comer a papinha de ervilha com presunto quando o menino de fato começou um acesso de raiva, balançando-se para frente e para trás, gritando e apontando para o prato do pai. Pôs quatro dedos d'água para ferver, consciente de que teria de repetir o processo por muito tempo ainda.
Black skies
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Seems to weep
Quando amanheceu no segundo dia de correio após a ida ao ginecologista, caía uma chuva enjoada, tão grossa que, da janela, não se via as casas detrás da pracinha, nem as árvores, nem sequer a calçada.
- Tinha certeza de que iria chover – comentou o Sr. Uzumaki, ao lado da esposa. Ela estava lendo Spock* e ele, o jornal. O telefone sem fio tocou ao lado, e ela levantou-se para atender.
- Alô? Sim, eu... É mesmo? – ela marcava a página em que parara com o dedo indicador enquanto falava – Certo, e obrigada.
Desligou o telefone e olhou para o marido, apertando o livro nas mãos.
- Os resultados do exame estão prontos. Disseram que o laboratório vai estar aberto até às cinco, que se fosse possível era para pegá-los antes desse horário...
Ela olhou para a porta, e engoliu em seco.
O Sr. Uzumaki levantou-se e a apertou contra si pelos os ombros.
- Isso é bobagem, Kushina, querida. Você não fez nada que devesse fazer para provocar um negócio desses.
- Hum – ela disse, ainda encarando a porta como se ela desse para um outro mundo. Um mundo estranho, onde ela nunca mais poderia gerar uma criança...
- Quer que eu te leve? – seu marido perguntou.
- Não – ela respondeu rapidamente, desvencilhando-se de seus braços e indo pegar a capa de chuva no cabide da porta. – Melhor acabar logo com isso, não é? Assim eu não terei nada com que me perturbar pelo resto do dia...
- Eu posso fazer o almoço – o Sr. Uzumaki se ofereceu.
Ela sorriu para ele.
- Obrigada querido, mas gosto mais da nossa casa quando ela está inteira.
Ele lhe entregou uma sombrinha pequena, beijou-a e a observou entrar no carro, dar a marcha à ré e desaparecer no meio da cerração.
Moonlight, do we dare?
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Daylight, they don't care
Já era tarde da noite quando o Sr. Uzumaki acordou com o barulho do Toyota Sienna estacionando ao lado, a neblina tornando-se iluminada na janela poucos segundos antes do motor desligar como um suspiro pesado.
A porta abriu-se e a Sra. Uzumaki entrou. O Sr. Uzumaki saltou da poltrona e apressou-se em ajudá-la. A Sra. Uzumaki trazia a capa de chuva numa mão e a sombrinha na outra, suas roupas e a pele descoberta cobertas de relento.
- Por quê? – ele não parava de repetir, enrolando uma toalha seca nela – Por que você tirou a capa de chuva? E você faz ideia de que horas são? Por onde você andou? Se estava esperando pegar uma pneumonia, estou contente em lhe informar que você provavelmente conseguiu, meu Deus, olhe só para você, toda encharcada e...
A Sra. Uzumaki parecia indiferente a probabilidade de ter pego ou não uma pneumonia, e Minato repentinamente soube porquê. O terror soprou sobre ele, como se uma porta interna tivesse sido aberta.
O resultado dera positivo.
But I'm still here
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Don't pass me by
- Aaaah, eu sou uma idiota! – A Sra. Uzumaki chorou, pegando outro maço de papel higiênico e assoando o nariz com ele.
A cozinha de Yamada, a esposa de Hiashi, era ampla e espaçosa como tudo o mais naquela casa. Parecia ter saído de um filme futurístico, com suas banquetas de metal escovado, o último modelo conhecido da geladeira moderna que ocupava dois terços de uma das paredes e a mesa de doze lugares com telas touch onde pessoas escolhiam o que iriam comer.
- Deixei isso acontecer, entendeu? – ela disse embargadamente, largando o papel amassado e puxando outro do rolo – As náuseas quase todos os dias, as dores na barriga, as suspeitas!
