Desde o começo que a diferença crassa entre as festas de Lilian fascinaram Erwin, como a presença do marido dela muda tudo, desde a música a ser tocada à comida a ser servida, e apesar de não poder afirmar que alguma vez se tenha verdadeiramente divertido em alguma das recepções da mulher, é ainda assim fácil para si escolher as suas preferidas. Boceja discretamente para o copo de brandy enquanto a observa a flutuar pela sala até ao marido; está a usar o vestido de gala preto que usara a noite em que se conheceram; Erwin ainda se lembra onde o fecho está escondido. Ao lado do marido, parece subitamente mais velha do que é, e muito mais velha do que gosta fingir ser. A julgar pela conduta maternal que dirigiu a todos nessa noite, poderia estar facilmente na casa dos sessenta. É o que Wolfgang lhe faz, torna-la de repente numa esposa e numa mãe. Se Erwin tivesse conhecido Lilian pela primeira vez com o marido presente, duvida que as coisas tivessem chegado onde eventualmente chegaram. Os olhos de Erwin movem-se na direcção de Wolfgang e analisa o homem por alguns segundos antes de virar as costas; se tivesse de se sentir culpado pelas coisas que fez, há candidatos muito mais dignos no seu passado do que este.
Erwin deixa a atenção alternar entre um e outro rosto enquanto o olhar percorrer a sala. Para ele, a festa é um intervalo; tem feito toda a conversa de circunstância expectável, elogiou o Führer e a sua inexistente arma secreta que irá ganhar a guerra pelo povo alemão - até fez uma pequena aposta com Pechman sobre quem terá a sua promoção primeiro, Fischer ou Ribbeck, por uma mísera soma de dinheiro que mal dará pela falta se perder. A lista de convidados não apresentou praticamente nenhuma surpresa; as mesmas caras, noite após noite, as mesmas composições de Wagner a tocarem de fundo, a mesma conversa fútil. Nada tocara sequer a curiosidade de Erwin durante horas, excepto uma adição inesperada na lista de convidados.
Erwin não sabe como Mandl conseguiu infiltrar-se na festa - achá-lo-ia praticamente impossível depois do escândalo do julgamento que sofrera. O seu melhor palpite é que o homem saiba algo sobre Wolfgang e convencera o último a elevá-lo do seu estatuto de pária durante a noite - mais provavelmente será algo que Lilian não deverá descobrir do que algo de real importância. O mais provável será Mandl ter visto Wolfgang num bordel algures a leste; Erwin não desperdiça o seu tempo ao pensar que algum dos dois esteja acima disso. Os seus olhos cruzam-se com os de Mandl e partilham um aceno em cumprimento. Um tipo bonito - mas também, muitos deles são. Outros parecem menos impressionados por ele, lançando olhares na sua direcção e abanando as cabeças ligeiramente. Há anos que não ocorria a Erwin o quão estranha a divisão é entre o que estas pessoas aprovam e desaprovam.
Regressa à sua bebida, suspirando audivelmente em puro aborrecimento. Até se interroga se será demasiado cedo para se retirar, mas a ideia de outra noite sozinho no apartamento também não o seduz. Claro, agora que Erwin pondera, existe a impossivelmente diminuta hipótese de chegar a casa e ter mais uma bizarra visita do Judeu. Porque haveria alguém de ter o trabalho de escalar a parede só para invadir a casa de alguém para lhe lavar o chão é algo que o transcende - e muito provavelmente transcende qualquer pessoa racional. O acontecimento deixara Erwin mistificado. As motivações das pessoas raramente são algo que ele tenha dificuldade em compreender, tem orgulho da sua habilidade de ler aqueles com quem entra em contacto, mas isto... Nisto ele não consegue encontrar sentido, ainda que tenha passado um bom período de tempo a tentar inventar uma explicação. É bastante possível que o pobre coitado seja ligeiramente perturbado, o que explicaria o porquê das suas acções desafiarem a razão.
