Capítulo 13: Xeque-Mate
Bella ainda não desistira de desafiar sua pouca sorte, constatei, quando ela descia a escada pulando novamente.
Se eu tivesse o menor sinal de um escorregão, estaria lá no mesmo segundo. Eu era seu vampiro guardião. Logo, eu podia me permitir ficar alegre. Bella queria me ver. Cada dia que passava era uma continuação - uma repetição - de seu sim.
Ela passou direto, sem se importar em trancar a porta - afinal, para que alguém precisaria de chaves em Forks? O maior perigo não se importaria com portas. - e quase correu até seu lado no carro.
Pulou no banco e se virou para mim. Gostei de ouvir as batidas de seu coração tão aceleradas. Sorri.
Ela mordeu o lábio inferior, enquanto as batidas se tornavam ainda mais aceleradas. Me forcei a não observar tanto assim seu lábio vermelho pela pressão.
- Dormiu bem? - Bella tivera uma noite de sono mais tranqüila e eu supus que ela dormira bem; mas queria uma confirmação de sua própria boca. Alguém que não dorme há mais de oito décadas não é tão indicado assim para analisar uma noite de sono.
- Bem. Como foi sua noite? - eu me divertia a cada vez que ela me perguntava sobre minha noite, sem ter a miníma idéia do que eu estava fazendo. Porém, ainda não era hora dela saber quão baixo eu havia descido, invadindo seu quarto todas as noites.
- Posso perguntar o que você fez? - eu ri internamente.
- Não - sorri, para não deixar a negativa tão dura. - Ainda é a minha vez.
De algum jeito, quanto mais Bella falava, mais interessante era. Com minha habilidade de leitura de mentes, há muito a mente humana não me interessa em nada. Em oitenta anos, eu já havia ouvido mais do que o necessário para saber que nada mais me espantaria.
Eu estava eternamente entediado com quase tudo. Mas Bella era tudo, menos entediante. Seus pensamentos eram sempre uma surpresa.
Perguntei sobre sua mãe, ouvindo-a discorrer sobre a mãe como se fosse uma filha. Perguntei outros familiares; ela só conheceu uma avó. Perguntei sobre suas amigas e, enquanto ouvi sobre as poucas que ocupavam o cargo, minha curiosidade se estendeu para seus possíveis namorados.
Eu suportara Mike Newton e seus pensamentos sujos, não? Saber que Bella tivera filas de namorados - era só observar o comportamento dos garotos em Forks - não poderia ser tão doloroso e irritante, poderia?
Ainda estava aprendendo sobre o sentimento forte que o ciúme pode ser. Afinal, em minha determinação de evitar o futuro, apenas o ciúme, que eu julgava tão banal, foi capaz de me fazer fraquejar.
Perguntei, já me preparando para um momento de grande auto-controle, mas, absurdamente, Bella nunca tivera um namorado. Aquilo me surpreendeu mais que todo o resto do diálogo. Me lembrei de todos os convites que ela negou. Bom, era possível que fosse um padrão antigo.
O que me colocou numa série de pensamentos mais severos, recordando que ela me dera um sim. E que eu era, entre todos os outros, o menos indicado. O único que ela deveria ter dito não.
- Então nunca conheceu alguém que quisesse?
Ela hesitou. - Não em Phoenix.
Gostei da resposta tanto quanto não gostei. Bella era um sentimento eternamente antagônico para mim. Eu podia me alegrar com sua resposta, mas eu não devia. Era sempre assim.
Eu nunca conseguia me decidir se gostava ou não.
Perdido em pensamentos, ouvi Alice me chamando: Edward, espero que não tenha esquecido a caçada. Ela fez uma pausa. E nem que vai me apresentar hoje.
Eu ergui um polegar debaixo da mesa.
Apesar de minha memória não ser capaz de esquecer nada, Bella também me recordava desse aspecto da humanidade. Perdido em reflexões sobre tudo aquilo, eu podia facilmente me esquecer de todo o resto do mundo.
Lembrei-me que ela deveria voltar para casa sozinha. Desse pensamento eu definitivamente não gostava. Bella sozinha no volante era quase pedir uma catástrofe.
Mas eu não tinha escolha. Era por um bem maior, claro. Eu tinha que caçar.
- Eu deveria deixar você dirigir hoje.
Ela levantou os olhos de seu bagel. - Por quê?
- Vou sair com Alice depois do almoço. - Por favor, não me peça detalhes, implorei mentalmente.
- Ah - em seus olhos, li a decepção clara como cristal e, além, surpresa. Não havia um momento que ela fizesse algo que eu só gostasse ou só não gostasse. Essa decepção não fugia à regra. - Está tudo bem, não é uma caminhada tão longa.
Ergui as sobrancelhas, impaciente. De onde ela imaginara que eu a deixaria andar esses quilômetros sozinha e a pé?
- Não vou deixar você ir a pé para casa. Vamos lá pegar sua picape e deixar aqui para você.
- Não trouxe a chave - ela suspirou. A decepção estava ali, gritante, em seus olhos chocolate. Ela obviamente pensara que eu a levaria de volta. Eu também estava decepcionado... Ou talvez a palavra correta fosse contrariado. - Não me importo mesmo de ir andando.
Balancei a cabeça negativamente. Eu já estava indo contra todos meus instintos deixando-a sozinha, não a deixaria sozinha e sem condução.
- Seu carro estará aqui e a chave estará na ignição... A não ser que tenha medo que alguém possa roubar - eu ri. Chefe Swan provavelmente nunca havia tido uma ocorrência de roubo de carro em todos esses anos.
- Tudo bem. - ela disse, obviamente achando impossível. Havia desafio em sua voz. Eu também acharia impossível encontrar uma chave no bolso de uma calça jeans dentro de uma pilha de roupa suja se Alice não tivesse visto isso. Sorri como um jogador de pôquer - muito embora eu não jogue cartas há muito tempo, podendo ler as mentes de meus adversários.
- E aí, onde vocês vão?
Eu reprimi uma careta. Se tratando de Bella, era querer demais que ela não pedisse pelos detalhes que eu estava relutante em dar.
- Caçar - respondi simplesmente. Ela já havia entendido, mas parte de mim ainda queria que ela fugisse enquanto não fosse tarde demais. - Se vou ficar sozinho com você amanhã, preciso tomar todas as precauções - eu quis que ela entendesse o perigo. Quis que ela pudesse se colocar à salvo de todo o perigo - à salvo de mim. Quis que ela tivesse escolhas. Supliquei por sua razão, por mais que me doesse. - Sabe que pode cancelar a hora que quiser.
Ela desviou o olhar. Hesitou.
Vampiros têm uma consciência diferente do tempo. Podemos passar dias como em um segundo. E podemos sentir segundos se passarem tão longos quanto dias.