Yamada apoiava a cabeça numa das mãos e com a outra varria para longe os papéis usados com o jornal enrolado. Ela já era bastante alta sem os saltos altos, com o cabelo cor de cobalto (naquele dia dividido em duas tranças que lhe caíam sobre os ombros) do comprimento de um homem e olhos severos que a faziam parecer ainda maior do que já era. Mas agora eles estavam mirando sem realmente notar os pedaços de papel higiênico serem jogados dentro de uma cavidade quadrada na mesa e lá serem carbonizados, complementando sua expressão de quem queria um cigarro mais do que qualquer outro momento de sua vida.
- E agora eu estou perdendo a minha sexualidade! – ela assoou o nariz de novo, com mais força e vontade do que antes.
Quando levantou a cabeça, viu que Yamada a encarava com uma expressão de incredulidade.
- Por que todo esse drama, criatura? – ela começou a sussurrar baixo e o tom se elevou na última palavra.
- Você é Uzumaki Kushina, peraí!, se, normaliza, mulher! – e cada palavra em itálico era acompanhada por um golpe do jornal enrolado na cabeça da pobre Sra. Uzumaki ("Ai!") – Não sabe o que fazer, é essa a dúvida? Você vai mostrar que sabe com o que está lidando e vai fazer isso aí saber em que corpo está!
Ela levantou-se num salto e saiu caminhando maniacamente sem perceber o que estava fazendo.
- Você sabe o que está acontecendo, então vai logo! Enfrente o problema. Lute. Ganhe! – ela virou-se e acrescentou mais casualmente – E me liga quando voltar, amor, adoro suas visitas.
A Sra. Uzumaki ficou olhando aquela mulher que supôs que fosse seguramente incompreensível. Não que ela não quisesse ser compreendida, mas era frustrante ter de suportar as palavras de consolo vazias de pessoas que estavam longe de entender pelo o que ela estava passando. Ou pior, que passassem a olhar para ela como se não fosse uma mulher completa, ou uma impostora. A Sra. Uzumaki não estava preocupada em perder sua feminilidade. Era perder sua sexualidade, sua identidade como mulher, sua auto-imagem. Minato já a havia encorajado em relação ao procedimento: "Você tem de fazê-lo. Você tem de ficar saudável. Sua vida está em jogo".
Precisava fazer a cirurgia. Sabia disso. Se não a fizesse, seria uma questão de tempo antes de ouvir a palavra "câncer". Mas era uma mulher jovem que recém tivera o primeiro filho. Seu futuro ainda estava em pleno processo de planejamento, e era cruel ter de tirar a possibilidade de gerar outra criança, que era o propósito para que fora feita.
Mas após despedir-se de Yamada e ter ficado rebobinando suas palavras durante todo o caminho até em casa, a Sra. Uzumaki não apenas sabia qual era a decisão acertada como também estava pronta para realizá-la.
Yes, I'm still here
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My Red July.
Muito tempo havia se passado desde então. Mesmo agora, a Sra. Uzumaki não se sentia muito confortável em falar nesse assunto. Contara essa experiência a pouquíssimas pessoas e era difícil quebrar esse silêncio. Nas primeiras semanas, Minato tornara-se pior do que qualquer mãe super-protetora e sempre ficava apontando fatores animadores sobre o trabalho e o tempo e como Naruto aprendera uma palavra nova ("Nunca"). Ela sempre sorria e concordava com a cabeça, pois estava grata a ele por poupar-lhe do esforço de falar quando, na verdade, só queria sentar, lá mesmo onde estava, e chorar.
Em um dia encantador, com o frescor seco de um outono radiante, a Sra. Uzumaki fora acordada junto com o seu marido pelos berros de Naruto, que chacoalhava as grades de seu berço no quarto ao lado. Ainda estava escuro lá fora, com alguns farrapos de nuvem no céu e um grilo que estridulava na moita mais próxima. Ninguém mais conseguira dormir depois de toda aquela agitação – pois levara bons minutos até os Uzumaki descobrirem que Naruto batera com a cabeça enquanto rolava no berço em sono profundo –, então o Sr. Uzumaki, ainda com um pé na Terra e outro na cama, fora arrumar-se para mais uma maçante terça-feira de serviço desregrado. A Sra. Uzumaki conseguira pôr Naruto para dormir após três modorrentos minutos cantarolando uma cantiga infantil chamada A La Claire Fontaine pontuada por bocejos involuntários, e então descera para a cozinha a fim de preparar duas xícaras de café forte ao som das notícias vespertinas. Ligou a pequena televisão num volume baixo e virou-se para pegar leite na geladeira.