A festa arrasta-se e Erwin deixa-se levar por ela. Tem de se recordar várias vezes para não beber tanto quanto costuma nas festas de Lilian; a sua rotina habitual de cair na cama dela ao fim da noite está fora da mesa, afinal. Sente uma pontada de desilusão por isso; não se importaria de ter a distracção que o sexo oferece, a adrenalina, ainda que ultimamente os seus pensamentos tenham estado voltados para algo diferente, algo que não é Lilian, nem ninguém como ela. Dança um pouco com as outras mulheres presentes. São maioritariamente esposas de oficiais, e Erwin consegue ver como os seus maridos hesitam em rendê-las aos seus braços. Não precisam preocupar-se; um caso ilícito é mais do que suficiente para Erwin. No final de contas, apercebe-se que mal olhou para Lilian a noite toda, e apesar de não ter interesse em examinar mais os porquês ou razões, duvida que o tenha feito por respeito ao casamento dela. Sair da casa é um alívio que parece manifestar-se naquele primeiro sopro de ar primaveril que Erwin inspira assim que sai lá para fora. Só o aproveita por um momento antes de acender um cigarro.
- Não tem suficiente para partilhar, tem?
Erwin volta-se, reconhecendo a cara de Mandl pela nuvem de fumo que acabara de expirar. Hesita por um momento de puro Holtz enquanto pensa no preço que pagara pelos cigarros; material genuíno americano, nada daquela merda que eles fornecem aos soldados - nem misturado com nada. No final, retira do bolso a cigarreira e oferece um ao homem, ateando um fósforo para o acender. Fumam lado a lado, mantendo-se em silêncio até Mandl falar.
- Não sei porque me incomodo com esta merda - resmunga ele e cospe para o pavimento. - Graças a Deus que me vão mandar para leste não tarda. Duas semanas deste sítio fazem-me querer rebentar a cabeça a alguém.
Erwin grunhe. - Polónia outra vez? - pergunta sem pensar mais no assunto, e o homem acena.
- Não conseguem achar pessoas suficientes que consigam aguentar-se lá - diz ele, inspirando profundamente o cigarro e fazendo a ponta brilhar. - Fracotes filhos da puta. Deviam dar-nos permissão para matar quem quer que não aguente o pequeno almoço ao verem aquilo.
- Teria de arrastar o honorável Obergruppenführer para fora do seu castelo primeiro - recorda Erwin ao homem, sorrindo quando ele dá uma risada.
- Porco Rei da merda - pragueja Mandl, fumando de forma ligeiramente trémula. - Sentado na merda do seu palácio enquanto o resto de nós faz o trabalho nojento por ele.
- Os trabalhadores trabalham e os ricos ficam mais ricos com isso - murmura Erwin, expirando outra nuvem de fumo quando Mandl escarnece.
- Não é algum cabrão bolchevique, pois não? - pergunta, rindo quando Erwin o faz também.
- Não soube? - reitera Erwin. - NSDAP é a sigla de Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.
- Não me diga - cantarola Mandl, fumando. - Nunca passei do N.
Erwin resfolega ao comentário; ainda está para conhecer um nazi mais devoto - e Deus sabe que por esta altura, já conheceu o pior do género - apesar de haverem omissões flagrantes, alguns elementos-chave da doutrina que o homem claramente decidiu ignorar. E ainda assim, não consegue evitar ser o que é tal como Erwin não consegue. Consegue imaginar que o homem já tentou em algum ponto da sua vida vencer aquela batalha com que Erwin nunca se preocupou em travar. Bem, o julgamento é testemunho suficiente do fracasso do homem. Sem dúvida que lhe ensinou a ser mais cuidadoso quanto a isso, a controlar aqueles impulsos já que negá-los totalmente é um desperdício de tempo. Tendo vivido aqui toda a sua vida, Mandl já deveria ter aprendido isso por esta altura.
- Passou um tempo lá há alguns anos, não foi? - o homem retoma o anterior tema de conversa e Erwin resmunga uma resposta.
- Em '42 - confirma, mudando o foco da sua atenção para o seu cigarro; não se quer lembrar.
- Divertiu-se?
Erwin abana a cabeça rispidamente. - Secretário - relembra ele o homem. - Toda a diversão que tive foi arquivar pastas.
Mandl ri; é estranho que um homem como ele possa rir. - É uma pena - diz ele. - Mas ouvi dizer que gosta de fazer o que faz.
Erwin encolhe os ombros. - É trabalho - declara entediado. - Não sei quantos pensamentos é suposto ter sobre o assunto.
- Eu não conseguiria fazê-lo - diz-lhe Mandl, pausando para fumar. - Enfiado atrás de uma secretária o dia todo? Não obrigado. Preciso de estar lá fora, percebe? Preciso de estar no meio da acção.
Erwin grunhe outro reconhecimento às palavras do homem. Gostaria de apontar que no local onde está designado, Mandl nunca estivera sequer perto de ouvir 'o meio da acção', mas mantém-se calado. Olha de relance para o homem, apreciando as afeiçoes dele, o tamanho das mãos, o cabelo curto e bem penteado. Estranho o quão belo o mal pode ser.
