Capítulo II

I believe it's meant to be

- Bom dia, Helene! – Shion desejou a irmã quando a encontrou a mesa do café da manhã. Beijou-lhe o rosto e sentou-se ao lado dela.

- O que te aconteceu, meu irmão? Parece que não dormiu a noite inteira! – Preocupou-se ela.

- Praticamente não! – Suspirou. – Ontem à noite Saga invadiu meu quarto e me achou com Dohko. – Parou de falar ao ver o jeito com que fora encarado. – Escute Helene, não aconteceu nada ainda e, talvez depois de ontem eu despeça Saga. Não gostei do que ele fez.

- Bem, essa decisão só compete a você tomar, querido. – Sorriu e acariciou-lhe a mão. – O que você decidir eu apoiarei.

- Obrigado! – Shion não tinha o que esconder da irmã, ela sabia de tudo a seu respeito. – Por falar em meu empresário... Você viu-o agora cedo?

- O vi saindo da pousada, mas para onde ele foi não faço idéia. – Suspirou. – Por favor, não se exponham em demasia!

Shion agradeceu o aviso, sabia a respeito do que ela se referia, a sociedade, apesar dos gregos serem um tanto liberais, ainda não via com bons olhos a união de iguais.

Serviu-se de pães e suco. Mais tarde ira a praia, mas não sem antes deixar um bilhete para Dohko na recepção.

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O sol já ia alto lá fora quando Dohko finalmente apareceu na recepção. O desjejum já não era mais servido. Quando saía escutou alguém chamar-lhe pelo nome. Virou-se e viu o recepcionista acenando para que voltasse. Ao parar a frente deste, recebeu o bilhete. Abriu-o rapidamente. O coração deu um salto ao ler e descobrir quem lhe deixara aquele bilhete. – "Shion... Está me aguardando na praia. Hmm... Melhor eu ir logo rapidamente. Não posso deixá-lo esperando!" – Pensou o chinês saindo apressado.

Finalmente ao chegar à praia e vencer a trilha pelas rochas avistou-o. Com os sapatos nas mãos, as barras da calça suspensas andou até o local. Parou ao lado do pintor que parecia concentrado no que fazia. Gracejou.

- Sem inspiração? Achei que teria muitas, depois de ter feito um maravilhoso trabalho ontem...

Shion virou-se rapidamente em direção a voz. Abriu um sorriso lindo, levantou-se e deu-lhe um beijo leve nos lábios antes de responder-lhe. – Bom dia! Minha inspiração acabou de chegar! Achei que ela não iria aparecer.

- Hmm... Perdi a hora, mas aqui estou. – Sorriu acariciando-lhe as costas e os longos cabelos esverdeados. – O que precisa falar comigo? Aconteceu alguma coisa? Saga te importunou?

- Não, eu não o vi ainda. – Shion respondeu. – Bem, mas o que eu queria conversar contigo é que hoje à noite teremos um baile de máscaras. – E ao vê-lo arquear a sobrancelha, sorriu. – À fantasia, Dohko! Pensei que seria legal irmos comprar as nossas, juntos, que tal?

- E vamos que hora?

- Agora. – Respondeu começando a guardar as coisas espalhadas.

- Então, deixe-me ajudá-lo. – Dohko ofereceu-se e em pouco tempo já estavam de volta na pousada. Após guardarem os pertences no quarto do ariano, seguiram até a garagem e no mesmo Ford 1919 seguiram para a cidade.

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- Shion... Por favor, só falta a sua fantasia. – Dohko, do lado de fora do provador da loja de costumes protestou ao vê-lo entrar para experimentar a quinta fantasia. Esperou um pouco e voltou a falar. – Sinceramente você não fica bem de cachorro. – Espiou pela cortina do provador e o viu retirar a parte de cima da fantasia. Segurou a respiração com a imagem refletida no espelho, os músculos todos no lugar. Rezou para não estar com cara de apaixonado. Arregalou os olhos ao vê-lo voltar-se para si.

- Você tem razão. Já me decidi com qual irei. – Shion sorriu. – Agora sai daí! – Empurrou o rosto dele para fora e fechou a cortina. – Quero tirar a fantasia e me vestir sem platéia.

- Ah! Estraga prazeres. – Gracejou falando baixo e deixando-o sossegado.

Pouco tempo depois já estavam no passeio rumando para um restaurante e após seguiram para outra praia a qual Shion também gostava de ir. Um lugar sossegado e deserto devido às ondas serem mais fortes e traiçoeiras. Desceram lentamente pela trilha até a areia, onde tiraram os sapatos, meias e dobraram as barras das calças.

- Venha comigo. Vamos caminhar um pouco. – Shion convidou. – Quero relaxar e nada melhor que o som do mar para isso. – Sorriu ao entrelaçar os dedos nos dele.

- Tenho outra idéia para relaxar. – Gracejou. Puxou-o para si e abraçou-o apertado. Seus lábios próximos ao dele. A leve carícia do roçar dos lábios antes de aprofundar o beijo. Mordiscou levemente o lábio inferior e assim que a boca se entreabriu, a língua irrequieta pediu passagem.

As mãos de ambos percorriam os corpos sem pudores, procuravam conhecer os pontos sensíveis e erógenos. Quando quebraram o contato dos lábios, tinham as respirações ofegantes, os rostos rubros e os olhos brilhantes.

