Chapter Two - O Portal do Inferno

"Vai-se por mim à cidade dolente,

Vai-se por mim a sempiterna dor,

Vai-se por mim entre a perdida gente.

Moveu justiça o meu alto feitor,

Fez-me a Divina Potestade,

mais o Supremo Saber e o primo Amor.

Antes de mim não foi criado mais nada

senão eterno, e eu eterna duro.

Deixai toda esperança, vós que entrais."

by Dante Alighieri, A Divina Comédia

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Será que eu estou sonhando?

Isso TUDO é um banheiro?

Eu havia visitado um Onsen quando era bem mais nova.

A lembrança daquele lugar nunca saiu de minha mente.

As nuvens de vapor.

Os cheiros diferentes de aromas para banho.

As toalhas branquinhas e macias.

A água quente.

E, aqui estou eu, nesse banheiro.

Que, diga-se de passagem, é mil vezes maior que o Onsen que visitei!

Eu tirei rapidamente o meu quimono todo sujo e encardido.

Cheirei o meu cabelo, e fiz um careta.

Bleargh!

Eu estava mesmo precisando de um banho!

"Maldito seja, Kurosaki!", eu ouvi o ruivão do lado de fora.

Hunf! Estragando os meus momentos de paz.

O que será que ele e o Laranjão estão discutindo?

Bom, danem-se os dois!

Eu vou é me ensaboar, e entrar nessa água quent...

Ué? Que ventinho frio é esse?

Ah, o ruivão que abriu a porta.

Peraí...

O ruivão...

Abriu..

a..

PORTA?

"AAAAHHHHHH!", e eu gritei o mais alto que pude.

E, peguei a coisa mais pesada que vi.

Que, no momento, era um banquinho de madeira, e arremessei com tudo no maldito.

Ele se virou para correr para a porta.

Ah, tá bom que eu ia deixar ele se safar daquele jeito.

Juntei todas as minhas forças e concentrei elas no meu pé.

E, chutei as costas do desgraçado!

Isso, fica aí fora mesmo, seu tarado!

"E fique aí, seu pervertido!", eu falei.

Achei que ia poder tomar meu banho, quando vejo uma cabeça laranja ao lado da porta.

Ah, outro tarado!

Mas eu não vou dar nem chance pra ele ver alguma coisa!

Peguei a bacia, e mirei bem naquela cabeça de mixirica!

Eu sabia que ele ia olhar, o depravado!

TOMA!

Joguei a bacia nele, com força!

Pena que ele desviou!

Antes que eu pudesse jogar qualquer outra coisa, o ruivão levantou e fechou a porta.

Hunf!

Bem feito pros dois!

Ah!

Agora sim, eu posso tomar o meu banho.

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Narrativa Onipresente

"Nervosinha ela, não!", Ichigo falou. Ele e Renji estavam montando guarda no corredor, para o caso da menina decidir fugir.

Renji apenas soltou um muxoxo, e balançou a cabeça. Ele não iria admitir que tinha ficado surpreso com a atitude da garota. Aliás, desde o momento em que a viu, ela conseguiu surpreendê-lo várias vezes.

Afinal, ele nunca esperava vê-la naquela cabana. Ele, Ichigo e Byakuya estavam de passagem pelo local, voltando para a Mansão após uma longa viagem diplomática na Região Norte. Foi então que, Zabimaru o alertou, dizendo que havia escutado um barulho estranho. Bem, quando Renji diz que Zabimaru falou com ele, ele quer dizer uma espécie de conversa telepática entre os dois.

Zabimaru não era um babuíno qualquer. Ele era um demônio de verdade, e por isso, era muito mais excepcional que o esperado.

Pois foi com sua audição minuciosa que Zabimaru escutou os passos de alguém. Renji achou estranho. Pelo relatório que Zangetsu havia mandado, todas as cabanas daquela região haviam sido destruídas e queimadas. As famílias que ali habitavam eram todas de rebeldes, que ainda se recusavam a obeder completamente as ordens de Byakuya.