- Acho que vou andando - diz o homem, fumando a última passa do cigarro antes de o atirar para o chão. - Provavelmente devia tê-lo feito há umas duas horas atrás.
- Quer uma bebida como deve ser? - pergunta Erwin num impulso, apagando o seu cigarro também. - Recebi gin no início desta semana. Não é mau de todo.
Mandl não responde de imediato. Erwin consegue senti-lo enquanto ele calcula, tenta decifrar o convite, para determinar exactamente o que está a ser oferecido. Erwin fica quieto, nem um único músculo contraindo-se no seu rosto. Deixa que Mandl chegue às suas próprias conclusões; iria tornar as suas bastante claras não tardava, se o homem aceitásse.
- Porque não? - diz ele finalmente, atirando um rápido meio sorriso a Erwin que se assemelha a um escarnecer. - Sabes que uma festa não presta quando nem sequer te deixa bêbedo, não é?
Erwin grunhe em concordância e começa a marchar na direcção do seu apartamento. Não lhe ocorre que Mandl esteja a ter dificuldade em acompanhar-lhe o passo até que ouve a respiração ofegante do homem; é um pensamento engraçado, como apesar do seu trabalho de secretária, Erwin tem mais exercício do que ele. Abranda, ainda que só um pouco, para permitir Mandl acompanhar o seu ritmo. Abrandar abre-lhe a mente a questões sobre o quão prudentes são as suas acções. É uma conversa curta. Mandl não irá dizer uma palavra a alguém - a menos que queira um bilhete só de ida para Dachau. Ele não parece claramente estar à beira da auto-destruição.
Atravessam a curta distância num silêncio prolongado, ambos talvez já demasiado aborrecidos com o fingimento para se continuarem a preocupar. Mal chegaram ao primeiro andar quando Erwin sente as mãos do homem na cintura, empurrando-o para a porta e para lá dela, que se abre com o rodar da chave e lhes permite tropeçar para a entrada, já a puxar roupas, pés já a desembaraçarem-se de sapatos. Erwin puxa o homem para um beijo, ofegando pelo toque da barba hirsuta contra a cara. Os toques de Mandl pelo seu corpo descem para a virilha muito mais depressa do que Lilian alguma vez conseguiu percorrer a distância; indelicado, desesperado, simples e sem decoro. É a honestidade que Erwin sempre apreciou - não há tempo para jogos quando a tua vida está em risco. Agarra a parte da frente da camisa do homem e incita-lo mais para o interior do apartamento, quase caindo ao tropeçar nos próprios pés. Atravessam a sala de estar, ocasionais gargalhadas ofegadas contra a boca um do outro quando a intoxicação de ambos se mistura com a súbita excitação. Os dedos de Erwin lutam com os botões da camisa de Mandl, os olhos vêem relances da cama atrás deles - e vêem outra coisa também.
O Judeu.
Erwin larga o outro homem de imediato, recuando um passo para trás instantaneamente - um reflexo nascido dos anos de alerta durante momentos como este. Assim que vê aquela estranha e pequena figura perto da janela, a mente de Erwin salta para a inevitável conclusão: Mandl não pode sair do apartamento vivo. Demora alguns segundos a refazer os passos que o levaram até aqui, para controlar os pensamentos antes que eles fujam para lá do seu controlo. Não pode confiar no Judeu para saber dizer as palavras certas nesta situação - o pobre coitado parece demasiado chocado para ser confiado a dizer o que quer que seja. Se a verdade sobre quem é fosse revelada, não há qualquer maneira razoável de o explicar a Mandl; o homem tem demasiado ódio para isso. Erwin não tem explicação, nem consegue pensar numa em cima do joelho, nem rápida ou segura o suficiente.
Sem dizer uma palavra, Erwin atravessa o quarto para o lavatório. A lâmina é a sua melhor escolha numa noite calma como esta. Fecha os olhos por alguns segundos quando a agarra e à pequena toalha, ruminando por um momento o quão depressa os seus planos para a noite se alteraram, e o quão incómoda toda a situação de repente se tornara. Ainda assim, sendo colocado em circunstâncias em que tem de escolher entre a vida do Judeu e a vida de Mandl, Erwin escolhe o Judeu - outra vez. Não porque o conheça ou goste particularmente dele com todos aqueles hábitos estranhos, mas porque conhece Mandl.