- Realmente eu gostei muito do seu jeito de relaxar! – Ronronou Shion. Uma de suas mãos deslizou pelo peito do chinês, as unhas raspando por seu peito provocando-o. Deliciou-se ao vê-lo fechar os olhos e soltar o ar em um leve arfar.

- Não devemos fazer isso aqui. – A voz levemente rouca.

- Tem certeza? Eu não senti firmeza no que disse. – Shion aproximou seus lábios do pescoço dele e mordiscou-lhe a pele sensível. Passou a língua lentamente sobre o local mordido e puxou-o mais para si.

- Shion... – Dohko sentiu todo o corpo arrepiar. Se não se controlassem, poderiam ser vistos por alguém. Todavia como resistir ao que estavam sentindo? Queria experimentar mais. Já havia ficado com outros assim como Saga dera a entender que Shion também tivera outros, mas nunca havia se sentido tão bem. Delicadamente empurrou-o para longe de si e de costas para o mar deu alguns passos.

- Onde pensa que vai? – Shion arqueou a sobrancelha.

- Ainda não sei aonde vou, mas pensei que iríamos caminhar um pouco. – Riu divertido.

- E não estamos fazendo isso? – Era óbvio que não, mas Shion estava entrando na brincadeira, começando a soltar-se mais. Alcançou-o com passadas rápidas e abraçou-o mirando lhe nos olhos. – Não sei lhe dizer o que está acontecendo, mas sei que estou adorando passar os dias ao seu lado. Gostaria que soubesse disso.

Não havia o que dizer, não naquele momento, pois ao ouvir aquilo, o coração de Dohko acelerou no peito. Ofereceu-lhe os lábios e recebeu o beijo, correspondendo com ímpeto e volúpia. As mãos deslizaram pelas costas, apertando, arranhando. Dedos que manejavam habilmente os pinceis, enroscaram-se nos cabelos longos e esverdeados.

Shion sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, segurou a respiração. Sentia falta de atenção como estava tendo. Sentia falta de carinho e de alguém ao seu lado... Soltou-se delicadamente dele e pela mão puxou-o.

- Venha, quero mostrar-te a vista de cima daqueles rochedos. – Puxando-o.

- Shion... – Olhou temeroso para o local. - As ondas estão quebrando constantemente ali. – Dohko não estava com medo, apenas não gostava de lugares como aquele e acidentes eram prováveis.

- Não tem perigo, eu conheço o lugar, mas se não quer subir tudo bem.

Dohko sorriu-lhe, aproximaram-se do local e aproveitando que estavam de mãos dadas, Shion puxou-o para si beijando-o com urgência, esfregou seu corpo no dele. Sorriu internamente ao sentir os toques mais ousados do chinês. O mundo parecia parar de girar, não existir mais nada nem ninguém quando estavam nos braços um do outro. Compenetrados e distraídos acabaram surpreendidos por uma onda mais forte que arrebentara no rochedo os deixando molhados. Separaram-se trocando olhares surpresos e não demorou para que caíssem na gargalhada.

- É... – Fez uma pausa. - Bem que eu te disse que alguém poderia nos ver e não gostar... – Dohko gracejou.

- Engraçadinho! Vamos nos secar ao sol. – Shion falou indicando um ponto afastado, perto de umas pedras e longe da arrebentação. Ele sentou, assim que chegaram ao local e, antes do chinês sentar-se ao seu lado puxou-o para que sentasse entre suas pernas. – Antes que diga algo, não, não vai surgir ninguém. Vamos aproveitar o momento, está bem? – Pediu e quando Dohko virou o rosto, seus lábios foram capturados em um beijo avassalador. Não queria respostas e gracejos. Ele queria aproveitar aquele momento.

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- Então quer dizer que seu pai nunca quis que pintasse? – Dohko perguntou ao remexer-se entre os braços de Shion. Haviam ficado à tarde toda conversando e namorando.

- Sim, mas tive sorte de certa forma. Mesmo precisando tomar conta da pousada, posso seguir minha carreira. Agradeço muito a minha irmã por ela estar sempre por perto e ter voltado bem quando eu mais preciso. – Sorriu.

- Sua viagem não é? – Dohko perguntou não conseguindo esconder no tom de voz o que sentia.

- Hei! São poucos dias e por que não vem comigo? – Convidou-o e acariciou-lhe os braços ao mesmo tempo. – Vai ser muito bom tê-lo comigo. Diz que vem!

- Acho que não serei bem vindo e você sabe por que. – Suspirou.

- Ora, Saga é meu empresário não meu dono. – Shion deu-lhe uma leve chacoalhada. – Vamos vai... – Insistiu.

- Temos tempo para pensar nisso, não é? – O chinês estava relutante. Se quisesse ir teria de ser por seus próprios meios e não deixar que fosse bancado. – Que tal vivermos um dia após o outro? Não pensemos no que nos aguarda. – Mudou de assunto e mirou o horizonte. O sol se punha deixando tudo o que seus raios tocavam com o tom levemente avermelhado. – Adoro ver o por do sol. – Voltou seu rosto um pouco para Shion, esticou-se um pouco lhe dando um beijo carinhoso.

- Eu também gosto e estou a apreciar mais ainda devido à companhia. – Sorriu, sabia estar massageando o ego do chinês, mas valia a pena apenas para ver-lhe o riso radiante nos lábios. Checou as horas no relógio de bolso. – Dohko, temos de ir ou perderemos hora para o baile.

