CINCO ANOS ANTES

No fim de uma semana infernal, a poucas semanas do Natal, tudo o que Greg Lestrade queria era uma cerveja, um banho e uma noite sossegada em casa, com a esposa. Mas por causa daquele garoto maluco, ele não conseguiria nenhuma das coisas pelas quais ansiava.

Era uma cena revoltante; a vítima, não mais que um adolescente, fora brutalmente morta a pancadas. Greg estava examinando as evidências encontradas quando ouviu uma gritaria, e um de seus oficiais veio arrastando um rapaz pelo braço. O policial deu uma olhada: alto, magro, vestindo roupas imundas, os cabelos em completa desordem e, pelo estado das pupilas, mais alto que uma maldita pipa. Ele conseguira arrancar do garoto um endereço, em meio às divagações dele acerca de muletas, barro vermelho e a incapacidade dos legistas em reconhecer uma evidência, mesmo que ela dançasse nua diante do nariz deles.

Greg arrastara o garoto até um flat minúsculo e em petição de miséria em Montague Street. Obrigara o garoto a tomar um banho e deitar-se no sofá encaroçado da sala de estar, e sentara-se na poltrona para a longa vigília que certamente se seguiria. Ele ligou para a esposa, e não se surpreendeu quando ela começou a gritar com ele e desligou o telefone em sua cara. Seu casamento, mesmo tão no início, era feito de altos e baixos, e os baixos predominavam. Eve dizia compreender a natureza de seu trabalho, mas cada vez que o dever cobrava noites em claro, jantares perdidos e finais de semana de plantão, ela estourava, e Greg acabava acampado no sofá da sala ou, mais comumente, em seu escritório na Yard.

Depois de um par de horas, o rapaz acordou, com as pálpebras pesadas e avermelhadas, mas o brilho nas íris mutantes era surpreendentemente alerta.

- Por que você está aqui? – ele perguntou, a voz profunda repleta de hostilidade e desconfiança.

- Você se lembra do que aconteceu?

- Obviamente. – ele respondeu, a voz repleta de desdém dando nos nervos de Greg.

- Me desculpe se eu tiver algumas dúvidas em relação a isso, já que você estava completamente chapado quando apareceu na minha cena do crime, falando como uma maldita testemunha ocular, ou pior, como o próprio maldito assassino! – as últimas palavras foram gritadas, e o garoto sentou-se o mais afastado possível, os olhos muito abertos. Greg respirou fundo e esfregou os olhos, sentindo um cansaço imensurável toma-lo. – Olha, me desculpe, garoto. Eu tive um dia complicado, minha esposa não está nem um pouco feliz comigo, meu chefe vai ficar uma arara quando descobrir que eu trouxe você pra casa ao invés de leva-lo para a Yard... e eu não faço ideia do porquê estou falando essas coisas para você. – ele atestou, em voz baixa – Do princípio, então: qual seu nome? – o garoto hesitou, mas sua postura relaxou levemente.

- Sherlock. Sherlock Holmes.

- Muito bem, Sherlock. Eu sou o Detetive Sargento Greg Lestrade. – ele estendeu a mão e agitou os dedos diante da hesitação do outro, até que ele finalmente apertou-a; um aperto breve, mas firme. – Agora, eu quero saber se você testemunhou o crime.

- Não. – ele afirmou, com escárnio. – Isso teria sido impossível. – Greg encarou-o com a sobrancelha erguida em questionamento, e Sherlock bufou, contrariado. – Eu dormi no banco de praça diante daquele beco a noite toda! – Greg continuou encarando-o em silêncio, e o garoto grunhiu, frustrado. – Não é óbvio? Ele não foi morto ali!

- Desculpe, mas eu mal tive tempo de olhar a cena do crime; não é nada óbvio para mim.