- Quem é este, caralho? - o homem atira a Erwin; tão boas palavras finais como quaisquer outras, tanto quando Erwin o possa avaliar.
Ele não o prevê. É óbvio pelo olhar chocado, a forma como fixa os olhos nos de Erwin, aterrorizado e confuso, de uma maneira que diz que não compreende o que se está a passar. Erwin mantém-no calado, tapando-lhe a boca com a palma da mão enquanto espera que a vida se lhe esvaia do corpo. Pousa Mandl no chão com uma toalha colocada debaixo dele para apanhar a enchente de sangue que verte do corte na garganta. Não se demora a olhar para o corpo, para reflectir como algo em tempos vivo é agora nada mais do que uma massa inútil de carne e ossos. Em vez disso regressa ao lavatório para largar a navalha na bacia com água e para tirar a maior parte do sangue das mãos. Quando se volta, a sua atenção regressa ao Judeu, ainda de pé ao lado da janela de olhos esbugalhados, agarrado ao rebordo como se estivesse a considerar uma fuga à pressa.
- O que estás a fazer aqui? - Erwin vai direito ao assunto que mais o perturba. Os planos que precisam ser postos em prática já se estão a formar na sua mente.
- Eu... - começa o Judeu, olhando para Erwin como se mal o estivesse a ver. - Eu pensei... Tu mataste-o.
Claramente ele precisa de um momento.
- Acalma-te e fica aqui - diz ele amavelmente ao homem. - Volto já.
Sai do quarto, olhando de relance para trás para a porta e vendo o Judeu fixar o corpo de Mandl. Sai rapidamente, ajeitando os punhos da camisa antes de descer as escadas, marchando até ao piso térreo e levantando o auscultador do telefone comum. Darlett atende ao quinto toque após a central ter passado a chamada de Erwin.
- Olá, Müller - diz Erwin assim que ouve a voz do homem. - Apetece-te um copo?
Consegue ouvir Darlett suspirar do lado dele. - O que é que vais beber?
- Tenho uma vodka gelada com o teu nome escrito - diz-lhe Erwin, achando que devia rir; está a parecer demasiado sério. - Traz os teus amigos. Vamos dar uma festa.
Darlett parece estar quase a gemer, mas no fim declara simplesmente. - Claro. Parece agradável o suficiente. Estou aí em quinze minutos.
- Não acordes os vizinhos - recorda-lhe Erwin e pousa o telefone sem se despedir. Assim que o faz, os pensamentos regressam ao Judeu; o que torna toda a situação ainda mais lamentável.
Sobe os degraus, esperando encontrar o apartamento vazio, a figura do Judeu a afastar-se do prédio ao longo da rua vazia lá fora. A contínua presença do homem é uma surpresa - tal como é o sangue que ele de alguma forma tem nas mãos e pulsos.
- O quê-? - começa Erwin, mas o pensamento ocorre-lhe de súbito. Olha para baixo para o copo. A toalha sob a cabeça de Mandl fora mudada por uma lavada. A água na bacia do lavatório tornara-se vermelho vivo. - Limpaste? - pergunta ao Judeu, que acena.
- Estou nojento - diz o homem, olhando para as mãos. Talvez nunca tenha visto um cadáver antes.
- Sim, estás - diz Erwin calmamente. Não vale a pena perturbá-lo ainda mais. É melhor dar-lhe algo para fazer, focar a mente em outra coisa, algo agradável. Erwin acena para a casa de banho. - Vamos. Temos de levar água ao amigo.
- Amigo? - repete o Judeu, confuso, seguindo Erwin para fora do quarto.
Começa a encher baldes com água enquanto o homem lava as mãos. Estão uma escova e uma barra de sabão perto da banheira; estivera a limpar de novo. Apesar de tudo o resto, Erwin sente uma pontada de frustração perante o quanto a situação o deixa perplexo. Diz a si próprio de novo que não há que ter vergonha por não compreender as acções de um lunático, mas olhando de novo para o Judeu, o argumento parece pouco convincente. A maneira como lava as mãos é meticulosa, controlada. Quando acaba seca as mãos e deixa Erwin para trás na casa de banho; quando sai com os baldes, encontra o Judeu sentado no sofá, olhando para o corpo de Mandl com as sobrancelhas franzidas.
- Quem era ele? - pergunta o Judeu assim que Erwin se ajoelhou ao lado do cadáver e começara a limpar o sangue de novo.
- Não era ninguém - diz-lhe Erwin; o homem parece inofensivo o suficiente, mas é melhor manter as declarações pouco especificas - Ele viu-te, por isso tive de o matar, foi só isso.