- Tem razão. – Falou ao encolher as pernas e levantar-se. Ajudou-o a levantar também e passou as mãos pelo fundilho da calça. – Vamos ou vão pensar que eu o raptei. – Gracejou e recebeu um sorriso que derreteria o mais gelado coração.

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O porto estava movimentado como todos os dias, o ruído dos saltos dos sapatos social era abafado pelo barulho característico daquela área durante o dia. Entrando no estabelecimento que gerenciava uma frota de navios, o homem alto procurou por um rosto conhecido e ao encontrá-lo, sentou-se a frente deste mirando-o nos olhos.

- Conseguiu o que eu queria?

- Sim, senhor! Consegui reservas para daqui dois dias. – Sorriu satisfeito.

- Segunda feira? – E ao ver o outro concordou deixou que um sorriso de lado surgisse em seus lábios. - Isso é muito bom. Vou começar a mandar as coisas para que sejam guardadas no deposito até que o navio aporte. – Pegou os comprovantes de embarque, pagou e sem esperar retirou-se. Os longos cabelos loiros esvoaçando levemente à brisa. – "Eu disse para tomar cuidado comigo, chinês! Vou levá-lo para longe de você e tudo voltará ao normal." – Pensou ao entrar no Ford 19 e seguir para a loja de costumes, aonde chegou vinte minutos após Shion e Dohko terem saído.

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O salão enfeitado com alguns arranjos florais, a orquestra já a tocar e a meia luz dos candelabros completavam o clima daquele baile à fantasia. Trajando roupas de Samurai, camisa vermelha em seda pura e calça negra, Dohko estava parado a porta. Seus olhos verdes procuravam pelo salão o homem que de uma hora para outra passara a povoar-lhe os pensamentos. Tão distraído estava, não percebeu que alguém havia parado ao seu lado, somente quanto o toque gentil em seu braço aconteceu foi que viu-se acompanhado. Uma jovem mulher trajando uma fantasia de princesa de contos de fada sorria para ele. Uma idéia surgiu-lhe de repente e sem pestanejar convidou-a para dançar, seria um modo de achar Shion sem precisar rodar sozinho pelo grande salão. Guiou-a para o salão e começaram a dançar. Mais alto que a mulher em seus braços, era fácil observar todo o local.

Após algumas voltas pela pista a dançar, Dohko localizou-o. A trança frouxa prendendo os cabelos, a veste negra e branca. Lá estava o pierrô de seus sonhos. Quando Shion virou-se, seus olhos se cruzaram. O chinês segurou a respiração. Divino não expressava em hipótese alguma como ele estava.

Ao terminar a música, Dohko inclinou-se e depositou um casto beijo no dorso da mão pequena que se encontrava entre as suas. Sorriu, pediu licença e com passos decididos aproximou-se do pierrô. A pintura caprichada escondendo o rosto bonito. Aproveitando-se da música alta, inclinou-se um pouco e aproximou os lábios do ouvido do mais alto e com voz rouca fê-lo estremecer.

- Ficastes perfeito. – Sorriu-lhe e percebeu o olhar predador sobre si. Com um sorriso malicioso lambeu os lábios ao encará-lo. Sabia que estava provocando, queria isso. Ao ver Helene aproximar-se trajando um vestido de rainha, fez lhe uma reverência e beijou-lhe a mão sendo galanteador. – Linda dama, aceita dançar essa contradança?

- Oh! Gentil cavaleiro, claro que sim. – Sorriu e começou a dançar levando-o junto.

Shion sorriu divertido e acompanhou com olhos curiosos a irmã e seu possível namorado dançarem. Ao ver que em pouco tempo voltavam para perto de si estendeu as mãos para a irmã que o abraçou.

- Dance comigo também. – Pediu puxando-o para longe e deixando o chinês para trás com um leve sorriso nos lábios. Helene tinha lhe dito que ele fazia bem a Shion e estava muito feliz por ouvir aquilo de alguém tão importante assim para o pintor.

- Helene... – Suspirou. - Deixamos Dohko sozinho. – Shion mirou-a sério.

- Já vamos voltar. Apenas queria dançar contigo também antes que não possa mais. – O olhar matreiro, conhecia muito bem o irmão. A ela não lhe passou despercebido como ele tentava olhar para onde o samurai havia ficado. – Dohko é muito bonito, não? Tem uma boca linda que dá até vontade de beijar. – Gracejou para ver qual seria a reação do irmão.

Shion estreitou os olhos, conhecia aquele jeito da irmã, por isso mesmo não lhe chamaria atenção sobre o que dissera. Sabia se tratar de um meio de descobrir-lhe as coisas, mas não iria entrar na dela.

- Certo não quer me contar? – E ao vê-lo estreitar os olhos continuou. – Tudo bem, não tem problema. Só gostaria que soubesse que quero sua felicidade acima de tudo. – Parou de dançar, levou o irmão até onde o chinês os esperava, beijou-lhe o rosto e cochichou. – Todo seu, se forem sair daqui, não deixe que Saga os veja, está bem? – Sabia que o empresário poderia querer atrapalhar, por isso dissera aquilo. Com um sorriso radiante afastou-se.

Dohko arqueou a sobrancelha ao mirar Shion, este deu de ombros.

– Não me pergunte, às vezes acho que ela é meio bruxa. – O pierrô comentou sorrindo. – O que era aquilo? Uma pretendente? – Alfinetou com um leve sorriso nos lábios.