- Porque você é um idiota. – Sherlock declarou, em tom monocórdio. Vendo o olhar positivamente assassino do policial, ele emendou – Não me olhe assim, praticamente todo mundo é idiota! As pessoas veem, mas não observam. – Greg respirou fundo e contou mentalmente até dez antes de continuar.

- E o que foi que você observou?

- Marcas de pneu. – Sherlock falou – Um veículo de grande porte, possivelmente uma van, mas poderia ser uma caminhonete. O ângulo em que o corpo foi encontrado sugere claramente que ele foi jogado com o veículo em movimento, no máximo dez quilômetros por hora, talvez menos. Os sapatos apresentavam barro vermelho, do tipo comumente encontrado em locais de construção próximos ao rio, e não havia pegadas com esse tipo de barro em torno do corpo, nem mesmo rastros que indicassem algum tipo de luta, corroborando a teoria de que ele foi carregado até ali post mortem. – o garoto recostara-se novamente no sofá, as mãos unidas como em prece diante do rosto, os olhos fixos no teto. – A perna esquerda era cerca de duas polegadas mais curta do que a direita, portanto, ele era manco; no entanto, onde estava a muleta ou a bengala? Provavelmente no carro, depois de terem-na usado para mata-lo. Eu não consegui ver com clareza os ferimentos, então não tenho como lhe dizer exatamente as características do objeto, mas se eu tivesse acesso ao cadáver...

- Fora de cogitação. – Greg cortou-o. Sherlock fixou-lhe um olhar venenoso – E quando você teve tempo de observar tudo isso? Um dos rapazes disse que você estava adormecido quando as viaturas chegaram. Apesar de que – Greg continuou, em tom de repreensão – acho que desmaiado seria um termo mais apropriado. – a expressão de Sherlock não se alterou.

- Eu tive uns dois minutos antes daquela oficial com os cabelos desgrenhados me apanhar. – ele declarou, com ar de desgosto. – Mais uns três minutos junto do corpo e eu, talvez, soubesse mais.

- Como eu disse, fora de cogitação. – Greg levantou-se e olhou Sherlock de cima. – Eu tenho que ir verificar os resultados da perícia e continuar com a investigação. Mas eu vou levar em conta o que você falou. – a expressão de Sherlock fechou-se, e ele afundou mais no sofá.

- É, que seja. – ele respondeu, mal humorado. Greg acenou e deixou o flat miserável com uma ponta de remorso. Havia algo de frágil por trás da fachada fria e distante, e um brilho absurdo de inteligência naqueles olhos cambiantes que não era enevoado nem mesmo pelas drogas. Uma pena que o garoto fosse escravo daquelas porcarias. Era uma boa mente que se perdia.

O.o.O.o.O

Greg não pôde impedir a onda de admiração que sentiu quando, horas depois, a perícia entregou-lhe um relatório que corroborava a teoria de Sherlock fato por fato. Ele sentou-se em sua sala por um longo tempo, analisando as evidências e os relatórios, e pensando no jovem viciado que aparentemente descobrira, em apenas um relancear dos olhos, o que seu time levara horas para desvendar. Embora seu primeiro instinto sempre fosse o de desconfiar, uma sensação mais profunda lhe dizia que, ali, não havia nada além de uma inteligência quase sobrenatural.

De posse do arquivo do caso, Greg dirigiu-se ao escritório de seu superior. O Detetive Inspetor Morgan era um tipo corpulento e paternal, mas havia um brilho arguto nos olhos verdes e uma sugestão de aço na voz grossa que demonstravam porque ele era o favorito na lista para próximo DCI. Ele estava ao telefone quando Greg bateu em sua porta, e sinalizou para que o sargento entrasse.

- Está bem, meu anjinho. Agora, o vovô precisa ir. Aproveite a sua festa, vejo você à noite. – ele desligou o telefone com um sorriso e encarou Greg. – Lestrade, como estão as investigações?

- Avançando aos poucos, senhor. A propósito... eu acho que saí um pouco do regulamento hoje, e gostaria de conversar sobre isso com o senhor. – Morgan ergueu as sobrancelhas e fez sinal para que o outro prosseguisse.