Foi o caso daquele pequeno momento. Todo o futuro, estava naquela resposta. As duas visões. Eu queria com uma intensidade dolorosa o seu sim; tanto quanto seu não. Eu estava dividido pela dor. Rachado.
- Não. - ela sussurrou, me olhando novamente. Depois, pude ver toda sua determinação em seus olhos, e ela ergueu a voz. - Não posso.
Continuei dividido, rachado entre a dor de um lado e a euforia de outro. O conflito dentro de mim era selvagem e eu não consegui replicar. Eu sabia desde o começo que ela não cancelaria. Eu não podia prever muita coisa em relação à ela, mas seu talento para ir em direção à morte eu sabia prever.
Não, disse com ferocidade à mim mesmo. Bella não está caminhando para a morte.
- Talvez tenha razão. - Me assustei momentaneamente com meu reflexo. Meus olhos negros eram um lembrete terrível daquele primeiro dia em Biologia.
Ela cortou meu pensamento. - A que horas vejo você amanhã? - ela parecia deprimida. Tentei compreender o motivo, mas estava além de mim, como na maioria das vezes.
Eu agradeci pela mudança de assunto ao ver minha expressão suavizada em seus olhos. - Isso depende... É sábado, não quer dormir mais um pouco? - eu continuava dando opções.
- Não - e ela continuava negando suas opções rápido demais. Eu reprimi um sorriso, interpretando sua resposta como um prelúdio de sua ansiedade para me ver novamente.
- A mesma hora de sempre, então - com uma pontada de esperança que eu definitivamente não deveria sentir, perguntei: - Charlie estará em casa?
- Não, amanhã ele vai pescar - ela respondeu absurdamente feliz. Aquilo me incomodou. Por que Bella não podia entender o perigo, uma vez que fosse?
Pensei em um modo de esclarecer o perigo. Ela estaria sozinha com o vampiro que sentia o maior apelo possível por seu sangue. Será que era pedir muito um pouco de razão? Eu estava fazendo a maior loucura de todo um século de existência, e só queria uma pequena ajuda, um pequeno incentivo!
E, simultaneamente, queria que ela nunca tivesse que saber de todo o perigo. Um anjo não deveria ser corrompido pela maldade de um demônio.
Optei por um meio termo nas entrelinhas da frase. - E se você não voltar para casa, o que ele vai pensar? - Isso você pode entender, não? O perigo de não voltar parece bem assustador.
- Não faço a menor idéia. - Ela respondeu friamente. Parecia irritada com a minha raiva. - Ele sabe que vou lavar roupa. Talvez pense que eu caí na máquina de lavar.
Meu semblante se tornou sombrio. Não era engraçado. Não era sequer normal o jeito que ela discutia o perigo. Ela ficou séria também, como eu; o gatinho que pensa que é tigre. Aquilo amenizou minha irritação.
Mas eu não quebraria o silêncio. Esperei por ela. - E sua noite de caça? - perguntou como quem discute sobre o clima; como se todos os conhecidos dela tivessem que cabular aula para caçar. Sua naturalidade me tirou da linha de pensamento anterior.
- Qualquer coisa que encontrarmos no parque. Não vamos muito longe.
- Por que vai com Alice? - começei a achar que ela é incapaz de deixar um detalhe passar. Como se estivesse procurando pelos piores.
E como eu responderia isso? "Alice é a única que acha que você volta viva"?
- Alice é mais... favorável - franzi a testa. Favorável não seria a palavra certa. A única louca que também acredita é algo mais próximo da realidade.
- E os outros? São o que? - ela perguntou em voz baixa, como se pedindo permissão para perguntar.
Definitivamente procurando pelos piores detalhes.
- Incrédulos, principalmente - ou talvez eles sejam os únicos que ainda raciocinam corretamente.
Ela se virou minimamente, observando meus irmãos. Eu queria tanto perguntar o que ela estava pensando. Me controlei, e quando estive a ponto de perguntar, ela se voltou para mim.
- Eles não gostam de mim - pensando em tudo que ela poderia ter concluído, eu deveria até estar feliz por esssa conclusão inocente.
- Não é isso - para tentar ser honesto, excluí Rosalie de meus pensamentos. - Eles não entendem porque não posso deixar você sozinha - essa era praticamente toda a verdade. Toda a verdade que ela podia saber por enquanto.
Ela me respondeu com uma careta. - Nem eu, aliás.
Eu sacudi a cabeça devagar, observando o teto do refeitório, enquanto pensava. Como explicar aquele sentimento, aquela necessidade de protegê-la que nascera em mim no instante que cruzei com seus olhos? Como explicar quão importante ela era para mim? Ela não conseguia enxergar toda sua importância, o quão única e maravilhosa ela era, como eu era fascinado por seu mais breve movimento?
Você deixaria um tesouro abandonado aos ladrões?
Fitei seus olhos. - Eu lhe disse... Você não se vê com tanta clareza. Não é como mais ninguém que eu conheça. Você me fascina.
Ela me fitou de volta. Havia algo em sua expressão... Sorri quando detectei sua incredulidade.
- Com minhas vantagens - toquei minha testa furtivamente -, tenho uma apreensão da natureza humana maior do que a média. As pessoas são previsíveis. Mas você... Nunca faz o que eu espero. Sempre me pega de surpresa.
Talvez nem sempre seja uma surpresa muito agradável, mas sempre uma surpresa.
Ela voltou-se para meus irmãos novamente. Quis pedir para que ela olhasse para mim. Gostaria de saber o que ela estava pensando, mas sem seus olhos, eu não conseguia nem chegar perto. Continuei meu pequeno discurso.
- Essa parte é bem fácil de explicar. Mas tem mais... E não é tão fácil de colocar em palavras... - tentei organizar meus pensamentos. Eu me sentia estranhamente excitado podendo dizer em voz alta parte do que eu sentia para ela. Eu não achava que estava na hora de esclarecer totalmente minha obsessão. Mas ela podia ter uma idéia, alguma base...
Fui tirado bruscamente de minha linha de pensamentos e interrompi minha fala. Rosalie estava encarando Bella, os olhos escuros - um óbvio sinal de raiva até para Bella, que, entretanto, não quebrava o contato, como que hipnotizada.
- Pare! - sibilei tão rápido e tão baixo que ouvidos humanos nunca entenderiam.
Eu estava apenas gravando o rosto de quem vai causar nossa perdição. Rilhei os dentes, me controlando para não responder. Mas quando Bella se voltou para mim toda minha atenção foi sugada para o medo gravado nas linhas de seu rosto.
Tanto tempo querendo que ela sentisse medo... e, agora, eu apenas queria que ela não sentisse mais. Que ela soubesse que enquanto eu estivesse aqui, estaria segura. Que eu seria sempre seu guardião.