Antes que Dohko lhe respondesse, surgindo do nada o Fantasma da Ópera colocou-se entre eles.

- Boa noite! – Saudou-os. Por dentro sentia vontade de colocar juízo na cabeça de Shion. O loiro alto estivera até aquele momento aproveitando-se dos lugares mais escuros para passar despercebido. – Preciso falar contigo a respeito da viagem... – Começou dando as costas para Dohko.

- Escuta Saga, hoje é um baile e eu gostaria de divertir-me um pouco. Podemos muito bem tratar disso outra hora. – A voz séria e cortante. – Você deveria aproveitar também para se divertir. – Passando pelo empresário sem voz, o pierrô puxou pela mão o samurai para longe.

- Acalme-se, não vale à pena... – Dohko falou baixinho ao aproximar-se um pouco para cochichar-lhe. – Se você se acalmar prometo algo especial... – Sorriu malicioso.

Abrindo um leve sorriso o pierrô puxou-o para o centro do salão começando a dançar as músicas gregas.

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Ainda no lugar onde havia ficado, Saga não conseguia acreditar no que seus olhos e ouvidos haviam visto e escutado. Shion nunca havia lhe faltado com o respeito e fazia algum tempo que ele vinha agindo diferente. Uma luz acendeu-se em sua cabeça. Era a companhia do chinês! Estreitou os olhos e fuzilou-os. Tão felizes, dançando alegremente o hassápico. Fechou os punhos fortemente. Ao ver um dos garçons passar com uma bandeja, pediu-lhe ouzo e bufou.

Logo atrás dele, sentado em uma das mesas, um homem estonteantemente lindo, prestava atenção a tudo que o loiro fazia. Usava uma roupa vinho, mas não uma qualquer. Estava fantasiado de toureiro. Seus olhos verdes faiscantes percorreram todo o corpo a sua frente. Era impossível deixar passar despercebido tal monumento. Levantou-se... Alto, quase da mesma altura que o loiro e parou ao lado dele. Pigarreou antes de falar apenas para lhe chamar a atenção. Ao perceber que era notado abriu um leve sorriso de lado.

- Adoro ver hombres dançando... As danças gregas são muito animadas... – A voz levemente rouca, o grego perfeito, mas com um sotaque carregado. – No achas? – Perguntou não se importando com o jeito bravo com que era olhado. – Veja... De todos naquela roda, o pierrô e o samurai são os mais animados. São algo a mais além de apenas dançarinos de momento? Afinal ustedes gregos no ligam muito para o que se diz de moralmente correto, no é? – Uma leve pitada de ironia.

Saga arqueou uma sobrancelha, estreitou os olhos e rosnou intimidadoramente. – Não tem mais o que fazer? – Perguntou encarando-o, a máscara escondendo-lhe metade do rosto bonito e anguloso. Voltou seus olhos várias vezes na direção do casal animado e bufou enraivecido.

- No até daqui a dois meses quando tenho de voltar para minha Espanha querida. – Sorriu irônico. A ele não havia passado despercebido o interesse do loiro nos dois homens. – Escuta... – Viu o garçom trazer-lhe a bebida. – Tens 'negócios' com algum dos dois? – Perguntou frisando a palavra negócio. Claro que não era bem aquilo que gostaria de saber.

Saga mirou-o diretamente nos olhos. – Escuta aqui, você não sabe quando deve parar de falar? Por que não se mete com sua vida?

- No é questão de saber ou no quando parar, mas é que estou curioso a seu respeito e, meter-me com minha vida, estou fugindo dela... Estou de férias já há algum tempo por aqui. – Tomou-lhe o copo da mão e bebericou um pouco da bebida. Fez uma careta, o que fez Saga rir pela primeira vez naquela noite. – Ustedes gregos tem um gosto nada refinado para bebidas. Prefiro o vinho feito de minhas uvas.

- Então por que não volta para elas? – Saga estreitou os olhos ao retirar-lhe o copo da mão.

- Voltar para as matanças? No muchas gracias! Estou fugindo de meu empresário e, voltar a matar touros em arenas já no me desperta mais o interesse. – E ao notar os olhos azuis sobre si, arqueou a sobrancelha. – Calma, sou toureiro e um dos melhores, hombre, mas tudo perdeu o fascínio para mim. Acho mais divertido dirigir os negócios da família. Se encontrar motivos para voltar às arenas talvez retorne...

- Conheço tipos como você... Encrenqueiros natos que dão dores de cabeça para os empresários. – Saga voltou seus olhos para Shion, que continuava a dançar. Bufou enraivecido.

- O pierrô, certo? – O espanhol era bom observador.

Saga nada disse, voltou-se para aquele homem e finalmente notou-o. Percorreu-lhe o corpo com os olhos e sorriu de lado.

- És observador...

- Sí. – Respondeu sorrindo.

- Então se és assim tão bom, quando vai perceber que quero ficar só com meus pensamentos? – Perguntou. Seu mau-humor ganhando proporções gigantescas. Voltou seus olhos para o salão e arregalou-os. – Mas onde ele foi? – Havia se distraído e o perdera.

- Começo a duvidar que seja somente empresário do pierrô. – Na voz uma pitada de sarcasmo.

Sem pensar Saga empurrou o espanhol para o fundo das mesas onde tudo estava escuro e o prensou na parede. Ouviu apenas o riso debochado.

- Nervosinho...