Sendo assim, era teoricamente impossível ainda ter alguém por ali. Talvez fosse um mendigo, ou algum viajante. Mas, eles não poderiam arriscar. Renji então foi na frente, para certificar que a área estivesse vazia.

Qual foi a surpresa do rapaz ao encontrar aquela menina, pequena e magricela, naquele mesmo local. Ela estava de pé, no que seria a cozinha, mexendo nas panelas. Renji notou que o cadáver semi-decomposto de uma mulher estava ali, perto dela. E a menina parecia nem se incomodar. Ela até murmurava alguma coisa. Quando ela se deu conta da presença dele, Renji notou que os olhos da menina se fixaram em sua espada. Provavelmente ela estava morrendo de medo.

Renji então balançou a cabeça e se aproximou da menina, erguendo-a pelos cabelos, pronto para matá-la. Claro, antes disso, ele esperava que a mesma gritasse, chorasse e implorasse pela vida, como sempre.

Novamente, surpresa. A menina estava maltratada, mas os olhos grandes e azuis piscavam calmamente, enquanto ela olhava para ele, atentamente. Nenhum traço de medo, ou angústia. Ela estava calma, até um pouco ansiosa e... admirada.

Renji percebeu que ela o estudava, e que estava pensativa. O que será que estava passando na cabeça dela? Renji podia jurar que ela estava temendo pela própria vida, quando a menina falou:

"Justo na hora do jantar!", foi o que saiu dos lábios dela, um tom de desapontamento e aborrecimento. Renji não pôde conter e arqueou uma sobrancelha, olhando para aquela menina.

Aquilo era coisa para se dizer antes de ser morta? Não, algo estava errado. Aquela menina não era normal, não poderia ser. E ela continuou a encará-lo, quando finalmente falou novamente:

"Hey... já se decidiu?", ela perguntou, curiosa. Renji esperou que ela continuasse, e a menina ainda perguntou o que ele faria com ela. Se cortaria a cabeça dela ou os braços, ou se a espancaria. Que tipo de pergunta era aquela? Que tipo de menina era aquela?

Será que ela não sentia medo? Ou talvez o fato de ter tido toda sua família morta e sua casa destruída a tivessem feito pirar de vez. Ela não lutava para escapar, não tentava garantir a própria vida. Ela até parecia ansiosa para morrer.

Renji não pôde questionar a sanidade dela naquele momento, pois Kurosaki o interrompeu. Assim como nesse momento.

"Hey, Abarai, ela já está lá há um bom tempo, você não acha? Será que ela se afogou?", Ichigo perguntou. Renji balançou a cabeça, a linha de pensamento sendo quebrada.

Maldito Kurosaki, sempre o distraindo.

"Não sei, e não me importo. Se quiser, pode ir verificar se ela ainda está viva.", Renji disse, mau-humorado.

"Eu não. Prefiro ficar aqui, a levar uma bacia na cabeça.", Ichigo disse, apoiando a cabeça nos dois braços, e se deitando no corredor.

A porta então se abriu, e a menina estava ali. Ela havia vestido o quimono limpo que Renji tinha deixado para ela. Era um quimono vermelho, do próprio Renji, já que não haviam mulheres na Mansão Byakuya, e ele não tinha tempo para ir comprar algum. O quimono tinha ficado enorme nela, mesmo sendo um quimono que ele usava quando era criança.

Ela resolveu o problema o amarrando bem apertado com as faixas que ele havia deixado. E, a menina não mais parecia uma mendiga. Estava limpa, com os cabelos lavados e penteados. A pele antes encardida, agora se revelava bem branquinha, e isso fazia os olhos azuis se destacarem mais ainda.

Olhando desse jeito, ela até que não era tão feia assim.

"Tá olhando o quê?", ela perguntou. A voz dela era mais grave do que o esperado para uma menina daquele tamanho, e continha uma certa arrogância.