- Oh? - a voz do Judeu está seca. - Não me tinha apercebido que era alguém assim tão importante.
Erwin ri; lá está aquele sentido de humor. Bastante atraente e inesperado.
- Não és - diz ao Judeu, que não parece feliz por o ouvir.
- E tu és? - exige ele de imediato numa voz que mostra que está muito pouco impressionado.
Erwin demora um momento a pensar e acena com alguma hesitação. - Sim, sou - diz ao outro, acreditando mas acrescentado: - De certa forma, pelo menos. - Afinal de contas, a sua informação não é infinita, nem é a sua contribuição insubstituível.
- E que forma é essa?
Um tipo curioso; talvez demais. Lavando e sacando as mãos, Erwin decide que já respondera perguntas suficientes por uma noite. Atravessa a sala de estar e senta-se na poltrona, fixando o olhar no Judeu. O rosto dele revelaria algo das suas intenções, Erwin tem a certeza.
- O que estavas a fazer no meu apartamento? - pergunta, voz mais severa do que tencionara. Aguarda para ver uma amostra de algo semelhante a pânico na cara do outro homem, ou talvez uma indicação do seu estado confuso. Em vez disso, o homem resfolega com desdém.
- Sei lá - declara ele, encolhendo os ombros. - O que estavas a fazer com aquele homem quando entraram?
A resposta deixa Erwin ainda mais perplexo. - Foi por isso que vieste aqui? - pergunta. Não consegue fingir-se elogiado pela ideia.
- Foda-se, nunca num milhão de anos - atira-lhe o Judeu taxativamente, fazendo as sobrancelhas de Erwin franzirem-se sobre os olhos. Mais uma possibilidade eliminada, outra explicação semi-razoável abolida.
- Limpaste o chão outra vez - recomeça, seguindo a única pista que tem, começando a ficar desesperado na sua procura por uma resposta sensata. - Porque é que continuas a vir aqui? E porquê fazer logo isso?
Ainda que Erwin lhe dê tempo de sobra, o Judeu não responde. Frustrado, tira a cigarreira do bolso.
- Esperava que pelo menos levasses alguma coisa - diz, acendendo um cigarro e, recordando-se do seu chá, pão e compota, acrescenta: - Para além de comida, refiro-me.
- Gosto de limpar - responde o homem, amargo.
- Essa é uma explicação muito fraca - diz-lhe Erwin de imediato. - Porque é que não limpas o teu próprio chão se te apetece?
- Pensei em dar-te uma ajuda - diz o Judeu. - Já que és uma merda a cuidar da casa.
Um pensamento atravessa a mente de Erwin aí; uma aposta, uma forma de direccionar o homem para algo marginalmente menos nocivo. Puxa o fumo do cigarro, tentando apanhar os próprios pensamentos de novo antes que fujam do seu alcance, categorizando-los rapidamente. Não tenciona matar o Judeu; tendo-lhe salvo a vida uma segunda vez, perdera toda a vontade de o fazer. Não aprecia a ideia de ter o homem a esgueirar-se no seu apartamento sem convite e controlo; seria muito inconveniente, e na pior das hipóteses poderia resultar em mais cenários como este. Poupar-lhes-ia algo tempo durante as missões, assim como uma delegação de uma tarefa desagradável a alguém que parece tirar algum prazer nela. Claro que está a colocar a vida do homem em risco - mas também, Erwin não vai insistir que ele aceite a oferta, o que em última análise deixará a escolha nas mãos dele. Ele parece ter o conjunto de aptidões correcto: cabeça fria, um talento para engano. E uma panóplia de ódio à espera de ser aproveitado.
- Bem, não quero que penses que o gesto não é apreciado - diz-lhe Erwin; e é verdade, ele gosta de ter o chão esfregado e lavado. - Na verdade, já que claramente tens habilidade, gostava de te oferecer um posto.
A hesitação do homem é evidente. - Que tipo de posto? - pergunta mesmo quando há uma batida na porta.
- Vamos discutir isso daqui a nada - diz Erwin, levantando-se para deixar Darlett e Mike entrar; cumprimenta o último afectuosamente, feliz por o ver com tão bom ar.
Darlett passa-lhe ao lado e marcha para o interior do apartamento, apontando irado para o corpo de Mandl assim que Erwin regressa à sala de estar.
- Mas o que raio é isto? - exige ele. - Mataste o Mandl? Com autorização de quem?