- Se não calar essa sua boca e parar de falar tanta besteira, eu a calo para você. – Grunhiu entre dentes. Os corpos colados, os rostos a milímetros de distância.

O sorriso malicioso não pode ser visto, nem as faíscas nos olhos verdes. Mãos fortes que ao em vez de empurrar agarravam em um aperto firme. – Então venha calar-me, se és hombre. – Provocou com voz rouca e sensual.

Como um touro ao ver o pano vermelho sendo agitado a sua frente, Saga tomou-lhe os lábios em um beijo exigente e devorador. As mãos percorrendo a lateral do corpo másculo. Sentiu o espanhol se esfregar em si. Partindo o beijo a procura de ar, sorriu de lado.

- Em seu quarto ou no meu?

- Desde que seja na privacidade de quatro paredes, pode ser em qualquer lugar. A propósito, mal humorado... – A voz rouca e baixa o suficiente apenas para o grego ouvir. – Me chamo Shura... Shura Moyano.

- Pouco me importa o nome, quer que te carregue para fora deste salão? – Na voz a urgência.

- No será necessário, grego...

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Quando a orquestra parou de tocar músicas gregas, Dohko finalmente conseguiu puxar Shion para fora do salão. A rota de fuga escolhida fora uma das portas balcão que dava para a varanda em flor. Contornaram toda a pousada por ela. Lado a lado, as mãos soltas ao lado dos corpos, muitas vezes roçavam-se. Aquele gesto passava despercebido pelos casais enamorados que apreciavam a noite estrelada e enluarada.

Usaram a entrada dos fundos para saírem dentro da cozinha. O pierrô guiando o samurai pelas passagens que somente os empregados conheciam e tinham acesso. Shion aproveitou para pegar uma garrafa de champanhe e taças. Era claro o que ele queria e, tinha certeza que era o mesmo que Dohko. Não havia viva alma no corredor, assim puderam entrar no quarto do pintor sem chamarem a atenção. Shion fechou a porta com a chave e como um felino seguiu até o meio do quarto onde o samurai esperava-o.

- Ao que vamos brindar?

- Que tal a essa noite? – Dohko perguntou.

- Que tal a paixão? Um novo romance...? – Os olhos penetrantes mirando-o.

- Que tal ao amor e sua chama eterna?

Shion assentiu e fez estourar a rolha. Colocou um pouco da bebida borbulhante nas taças, brindou e bebeu um gole. Deixou sua taça sobre a mesinha de centro juntamente com a garrafa. Com delicadeza estendeu a mão, retirou a taça da mão do chinês e a colocou ao lado da primeira.

- Estava louco para ficar sozinho com você. – Murmurou ao puxá-lo para si em um abraço. Antes que ele pudesse responder, cobriu com seus lábios os dele e beijou-o com ímpeto. As mãos acariciando a nuca e pescoço dele.

Quando separaram-se, Dohko tinha o rosto manchado de nuances de cinza, branco e preto. Sorriu, pois a maquiagem de Shion estava toda borrada.

- Venha cá, sente-se. – Puxou-o para a cama e com os olhos procurou por algo que servisse. Sorriu ao encontrar outra porta, que levava ao banheiro. Voltou com uma toalha umedecida. – Vamos nos livrar da maquiagem.

- Dohko eu posso fazer isso.

- Não... Eu quero fazer! – Sem esperar, passou a ponta da toalha sobre a testa dele começando a retirar-lhe a maquiagem.

- Sua fantasia tem muitos botões... – Shion comentou observando o peito dele subir e descer lentamente ao respirar. Sorriu ao estender as mãos e tocar-lhe o pescoço na altura do primeiro botão soltando-o e sem esperar fazer o mesmo com o segundo e o terceiro.

Dohko procurou pelos olhos violáceos, estes brilhavam intensamente. – Por favor, deixe-me terminar de limpar seu rosto. – Pediu tentando acalmar seu coração que batia descompassado no peito. Não queria ir com muita sede ao pote. – Feche os olhos... – Pediu, mas estremeceu ao sentir as mãos sobre seu peito e os dedos hábeis enrodilharem seus mamilos. Segurou-lhe as mãos e olhou-o sério. – Se não parar com isso, não conseguirei terminar de te limpar e não responderei por meus atos.

Pegando a toalha das mãos dele Shion passou por seu rosto todo. Mirou-o com curiosidade e ao vê-lo assentir, deixou a toalha de lado. Estava com o rosto livre da maquiagem. Sorrindo limpou também o rosto de chinês. Jogou a toalha para o lado e voltou a acariciar o corpo que tanto lhe estava a despertar o desejo.

- Ah... Dohko... Sinta... – Puxou-lhe a mão até a altura de seu coração e encostou-a em seu peito. – Sinta... Bate forte por ti. – Aproximou-se dele e beijou-o puxando para mais perto em um abraço forte e apertado. As mãos de ambos deslizando pelos corpos, sentindo, atiçando... Provocando.

Separaram-se apenas em busca de ar. Sorrisos trocados, olhares enamorados. Sem nada dizer, o chinês puxou-lhe a mão até a altura de seu coração. Os olhos não se desviavam, pareciam dois imãs. O coração batia tão ou mais forte que o de Shion. Ambos compreendiam o que estava acontecendo. Os sentimentos eram os mesmos. Como almas gêmeas que se buscam, encontram-se e completam-se. Como um sonho do qual não queriam acordar. O amor queimando em seus corações como uma chama eterna.