"O desabamento ocorreu às duas e cinqüenta e sete desta madrugada e suas causas ainda são desconhecidas" dizia a repórter "Parece que a explicação mais provável seja o enfraquecimento da madeira da qual a mansão era feita, que cedeu ao peso dos anos."
"O grande número de pessoas que tentavam ultrapassar o limite que a equipe de bombeiros impôs ao redor dos destroços da mansão Uchiha levou a polícia a interditar toda uma área de duzentos metros quadrados." A televisão mostrava uma imagem filmada à noite, ampliada talvez umas cem vezes, de uma montanha de detritos dificilmente discernível.
"O choque não foi apenas cívico como também nacional. Os corpos de Uchiha Mikoto e Uchiha Fugaku foram resgatados e levados para o necrotério local, onde os contatos com quem tiveram mais proximidade foram contatados e solicitados para um breve encontro judicial para debaterem seus destinos. O único corpo ainda que ainda não foi localizado é o do filho Uchiha Sasuke, de apenas um ano.
"As buscas entraram em atividade três horas após o desabamento..." O que daria tempo para os seqüestradores tomarem um suquinho, jogar uma rodada de Canastra e, muito tranquilamente, se dirigirem para a estação rodoviária com a criança dopada dentro de uma mala aviária, a Sra. Uzumaki fantasiou com desagrado enquanto misturava o café com uma colher de chá. Duzentos dólares e um ônibus Greyhound podem levar uma pessoa a qualquer ponto do país.
Não continuou ouvindo a reportagem, apesar de ela ter se estendido ao ponto de ter tomado quase um terço da duração do programa. O Sr. Uzumaki chegara logo depois para comer panquecas e ler o jornal. A mesmíssima imagem que a Sra. Uzumaki vira na televisão, só muito mais detalhada, ocupava a primeira página: um amontoado de destroços do que já fora uma enorme e formosa casa, agora reduzida a algumas poucas vigas de madeira, estilhaços de vidro, telhas de mármore branco quebradas e pedaços de compensado.
Foi um pouco depois de Minato ter saído para o trabalho que Yamada apareceu em sua porta, ainda vestindo um penhoar de primavera-de-flores e com cara de poucos amigos.
- Um completo pesadelo, é disso que eu chamo – ela resmungava enquanto bebericava um chá de pêssego bem forte. Kushina cerzia um par de meias puídas à sua frente – Contatos com quem tiveram mais proximidade, foi isso o que disseram na tevê, você viu? Rá. Aquela mulher, Mikoto, só vi duas ou três vezes. Quem vinha mais lá em casa era o Fugaku, tratando de negócios e toda aquela papelada. Nossa, que geniozinho ruim – ela sacudiu a cabeça.
"E ele era a autoridade da polícia, sabia? O Chefão. Os ouvi discutindo lá na delegacia, suspeitando que o desabamento foi armado. Delirando, todos eles. Eu vi o que restou, sabe, fui lá para ver. A madeira não tava com uma cara nem um pouco boa. Uma sociedade inteira de cupins sadios, Kushina meu doce, nunca vi coisa igual.
"E ainda tem o filho. Deus que me perdoe, mas acho que está melhor assim. Não batiam bem da cabeça, aqueles pais. A mulher ficava toda a hora esfregando as mãos, como que para se proteger, sabe? E ficava olhando as janelas, como se esperasse que alguma coisa saltasse para dentro.
"E você acha que o marido ligava? Que nada. A ignorava como se fizesse parte da nossa mobília. Fazia de conta que não existia. Uma vez o vi carregar o menino – foi a única vez que o vi – como se fosse um saco de batata. Por cima do ombro. A culpa não foi nossa se o garoto começou a chorar, foi? E, meu bom Deus, o homem começou a gritar, enlouquecido, com a criança e com a mulher. Foi a coisa mais horrível que já vi. Hiashi tentou argumentar com ele, mas ele já havia agarrado a mulher e a arrastado para fora da nossa casa, a criança junto. A gente ainda podia ouvir ela chorando do lado de fora.
- Je-sus – a Sra. Uzumaki sussurrou.
- É... Então não é para ter pena de nenhum dos dois. O cara teve que mereceu e a pobre mulher está em um lugar muito melhor agora.