Contraditório? Com certeza.
- Desculpe por isso - como explicar o comportamento de Rosalie sem causar mais medo ainda? Sem dor? - Ela só está preocupada - cada palavra me doía como uma apunhalada. Eu queria tanto poder dizer que ela estava segura. Que eu era seguro. - Não é perigoso só para mim se, depois de passar tanto tempo com você tão publicamente...
Eu desviei o olhar para os veios no padrão artificial da mesa. Eu não conseguia. Quis tanto que Bella soubesse do perigo... e, agora, quando estava prestes a fazê-la entender tudo aquilo, era demais para mim. Eu não suportaria ver o medo de mim gravado em seu rosto. Eu não ia conseguir dizer aquilo em voz alta.
- Se?
- Se isto terminar... mal - com uma última apunhalada de dor, escondi meu rosto nas mãos. Eu era covarde. Não podia ver seu rosto. Queria que ela simplesmente se levantasse e fosse embora. Por favor, não estenda ainda mais essa dor.
Esperei por sua cadeira arranhando o linóleo do chão. Eu podia ouvir as batidas aceleradas de uma lebre do lado de fora do refeitório, quase fora dos terrenos da escola. Mas Bella continuava em seu mesmo padrão de respiração e batimentos. Nada fora alterado. Ela levantou sua mão, como se fosse me tocar. Me permiti a esperança. Mas sua mão caiu em meio ao trajeto. Eu era por demais repulsivo.
- E agora tem que ir embora? - sua voz tremeu levemente, mas seu esforço para parecer normal estava ali. Bella não iria embora?
Senti um calor reconfortante, morno, se espalhar por mim. Eu podia continuar frio como gelo, mas o calor da esperança queimou dentro de mim.
Ergui meus olhos, hesitante. - Sim - procurei por sinais de medo. Ansiedade. Bella estava impassível. Mas havia a angústia. Uma angústia com causas que eu meramente poderia conjecturar.
Precisamos ir. Ouvi Alice me chamando Ou talvez você simplesmente não possa perder as elevadas instruções do Sr. Banner. Eu não me colocaria entre seus estudos tão dedicados, sabe.
Eu ouvi a ironia na voz dela, ao se lembrar de uma curiosa visão de Bella e eu no escuro da sala, ontem. Meu humor se elevou novamente e eu sorri.
Tudo isso se passara em pouco mais de um segundo.
- Provavelmente é melhor. Ainda teremos que suportar quinze minutos de um filme miserável na aula de Biologia... - inspirei seu perfume doce lentamente, antecipando o adeus. Queimou como no primeiro dia e minha boca se encheu de veneno. - Não acho que possa agüentar mais. - a frase tinha um sentido duplo, mas apenas para mim. E era bom que continuasse assim.
Então, Alice estava ali. Bella se assustou. Ops. Acho que você distrai ela demais. Eu até andei devagar.
- Alice.
- Edward - ela se deu ao trabalho de responder apenas pela presença de Bella. Vamos, me apresente!
- Alice, Bella... Bella, Alice - eu gesticulei indicando cada uma, respectivamente, mas sem mover meu rosto um mílimetro, o sorriso ainda preso ao meu rosto, encantado com a naturalidade de Bella. Encantado com a ausência do medo nas linhas de seu rosto.
- Oi, Bella. Que bom finalmente conhecer você - instintivamente quebrei o contato com o rosto de Bella e meu sorriso esmaeceu. Lancei um olhar sombrio, como aviso para Alice. Ela não tem como concluir tanto assim por cinco palavras. Relaxe.
Você diz isso porque não a conhece, quis responder. O segundo maior talento natural de Bella era adivinhar o que não devia saber com poucas palavras. O primeiro era, obviamente, o perigo.
- Oi, Alice - estava tímida. Procurei por curiosidade, ou por um lampejo de entendimento que me fascinava e assustava ao mesmo tempo. Mas só havia o rubor natural - e tão lindo - cobrindo seu rosto. Para a sorte de Alice - e minha também -, ela não percebera a profundidade da frase.
- Está pronto? - Ou precisa se despedir à sós?, ela continuou, solícita; sem ironia. Alice podia me entender.
- Quase. Encontro você no carro - ela não questionou.E saiu, sem mais uma palavra, satisfeita de finalmente ter falado com sua futura amiga; Bella a observou ir embora, com uma expressão estranha no rosto que eu não defini. A pequena ruga entre as sobrancelhas estava lá, indicando algo que eu não sabia.
Frustante.
Então ela se voltou para mim. - Devo dizer "divirtam-se" ou este é o sentimento errado? - gostei de seu esforço para tratar aquela parte de minha monstruosidade de modo tão normal.
- Não, "divirtam-se" é tão bom quanto qualquer coisa. - Embora se aplique mais à maneira de Emmet levar as coisas. Sorri.
- Então, divirtam-se. - Seu esforço era patente. E, apesar de não me enganar, o sorriso continuou ali.
- Vou tentar. - Como eu poderia me divertir longe de você? Preocupado com você? Era uma impossibilidade. - E você procure ficar sã e salva, por favor.
Ouvi a zombaria em sua voz. - Sã e salva em Forks... Mas que desafio.
Bella poderia ser muito observadora sobre todos a sua volta, mas não tinha a miníma consciência de si mesma. Ela não podia entender quão frágil era?
- Para você é mesmo um desafio - vi-a pronta para replicar. Rilhei os dentes. - Prometa.
- Prometo ficar sã e salva - ela recitou, o tédio em sua voz. Ela não tinha idéia de todos os perigos que a envolviam. - Vou lavar roupa hoje à noite... Deve ser muito perigoso. - Para Bella? Eu não duvidava muito.
- Não caia - zombei, mesmo que esse fosse um aviso real. Não caia, não se adoeça, dirija com cuidado, alimente-se bem, use um casaco, olhe para os dois lados da rua, mantenha a porta trancada, não pule os degraus da escada... Eu parecia a mãe de alguém.
- Farei o máximo - gostei da sinceridade em sua voz; me convenceu. Levantei-me, e ela me seguiu. - A gente se vê amanhã - disse, mais como se fosse um lamento do que uma constatação. Suspirou.
Essa emoção, essa saudade antecipada, isso eu podia entender. Mais do que ela, talvez. - Parece muito tempo para você, não é?
Ela concordou, uma sombra de sua raiva afetuosa em seus olhos. - Estarei lá de manhã - prometi. É, agora não havia volta. Eu estava seguindo o caminho que fora decidido antes de mim.
Eu fitei Bella e, antes que me desse conta, aquela fome estava ali. Seu sangue ainda me chamava, mas sua pele e seu calor também. Um toque fugaz. Uma lembrança da maciez de Bella contra o mármore frio. Eu me controlara das duas últimas vezes, não?