Greg então contou-lhe toda a história, desde o momento em que Sally Donovan pegara Sherlock esgueirando-se pela cena do crime até as deduções do garoto, que a perícia provara corretas. Ele falou suas próprias conclusões e sentimentos sobre o caso, e aguardou em silêncio enquanto DI Morgan pensava em tudo o que ouvira.

- Sabe de uma coisa? – Morgan finalmente falou – Esse garoto me lembra de um rapaz que eu conheci há alguns anos, quando trabalhei em um caso com o MI6. Um oficial do governo, era bastante jovem na época, mas deve regular de idade com você, Lestrade. Ele era capaz de descobrir a sua vida inteira em apenas um olhar. Um homem brilhante; infelizmente, ele usava um codinome na época. Nunca soube seu verdadeiro nome. Esse Sherlock parece ter o mesmo tipo de habilidade. Uma pena o problema com as drogas. Nós poderíamos usar um cérebro como esse por aqui; Deus sabe que estamos com uma falta apavorante de cabeças pensantes na Yard.

- Obrigado pela parte que me toca, chefe. – Greg respondeu, sarcástico. Morgan fez um gesto grosseiro e riu.

- Você é um dos poucos por aqui com um cérebro digno do nome, Lestrade. – Morgan mexeu em alguns papéis, enquanto olhava Greg por baixo das sobrancelhas grossas. – Você está pensando em falar com o garoto sobre este caso, não? – Greg olhou para baixo, coçando a nuca em desconforto.

- Como o senhor disse, chefe, nós realmente estamos precisando de ajuda. O senhor sabe que eu... já lidei com jovens em situações parecidas. – ele falou, com um tom de sofrimento na voz que não escapou à Morgan. – Eu posso ajudá-lo, chefe. E, em troca, talvez ele possa nos ajudar. – Morgan observou Lestrade por um momento, lembrando uma história contada a ele por um jovem recruta da academia, de cabelos castanhos e um olhar cheio de dor.

- Você está fazendo isso em memória de James, não é? – um flash de dor acendeu os olhos castanhos do sargento, e ele assentiu.

- Ele era meu melhor amigo, e uma mente sem rival na Academia. Se eu tivesse visto os sinais a tempo... – Morgan ergueu a mão, interrompendo-o.

- Já é hora de parar de se culpar, Lestrade. James era responsável por si mesmo. – Greg remexeu-se na cadeira, desconfortável. Morgan ergueu-se, deu a volta na mesa e apoiou uma mão tranquilizadora no ombro do sargento. – Depois de um certo tempo neste trabalho, todos nós acabamos sofrendo perdas parecidas, rapaz. – Lestrade sorriu ao ouvir o tratamento dispensado pelo chefe; já passado dos 40 anos e com o cabelo completamente grisalho, era a única ocasião em que era chamado de "rapaz". - O importante é saber quando é hora de largar a culpa e seguir em frente. - Greg respirou fundo e assentiu. - Então, se você por acaso levar uma cópia do relatório da perícia para casa, para trabalhar um pouco, bem… não é nada que fuja do procedimento, não é? - Greg ergueu-se, voltando-se para o DI antes de deixar a sala.

- E, talvez… - ele falou, hesitando - Talvez eu pudesse levar para casa alguns casos antigos e já resolvidos, para ver se… seu eu encontro algum novo ângulo? - o sargento riu com a piscadela cúmplice que que recebeu de seu chefe, e começou a fazer um inventário mental do que poderia levar até o flat esquálido em Montague Street para testar até onde ia a capacidade daquele garoto.

O.o.O.o.O

- Você, de novo. - Sherlock grunhiu, ao abrir a porta e dar de cara com Greg.