As duas conversaram durante um longo tempo pois Yamada havia embarcado em um longo e detalhado relato sobre uma feira que haveria no centro comercial de Londres e de como ela iria arrastar Kushina para olhar junto com ela, a Sra. Uzumaki querendo ou não. Ela convidou Yamada para almoçar na sua casa, e a vizinha aceitou.
Quando ela saiu, a Sra. Uzumaki achou melhor já começar a cozinhar. Já passava da hora do almoço e havia algumas asas de galinha na geladeira, de modo que, em pouco tempo, a cozinha estava recendendo ao cheiro calmante de molho curry sendo mexido na panela e os estalos das asinhas crestando vindos de dentro do fogão.
Muito acima e longe dessa casa, no céu, um pássaro enorme e negro planava para lá e pra cá nas turbulentas correntes ascendentes acima da cidade, atravessando as nuvens roliças de início de tarde, refrescando-se ao molhar as penas pretas que voltariam a secar dali a alguns segundos. O sol não refletia-se naquelas penas tão alvas e brilhantes quanto um pedaço de carvão.
O pássaro esticou as longas asas e manteve-as retas. Imediatamente sua posição no ar se estabeleceu e ele voou em linha reta, sobrevoando Londres e seguindo ao sul. Estava frio e de vez em quando o vento soprava na direção contrária, e isso não incomodaria o pássaro nem um pouco, mas após todo o tempo que estivera viajando sem descanso, desde a Bélgica, fez a ideia de um rápido descanso muito convidativa.
Mergulhou para baixo e então subiu novamente no ar, como um nadador na água. Quem olhasse para cima somente iria conseguir discernir apenas uma ínfima obstrução no sol, um pontinho escuro de contornos borrados. Com as asas estendidas para trás, ele parecia em estado de suspensão entre inspirar e expirar.
E então ele mergulhou para frente e começou a decair numa velocidade absurda, seus tímpanos sendo pressionados contra a depressão no crânio à medida que a terra o atraía com uma aceleração cada vez maior. Não obstante, juntou as asas junto ao corpo, assumindo um feitio semelhante ao de um dardo, e assistiu o tráfego, que percorria as ruas como besouros, aumentar de tamanho. Levou pouco mais de cinco segundos para os carros parecerem aqueles modelos em miniatura que estão à venda nas lojas de brinquedos.
Estendeu as asas e foi interrompendo o vôo, as batendo várias vezes, diminuindo a velocidade aterradora em que estava caindo. Se tivesse feito isso um pouco depois, não teria conseguido parar, e o barulho produzido pela colisão no calçamento seria igual ao de uma melancia madura demais. Mas ele conseguiu, como conseguira outras tantas vezes antes daquela, tantas quanto podia se lembrar. E ele se lembrava de cada uma delas.
Sobrevoou um pedaço da cidade até achar uma região tranqüila, que era uma daquelas avenidas onde todas as casas são iguais e confortáveis, separadas da calçada, dos dois lados da rua, por um extenso gramado. Plantadas ao longo do gramado, quase na beira da calçada, havia duas longas fileiras de damasqueiros, árvores baixas de aparência bonita, de copa densa e ramos escuros pontilhados de flores brancas.
Mas o pássaro escolheu outra árvore para pousar. Uma velha macieira de Oregon plantada ao lado da casa de número 26, muito mais antiga do que os damasqueiros plantados nas ruas. Um pneu havia sido pendurado nele por uma corda que saía em meio às folhas vermelhas. O corvo bateu as asas uma ou duas vezes antes de fincar as garras num galho grosso e fechar os olhos vermelhos, tão profundamente parado que poderia estar morto.
Mas ele ainda estava vivo, e prestando atenção. Mesmo que uma parte estivesse em outro lugar, metade de sua atenção estava ali, escutando atentamente as crianças brincando na pracinha, as calhandras piando nos fios de luz e o ruído de talheres, copos, junto com o som de conversa, vindos da janela ao lado.
- Mas é sério! – Yamada suspirou, fuçando na sua coxinha – E eu perguntei o porquê, claro, você acha que eu não conheço o meu marido? Ele odeia essas convenções. Sabe o que ele me disse? "Mas eu poderei desfrutar da comida e da bebida antes de ir embora. Umas férias me cairão bem". Safado desleixado, tudo o que ele faz é ficar sentado no escritório dele assinando papelada. Bem, Kushina meu doce, você me conhece, já pode imaginar a minha resposta. "Oh, claro, Hiashi, porque você trabalha TANTO aqui."