Afinal, não poderia haver erro maior do que o que eu cometeria amanhã.
Estendi o braço, ainda hesitante, até a maçã esquerda de seu rosto. Pelo mais breve dos instantes, fui um viciado contente. Observei aquele lindo rosado sob minha mão. Então, minha mente se inundou de novas possibilidades, de novas proximidades e eu soube que era meu limite. Com uma ordem vigorosa ao meu corpo rebelde, saí do refeitorio.
Eu quis correr para longe, mas não podia. Passei por Srta. Cope e entreguei uma autorização de Carlisle para ir embora mais cedo - na realidade, algo que eu havia feito durante a segunda aula. Ela estava tão concentrada em se convencer que eu era jovem demais que mau se importou em conferir a autenticidade do papel.
Alice estava cantando no carro. Me sentei no banco do motorista, e ela leu minha expressão. Ela vai ficar bem. Eu posso ver isso.
- É só que... me deixa nervoso... Bella é tão frágil.
Edward, por favor, confie um pouco nas minhas visões. Ela me mostrou sábado de manhã, Bella me encontrando, sem nenhum dano adicional. Nós em sua picape...
- Pare - eu não queria ver a continuação daquelas visões; aquela encruzilhada.
Ela me deu um meio sorriso de desculpas. Pelo menos nessa visão, por favor, acredite. Bella vai estar afobada demais com sua ausência para ter alguma idéia letal.
Foi minha vez de sorrir. Ops. Eu não tenho certeza se eu deveria ter dito isso. É bom que isso fique só entre nós. Eu sorri mais ainda, e ela se deu por satisfeita, colocando a música nas alturas novamente.
Pouco depois, chegamos à casa de Bella. Descemos do carro. Eu me adiantei e abri a porta da casa que - como sempre - estava destrancada. No bolso do jeans, ela me relembrou, quase sombriamente.
Enquanto eu passava pela cozinha, em direção à lavanderia, Alice subiu as escadas. Não tive trabalho nenhum para achar as chaves. Um segundo depois, estávamos na sala. Ela percebeu a pergunta em meus olhos. Apenas curiosidade pelo quarto dela. O guarda-roupa pra ser mais exata. Eu vi a cômoda de Bella e o ultraje de Alice com isso. Você vive lá, não? Daqui a pouco a própria Bella vai perceber seu cheiro.
Minha boca se retorceu num sorriso enviesado. Eu não estava certo se achava isso engraçado ou não. Segui para a picape, deixando o Volvo para Alice.
Dirigir aquela velha picape era um martírio. O rugido do motor deixaria um leão da montanha envergonhado, e eu tinha a impressão que andando - e não correndo - eu conseguiria ser mais rápido; quando tentei passar dos noventa por hora alguma coisa se soltou sob o capô e fui obrigado a voltar aos oitenta.
E, dentro desse museu ambulante, havia o cheiro de Bella. Tão forte que era quase como se ela também estivesse ali. Era bom que minha pele gelada não precise de aquecedor. Eu não sabia se suportaria continuar naquela direção com o aquecedor ligado. Sem contar o motor, que gritaria sob a tortura.
Meu consolo foi quando - finalmente - cheguei ao estacionamento da escola. Enquanto estacionava o monstro, ouvi atentamente os pensamentos do Sr. Banner. Vamos, olhe para ela. Olhe para ela. Olhe para ela. Olhe para... Como que atendendo aos meus pedidos, o professor observou, repreendedor e ressentido, meu lugar vazio. Ele não se conformava com minha educação avançada. Em seguida, voltou seu olhar para Bella, que tinha o olhar fixo na janela; ela estava totalmente dispersa - sonhando de olhos abertos. Ele se irritou em ser ignorado, mas deixou passar, voltando-se para o quadro-negro.
Não gostei da desatenção de Bella. Se, atenta, ela conseguia tropeçar nos próprios pés, o que aconteceria se estivesse tão desconcentrada? Abri o porta-luvas, procurando por papel e caneta. Ela precisava ser lembrada que tinha prometido se cuidar.
Tome cuidado.
Eu queria dizer mais, mas achei que Bella se irritaria com minha superproteção. Afinal, ela era independente e forte. Eu ri sozinho da idéia. Deixando a chave na ignição, como prometido, saí do carro. Alice me esperava no banco do passageiro, estacionado do lado de fora da escola, enquanto rabiscava furiosamente num papel o novo guarda-roupas de Bella.
Eu rolei os olhos enquanto me sentava e fechava a porta. - Você sinceramente acha que vai convencê-la forrar a parede do quarto dela com um armário desse tamanho?
Ela fez uma careta. Eu não tenho culpa se ela usa só uma cômoda! Se eu pudesse, teria desmaiado, quando vi aquele desastre!
Sorri. - Se iluda, então - ela me ignorou e continuou a desenhar um guarda-roupas com arabescos que fariam a corte de Luís XV gritar de inveja.
Foi um alívio quando saí da cidade e pude chegar aos duzentos por hora. Aquilo era dirigir. Uma pena chegarmos tão rápido à nossa casa.
Pulei fora do carro. Ansioso para ir logo e, assim, poder voltar logo. Uma criança na véspera de Natal seria mais controlada, imagino.
- Vamos? - Hum... me dê um minuto. Não quero sujar esse vestido. Eu gosto dele.
- E de qual você não gosta? - ela riu enquanto entrava na sala. Eu esperei, recostado no Volvo, os braços cruzados, os olhos fechados.
É muito bonito o que você está fazendo, disse Carlisle, enquanto se dirigia para seu carro. Eu assenti, sem concordar totalmente. Egoísta e mesquinho eram palavras que definiam melhor. Sabe, quando eu quis ser médico, não houve ninguém que concordasse comigo. Eles só diziam que eu mataria todos os possíveis pacientes. Eu assenti novamente; conhecia a história. Só quero que para você seja diferente. Que haja alguém para dizer que você está certo em acreditar. Que vai dar certo. Seu tom se tornou mais caloroso. Eu acredito que você pode, meu filho.
Eu abri os olhos e o fitei. - Obrigado, pai. - É bom que alguém acredite em mim, mesmo que eu não mereça, completei. Ele sorriu e se deu por satisfeito, dirigindo para fora da garagem.
Então Alice chegou. Vamos? Então, estávamos correndo... Alice cantarolava, o que me deu uma relativa paz. Nos embrenhamos no coração do parque e eu parei. Ela também.
Podemos avançar mais. Dá tempo.
- Eu acho que aqui está bom. - Bella está bem. Só mais um pouco. Você no máximo vai perder cinco minutos do sono dela.
Ela não tinha noção de como aquilo era muito tempo para mim. Continuei em silêncio, a resposta muda em meu rosto.