- Ora, estou muito bem, obrigado. Não, não me meti em encrencas por passar por cima do procedimento, obrigado por perguntar. - o policial passou por ele e sentou-se na poltrona encaroçada, batucando com os arquivos na perna. Sherlock bufou e jogou-se no sofá, enrolando-se no roupão gasto e puído que vestia por cima da roupa.

- O que você quer? - Greg estendeu uma pasta para ele.

- Você estava certo, ponto por ponto. Agora, gostaria de que você desse uma olhada no relatório da perícia e nas fotos, pra ver se encontra alguma coisa que nossos rapazes possam ter perdido. - os estranhos olhos claros se acenderam, e ele arrancou a pasta da mão de Greg, passando os olhos pelo relátório enquanto murmurava sob a respiração, e demorando-se mais nas fotos do corpo. Greg largou outra pasta no colo do garoto, que ergueu os olhos - Nós conseguimos indentificá-lo, através das impressões digitais. Parece que o garoto teve sua dose de problemas com a lei, apesar da pouca idade. - Sherlock folheou o arquivo relativamente volumoso que Greg largara em seu colo.

- Parece que vocês estão no rumo certo. Por que você precisaria da minha ajuda? - Greg respirou fundo e passou a mão nos cabelos em um gesto cansado.

- Você pode ver que nós temos até demais com o que trabalhar. O garoto esteve metido com todos os tipos do submundo de Londres. Talvez você possa nos ajudar a reduzir um pouco o campo de investigações. - Sherlock continuou encarando-o, a sobrancelha erguida. - Olha, você parece um garoto inteligente. Diabos, você provavelmente é um maldito gênio! E eu odeio ver uma boa mente, que pode ser usada de maneira adequada, apodrecer por causa desses malditos venenos.

- Oh… - Sherlock murmurou, seu olhar endurecendo rapidamente. - Eu não sou um caso de caridade, Sargento. Se você não conseguiu salvar seu amigo, problema seu. Eu não preciso de ajuda. Eu não preciso de ninguém. - Greg fechou os olhos e contou até 20, controlando a vontade de esmurrar aquele bastardo magrelo.

- Eu não vou perguntar como você sabe sobre o meu amigo. Mas não é questão de caridade, Sherlock. A questão é que há muito trabalho a ser feito na Yard, e não há cabeças suficientes. - Ele encarou Sherlock, a cabeça inclinada em questionamento. - E por que alguém tão inteligente como você usaria drogas?

- Nunca perguntou ao seu colega? - foi a resposta mordaz. Ao ver que Greg continuava encarando-o, ignorando a provocação, Sherlock respirou fundo e jogou-se contra o sofá - Elas… clareiam as coisas. Na minha mente, eu quero dizer. Elas desaceleram o ritmo dos meus pensamentos, e me ajudam a...- a voz caiu até não ser mais que um murmúrio - sentir. - Greg ficou em silêncio, sem saber o que responder. Parece que a coisa era muito mais complicada do que ele a princípio imaginara. Ele decidiu recuar por enquanto. Levantou-se e deixou os outros arquivos sobre a mesinha de centro bamba.

- Bom, se você mudar de ideia e quiser me dar uma mão em alguns dos meus casos, meu telefone está numa das pastas. Se você ficasse sóbrio, eu até poderia deixá-lo ter acesso às cenas de crime… - isso pareceu captar o interesse do garoto, que logo escondeu a excitação sob um olhar aborrecido. - Quem sabe, você até pode descobrir que tem talento pra isso, e resolver entrar pra Força. Detetive Sargento Holmes, que tal isso soa? - Greg acenou e saiu do apartamento, perdendo o momento em que os lábios de Sherlock curvaram-se em um sorriso ao formarem a palavra detetive.

Antes mesmo de chegar em casa, ele recebeu uma mensagem de um número que não conhecia.

Vá atrás dos Red Hunters. - SH

O policial salvou o número em seus contatos e sorriu de leve.