Close your eyes, give me your hand, darling

Feche seus olhos, me dê sua mão, querido.
Do you feel my heart beating?

Você sente meu coração pulsando?
Do you understand?

Você compreende?
Do you feel the same?

Você sente o mesmo?
Am I only dreaming?

Estou apenas sonhando?
Is this burning an eternal flame?
Isto que está ardendo é uma chama eterna?

Habilmente, Shion deslizou suas mãos pelo peito de Dohko e, enquanto apertava, arranhava e acariciava, ia abrindo os botões da camisa. Dohko por sua vez, muito lentamente, soltou-lhe o cabelo deixando-os soltos. De olhos fechados o chinês se entregou as caricias e mordiscou o lábio inferior tentando se controlar. Seus corpos clamavam por algo mais íntimo. Por um contato sem as peças de roupas os atrapalhando. O chinês fechou os olhos deliciando-se com as carícias e com o que estava sentindo.

- Dohko... Abra os olhos. – Pediu depositando beijos nas pálpebras ainda cerradas. Sorriu ao ver as íris esverdeadas meio opacas pelo desejo. – Não quero desviar meus olhos dos seus. – Murmurou ao aproximar seus lábios dos dele e beijá-lo com ardor. Deslizou suas mãos do cós da calça até alcançar-lhe a nuca. Vibrou ao sentir o estremecimento do corpo do amado. Lentamente empurrou-lhe a camisa fazendo-a escorregar dos ombros para os braços. Ajudou-o a retirar os braços das mangas e em seguida jogou para fora da cama a peça de roupa.

Os olhos de ambos se encontraram novamente. Não era preciso falar muito, ou não falar nada. Apenas com olhares se entendiam.

Dohko mordiscou-lhe o lábio inferior e com rapidez começou a abrir todos os botões da camisa do outro, que também fora parar em algum lugar do quarto. Beijou-o colando os corpos. Afundou suas mãos nos fartos cabelos de Shion.

Ambos podiam ser só pintores, mas tinham os corpos bem torneados a custa de, nadar no mar da parte de Shion e praticar artes marciais por parte de Dohko. Estavam se conhecendo... Descobrindo cada ponto mais sensível ao toque... O que dava mais prazer.

Shion olhou-o desejoso, lambeu os lábios e suspirou. – Perfeito... – Ronronou ao sentir os lábios do 'samurai' marcando-lhe a pele como ferro em brasa enquanto deslizava as mãos pelas costas dele. Arfou ao sentir os dentes cravarem em seu pescoço. Segurou forte os fios de cabelos castanhos avermelhados e sem oferecer resistência, ofereceu mais o pescoço ao levantar o queixo mirando o teto. Gemeu baixinho. Uma sinfonia para os ouvidos de Dohko.

- Acho que estamos muito vestidos ainda. – A voz rouca de Dohko tendo o efeito de uma carícia próximo ao ouvido de Shion.

- Que tal mudarmos essa situação? – Perguntou empurrando delicadamente o chinês pelos ombros e fazendo com que ele deitasse. Tirou-lhe as sapatilhas e meias jogando tudo a esmo no chão. De gatinhas passou por sobre o corpo do outro e espalhou beijos, lambidas e mordidas pelo pescoço, peito e barriga. Com um olhar malicioso, colocou as mãos entre o cós da calça e a pele da cintura, deslizando os dedos lentamente. Sorriu de lado ao ouvir um gemido escapar pelos lábios inchados pelos tantos beijos trocados.

Apaixonado, Shion abriu-lhe a calça devagar sentindo o tamanho do desejo do amado. Sorriu. Sabia que aquilo era por ele, para ele. Alguém que o desejava e quem sabe amava-o como ele já sentia toda essa carga de sentimentos e emoções. Lentamente retirou-lhe a calça e a peça íntima, estás também tendo o mesmo destino que as outras roupas. Voltou de gatinhas deitando sobre o corpo dele. Abraçou-o beijando-lhe com volúpia e urgência. As mãos de ambos percorrendo pelos corpos.

Ao separar os lábios dos de Shion, Dohko mordiscou-lhe a orelha, sorriu ao ouvir o gemido baixo e urgente.

- Isso não é justo! Falta você ficar sem essa peça que nos está atrapalhando. – A voz sensualmente rouca. Com um giro de corpo ficou por cima dele e, sentando-se sobre suas cochas marcou com seus lábios e dentes o peito do amado. De joelhos conseguiu livrá-lo das sapatilhas, meias e por fim da calça e o resto da indumentária.

Mordiscou o lábio inferior ao admirar o corpo nu a sua frente. Deitou-se por cima de Shion o tomando nos braços, seus corpos se enroscando em total intensidade e paixão. Agora nada mais os impedia de um maior contato... De um contato íntimo... Mãos que deslizavam em lugares onde talvez Shion nunca houvesse permitido, ou que talvez nunca houvesse o feito gemer daquela forma como agora. Os corpos parecendo um braseiro... Não havia duvidas...

- Doh... Te quero... – A voz rouca. Um clamor urgente.

Inseguro, Dohko mirou-o nos olhos. Saga havia dado a entender que Shion já havia tido outros namorados, mas não sabia se algum deles havia ido tão longe. Mordiscou os lábios percebendo as faces rubras do outro.

- Shion...

- Não pense, Dohko... – Murmurou. – Sou um homem, não uma jovenzinha em sua primeira vez... – A voz rouca e máscula.