Edward, por favor! Mais alguns quilômetros e será uma caçada decente! Lancei-lhe um olhar que era obviamente uma negativa. Você foi caçar em Great Rocks com Emmet! Eu não!
- Não. Isso é tão injusto! Olhe só todos esses herbívoros! Ew!
Eu ri. - Você sabe que parece uma criança mimada que não quer comer brócolis, não? - ela fez um biquinho e cruzou os braços. Eu posso ir sem você, sabia?
- Mas você não quer ir.
Você é tão mandão! Com essa eu tive que rir alto. O quê?
- Bella. Ela já me disse essa frase exatamente assim. - Ponderei. - Embora, na vez dela, ela tivesse mais razão.
Eu havia ganho a disputa. Alice estava excessivamente feliz com minha informação extra sobre como as duas podiam ser parecidas. Ok, vamos procurar esses herbívoros. Ela imitou um arrepio antes de começarmos a caçada.
Bella dormira de um jeito profundo naquela noite que não era normal. Me deixara preocupado. Nem uma palavra. Quase sem se mexer. A sensação de queimação vinha junto com certo alívio; apesar de quieta demais, viva.
Naquela noite, eu me obriguei a respirar fundo continuamente. Me obriguei a queimar da maneira mais completa e profunda que já havia tentado. Em determinado ponto, era como se eu estivesse respirando o próprio fogo. Eu podia sentir até meus pulmões acompanharem o queimar. Podia sentir meu estômago se revirar.
Entretanto, após um ou dois pares de horas, veio a satisfação em queimar. A sensação terrível ainda era a mesma, minha boca continuava seca e nadando em veneno, mas era satisfatório. Tolerável. Dentro de um raciocínio que eu desconhecia, era como se eu gostasse de queimar.
Porque, se eu sentisse além dos meus instintos, o perfume que Bella exalava era o mais sublime que existia. Se eu pudesse aproveitá-lo puro, ignorando minha faceta de monstro, viria a satisfação.
Me concentrei em tentar isso durante o restante da noite. O sol chegou rápido demais, levando embora minhas últimas horas dentro de hesitação. Eu me sentia um condenado, a quem um plano de fuga mortal é oferecido. Ele pode morrer tentando fugir ou simplesmente enfrentar a morte de cabeça erguida.
Era a hora de decidir, meditei, com um último suspiro. Pulei sua janela e corri para casa. Eu precisava decidir. Eu podia fugir, abandoná-la. Iria viver uma vida à parte, uma sombra daquilo que eu já fui. Ou poderia me lançar na loucura de cabeça erguida, involuntariamente esperando pelo pior, mas querendo o melhor.
Entrei em casa. Registrei vagamente Emmet e Jasper jogando seu xadrez especial, Rosalie em frente à TV, Esme compartilhando com Carlisle seus novos projetos, Alice olhando o nada no topo da escada.
Todos aparentando uma calma que não existia. Edward! Você não vai acreditar no que aconteceu!
Eu a encarei, repentinamente ansioso. Ela parecia animada. Não sei desde quando está assim. Eu estou monitorando cada minuto do dia de Bella, você sabe. Mas eu peguei o costume de não pensar naquela encruzilhada. Então, agora há pouco... Rolei os olhos, quase tremendo de ansiedade. Voilà! Então vi Bella e eu na campina, claro e óbvio como o sol que nasce à leste. E vi também eu estacionando a picape na casa de Bella, escuro. O dia havia passado e ela estava viva...!
Certas emoções não podem ser traduzidas em palavras. Essa foi uma delas. Durante tantos dias, houve uma corda em meu pescoço a cada vez que eu pensava no dia de hoje. Então, haviam retirado aquela corda.
Eu não mataria meu anjo, pensei, aliviado e feliz. Durou pouco. Uma Bella com braços marmóreos e olhos cor de sangue me encarava. Ela sempre continuaria sendo meu anjo, mas daquele modo seria só meu.
Perdi a fala, enquanto um conflito de emoções com a força de uma explosão me devastava por dentro. Eu tinha certeza que alguém humano não suportaria a força de todos aqueles sentimentos.
Meus olhos captaram uma rainha de Emmet comer um bispo de Jasper. Era isso que eu estava fazendo, não? Jogando com o destino. Eu estava jogando e torcendo para que ganhasse. Só que havia mais do que peças inanimadas sob minha responsabilidade.
Então, sem a rainha, o rei estava desprotegido. Jasper avançou e deu xeque-mate no rei. Aquilo me causou mais uma forma inesperada de dor, que eu não soube identificar a causa.
Fiquei parado ali, observando. A rainha abandonara o pobre rei à própria sorte, e assim pôde ganhar o mundo. Sem ela, o rei não era nada. Não podia mais ir longe. Então, ele sucumbiu.
Mas, se estivessem juntos, ela continuaria na mediocridade de continuar parada, defendendo o rei. Eles estariam vivos. E o rei estaria feliz.
Entretanto, a rainha iria querer estar longe. Conquistando o mundo. Mas o rei a prendia ali. A culpa era dele. Ele a prendeu à sua própria realidade insossa.
Edward, querido...? A voz de Esme me puxou de volta à realidade brutalmente. Eu não saberia dizer quanto tempo fiquei parado, apenas observando as peças do xadrez.
Aconteceu alguma coisa...? Eu neguei, e me lembrando de dar ares de realidade à mentira, sorri. Mas mães não se enganam tão fácil. Seu coração se encheu de ternura.
Então, ela estava ali. Me abraçando. Oh, querido, vai dar certo. Eu posso sentir. Alice também. Vai dar certo.
- Eu sei que vai - Esse é exatamente o problema. Daria certo só para mim dentro de meu egoísmo. Minha voz saiu rouca, como se eu não a usasse há muito tempo. Então ela me soltou e deu um sorriso caloroso.
Subi sem falar mais nada. Todos estavam sendo especialmente cuidadosos com seus pensamentos, especialmente Rosalie que precisava de grande dose de esforço para se concentrar unicamente na tela da televisão.
Alice já havia deixado uma roupa cuidadosamente escolhida para mim, sobre o sofá em meu quarto. Eu estava longe, visualizando continuamente o rei caído.
Passei pela sala novamente. Todos continuavam imersos em suas próprias atividades. Estava prestes a sair, quando Emmet não agüentou.
- E aí, quer que a gente te espere para o jantar? - Forçado, eu sorri. Tentei não ver um segundo significado na frase aparentemente inocente.
- Não... Talvez eu não volte hoje. - Talvez eu nunca mais volte, acrescentei amargo, me lembrando do rei sem sua rainha. Sorri brevemente para todos. Eu não precisava ser Jasper para sentir a tensão no ar.