O.o.O.o.O

CINCO SEMANAS DEPOIS

Greg não sabia, às vezes, se preferia abraçar Sherlock ou enforcá-lo.

Depois que lhe mandara aquela mensagem, o garoto aparecera na Yard, um pouco mais arrumado do que antes, e visivelmente sóbrio. Visivelmente porque o pobre coitado tremia e coçava a parte interna dos cotovelos desesperadamente. Em poucas palavras, ele explicou para Greg que estava há dois dias sem injetar-se, e que queria ajuda para continuar assim. O policial sentiu um misto de alívio e orgulho, e concordou em passar alguns dias no flat esquálido de Sherlock, ajudando-o a ficar limpo.

Eve, obviamente, não ficou nem um pouco feliz. E ficou menos ainda quando, depois de uma semana infernal, com Sherlock gritando, jogando coisas nele, deduzindo cada pormenor doloroso sobre seu passado e usando isso para feri-lo, vomitando e chorando, ele levou o garoto recentemente desintoxicado para sua casa, para dormir em seu sofá. E naquelas seis semanas, Sherlock transformara aquilo em hábito. Era frequente ele chegar da Yard altas horas da noite e encontrar a figura magra e pálida do rapaz sentada na escadaria diante de sua casa, parecendo um cachorrinho perdido. Ele deixava Sherlock entrar, forçava-lhe uma refeição garganta abaixo e o colocava para dormir no sofá. Na maior parte das vezes, quando Greg acordava pela manhã, ele já havia desaparecido. Mas continuava mantendo sua sobriedade.

Greg fazia visitas randômicas ao flat da Montague Street, e Sherlock gritava com ele enquanto ele revistava o espaço exíguo em busca de drogas. Naquela tarde, ele fez uma revista mais demorada. O Natal se aproximava, e ele sabia por experiência, que era uma das épocas mais difíceis para pessoas sozinhas - especialmente para viciados. Não tendo encontrado nada, ele deixou dois novos casos para Sherlock examinar e prometeu voltar no dia seguinte para saber o que o garoto deduzira. Greg saiu do prédio escuro e embolorado para a luz fraca do sol de dezembro, e assustou-se quando seu celular tocou, despertando-o de seus pensamentos. Era um número restrito, e ele franziu a testa antes de atender.

- Lestrade.

- Bom dia, Detetive Sargento. - uma voz masculina, elegante e muito educada. Que diabos...? - Por favor, faça a gentileza de entrar no carro.

- Como assim, entrar… - antes que ele pudesse terminar a frase, um elegante carro preto, com janelas fumê, encostou junto ao meio-fio, e a porta de trás se abriu. - Que merda é essa?

- Agora, sem necessidade de usar uma linguagem tão vulgar, senhor Lestrade. Por favor, entre no carro.

- Não sem saber com quem eu estou falando, ou pra onde diabos esse carro vai me levar! - a voz elegante do outro lado da linha suspirou, como se Greg estivesse sendo muito pouco razoável.

- Eu garanto, Detetive Sargento, que não há nenhum perigo para o senhor. Assim que chegar ao local seguro para o nosso encontro, o senhor saberá quais são minhas intenções. E não se preocupe em avisar o Detetive Inspetor Morgan; ele saberá no tempo adequado. - Greg praguejou e desligou o telefone com raiva. Ah, que se dane; ele não tinha nada melhor para fazer, mesmo, e não estava com vontade de ir para casa e enfrentar os gritos de Eve. Era preferível brincar de espião com a voz misteriosa.

O.o.O.o.O

Era um armazém escuro, no que parecia ser uma região afastada do centro da cidade. Greg desceu do carro e olhou em volta, vendo que o lugar estava praticamente vazio. Alguns metros adiante, uma única cadeira estava sob um foco de luz, e uma figura alta estava parada nas sombras mais adiante, parecendo estar apoiada em uma bengala. Ele estreitou os olhos e endireitou a coluna, andando em linha reta até a cadeira.

