PRÓLOGO

Estava sentada na mesa da sala, pintando, quando pequena. Aquelas cores me fascinavam, todas espalhadas por sobre a mesa. Os desenhos iam saindo lentamente. Pincelava leve, suave. As gotas de tinta caiam sobre os meus pés, mas estava muito ocupada fazendo a minha "obra de arte" para notar em qualquer outra coisa que não fosse a mesma. O sol era o meu foco agora; um amarelo intenso com raios ofuscantes saindo daquela pintura singela. Meus olhos viajavam por aquela figura que era criada dentro da minha cabeça. Um arco íris das mais diversas cores, uma montanha com o pasto verdinho, um sol glorioso, nuvens brancas como neve, delicadas flores e pequenas borboletas voando pelos ares.

-Como vai minha pequena Picasso? – meu pai, Charlie perguntou aproximando-se de mim para analisar a minha pintura – Ahhh... outra obra prima!

-Só está dizendo isso porque é o meu pai.

-Não estou.

-Está.

-Não estou. – um cheiro de algo queimando começava a se formar. Olhei para cozinha, lugar que a esta hora estava repleto de fumaça.

-Aham. Tem algo queimando, papai. – Papai olhou para cozinha e como se em um átimo ele se lembrasse, gritou correndo:

-Céus!

Assim que papai saiu, peguei meu desenho recém-pintado e saí correndo em direção ao jardim.

Aproximei-me de minha mãe, Renée que repousava em uma espreguiçadeira de olhos fechados apreciando aquela linda tarde de verão. Toquei-lhe levemente a ponta dos dedos, fazendo-a por um momento perceber a minha presença. Ela me lançou um olhar preocupado, depois de passar a mão em meu rosto.

-O pai estragou o jantar de novo. – disse-lhe com um leve divertimento em minha voz.
-Ele vai aprender. Ele aprende fácil, querida.

Mostrei-lhe meu desenho, ela o olhou surpreendida, maravilhada. Aquilo me fez ganhar o dia.

-Está maravilhoso.

-É o paraíso. – olhei para o desenho e depois para ela - O que vou fazer sem você?

-Venha ficar . Venha. - mamãe me chamou para deitar com ela na espreguiçadeira. Arrumou um espaço para nós em sua espreguiçadeira e nos embalou com a manta. - Tive uma idéia. Vou fazer um gráfico para você. Se você não souber o que fazer, e o papai também não... estarei aqui para segurar na sua mão. – observei-a - Posso usar isto? – ela perguntou olhando para o papel. Assenti. - Certo, passe-me a caneta. – peguei a caneta que estava em cima da pequena mesinha ao nosso lado.-Segure deste lado. Segure isto. Certo. – ela começou a desenhar o contorno de sua mão no verso da folha.

Ela desenhou uma "linha do tempo" com vários tópicos. Mas sete e meio estavam marcados com um asterisco.

-Prontinho. Sete.

- Sete e meio

- Sete e meio. – disse ela concordando comigo.

Enquanto ela escrevia, me explicava cada tópico detalhadamente.

-O mais importante é brincar o máximo que puder. Quando fizer 9 anos, peça ao papai para deixá-la dormir no acampamento. É um ritual de passagem importante. Quando tiver 12, vai entrar para o ginásio. E seria legal se concorresse a algum cargo na classe. Que tal tesoureira?

-Que tal presidente? – tentei.

-Presidente. - concordou ela - O colegial é muito importante. Deveria ter o primeiro namorado com 16 anos, e ele deve ser um rapaz legal com quem vai se divertir.

-Devo casar com ele?

-Não, não, não, não. Vamos chamá-lo de "número um". Bem, seu primeiro objetivo, na faculdade, é a educação. O segundo? O romance. – enquanto ela escrevia, falava - Número dois, e número três. Deve ter muitas experiências antes de se casar. E, depois, decidirá que tipo de trabalho quer. Você pode ser qualquer coisa que quiser. Uma médica?

-Sangue!! – fiz uma careta

-Hm...uma advogada? – tentou.

-O que ela faz?

-Ela argumenta e consegue o que quer. – disse-me lentamente.

-Isso é bom. Serei isso.

-Não corra para faculdade. Vá à Europa, se quiser. É um ótimo lugar para o romance, também. Terá um relacionamento longo com o quinto namorado.

Parecia que havia se passado muito tempo desde o início do roteiro. Mamãe já parecia cansada. Eu observava a brisa fria passando por entre nós, fazendo com que nossos cabelos esvoaçassem, fazendo uma dança.