- Sim, foi bastante infeliz - diz-lhe Erwin, fumando o cigarro, bastante ciente do Judeu a acompanhar cada palavra, ainda que sem dúvida compreenda muito pouco delas. - Surgiu uma situação em que tomar qualquer outra acção teria sido desaconselhável. Lamento incomodar-vos aos dois com isto. Mike, achas que consegues livrar-te dele esta noite?
- De certeza que consigo - responde Mike, enfaixando o golpe na garganta de Mandl enquanto fala. - Uso o rio se tudo o resto falhar. Isso deve tratar bem do assunto.
- És americano?
Erwin vira-se para olhar para o Judeu quando ele fala, relembrando-se de repente que deseja que as suas suposições sobre a herança do homem estejam correctas. Olha para eles num estado de confusão e medo. Erwin sente pena por ele. Com certeza nunca pretendera envolver-se em algo como isto.
- E quem raios é este? - pergunta Darlett a Erwin, que acaba o cigarro.
- Ele está aqui para tratar da limpeza - diz, mudando para uma língua que o Judeu compreenda, esperando que vá tranquilizar o homem, dar-lhe uma âncora, acrescentando: - Não é assim?
- Sim - responde por fim, vacilando um pouco mas talvez parecendo convincente o suficiente para fazer parecer que fora algo previamente combinado; ou pelo menos, algo que Erwin não pensara há menos de cinco minutos. - Estou aqui para a limpeza. Aliás, devias tirar a camisa.
Erwin volta-se quando ouve as palavras, sentindo a desaprovação de Darlett na pele da nuca.
- Tens sangue na manga - clarifica o Judeu, apontando para pequenas nódoas no tecido que de resto está limpo. Erwin sorri para si próprio; uma escolha excelente, tudo considerado.
- Ah, sim - concorda, desabotoando a camisa rapidamente e despindo-a. - Não podemos deixar que a camisa se estrague.
Entrega-la ao Judeu, que se retira à pressa para a casa de banho. Erwin consegue ouvi-lo ligar a torneira assim que Darlett resmunga uma série de palavrões baixinho.
- Uma bela confusão que fizeste de novo, Erwin - diz, soando cansado. - Suponho que não precise desperdiçar mais tempo a perguntar pela autorização para isto?
- Os canais apropriados existem para as missões apropriadas - responde Erwin. - Tenho a certeza que não preciso dizer-te que nem sempre há tempo para isso. Tomei uma decisão, a melhor que pude dadas as circunstâncias.
- Talvez te visses com menos frequência nessas circunstâncias se não... - começa Darlett, calando-se de repente, como se as palavras seguintes fossem algo que não se atrevesse a dizer em voz alta.
- Sim? - pergunta-lhe Erwin, olhando para Mike que está a tentar esconder o sorriso. - O meu pai sempre me disse para nunca começar uma frase sem a terminar. Peço-te que tentes o mesmo.
- Sabes bastante bem ao que me refiro - sibila Darlett ainda mais baixo que antes. - Achas que isto é uma piada? Qualquer outro já te teria denunciado à central há anos pelas tuas... falhas.
- E enquanto essas declarações permanecerem sem provas, a central não tomará nenhuma acção para as investigar - Erwin informa o outro homem, fazendo-o corar para uma feia tonalidade vermelha. - Convidei o Mandl aqui para uma bebida para o poder interrogar sobre o estado da situação em Birkenau. Queria saber quem está a fotografar lá. Serão testemunhas-chave quando tudo isto terminar; especialmente porque as fotografias propriamente ditas não deverão sobreviver o que virá.
- Tens sempre resposta para tudo, não tens? - atira-lhe Darlett, abanando a cabeça. - Bem, um dia vais ficar sem explicações, e todas as desculpas que inventaste ao longo do caminho vão voltar e agarrar-te pelo pescoço.
- E se esse dia alguma vez chegar, tenho a certeza que estarás mesmo atrás de mim para me dizeres que me avisaste - responde Erwin, sabendo que nada seria mais provável irritar Darlett do que parecer despreocupado com as opiniões dele. - Entretanto, vou continuar a permitir que o meu julgamento dite as minhas acções, independentemente se mereceram o teu selo de aprovação.
Darlett escarnece baixinho e fica calado tempo suficiente para Erwin e Mike partilharem um olhar conhecedor. Até então o homem não conseguira evitar a sua necessidade de ter a última palavra. Erwin sente o impulso de contar até dez na sua cabeça, mas resiste-lhe.