- Bem, senhor Voz Misteriosa, aqui estou eu. Agora, pode fazer o favor de dizer que diabos eu estou fazendo aqui, num armazém escuro em Deus sabe que subúrbio de Londres? - ele parou e cruzou os braços, esperando que a figura nas sombras se aproximasse.

- Qual é sua ligação com Sherlock Holmes? - era a mesma voz elegante e polida que falara com ele no telefone. Profunda e com um toque de sofisticação.

- E o que diabos você tem a ver com isso? - a figura moveu-se, caminhando com passos largos até estar a apenas três metros dele, no limite do foco de luz. Greg sentiu seu coração falhar uma batida ao encarar o homem parado ali. Ele era alto e esguio, vestido em um elegante terno grafite de três peças, segurando em sua mão um grande guarda-chuva preto com cabo de madeira polida. A postura impecável irradiava autoridade, como se aquele fosse um homem acostumado a ter as coisas sempre à sua maneira. Os cabelos estavam cuidadosamente penteados para trás, emoldurando o rosto longo onde brilhava um par de olhos azuis e frios. Os lábios finos estavam torcidos em um sorriso desdenhoso, enquanto ele olhava o policial de cima a baixo.

- Eu me preocupo com ele… constantemente. - ele falou, antes de puxar uma pequena caderneta do bolso interno do paletó. - Detetive Sargento Gregory Johnathan Lestrade. - ele começou a ler. - Natural de Dorset, 42 anos, membro da Força desde os 24 anos. Pai de duas filhas, Nadine Marie e Natalie Anne, de seu primeiro casamento com Julia Anne Lestrade, nèe Doyle, falecida no parto de sua filha mais nova. Casado com Eve Michelle Lestrade, nèe Ridgeway, há pouco mais de um ano. - Greg sentia uma bolha de irritação crescer em seu estômago, mesclada com medo. Quem era esse maldito almofadinha que parecia ter acesso a toda história de sua vida? O que poderia querer com ele? E, mais importante, o que diabos isso tinha a ver com o garoto Holmes? - Carreira exemplar, considerado pelos seus superiores um dos favoritos a assumir o lugar do Detetive Inspetor Morgan quando ele for promovido a Detetive Chefe Inspetor. - ele fechou a caderneta e ergueu os olhos, encarando Greg com um olhar curioso - Eu pergunto, novamente: qual sua ligação com Sherlock Holmes?

- E eu pergunto de novo o que diabos você tem a ver com isso. - Greg colocou as mãos na cintura, a irritação levando a melhor sobre o medo. O homem suspirou e olhou-o com a cabeça inclinada.

- Sherlock é meu irmão mais novo, Detetive Sargento. - Greg não conseguiu esconder sua surpresa. Então aquele garoto esquálido, viciado, vivendo naquele muquifo horroroso tinha um irmão mais velho que, aparentemente, tinha alguma posição de poder e, pelas roupas, dinheiro de sobra. Sua irritação cresceu ainda mais. - Antes de qualquer coisa, meu irmão vive do jeito que vive por escolha própria. Ele prefere que eu me mantenha afastado, sem qualquer tipo de contato com ele, o que eu acato até certo ponto. Mas eu mantenho vigilância constante sobre as idas e vindas do meu irmão, e sobre as pessoas que cruzam o seu caminho.

- Como os traficantes de quem ele compra a porcaria que usa? - Greg retrucou, mordaz, e sentiu um prazer maldoso ao ver o homem encolher-se quase imperceptivelmente. Deus, ele sentia uma vontade irresistível de socar aquela cara arrogante. Greg nunca suportou esses tipos riquinhos que achavam que o mundo deveria se dobrar à sua vontade a cada estalar de seus dedos.

- Como eu disse, meu irmão prefere que eu não me meta na vida dele. - ele apertou a ponte do nariz e olhou para Greg com um ar intrigado. - Mas eu confesso estar curioso para saber como o senhor conseguiu em seis semanas o que eu não consegui em quase uma década. - Greg deu de ombros.