"Como você pode ser tão rude, hein, menina-mendiga?", Ichigo disse, rindo dela. Rukia cerrou os dentes e lançou um olhar gélido ao rapaz.

"Prefiro ser mendiga a ser um macaco ignorante que nem você, cabeça-de-mexerica.", ela falou, respondendo a altura. Não literalmente "a altura", já que Ichigo era bem mais alto que ela. Os dois ficaram se encarando.

Ichigo não pôde deixar de se surpreender com a atitude da menina, novamente. Ele não esperava que uma coisinha daquelas o encarasse nos olhos como ela estava fazendo.

"Por que estão bloqueando o corredor desse jeito?", uma voz veio de trás de Renji. Rukia então quebrou o contato visual com Ichigo para olhar quem havia aparecido dessa vez.

"Zangetsu-san!", Renji disse, se virando para o homem vestido com um quimono preto, que estava parado no corredor, observando todos eles.

"Abarai-kun. Kurosaki-kun. Como foi a viagem?", o homem perguntou, cumprimentando-os com a cabeça.

"Foi tudo bem. Como o esperado, é claro.", Renji respondeu.

"Não andou aprontando nada enquanto estivemos fora, não é, seu velho sem-vergonha!", Ichigo disse, se aproximando do homem, e dando um soco leve no braço dele. Zangetsu sorriu.

"Vocês nunca saberão. Mas, me digam agora: quem é a pequena dama?", Zangetsu perguntou, olhando para Rukia. A garota não baixou os olhos para ele, o que fez o homem sorrir para ela. Ele gostou do fogo em seus olhos. Eram os mesmo que ele via nos olhos de Ichigo, seu pupilo.

Renji e Ichigo se olharam e depois para a garota.

"Eu sou..", Rukia ia se apresentar, quando uma voz a interrompeu.

"Você saberá quem é ela em breve, Zangetsu-san.", era Byakuya, surgindo atrás de Zangetsu. Ao lado dele, estava Mayuri.

Os três homens se curvaram diante da presença de Byakuya, mas Rukia permaneceu com a cabeça erguida, olhando Byakuya. Algo dentro dela gritava. Uma voz a alertava para não se aproximar daquele homem. Rukia não gostava dos olhos dele, e a presença dele a faziam sentir um arrepio desagradável na espinha. Mesmo assim, ela não baixou os olhos, nem a cabeça.

"Abarai, Kurosaki, venham comigo. E você também, Rukia.", Byakuya falou, e acrescentou um tom venenoso na voz ao dizer o nome dela. Zangetsu ficou ainda mais surpreso com a menina, ao ver que ela não tinha baixado a cabeça para o grande Capitão. E, ele ainda havia chamado-a pelo nome, sem repreendê-la por encará-lo.

Zangetsu ficou se perguntando, quem poderia ser aquela menina misteriosa...

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Eu não gosto dele.

Nem um pouco, pra falar a verdade.

É um homem bonito, mas os olhos...

Os olhos dele me incomodam muito.

Eles tem um brilho estranho..

Tem algo nele, que me deixa ansiosa.

E, desde que eu vim parar aqui, me pergunto:

"O que você pretende?"

Aproveitei para compartilhar minha dúvida com ele.

O capitão olhou pra mim, só com o canto dos olhos.

Eu estava caminhando ao lado dele, pelo corredor.

Atrás de nós dois, estavam o ruivão e o laranjão.

E, ainda tinha o outro cara, que eu não sabia o nome.

Só o que eu sabia, é que ele era estranho demais!

Só de olhar pra ele, senti o corpo gelar...

Dava pra ver a maldade nos olhos dele...

Aqueles olhos amarelos, estranhos...

Da onde será que aquele cara saiu?

Minha aposta: do Inferno!

Ele parecia um demônio.

"Você precisa aprender a ser mais paciente.", foi a resposta dele.

Eu amarrei a cara.

Essa era a frase de início dos sermões da minha mãe.

Eu definitivamente não gosto desse cara.