Ignorando o comentário malicioso - e mudo - de Emmet em réplica à minha declaração de não voltar hoje. Eu, absolutamente, já tinha muito o que pensar. Mas ele não parou. Hum, só a título de informação... Emmet me mostrou a rodada de apostas que acontecera entre eles. Ele, Rosalie, Jasper apostando contra Alice e sua visão. Não havia razão. Eu traria Bella de volta para casa. Mas será que continuar com isso era correto?
Com um sorriso tão forçado quanto sombrio, respondi. - Vocês todos vão perder. Não tem lógica apostar contra Alice. Eu tentei e não deu certo.
Ainda pude ouvir a fachada de calma caindo, antes de estar correndo na floresta. Por entre as árvores eu chegaria à casa dela mais rápido do que de carro. Mesmo assim, qualquer segundo sozinho e em relativa paz fazia latejar a dor dentro de mim. A imagem do rei caído e sua rainha ao longe, se intensificava com o passar do tempo. Latejava em sincronia com a dor.
Parei na orla da floresta, ouvindo. Charlie já havia saído. Bella estava na cozinha. Tomando o café. Com meia atenção, ouvi a louça se entrechocar-se na pia. A outra metade da atenção estava no rei. Aquele rei negro, que sem sua rainha, caíra.
Ouvi Bella subir as escadas, escovar os dentes. A ouvi descer as escadas - dessa vez mais calma. Antes que ela terminasse, eu estava em sua porta. Bati levemente duas vezes. O silêncio era tal que eu sabia que ela ouviria.
As batidas de seu coração se tornaram tão aceleradas que me perguntei se aquilo era normal. E, a pior pergunta, seria medo ou ansiedade?
Bella estava com medo de mim? Por mais que eu quisesse que ela tivesse noção do perigo que eu representava, a idéia que ela estivesse com medo de mim, que me repudiasse era uma das sensações mais dolorosas que eu experimentara.
Seu coração continuava frenético, sua respiração irregular. Como que numa brincadeira maldosa com minha ansiedade - e meu receio - de ver seu rosto, Bella não conseguiu abrir a porta na primeira tentativa.
A tentação de quebrar a fechadura - ou derrubar a porta - era grande, mas consegui me controlar. Enfim, ela se livrou da tranca problemática.
E lá estava ela. Seus profundos olhos chocalate encontraram os meus e minhas respostas estavam claras como cristal ali. Não era medo, era saudade.
Sorri, aliviado. Bella não tinha medo de mim. Minha loucura poderia durar mais algum tempo.
Então, quando o efeito hipnótico de seus olhos me soltou durante um segundo, observei suas roupas. Reprimi uma careta ao reconhecer o velho suéter desfavorecedor. Me peguei pensando se seria descer baixo demais se eu simplesmente sumisse com ele. É claro que seria, me reprimi.
Além disso, recordei, eu certamente não precisava que suas roupas me dessem mais ainda com o que me preocupar nesse dia.
Então, a imagem das roupas que eu mesmo estava vestindo, sobre o sofá preto, voltou, e eu sorri. Nós estávamos combinando. O jeans azul, a camisa branca sob o suéter caramelo.
- Bom dia - continuei rindo, imaginando que esta seria uma pequena brincadeira de Alice e me sentindo fervorosamente grato.
- Qual o problema? - ela perguntou, enquanto olhava para suas roupas. Como se eu fosse capaz de rir dela.
- Nós combinamos - eu ri novamente, e ela me acompanhou. Depois, Bella trancou a porta - como ela nunca fazia, notei, sem encontrar razão nenhuma para isso. Me recostei ao lado do passageiro, imaginando quanto tempo demoraria para chegarmos ao destino. Bella provavelmente dirigiria aos cinqüenta por hora. Reprimi um gemido.
Ela leu minha expressão tortura. - Nós temos um acordo - me lembrou, como se eu fosse dar para trás. Se eu não tinha desistido com tantas outras razões, a direção dela não me faria dar para trás. - Para onde? - ela me perguntou, enquanto eu subia no meu lado de passageiro. Eu detestava não estar no volante, e tudo ficava ainda mais insuportável se a motorista dirigisse quase parando.
Ainda mais com a sorte de Bella. - Coloque o cinto... Eu já estou nervoso.
Ela me fitou duramente enquanto seguia minhas instruções. - Para onde? - repetiu com um suspiro.
Eu precisei tomar um pouco mais de coragem. - Pegue a um-zero-um norte. - Bella era incrivelmente concentrada dirigindo. A ruguinha entre suas sobrancelhas retornara, seus olhos estreitos, como se a estrada a desafiasse.
Eu não duvidava, mas não quis olhar a estrada, porque era muito entristecedor poder contar cada ramo da grama que nascia no acostamento. Observei-a, sentindo minha garganta queimar com seu cheiro que se tornava mais forte com o passar dos minutos. Tentei me concentrar em seu perfume encantador, e não em minha sede, como havia tentado antes.
Arrisquei um olhar para a frente, esperançoso de ver que estávamos fora da cidade. Eu estava certo em não olhar; ainda me encontrava em Forks.
- Você pretende deixar Forks antes do anoitecer?
- Esta picape é velha o bastante para ser o carro do seu avô... Tenha respeito - ela replicou, uma irritação leve tangendo sua voz; continuava amável.
Como se visse tudo atráves de um filtro de terror, durante toda a viagem, enquanto eu olhava Bella podia ver uma sombra vermelha em seus olhos, a dureza de mármore em sua pele macia.
Eu queimava com satisfação novamente. Como se meu tempo queimando fosse escasso. E, se por um momento, eu fechasse os olhos, veria o rei.
Foi um alívio deixarmos a cidade. O zumbido dentro de minha mente se tornara mais fraco, e estávamos cada vez mais perto. Mais perto de um ponto decisivo em nossas vidas.
Eu prenderia minha rainha? - Vire à direita na um-um-zero - ensinei, observando sua expressão concentrada em um desafio mudo à estrada, enquanto virava. - Agora vamos seguir até o final do asfalto - Se você vencer a briga com ele, claro.
- E o que tem lá, no final do asfalto? - detectei algo além da curiosidade em sua voz, mas não identifiquei.
- Uma trilha.
- Vamos andar? - Ah, sim. Ela estava com medo de andar. Passar o dia sozinha com um vampiro sedento do sangue dela não era nada, mas andar pela floresta a deixava em pânico.
- O problema é esse?
- Não - ela não me convencera. Quem me dera que minha única preocupação fosse a incapacidade motora de Bella.
- Não se preocupe, são só uns oito quilômetros e não vamos correr - ela não me respondeu. Eu podia imaginar que estava contabilizando futuras quedas e arranhões. Como se eu fosse deixar uma árvore machucá-la! Pelo menos isso eu podia garantir. Esperei que ela respondesse, imaginando quão melhor era que ela não soubesse que, apesar de haver a trilha, não íamos pegá-la.