- Ele parece gostar de… resolver problemas. Gosta da investigação e tudo que a envolve. Eu disse que ele podia me ajudar nos casos desde que ficasse limpo. Ele pareceu achar o acordo satisfatório. - o irmão de Sherlock observou-o com mais atenção, os olhos entrecerrados.

- O senhor tem algum interesse sexual em meu irmão, Detetive Sargento? - Greg surpreendeu-se tanto que teve um acesso de tosse do qual custou a recuperar-se.

- O QUÊ?! - ele estava sem fôlego e com os olhos marejados, e balançou a cabeça, exasperado - Jesus Cristo, um camarada não pode ser bissexual sem querer transar com todo homem que cruza o seu caminho? Não, senhor… eu presumo que seja Holmes, também? - o homem assentiu, e Greg prosseguiu. - Não, senhor Holmes, eu não tenho nenhum interesse sexual em seu irmão. É mais fácil eu querer estrangulá-lo do que levá-lo pra cama. Ele… ele se tornou como um filho pra mim. - Greg encarou o homem diante dele com uma sugestão de malícia no olhar - Além do mais, seu irmão não faz meu tipo. Muito jovem, muito magro e, definitivamente, muito, muito irritante. Um completo bastardo, pra falar a verdade. - o Holmes mais velho deu um sorriso minúsculo, mas absolutamente sincero, e Greg admirou a forma como as feições aristocráticas se suavizaram.

- Meu irmão pode, mesmo, ser um pouco… difícil. Mas eu vejo que o senhor parece ter aprendido a lidar com ele muito bem.

- Bom, minha filha mais velha era um verdadeiro pesadelo até poucos anos atrás. Me deixava absolutamente louco. Então, eu tenho uma certa experiência com adolescentes difíceis. - o outro ergueu uma sobrancelha fina.

- Um homem de quase trinta anos dificilmente pode ser caracterizado como um adolescente.

- Seu irmão tem o emocional de um garoto de treze anos. Às vezes, menos. - ele replicou, bem humorado. A vontade irresistível de socar a cara do homem já passara, e ele se sentia mais e mais curioso acerca do misterioso irmão mais velho de Sherlock. - Está mais tranquilo acerca das minhas intenções, senhor Holmes? - ele perguntou, cruzando novamente os braços, e viu um traço de dúvida cruzar o olhar do outro.

- O senhor não acha que associar-se a um viciado em recuperação pode atrapalhar suas chances de promoção, Detetive Sargento? - Greg respirou fundo e esfregou os olhos.

- Eu sinceramente não dou a mínima se isso me manter preso na posição de Detetive Sargento pelo resto da minha vida. Nós precisamos da mente de Sherlock. Precisamos de alguém que nos ajude a pegar todos os pequenos detalhes que nós não conseguimos. E se, no final do dia, o trabalho é feito e o culpado é preso, que me importa o título na porta da minha sala? - o homem encarou-o com a cabeça inclinada e um ar pensativo.

- Um verdadeiro homem da lei, eu vejo. - ele falou, antes de colocar a mão no bolso e retirar um cartão. - Eu vou me manter em contato, Detetive Sargento. Apreciaria se o senhor pudesse, ocasionalmente, encontrar alguns minutos em seus dias ocupados para me atualizar acerca das idas e vindas do meu irmão. - ele aproximou-se e estendeu o cartão para Greg, que o pegou e viu que ele trazia apenas um nome, Mycroft Holmes, e um número de telefone. Sem brasões, sem títulos, sem cargos. Ele ergueu a sobrancelha, encarando o homem enquanto guardava o cartão.

- Não vejo problemas nisso, senhor Holmes. - ele ouviu o motor do carro ligar atrás de si, e acenou com a cabeça. - Até a próxima vez, então.

- Até a próxima vez, Detetive Sargento.