- E trouxeste alguém novo para a operação - bufa Darlett por fim. - Suponho que também estás acima de autorização para isso? Acima de contares ao Mike e a mim sobre isso?
- Por acaso estava a perguntar-me isso também - diz Mike em voz baixa, levantando-se do chão e limpando as mãos nas calças. - Recrutar pessoas não se parece contigo, Erwin, muito menos civis.
- Eu sei - admite Erwin prontamente, olhando rapidamente para a casa de banho. - Mais uma vez, as circunstâncias foram... excepcionais.
- Oh, tenho a certeza - atira Darlett. - Devem parecer todas muito excepcionais para ti. Ainda que verdade seja dita, eu próprio estou surpreendido como é que não se começaram a misturar.
Erwin aceita o insulto com uma risada baixa. - Eu por meu turno estou surpreendido como é que ainda não ganhámos a guerra - diz, - com as tuas capacidades superiores de dedução à nossa disposição.
- Já chega, vocês os dois - resmunga Mike assim que Darlett está prestes a abrir a boca. - Já temos o suficiente com que lidar aqui sem tudo isso.
- As minhas desculpas, Mike - diz Erwin; a torneira na casa de banho silenciou-se. - E a ti também, Darlett. Sei o quanto não gostas de surpresas.
A expressão de Darlett não suaviza; não parece sequer reparar no Judeu, que atravessa a sala e se ajoelha no chão, empurrando o corpo para o lado para alcançar as manchas debaixo dele. Erwin olha para ele; parece extraordinariamente pequeno.
- Consigo lidar com o inesperado tão bem quanto tu - diz Darlett a Erwin, carrancudo. - Mas matar o Mandl nunca esteve no plano. De facto, a mensagem directa da central foi...
- Eu sei qual foi a mensagem da central - interrompe-lo Erwin, massajando o espaço entre as sobrancelhas com o polegar; as horas da noite começam a pesar-lhe. - Aceito total responsabilidade pelo que aconteceu. Mas não podes negar que desde o julgamento, a utilidade do Mandl diminuiu significativamente. A central pode não o ver, mas nós sim.
O silêncio de Darlett é um sinal claro de concordância, ainda que ele esteja relutante em admiti-lo. Erwin olha de novo para o Judeu enquanto ele torce água avermelhada do trapo depois de o passar por água no balde.
- Duvido que alguém ainda se importe o suficiente com o Mandl para investigar isto a fundo - diz Erwin de seguida a Mike. - Tanto quanto penso, não há nada em particular com que tenhas de te preocupar.
- Certo - acena Mike, pegando no corpo e atirando-o sobre o ombro. - Vão saber se houver problemas.
Erwin acena e acompanha Mike e Darlett à saída. Por um segundo deseja poder olhar uma última vez para o rosto de Mandl - um pensamento mórbido que leva ácido à garganta, e afasta-lo de imediato. Deixa-se cair pesadamente na cama, olhos voando para o relógio de pulso, fazendo-o gemer. Planeara já estar deitado agora, membros pesados de esforço e alívio. Volta-se para olhar para o chão que o Judeu está a esfregar, só aí notando na falta de pó nos cantos.
- Limpaste este chão também, não limpaste? - pergunta ele ao homem, que escarnece baixinho.
- E a tua banheira imunda - replica ele, relembrando Erwin da escova e da barra de sabão na banheira. - Se não consegues manter este sítio habitável porque é que não arranjas uma empregada?
Erwin ri, quer pela impudência do homem e pelos padrões elevados do que ele considera habitável. - Tenho a certeza que podes ver que, na minha situação, isso poderá ser inconveniente - denota ele, e o homem acena de forma curta e mergulha o trapo tingido no balde.
- Pois - concorda, azedo. - Então quanto é que me vais pagar?
A questão apanha Erwin de surpresa. - Desculpa? - consegue dizer apesar do divertimento chocado; se possível, o Judeu parece ainda menos impressionado.
- Disseste que tinhas trabalho para mim - declara de forma directa. - Preciso de alguma coisa permanente, e frequente. E preciso de ser pago. Não sou esquisito, mas terá de ser ou dinheiro ou comida.
Erwin sente outro surto de riso a borbulhar, mas estrangula-o ao aclarar a garganta para se impedir que insultar mais o homem; claramente ele tem padrões elevados para mais do que apenas o estado de limpeza das suas divisões.
- Receio não poder prometer que o trabalho vá ser permanente ou frequente - diz-lhe Erwin com honestidade. - Mas claro que salário é algo que podemos discutir.