A Sra. Uzumaki esforçou-se para dar um sorriso. Depois abaixou a cabeça sob o pretexto de separar a carne do osso.
Yamada fez cara feia para ela.
- Você está realmente estagnada nessa meia-vida, hein Kushina?
Ela não respondeu.
- Digo meia-vida porque... bom, é bem explicativo, não é? Você não tem vivido. Está mais do que abatida – tá é caindo aos pedaços. Minato ainda mantém contato comigo, sabia? Ele diz que você não assiste mais tevê, não canta, não ri...
A Sra. Uzumaki manteve-se calada com sua expressão fria e morta de tédio. Ela desejou que Yamada pudesse vê-la, pois isso incomodava. Ela também não precisava ficar jogando tudo isso na sua cara.
-... e outro dia eu ainda te vi se arrastando pelo parque. Sabe, Kushina, é como dizem os filósofos por aí... Temos de enterrar os mortos.
Suas mãos tremiam.
- Ditos muito bem engendrados – ela continuou, pensativamente. – Eram uns desgraçados, aqueles lá. Nunca tiveram muito da vida. Mas inteligentíssimos. Há vezes em que eu me pergunto o que teria acontecido se eles tivessem tido um família, porque...
A Sra. Uzumaki apertou os punhos na mesa e sua cabeça pendeu para frente, miseravelmente.
-... Dizem que os filhos são quem ensinam os pais de novo.
- Pare... – a Sra. Uzumaki lamuriou. – Oh, por Deus Yamada. Qual o sentido disso tudo?
- O sentido é o seguinte: A vida não pára para ninguém. Pense no seu filho que precisa de você. Que precisa crescer e aprender com você. Supere isso ou é ele quem vai sofrer.
Dito isso, ela levantou-se limpando os lábios com o guardanapo e foi embora.
- Feche a porta se quiser que eu não venha lhe buscar para a feira. Mais pra mim, de qualquer jeito.
Não houve clique da porta fechando. Aquilo foi demais para a Sra. Uzumaki. Ela levantou-se da cadeira de supetão e marchou até a porta. Agarrando a maçaneta, ela abriu a porta ao máximo e arremessou-a no batente com toda a sua força.
Olhou para a madeira escura por um longo tempo, até que o estrondo parasse de repercutir dentro de sua cabeça. Depois suspirou e abriu a porta o máximo que pôde.
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O corvo abriu os olhos e estirou as asas. Já havia descansado o suficiente, e também ouvido o suficiente.
Jogou-se para o ar livre. Antes de ir para cima, sobrevoou a casa ao lado algumas vezes. Grasnou um pouco e depois alcançou vôo.
Da janela, Yamada foi ver o que fazia tanto barulho. Mas já havia terminado. Seu olhar procurou a origem mais um pouco, mas ele parou em seguida na porta escancarada da casa da Sra. Uzumaki.
Deu um sorriso sardônico antes de ir se arrumar.
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Sucintamente, o movimento não diminuiu na feira em Londres quando começou a escurecer. Na verdade, foi aparentemente à noite que as pessoas decidiram aparecer por lá. Era tanta gente que era difícil caminhar por entre elas, e a Sra. Uzumaki perdeu Yamada de vista pelo menos umas cinco vezes durante a exposição.
Mas o que mais impressionava era que o número de artigos à vista batia o número de seus expectadores. A Sra. Uzumaki ficou admirada com a quantidade de coisas diferentes que havia para ver ali: cântaros de aguardente de zimbro, esculturas entalhadas em marfim de morsa, tapeçarias em seda do Turquestão, canecas de prata das minas de Sveden, pratos esmaltados da Coréia. Havia ainda amostras grátis de comidas de todos os cantos do mundo. Ela gostou particularmente de um faisão à maneira árabe, todo recheado de amêndoas e trufas.
E tudo isso foi legal – pelas primeiras quatro horas. Só que quando você fica revendo as mesmas coisas durante uma tarde inteira, é inevitável que você acabe se cansando delas e fique com vontade de ir pra casa. Yamada parecia ser imune a essa vontade. Recusou educadamente o convite de retorno da Sra. Uzumaki ("Se você quer ir embora, eu é que não vou te impedir."), e ela, como toda boa amiga, teve de esperar e agüentar a massa uniforme de gente barrando seu caminho até que a lua estivesse alta no céu.