Acariciando-lhe o rosto, Dohko correu sua mão pela lateral do corpo do amado e beijou-o apaixonadamente. Apertou a coxa torneada, libertou os lábios dele ao sentir as unhas em suas costas. Gemeu alto. Acomodou-se melhor e devagar fez com que se tornassem um só, acalmando o amado, pensou em parar, mas foi encorajado por Shion, que beijou-o com ardor e urgência. Mordiscou-lhe os lábios, pescoço e o acariciou. Eram um só. Um só coração. Uma só emoção. Os corpos quentes, vibrantes. Era inacreditável como ambos se completavam. Como um sonho se tornando realidade.

Entregaram-se a paixão, ao êxtase e juntos alcançaram as nuvens. Carinhosamente, Dohko aninhou Shion entre seus braços e beijou-lhe calmamente... Enamorados. Estavam enamorados... Não precisavam de palavras, viu-o adormecer e desejou que o destino lhes deixasse juntos para sempre. Sabia agora que poderia amar sem medos e que estava com alguém que sentia o mesmo por ele. Sabia que a chama do amor para eles queimaria eternamente.

I believe it's meant to be, darling

Eu acredito no que está destinado a acontecer, querido.
I watch when you are sleeping
Eu te observo quando você está dormindo,

You belong with me
Seu lugar é comigo.

Do you feel the same?

Você sente o mesmo?
Am I only dreaming?

Estou apenas sonhando?
Or is this burning an eternal flame?
Ou isto que está ardendo é uma chama eterna?

oOoOoOo

Acordou assustado ao ouvir seu nome, os olhos verdes arregalados. Olhou na direção das janelas e ainda estava escuro. O corpo de Shion estava aninhado ao seu. Beijou-lhe a testa. Talvez ele falasse dormindo. Afagou-lhe os cabelos e, devagar para que ele não acordasse deslizou o corpo pelo colchão e levantou. Na penumbra seguiu até o banheiro, pouco tempo depois voltou e estava pronto para deitar quando foi surpreendido pela luz sendo acesa. Shion sentira sua falta e acordara, sorria felinamente.

- Sabia que você fica lindo ao ser surpreendido andando nu por ai? – Shion gracejou ajeitando-se melhor na cama. O braço direito atrás da cabeça, os cabelos espalhados pelo travesseiro com mexas emoldurando-lhe o rosto e caindo no peito nu.

Dohko arqueou a sobrancelha e sorriu. – Hmm... Não sabia. – Respondeu tendo uma idéia. – Você está de um jeito... – Fez uma pausa e aproximou-se mais da cama. - Muito sexy. – Completou ao deitar-se ao lado dele. Abraçou-o puxando para si. – Sabe, você aceitaria ser meu modelo? – Perguntou sem fazer rodeios.

Shion mirou-o nos olhos. – Modelo? – Perguntou surpreso. – Mas agora?

- Sim. Vai... Diz que aceita! – Insistiu. – Pose para mim! – Murmurou, a voz levemente rouca. Os lábios próximos ao lóbulo da orelha, roçando. Mãos que acariciavam provocando-o.

Um suspiro. Uma leve carícia no rosto já muito amado. Olhos nos olhos... – Está bem! Tenho uma tela sem usar ao lado da cômoda. Veja se o tamanho lhe agrada. – Shion tinha o rosto levemente rosado. Nunca havia feito tamanha loucura, mas sentia-se bem ao fazer aquilo. Recebeu um beijo estalado e com um sorriso nos lábios, viu o chinês ainda nu ir pegar a tela.

- Perfeita! – Sorriu ao ver a tela. Pegou no mesmo canto o cavalete, banquinho e a maleta de tintas e pincéis.

- Como quer que eu fique? – Shion tentava imaginar uma pose sensual.

- Uma que sinta-se bem? – Dohko voltou-lhe os olhos pensativo. – Fique como estava quando acordou, soerga um pouco só seu tronco. – Ia arrumando as coisas ao mesmo tempo em que falava.

Mesmo ocupado conseguia desviar os olhos e prestar atenção em Shion, que procurava arrumar-se da melhor maneira possível. Puxando todo o lençol, deixou as pernas à mostra, cobrindo apenas seu baixo ventre.

Dohko sorriu satisfeito, vestiu apenas a cueca e, com a grafite de desenho em punho pôs-se ao trabalho.

- Como está ficando? – Shion perguntou alguns minutos após vê-lo sentar-se. Estava impaciente.

- Apenas comecei, tenha calma. – Estava compenetrado e o tamanho da tela o fazia tomar muito cuidado para não fazer o desenho nem muito pequeno, nem muito grande.

Enquanto Dohko desenhava, Shion pode perceber como ele ficava compenetrado e não falava muito. Ele também era daquele jeito. Sorriu de lado e teve sua curiosidade despertada quando viu-o pegando a paleta e misturando as cores.

- Já vai começar a pintar? – Na voz uma pitada de desapontamento.

- Vou sim... – Dohko mirou-o nos olhos e sorriu. – Quando estiver cansado de ficar só nesta posição me avise.

- Avisarei, mas acho que você deveria deixar para pintar pela manhã. – Shion falou baixo, a voz levemente rouca. – Venha ficar aqui comigo. – Convidou.

- Que raios de pintor é você que perde a oportunidade de terminar um quadro tendo o modelo a sua frente? – Gracejou. Nos lábios um sorriso divertido.