Mas ela continuou sem falar nada. Me deixava louco. - No que está pensando?
- Só me perguntando aonde vamos.
- É um lugar aonde gosto de ir quando o tempo está bom - nós encaramos as nuvens finas no céu, que iam se dissipando com o avançar da manhã. Bella soltou um sorrisinho involuntário, provavelmente, ao perceber o sol.
- Charlie disse que hoje faria calor - tentei não me animar demais. Mas talvez Bella tivesse percebido o perigo, finalmente, e dito à seu pai sobre nosso encontro...
- E você disse a Charlie que íamos sair?
- Não - eu tinha razão em não me animar demais. Vasculhei em minha mente, procurando por alguém que pudesse saber que nós estaríamos juntos.
- Mas Jessica acha que vamos juntos a Seattle?
- Não, eu disse a ela que você cancelou... O que é verdade.
Eu não me lembrava de mais ninguém. - Ninguém sabe que você está comigo? - Por favor. Tenha contado para alguém.
- Isso depende... - Finalmente. - Imagino que Alice saiba.
Não. Eu nem deveria ter perguntado. Bella, obviamente, iria deixar tudo mais fácil para sua falta de sorte.
- Isso é muito útil, Bella - ela ignorou minha irritação. - Está tão deprimida com Forks que ficou suicida?
- Você disse que podia causar problemas a você... que nós estejamos juntos publicamente - a raiva incendiou dentro de mim. Eu nunca deveria ter deixado isso escapar, conhecendo Bella, ela faria algo assim.
- Então você estava preocupada com os problemas que podia causar a mim... se você não voltasse para sua casa? - ela assentiu, sem me encarar.
- Absurda demais - murmurei, mais para mim do que para ela.
E eu desatento demais. Como eu não percebera que ela se preocuparia comigo e nunca com ela? Quantas vezes ela se preocupava consigo mesma?
O restante da viagem foi em silêncio. Bella não me olhou uma vez sequer. Eu encarei a estrada, irritado. E, mesmo que estivesse furioso com a sua falta de bom senso, com a maneira que sua mente processava tudo que eu dizia ao contrário, eu me sentia sujo. Porque, enquanto ela se preocupava com todos os mínimos detalhes que me envolviam, se arriscava por mim, eu agia como aquele rei.
Eu estava prendendo Bella cada vez mais a um destino que ela não merecia. Ela nunca me acusaria disso, mas a visão de sua pele dura e fria, de seus olhos vermelhos já me acusava o suficiente. Eu encarei minhas mãos. Eu já me odiava por estar cometendo esse ato de egoísmo premeditado. Eu não poderia ser salvo nem pela ignorância.
Bella me odiaria um dia? Me abandonaria para conquistar suas próprias fronteiras? Me deixaria sem remorsos - e com razão -, entregue à uma sombra do que já fui? Eu não quis pensar numa resposta para aquilo.
Vencendo a disputa com a estrada, ela estacionou cuidadosamente a picape no acostamento - não perfeitamente, mas era razoável. Pulou para fora sem me olhar, e bateu a porta. Eu me livrei do suéter, que havia se tornado mais um acessório totalmente dispensável.
Saltei e vi, pelo canto de olho, Bella encarando a trilha como se fosse um novo desafio. Observei que ela havia retirado o suéter também. Vestia uma blusa leve, branca, sem mangas e levemente transparente - provavelmente só para meus olhos. Era demais para mim. Reunindo muito auto-controle, me forcei a olhar para a floresta.
Eu queria me causar algum tipo de dor. Ela estava lá, tão pura, e eu tão imundo, tendo que me controlar para não aproveitar de meus sentidos aguçados - e não seria a primeira vez, levando em conta todas as vezes que escalei sua janela - para olhá-la. Existia alguma forma de eu me tornar menos merecedor?
- Por aqui - disse, entrando na floresta.
Ela não se mexeu. - A trilha? - novamente, o pânico em sua voz. Pelo menos dessa vez eu podia reconhecer e saber a causa.
- Eu disse que havia uma trilha no final da estrada, e não que íamos pegá-la - eu reprimi uma risada, querendo me virar para ver seu rosto, mas sem saber se seria demais para mim.
- Não tem trilha? - o desespero era quase palpável em sua voz.
- Não vou deixar você se perder - eu desisti de não olhá-la. Me virei, sorrindo de seu medo bobo. Ela não me olhou, encarando meu tórax com uma expressão que não era o pânico que eu esperava... Dor?
A dor dela me atingiu como uma flecha que chega em seu alvo. Eu a havia magoado? De novo? Ela não mais me quereria por perto?
- Quer ir para casa? - sua expressão continuava de dor. Só podia ser isto. Me preparei para deixá-la ir, embora não haja preparo possível para uma dor dessa proporção.
- Não - alívio inundou cada pequena parte de mim, enquanto ela avançava até minha direita.
Embora eu ainda não soubesse o que havia causado seu sofrimento. - Qual é o problema?
- Não sou boa andarilha. Terá que ter muita paciência.
- Posso ser paciente... Se me esforçar muito - eu sorri, tentando encorajá-la. Que andar não era seu forte eu já sabia. E ela também. Essa não poderia ser a causa de sua tristeza.
Ela sorriu também, mas não era natural. Havia alguma coisa... A dor poderia ser um reflexo de seu medo? Bella estava com medo de mim?
A idéia latejou dentro de mim. - Vou levar você para casa - queria que ela acreditasse em mim. Queria que ela não sofresse.
- Se quiser que eu atravesse os oito quilômetros pela selva antes do pôr-do-sol, é melhor começar a andar - ela respondeu, após alguns segundos em silêncio. A dor continuava lá. E raiva, agora.
Eu contemplei seus olhos, buscando as respostas que ela não queria me dar. Não havia nada ali, a não ser o que eu já sabia. Frustrado, comecei a caminhada.
Fui na frente, abrindo caminho. Tirei as samambaias, o musgo, procurei por insetos peçonhentos que pudessem machucá-la e furtivamente eliminei o perigo. Bella não sofreria um arranhão, se eu pudesse evitar.
Seguindo esse pensamento, quando ela deveria pular árvores caídas ou andar sobre pedras não muito estáveis eu tive uma desculpa perfeita para tocar o calor de sua pele, erguendo-a pelo cotovelo. Com prazer eu ouvia seu coração martelar na caixa toráxica, e sua respiração ofegar. Eu tentava sorrir furtivamente nessas ocasiões, mas fui pego no flagra duas vezes.
Eu quase queria mais árvores caídas e pedras no caminho. Exigia um pouco de controle meu, não desviar para esses terrenos difíceis.