-Tudo bem, casarei com o sexto para você descansar. E que tal o número 7? Vai ser ele? O que será diferente nele? - mamãe olhou para a paisagem, assim como quem escolhe bem as palavras antes de dizê-las.

-Verá fogos de artifício.

-Como em 4 de Julho? - ela riu. Pegou a minha mão, colocou-a ao lado da sua na folha e começou a desenhar seu contorno.

-São fogos de artifícios diferentes. Entenderá quando acontecer. - Vimos papai se aproximar, retribuímos seu sorriso. - E Bella... as mãos dele... – papai já estava ao seu lado. Mamãe pegou-lhe a mão e entrelaçou-as – vão se encaixar.

O sol já se punha. E eu observava aqueles dois seres apaixonados com as mãos perfeitamente entrelaçadas.

(...)

Bella estava dormindo. Sua cama um dossel com uma colcha rosa. Seus cabelos livremente espalhados pelo travesseiro. Dormia em uma posição lateral, abraçada a seu ursinho de pelúcia. O vento fazia com que as cortinas se agitassem levemente. Seu pai Charlie que aquela hora já pensava no que fazer para contar a filha o ocorrido, entrou em seu quarto observando-a. Aproximou-se e acariciou-lhe os cabelos cor de chocolate. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, e ao vê-la ali, deitada, assimilou-a com a mãe.

Bella acordou assim que sentiu a carícia, levantou-se de seu travesseiro e olhou firmemente nos olhos de seu pai, já se perguntando o porquê de ter vindo ao seu quarto acordá-la

-Oi, docinho. Mamãe ficou mal ontem à noite. – as lágrimas que Charlie já não agüentava mais se segurar, foram libertadas.-Venha dar um abraço no papai. – Bella abraçou-lhe receosa, já assimilando os fatos. Olhou para o gráfico deixado na cabeceira de sua cama e recostou a sua mão por sobre o desenho da de sua mãe.

(...)

DEPOIS DE ALGUNS ANOS...

Eu estava encarando a caixa havia horas, decidindo o que fazer. Era naquela caixa de madeira detalhada com flores rosadas na tampa, que eu guardava os meus mais "valiosos pertences". Tantas lembranças – boas e ruins- foram colocadas ali; minha cobrinha artesanal que eu havia feito no acampamento, minha blusa de canoagem também adquirida no acampamento, minhas bonecas de pano, botons do acampamento, o cartão de dia dos namorados que eu havia recebido do Seth aonde nossos nomes enfeitavam o centro do coração, meu ursinho vermelho de pelúcia que havia ganhado do Embry, uma boina do Pierre, meu certificado da Northwest Washington University, e ao fundo o meu roteiro. Roteiro do qual havia preenchido todos os tópicos possíveis – assim como os rabiscados. Agora, com uma caneta eu rabiscava o nome de Mike (ou digamos, número 5) que fora um amor platônico e duradouro. Ele me fez sofrer traindo-me com aquela tal de "Jéssica".

Em uma etiqueta eu escrevi MIKE # 5 e enrolei-a na pulseira que ele havia me dado. Joguei-a com certa brutalidade dentro da caixinha rosa de bijouterias e jóias que ficava também dentro da caixa de madeira. Guardei tudo novamente na caixa, me relembrando dos fatos passados. Com um suspiro pesado, fechei-a.

(...)

-Salada, certo. Quiche, certo. Sopa, certo.

Estava na casa de meu pai, preparando nosso jantar. Checava mentalmente aquilo que seria servido. Acabara de sair do trabalho. Retirei o meu avental assim que a comida já estava pronta para ser servida e adentrei a sala de jantar com a travessa de sopa na mão. – Prontinho – disse.

Charlie me aguardava com duas taças de champagne na mão. Após ter colocado a travessa por sobre a mesa, me estendeu a taça, da qual peguei sem questionar com um sorriso.

-O adeus ao Mike. – anunciou meu pai. Retirei o meu sorriso imediatamente do rosto, franzindo o cenho.

-Hey... Mike foi uma relação bem produtiva para mim.

-Bella, o rapaz traiu você. – ele respondeu

-Agora sei que não procuro rapazes que me enganam. – meu pai sentou-se a cabeceira da mesa, o segui imediatamente - Vamos... Mike foi uma experiência de vida necessária. Um brinde a seguir em frente. – ergui a minha taça com o propósito de brindarmos

-Certo. O gráfico do tempo. – ele disse revirando os olhos.

-É, o gráfico. Qual é, pai, não pode negar que tudo que a mamãe recomendou estava certo. Acampamento, representante, viagem à Europa? – disse-lhe contando nos dedos - Ora, qual é! É a mágica da minha vida.

E assim sorrindo, nós acabamos brindando.