Afinal, tem dinheiro. Suficiente para não lhe sentir a falta.
Se Erwin achara que o homem fosse ficar satisfeito com isto, obviamente estava enganado. - Vou adiantar-me e poupar-nos tempo aos dois dizendo-te como é que esta discussão vai correr - declara taxativamente; Erwin não consegue evitar sorrir. - Não vou andar a limpar sangue de montes de merda nazi para ti sem receber nada. Fazes alguma ideia do quão nojento isto é? - Erwin olha para as mãos manchadas de sangue quando ele as levanta. - E tenho bocas para alimentar em casa, por isso quando não conseguires arranjar um nazi morto para eu limpar, vais pagar-me para esfregar o estúpido do teu chão.
- Senão? - pergunta Erwin, curioso para ver até onde o homem está disposto a ir, quão desesperado está. Sem dúvida que cuidar da sua família é uma preocupação grave, algo que merece ser analisado se ambos levarem isto a sério.
O homem fixa-lo nos olhos, inabalável, e diz: - Chibo-me à 'Stapo.
- Eles não acreditariam em ti - recorda-lo Erwin, apesar de ter a certeza que o homem já o sabe. É uma ameaça vazia, mas revela algo sobre o homem ainda assim.
- Queres correr o risco?
Ele quer sentir como se tivesse algo para usar contra ele, apercebe-se Erwin. Deve ser chocante, ver tudo à tua volta desmoronar-se e não ter poder de o impedir. Erwin sente-lo ele próprio o suficiente, mesmo com todo o trabalho que tem feito.
- Não o farias - aponta ainda assim, ainda que seja desnecessário. - Apanhavam-te a ti também se o fizesses.
- Achas que não arrastava o teu couro nazi comigo? - diz o Judeu, resfolegando com desdém.
Deixa Erwin a questionar-se se o homem ainda acredita que ele seja austríaco. É provavelmente melhor que assim seja; limitar a informação é sempre a prioridade. Analisa a expressão desagradada do homem, deixando escapar a risada que tem estado a reprimir.
- Devo admitir que não é a atitude que normalmente procuramos - informa ele o homem, estendendo a mão educadamente. - Mas aprecio o teu fervor.
E aprecia. É sempre melhor encontrar alguém que já está disposto a arriscar a vida. Poupa Erwin do problema de o ter de convencer; assim como da culpa se algo correr mal. O homem olha para a mão dele com desconfiança por um momento antes de a aceitar; o aperto é forte, a pele fria e a mão estranhamente pequena.
- Claro - diz simplesmente, largando Erwin; o toque deixa para trás uma marca vermelha. - Devias ir lavar as mãos.
- Não precisas de me manter limpo, sabes - diz-lhe Erwin, mas ele limita-se a resfolegar.
- Pensa de novo, Senhor Cerveja - resmunga ele, regressando ao chão. - Mas não tomes já banho, ainda não acabei de limpar a banheira.
Erwin suspira e sai do quarto, lavando as mãos rapidamente antes de regressar à poltrona e acender outro cigarro, mantendo o Judeu sob olho enquanto ele termina o seu trabalho, percorrendo meticulosamente cada trave de madeira até estarem todas impecáveis. Erwin interroga-se até que ponto o método de limpeza do homem pode ser usado como base para suposições sobre o seu carácter. Sugere que é cuidadoso, talvez até pedante em alguns aspectos. Tem uma lábia e tanto, e não parece gostar de lhe ser dito o que fazer - mas ainda assim obedece a ordens à letra se quiser. Erwin começa já a pensar em formas de o usar, muito para além de simples trabalho de limpeza. É um conjunto específico de características e aptidões que o homem tem, uma combinação que Erwin crê possam ser desdobradas e direccionadas de várias formas.
- Devíamos ter uma discussão adequada acerca do teu envolvimento - diz Erwin quando ele estás prestes a sair; as primeiras palavras que disseram um ao outro no último quarto de hora. - Ser-te-ia possível voltar cá na terça-feira? De preferência depois das quatro, mas não depois das sete.
- Tudo bem - responde o homem de novo, soando marginalmente menos azedo, como se toda a limpeza lhe tivesse melhorado o humor. - Este sítio precisa de um reforço mesmo.
Erwin deixa uma pequena risada escapar. - Faz uma boa viagem para casa - deseja-lhe, não obtendo resposta, e franzindo a testa assim que fecha a porta nas costas do homem. Que coisa tão estranha de se dizer.
Algo que Holtz nunca diria.