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Narrativa Onipresente

Eles pararam em frente a uma porta de bambu, coberta de papel de arroz branco. Mayuri se apressou, e abriu a porta de correr para Byakuya entrar, e Rukia estremeceu diante do olhar do feiticeiro.

O chão era de estacas de madeira, e havia uma mesa baixa e comprida ao centro, com almofadas azuis ao redor da mesma. Na ponta, a almofada era maior, e branca. Aquele era o lugar de Byakuya. Renji se sentou ao seu lado direito, e Ichigo ao lado esquerdo. Mayuri se sentou ao lado de Renji e Byakuya fez um movimento, indicando a Rukia que ela se sentasse na outra ponta.

A garota assim fez, sem tirar os olhos do capitão.

"Abarai e Kurosaki, ouçam com atenção: Vocês sabem que o Capitão Kuchiki é o único herdeiro vivo do clã Kuchiki, certo?", era Mayuri quem falava. Byakuya mantinha os olhos em Rukia, mas a menina não mais o encarava. Ela agora prestava atenção em Mayuri.

Ichigo e Renji balançaram a cabeça, confirmando as palavras do feiticeiro. Ichigo tinha uma expressão e uma postura relaxada, como se ouvir aquilo tudo fosse muito chato. E Renji prestava atenção as palavras do homem, mas observava Byakuya também.

"Pois bem: vocês sabem para quem irão os bens da família Kuchiki, quando nosso capitão se for?", Mayuri perguntou. Renji e Ichigo se entreolharam.

"Eu não tenho herdeiros. E não pretendo me casar, para deixar meus bens com a família de alguma mulher interesseira. Por isso, a melhor opção é deixar meus bens com algum parente, algum Kuchiki.", Byakuya se pronunciou. Todos olhavam para ele agora. Rukia estava ficando apreensiva.

"Mas como o senhor fará isso, se todos os seus parentes pereceram, Capitão?", Renji perguntou.

"É aí que ela entra.", Mayuri disse, lançando um olhar longo para Rukia. A menina estreitou os olhos. Renji e Ichigo se entreolhavam, confusos.

"Eu não entendo onde você quer chegar com toda essa ladainha. Vocês falaram e falaram, e não disseram nada.", Rukia se pronunciou.

Byakuya olhou para ela, um sorriso misterioso nos lábios. Mayuri ficou atordoado ao ouvir a menina falando assim com o poderoso Kuchiki.

"Meça as palavras, menina. Não sabe que precisa mostrar respeito diante do..", Mayuri ia dizer "Capitão Kuchiki Byakuya", mas ele foi interrompido.

"Seu irmão mais velho.", Byakuya completou a frase. Rukia arregalou os olhos azuis, e Ichigo e Renji engasgaram, as expressões de choque em suas faces. Mayuri fez uma careta, e estreitou os olhos, lançando um olhar venenoso a menina.

Pela primeira vez, Rukia não tinha palavras para expressar o quão atordoada ela havia ficado. No entanto, sua mente voava a mil.

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Eu sabia.

Eu S-A-B-I-A!

O jeito que esse maldito capitão me olhava...

Ele estava planejando alguma coisa.

Eu sabia!

Ele e esse demônio negro!

Agora sim, eu entendo porquê ele me poupou.

Quer dizer então que ele não tem mais família?

Somos iguais nisso.

Mas, querer me colocar como irmã...

Qual o sentido disso?

Ele acha que eu posso cuidar dos bens dele depois que ele morrer?

Ele acha que eu vou cuidar de alguma coisa?

Eu nem sou dessa família!

Tá certo que, em termos de aparência, até dá pra enganar...

Mas, esse plano não faz sentido algum!

Eu pensei que ele fosse querer se casar comigo...

Isso faria mais sentido, do que me adotar como irmã mais nova.

Eu realmente não entendi nada!

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"Mas... mas Capitão... eu não consigo entender o seu plano.", Renji foi o primeiro a sair do choque.