Mas isso não queria dizer que ela tinha de ficar necessariamente ao lado de Yamada. Por isso ela saiu de perto para dar uma volta num playground, que ficava perto dali. Lá era mais tranqüilo e menos movimentado. Toda a atenção do mundo parecia centrada num lugar distante, e daí a pouco ela estava completamente sozinha, com duas luas, uma no céu, outra no fundo das águas dum laguinho circular, envolto por uma mureta gradeada.
Ela sentou-se num banco coberto de umidade, e ali ficou.
Por mais que Yamada fosse arrogante e fria, ela sempre tinha a razão. A Sra. Uzumaki via agora, a sua frente, como era mesmo o óbvio a fazer. Ela teria de continuar. Por Minato, por Naruto. Ambos precisavam dela, até mais do que ela precisava deles. Talvez... Não, era a coisa certa a fazer. Mas a Sra. Uzumaki não queria isso. Seu corpo se revoltava contra o que seu destino a levara a fazer, e o resultado era uma agonizante crise de náusea, amarga, seca, e choros que a deixavam de joelhos até que seu estômago e seu coração estivessem vazios.
E ela divagou por aí. O ar frio da noite a fazia pensar com clareza. Lá ao longe, um bebê começou a chorar, parou, recomeçou. Fora isso, um silêncio tumular envolvia seus ombros. Quando percebeu isso, ficar sentada sozinha, no escuro, não lhe pareceu uma ideia convidativa o suficiente para permanecer ali. Todavia, não sentia a mínima vontade de voltar para junto de Yamada e do calor e espreme-espreme de gente tentando passar ao mesmo tempo, que era tão atraente quanto. Assim sendo, ajustou o redingote junto ao corpo e foi caminhando em direção a uma estreita alameda iluminada por halos esféricos das lâmpadas dos postes.
Caminhar era melhor, mesmo que houvesse árvores negras de ambos os lados. O frio não diminuía, mesmo que o laguinho tivesse ficado para trás. Não havia tráfego. Os galhos das árvores se enroscavam acima dela, e a luz da lua não passava por eles. A Sra. Uzumaki, a princípio, não reparou nada daquilo, pois vinha agindo movida pela empolgação acumulada, mas ao chegar quase no final da pavimentação, uma parte dela avisou-a para não ir muito longe. E após interrompido seu fluxo constante de movimento, ela começou a sentir a escuridão da madrugada, o ar noturno, frio e silencioso, e a imobilidade à sua volta.
A Sra. Uzumaki teve um momento de apreensão. Como acontece nesses casos, o instinto se pôs em prática e ela tentou perceber qualquer ruído proveniente das árvores. Nada de muito anormal podia ser ouvido da escuridão, mas a mente dela, inflamada de alarme, lhe dizia o contrário.
O mais estranho, percebeu, depois de segundos de paralisia, era o bebê que continuava a chorar ao fundo. Ela já estava de fato o ouvindo, mas o ruído começara a aumentar tão gradativamente que não sabia quando o percebeu. Durante algum tempo fora apenas como o farfalhar de brisas ou o barulho do trânsito ao longe. Agora era como o mar se espraiando. Então veio vozes meãs e então altas. Um grito, de raiva ou de aviso, e somente o choro da criança após isso, não se alterando nunca.
Não percebera que estava trancando a respiração até que sua visão começou a rodar. A Sra. Uzumaki se agarrou num poste e abraçou a barriga. O terror subitamente se esgueirara para ali dentro e ali se aninhara, perigoso e sibilante. Suas pernas tremelicavam como varas, e quando ela tentou engolir, sentiu um gosto oleoso na garganta.
Depois de respirar várias vezes, sentiu-se mais firme para seguir adiante. As vozes haviam parado, mas o bebê continuava a gritar. A Sra. Uzumaki apressou o passo. Será que não estavam conseguindo acalmar a criança? O pensamento de estar de novo em companhia era feliz e até animador. A alameda terminou, e ela encontrou-se no mesmo playground que acabara de deixar.
Não havia ninguém ali. O choro vinha logo à frente.