Me incomodava não ouvir sua voz. Era como se algo estivesse faltando, mas Bella parecia nervosa demais com raízes traiçoeiras e pedras para falar. Além disso, aquela tristeza que ela se recusava em me dizer a causa continuava gravada em seus olhos. Algumas vezes, tentei começar uma conversa, soltando uma pergunta nova que eu ainda não havia feito. Em mais de uma dessas ocasiões, ela quase tropeçou. Só me restava supor que ela precisava de total atenção no que fazia, e que andar, não cair e falar era demais.
Calei-me, então. Aquilo fazia com que só me restassem meus próprios pensamentos. O rei parecia latejar em minha cabeça com mais força a cada minuto, como se cada tentativa de negá-lo só o fizesse mais forte.
Eu olhava Bella, tão quieta, e nunca houve tanta frustração em não ouvir seus pensamentos. Ela estaria com medo? Ela estaria fazendo isso só para não me magoar? Sua mente funcionava em planos e de maneiras tão complexas, reversas e absurdas que eu não sabia o que pensar. Bella seria capaz de se sujeitar a todo esse perigo apenas para não ferir um coração que já não bate? Eu não duvidava totalmente.
E sabia que, se fosse assim, um dia, ela sairia em busca de um novo destino e deixaria seu rei caído. Não, nunca por maldade. Só se livrando daquela prisão que o rei egoísta criara.
Seu silêncio me levaria a loucura. Foi com alívio que vi os primeiros raios de sol da clareira. Estávamos chegando. É claro que chegar significava todo um novo tipo de complicações. Mas pelo menos aquela caminhada silenciosa acabaria.
Eu não sabia se agüentaria mais. - Ainda não chegamos? - ela brincou. Eu senti aquela agonia silenciosa dentro de mim ir embora. A tristeza sem nome de Bella havia ido embora.
Sorri. - Quase. Está vendo aquela claridade ali?
Ela olhou para onde eu apontava, e mordeu o lábio. - Hmmm, deveria ver? - eu sorri zombeteiro.
- Talvez seja cedo demais para os seus olhos.
- Hora de ir ao oftalmologista - ela respondeu baixinho. Eu sorri mais. Bella parecia alegre, agora. Não havia mais aquela tristeza em seus olhos.
Eu soube quando ela enxergou o sol também porque fui deixado para trás, meramente seguindo-a, enquanto ela caminhava quase correndo - imagino que o restante de bom senso a impediu.
Bella ergueu a última folha de samambaia que a impedia de entrar naquele refúgio de paz e então eu fui totalmente esquecido. Observei-a admirar as flores do campo, o céu, o sol... tudo, com um sorriso bobo nos lábios.
Eu poderia ter passado dias assim, só admirando sua beleza, a felicidade que resplandecia dela. Poderia, se ela não tivesse se lembrado de mim.
Minha rainha avançou um passo e ordenou que seu mais fiel súdito saísse das sombras apenas com um gesto delicado.
O medo me tomou. Ela teria horror de mim no sol. Era minha faceta mais anormal. Mais inumana, que ela iria ver. Eu era uma pedra animada, afinal. Ela me abandonaria, correndo, aos gritos.
Eu era repulsivo demais. Eu era um monstro, não? Em todas as culturas, em todas as lendas, durante milênios, humanos nos julgaram monstros. Demônios. Espíritos maléficos. Essa é a verdade.
Ela não. Em sua inocência de anjo, não havia maldade. Eu não tinha o direito de fazer isso. Eu não poderia macular sua pureza.
Eu merecia ser abandonado ali, para toda a eternidade. Ela merecia continuar fazendo seu caminho, sem minha prisão. Bella merecia tudo de bom. E eu não era bom.
Minha rainha avançou mais um passo, sorriu em sua inocência e me chamou com mais um gesto delicado. Eu pedi tempo com um gesto. A imagem do rei caído e sua rainha longe me tomou de novo.
Então um detalhe que eu havia deixado passar, algo que eu não havia pensado antes, concentrado na dor do rei. Se o rei cair, acaba para a rainha também. Não há nada depois do rei para a rainha.
Respirei fundo sem me importar em queimar, e dei um passo em direção ao sol, pensando que talvez, só talvez, eu não pudesse mais cair sem levar minha rainha junto.
N/A: Voilà! *-* Onze páginas. Tenho a sincera impressão que nunca escrevi capítulos tão gigantes em toda minha vida. Eu sei, eu estou atrasada. Mas juro que não foi minha culpa. Eu escrevo duas fics que são água e vinho (Uma é de Twi, a outra de HP. Uma é drama, a outra comédia. Uma segue... enfim). Até terça, eu estava escrevendo a outra. Então, quando eu postei lá, tentei digitar essa. Mas não dá. Eu tenho que esperar um dia entre uma e outra, senão as histórias se misturam. Sabe, tenho que ouvir Coldplay, Lifehouse, Amy Lee e por aí vai, ler umas coisas mais tristes, reler várias vezes o capítulo que vou escrever pela visão da Bella, fazer anotações. Daí no dia seguinte eu já estou pronta.
Mas no dia seguinte eu tava de cama. E no dia que veio depois também. De cama, e se, pra piorar, a luz do monitor fazia minha cabeça rachar no meio de dor. u.u Daí comecei a escrever o capítulo ontem de tarde, quando melhorei. E como esses capítulos são grandes, só terminei hoje.
Além disso, estou escrevendo no Word Pad, porque meu PC novo 8-) não tem Word normal. Daí, não tem corretor ortográfico e eu tenho que ficar toda hora relendo com medo de encontrar um "Çim" ou algo do gênero. Me perdoem qualquer erro... no calor do momento sempre sai algum absurdo. Enfim, espero que gostem desse capítulo. Eu gosto dele mais do que do anterior, porque ainda estou pegando a prática.
Reviews! (Aqui ou no seu e-mail, se tiver login ;)
Biele Blackmoon : Minha primeira review *-* Espero que continue gostando, com esse novo capítulo!
M. : Eu continuei... agora que tal me dar um prêmiozinho por bom comportamento e comentar de novo?
Nat Cullen : Escrevi mais. Ô, e como xD... Espero que goste!
Nina : *-* Ah, sério que você acha isso? 8) Essa fic veio justamente da minha desolação quando terminei Midnight Sun ;P Eu gamei nessa coisa da minha fic ser recompensadora! ^^ Espero sua review nesse capítulo, já que merece muitas, como você disse, né!
Eu simplesmente não posso descrever como uma resposta tão boa para essa fic me deixou feliz. Peço novas desculpas pelo atraso, e agradeço novamente à boa vontade de vocês! Fico muito feliz que todo esse trabalho gere frutos tão bons!
Muito obrigada à quem favoritou/comentou/acreditou-na-minha-loucura-e-leu/clicou no link!
Beijos,
Muffim.