"Mayuri explicará para vocês. Eu tenho assuntos para resolver agora.", Byakuya disse, se levantando. Rukia já tinha se recuperado do choque, e agora concentrou suas atenções para ouvir a explicação de Mayuri.

"Sim, Capitão.", Mayuri disse.

"Você, venha comigo.", Byakuya disse, parado ao lado de Rukia. A garota o olhou, e relutantemente se levantou, seguindo-o para fora da sala.

Renji e Ichigo ficaram observando os dois saírem da sala, e quando a porta se fechou, olharam para Mayuri. O feiticeiro tinha uma longa explicação pela frente.

"Bem, bem... que tal um chá, antes dessa conversa?", Mayuri perguntou, e serviu uma xícara de chá para os dois. O líquido tinha uma cor verde bastante intenso, mas o aroma era agradável, e logo ambos estavam sentindo o líquido descendo pelas gargantas. Enquanto bebiam, não puderam notar o sorriso perverso nos lábios do feiticeiro Kurotsuti Mayuri.

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"Eu odeio me repetir, sabe? Mas, esse caso pede que eu repita: O que você pretende?", eu perguntei.

Eu queria ter ficado naquela sala, e escutado a explicação.

Acho que eu mereço pelo menos isso.

Ser tirada da minha casa, e da minha família...

Ter que aguentar aqueles dois tapados...

E não obter uma resposta do porquê eu estar nessa casa...

Fingindo ser irmã desse cara!

"Paciência realmente não é uma das suas virtudes, não é mesmo.. Rukia!", ele disse.

Eu cerrei os dentes, me segurando pra não pular no pescoço dele.

O jeito como ele dizia o meu nome...

Eu pudia sentir o repúdio na voz dele...

"Não, não é.", eu disse, simplesmente.

"Esse é um defeito irritante.", ele falou, sem nem olhar pra mim.

"Ser evasivo e estar sempre na defensiva também é, sabia?", eu retruquei.

Ele acha o quê?

Que pode me irritar, me ofender, e que eu não vou responder?

Até parece!

Ele olhou pra mim.

Aqueles olhos frios, insensíveis, estavam mirados no meu rosto.

Eu encarei de volta, nem pisquei.

"Você sabe que o responsável pela morte da sua família sou eu, certo?", ele perguntou.

Bastardo maldito!

Desviando do assunto na maior cara de pau...

"Sei.", eu disse.

"Então por quê você está aqui? Por que não tentou fugir? Ou se vingar?", ele perguntou.

"É isso que você quer?", eu perguntei.

Aquele cara não me conhecia mesmo.

"Seria ruim para os meus planos, se você sumisse, ou morresse. Mas não gosto de ficar curioso sobre um assunto por muito tempo. Responda a minha pergunta: por que ainda não tentou me matar?", ele perguntou.

Como se eu pudesse matar ele...

E, ele sabia que eu não poderia matá-lo, mesmo se eu tentasse.

Quer dizer que ele estava tentando me entender?

Pra quê?

Mas, é feio responder uma pergunta com outra pergunta, então...

"Eu não odeio você, se é isso que quer saber. Você só causou a morte física da minha família. E isso não é ruim.", eu expliquei.

Nós estávamos em um jardim, e havia uma fonte no centro.

Eu fui para perto dela, e mergulhei minha mão na água gelada.

Que sensação gostosa!

Eu sabia que ele estava olhando para mim.

E provavelmente, estava com a sobrancelha arqueada.

Eu me virei para olhar para ele.

E, bingo!

Lá estava ele, com aquela expressão de "Não entendo."

Eu revirei os olhos.

Ele quer a versão completa, então...

Eu respirei fundo.