A Sra. Uzumaki sentiu frio, como se tivesse sido tocada por um dedo descarnado.
Ela recomeçou andar, só que dessa vez tropeçando e cambaleando. Havia um vulto escurecido pela noite antes do laguinho redondo. Sua imagem puxava a Sra. Uzumaki até ele. Ela não sabia o que era. Ela teria que descobrir.
Ela olhou para a sombra indistinta, e se algum momento esteve prestes a desmaiar, foi naquele. Era um homem que poderia ter qualquer idade, e que ele estava morto, era facilmente constatável, não somente ele estava imóvel como um boneco de cera, como também seus olhos fitavam o nada como os olhos de uma dessas gravuras populares de Jesus, reproduzidas aos montes. E ali estava a criança, chorando e se contorcendo, tentando livrar-se dos braços do homem, que o mantinha preso junto ao peito duro e gelado.
Uma dor atingiu os joelhos da Sra. Uzumaki, e ela sabia que tinha caído no chão. Lágrimas rolavam de seus olhos e pingavam no chão já molhado. A criança virou seu rostinho vermelho para ela e esticou os dedinhos gordos. Entre soluços e lamúrias, ela tentou separar os braços do cadáver. Ela deu um gritinho angustiado quando um braço produziu um estalo seco e oco, mas finalmente havia espaço para o bebê passar, e ela o pegou para si, o cobrindo com o redingote e apertando-lhe contra o calor de seu corpo, que o pequenino precisava tanto.
Antes de sair dali, ela deu uma última espiada no corpo. O que ela percebeu a fez sufocar.
O pescoço do homem estava lambuzado de sangue seco. No lado exposto, havia dois furos do tamanho da ponta de um dedo. Estavam lado a lado, simulando perfeitamente uma mordida, e tão profundos que era certo que atingiram as veias grossas. E o pior era que não havia poça alguma que indicasse que alguma coisa havia vazado para fora do corpo – parecia mais que o sangue havia sido chupado e consumido pelo fosse o que fosse.
O tecido do espaço e do tempo racionais parecia se retorcer e rachar. Era inacreditável. Impossível. Mas ainda assim era verdade.
Pousado numa árvore ali perto, o corvo tudo observava. Apenas dois pontos vermelhos visíveis no negrume. A Sra. Uzumaki nunca chegou a vê-los. Não precisaria. Sasuke agora dormia placidamente em seus braços, coberto pelo redingote de sua nova mamãe, sem saber que fora seqüestrado, sem saber que fora salvo, sem saber que acordaria de novo com o viva de Yamada, sem saber que encontrara uma outra família, sem saber o que o futuro preparou para ele. Ele não podia saber que, dentro de algumas horas, haveria pessoas em todo país comentando a mesma coisa:
- Encontraram o menino.
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[*Dr. Spock, famoso pediatra americano e autor de best-sellers sobre educação infantil.]
Certo, depois de muitas eras, aqui está a continuação. É... já faz uns cinco meses. Espero que a paciência de vocês tenha sido recompensada.
Bom galerinha, esse capítulo teve a total aprovação da Hee (eu acho), nossa perita em vampiros S2 Só relembrando que eu estou trabalhando duro para que essa fic não fique um estupro desses seres maravilhosos que NÃO BRILHAM, TÊM medo da cruz e só saem à noite (dias nublados não são uma exceção). Só você É um fã de Crepúsculo e vier pra cima de mim, ou da Hee, falando que só estamos escrevendo sobre vampiros graças ao sucesso desse livrinho mamão-com-açúcar, sempre leve em mente que a Stephenie Meyer não escreveu sobre vampiros, mas sobre bolas de discoteca ambulantes que assassinaram Nosferatus e etc. Palavras da professora de Literatura da Hee – abençoada seja essa mulher, que moldou a mente dos ignorantes. Dêem uma passada no blogspot da Hee – Why We Hate Twilight (O endereço está no perfil dela). Ela os fará verem a luz.
Just one more little thing: Me perdoem se toda a coisa ali em cima ficou muito Harry Potter. Eu meio que tentei me inspirar com o começo da Pedra Filosofal porque eu não sei ser original e tenho de começar minhas fics me baseando em outra coisa (risquem, por favor).
See ya,
Viiq.
[I fail em terror, então perdoem o final \mataeu].