"Minha família vinha morrendo já há algum tempo. Meus pais não eram mais os mesmos. Eles não se amavam mais, nem falavam um com o outro. E, como conseqüência disso, eles não falavam comigo, ou com as minhas irmãs. Minha mãe virou um fantasma. Ela vagava pela casa, sem falar nada, sempre chorando, remoendo brigas... para mim, ela já estava morta. E, meu pai quase nunca estava em casa. Era como se ele tivesse morrido também. E, minhas irmãs... a gente não tinha o que comer, então elas todas estavam morrendo aos poucos, de inanição. Viviam com febre, delirando, tentando comer pedras ou os botões das roupas... minha família já era um espectro do que um dia foi. As almas deles, suas consciências já estavam em outro lugar. Eram apenas bonecos de carne, sem emoção, sem vida. O que faltava, era deitarem em sepulturas e serem enterrados."

Eu não sei bem porque estava explicando aquilo para ele.

Acho que é a idéia dele se tornar meu irmão mais velho.

Eu fui ensinada a não mentir para os mais velhos.

"E quanto a você?", eu ouvi ele me perguntar.

Por um milésimo de segundo eu hesitei.

Quanto a mim...?

"Eu morri bem antes de todos eles. A minha vida terminou no dia em que eu nasci. Eu sempre fui um peso-morto naquela casa.", eu disse.

Era a pura verdade!

Confesso que aquilo me incomodou por algum tempo..

Eu tentei fazer parte da família...

Mas não dava certo.

Nunca deu certo.

Nunca daria certo.

"Entendo...", ele falou.

Eu olhei para ele.

Eu nem tinha reparado que tinha me virado para a fonte novamente, no meio da conversa.

Os olhos dele estavam diferentes.

Não, ele não estava emocionado.

Mas havia algo novo...

Havia reconhecimento nos olhos dele.

Eu não era tão intrometida quanto ele nos assuntos pessoais alheios...

Por isso, não perguntei como havia sido a vida dele com a família Kuchiki.

Mas, pelo que eu pude ver nos olhos dele, naquele momento...

Eu soube, que a vida dele, não havia sido tão diferente assim da minha.

Claro, aposto que a família dele não estava morrendo de fome...

E nem foi assassinada por ele...

Hmm.. pra falar a verdade...

Eu não duvido que ele tenha cortado a cabeça do próprio pai fora.

Ele ainda tinha aquele brilho de crueldade nos olhos, que não sumia nunca...

Nunca se sabe o que um homem ambicioso pode fazer.

"Agora que eu te contei o que queria saber, você vai me contar o que eu quero saber?", eu perguntei.

Oh! Ele sorriu!

Eu nem sabia que ele conseguia fazer isso!

"É claro...", ele disse, e se virou.

Até que enfim!

".. que não!", ele completou.

Eu fechei a cara.

Bastardo maldito...

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Narrativa Onipresente

Byakuya conduziu Rukia para um quarto, na ala norte da Mansão. O quarto dela era grande, muito maior do que ela esperava. O chão era coberto de tatames azuis, tinha armários de madeira na parede, à esquerda. Fora isso, havia apenas um criado-mudo com uma lamparina em cima. E, uma grande porta, bem de frente da porta de entrada. Depois que Byakuya se foi, dizendo para ela se vestir adequadamente para o jantar, Rukia foi olhar o que havia atrás daquela porta.

Uma vista de tirar o fôlego.

Aquela era a porta da varanda. Assim como todas as portas da Mansão, aquela era de madeira, revestida de papel de arroz.

Rukia ficou impressionada. A noite estava agradável, e uma brisa fresca soprava, fazendo várias folhas voarem suavemente. Lá embaixo (o quarto ficava no último andar superior da Mansão), ela pôde ver a copa das árvores, tanto as que estavam dentro dos portões da Mansão, quanto as que seguiam sem fim, indo acabar bem ao longe, quase ao pé das montanhas.

Ainda havia o lago, que mais a frente se juntava com o rio, que vinha das Montanhas. Ela pensou em procurá-lo no dia seguinte, para ver se haviam peixes ali. Ela não gostava de comer peixes, mas adorava vê-los. Carpas coloridas eram seus prediletos.

Rukia então decidiu olhar para cima, e suspirou ao ver a Lua, grande e redonda, brilhante e majestosa. Noite de Lua cheia. E, o céu estava limpo, sem nuvens. As estrelas brilhavam, mas só podiam ser vistas aquelas mais distantes da Lua, pois o astro ofuscava tudo ao seu redor. Rukia apoiou os cotovelos na grade de madeira, maravilhada com aquela visão.

Ela amava a noite. Incontáveis vezes, ela fugiu para o bosque no meio da madrugada, pelo simples prazer de estar longe de casa. Fingia que vivia lá, em meio aos animais. Fingia que era uma criatura selvagem. Um animal feroz.

Como ela odiava viver naquela casa.

Mas, houve aquela manhã, quando ela retornou do bosque... e encontrou destroços. E sangue. E cadáveres.

A casa havia sido queimada.

A mãe havia sido morta na cozinha mesmo. As roupas estavam rasgadas, a pele machucada. Havia sangue em sua saia e nas coxas. Mas, a maior parte do sangue havia saído de um enorme corte em sua garganta.

Perto dela, estava o corpo do pai. Um dos braços estava embaixo da mesa, e o outro perto do corpo. Ele também tinha a face machucada, e um corte profundo em seu abdômen, de onde suas vísceras escorregaram, e agora estava expostas no chão de terra batida da cozinha.

Ali, no quarto, estavam as três irmãs de Rukia. A mais velha, Sayuri, estava na cama. As pernas abertas, sangue nas coxas também. Os cabelos negros e compridos estavam espalhados, cobrindo o rosto e uma parte das costas. Estava despida, de bruço. Havia uma poça de sangue na cabeça, provavelmente o pescoço estava cortado.

A terceira irmã, Naomi, estava no canto do quarto, junto da caçula, Aya. Ambas estavam machucadas, sangue nas pernas também, e no pescoço. Ainda era possível notar as marcas de lágrimas na face de ambas as meninas.

Rukia agachou perto delas, e limpou o sangue que havia no nariz e lábios de Naomi. Acaricou ternamente a face de Aya, afastando os fios de cabelo. Fechou os olhos, suspirando.

Por fim, encontrou o avô, em seu quarto. O velho homem já estava no fim de sua vida, agonizando de uma doença degenerativa. Mas, não havia sido a doença a levá-lo deste mundo: e sim, um corte violento em seu pescoço, que havia separado a cabeça do restante do cadáver.

Rukia vagou pela casa aquela noite. De cadáver em cadáver, ela ia caminhando pelos cômodos da casa. Não havia mais teto, nem paredes inteiras. Tudo havia sido queimado. Provavelmente, a família assistiu a casa sendo queimada, e depois que entraram para tentar salvar o que restou, forma brutalmente mortos.

Sim, pois naquele dia, a família havia saído de manhã, para ir ao templo rezar. Rukia não havia ido junto, pois quando saíram, ela ainda não tinha retornado do bosque. A garota chegou na casa vazia, dormiu, e saiu novamente antes que ele voltassem.

A casa foi queimada depois que ela saiu, e antes da família chegar.

Péssima hora para errar o timing. Se tivessem chegado antes, talvez tivessem morrido queimados. Melhor do que ser espancado, estuprado e enfim morto. E, se Rukia não tivesse fugido, estaria morta com sua família, não tendo que passar uma semana morrendo de fome, e enfim vir para a Mansão Kuchiki.

Rukia suspirou. Ela balançou a cabeça, afastando as memórias daqueles dias.

"Tudo culpa daquele capitão, por puxar o assunto...", ela disse, e entrou no quarto.

Conversar com Kuchiki Byakuya se provava ser cada vez mais algo ruim.

Continua...

Esse episódio foi mais suave. Droga!

Não consigo desviar do romantismo banal. Está impregnado em minha narrativa...

Tentarei ser mais insensível, eu prometo.

Reviews ou flames, mandem!

Obs: Sayuri, Naomi e Aya são os nomes das minhas três irmãs.