- Hmm... Sou um pintor enamorado. – Ronronou. Seus olhos violáceos faiscando.

Arregalando os olhos, Dohko sentiu o rosto esquentar. Segurou a paleta e o pincel com a mão esquerda, coçou a cabeça com a mão livre e sorriu bem envergonhado. – Então, sabes como quero terminar de pintar esse quadro para que saibas também o quanto estou enamorado... Teremos toda a vida pela frente, meu querido. – Ao terminar de falar, começou a pintar. O pincel deslizando suavemente sobre a tela.

Seu falante amado a todo o momento lhe perguntava, ou comentava algo. Após algum tempo estanhou o silêncio em que o quarto havia caído. Sorriu, Shion havia adormecido. Sentiu vontade de largar a pintura e ir deitar-se também. A luz que não lhe ajudava muito, já estava fazendo com que ele forçasse demais e, seus olhos começavam a ficar pesados. Bocejou, prestou atenção em cada traço, parte e sombreado que havia feito. Faltava muito pouco para terminar a pintura. Ele sabia que se tivesse com outro tipo de iluminação, um quadro como aquele, de tamanho razoável, seria terminado em pouco tempo. Mas a noite...? Realmente não teria jeito de conseguir acabar, sua vista já estava muito cansada e, para um artista plástico como ele, exigente demais consigo mesmo, se continuasse não iria aprovar o resultado final no outro dia.

Limpou o pincel, fechou as tintas que se encontravam abertas, deu mais uma olhada para a tela e sorriu. – "Perfeito..." – Pensou ao dirigir-se a cama, apagou a luz e deitou.

- Que horas são? – Shion perguntou-lhe. A voz grogue, sonolenta. Acabara por acordar ao sentir o corpo do amado tocar o seu. Já estava quase acordando. O sono estava leve.

- São cinco horas, volta a dormir é cedo! – Dohko beijou-lhe os lábios, acariciou-lhe o rosto e com um suspiro, deitou a cabeça no travesseiro e dormiu.

Apoiado no cotovelo, Shion tirou uma mexa de cabelo da frente do rosto amado e sorriu. – Durma, meu querido! Você não precisava ter ficado até tão tarde pintando. – Murmurou ao sair lentamente da cama e acendendo a luz. Aproximou-se do quadro e o que viu deixou-o sem fala. – Doce chinês... Nunca imaginei que você pintasse assim. – A voz baixa, os olhos brilhantes. – Ah! Dohko... Talvez não goste, mas vou terminar esse quadro por você. Temos estilos parecidos. Sim... Vou pintar. – Sorriu. Pegou o pincel, espalhou tintas diversas sobre a paleta e começou a dar os acabamentos e pintando o pouco que faltava. A cada remexida de Dohko na cama, ele voltava os olhos atentamente.

Sentiu seu coração aquecer-se quando ele acabou por deitar-se com as costas para o colchão, pois assim pode ver-lhe o rosto. Parecia que sorria mesmo dormindo. Voltou seus olhos para o quadro. Suspirou. Sentia seu coração acelerado, batendo... Palpitando. E ele sabia por que e por quem.

- Shion! – A voz baixa, os olhos serrados.

Voltou seus olhos para ele. – "Está dormindo. Será que sonhas comigo? Até em seus sonhos me chama...?" – Pensou ao voltar os olhos para as janelas. Ao ver a claridade da manhã começar a invadir o quarto suspirou novamente. Shion tinha certeza absoluta. Dohko preenchera o lugar vazio em seu coração. Dera-lhe motivos para voltar a sorrir... A voltar a amar...

Say my name the sun shines through the rain

Diga meu nome,o sol brilha em meio à chuva...
A whole life so lonely

Uma vida toda tão sozinho,
And then you come and ease the pain

E então você chega e alivia a dor.
I don't want to lose this feeling
Eu não quero perder este sentimento.

oOoOoOo

Estava no limiar do acordado e do sono. Não queria sair daquela cama. Estava semi consciente. Sentia a proximidade do corpo másculo e bem torneado. Aquilo lhe fazia sentir-se bem. Lentamente abriu os olhos azuis, piscou algumas vezes para tentar acostumar-se com a claridade. Em seu peito uma cabeça repousava, os cabelos negros. Arregalou os olhos, mas sorriu imediatamente ao relembrar onde estava e com quem.

"Shura..." – Pensou Saga ao acariciar-lhe os cabelos. Levou um pequeno susto ao vê-lo virar a cabeça e mirá-lo com aquelas íris verdes brilhantes que tanto lhe cativaram.

- Dormistes bem, Saga? – Perguntou contendo um bocejo. Havia descoberto o nome do grego ao começarem a arrancar as roupas.

- Dormi espanhol... – Saga acariciou-lhe as costas. – A julgar pela claridade, talvez tenhamos perdido o café. – Aquela noite havia sido maravilhosa. O loiro havia achado no jeito sexy e impetuoso do espanhol algo que lhe fazia muito bem e que lhe completava.

Shura apoiou seu braço no peito dele ajeitando-se melhor. – E usted liga por termos perdido? – Perguntou ao enrolar uma mexa dos longos cabelos loiros entre os dedos. Sorriu de lado.

- Não ligo. – Saga respondeu ao acariciar o rosto do espanhol. – Podemos pedir que tragam algo para nós aqui. Não sei quanto a você, mas não estou muito com vontade de sair da cama.

Soerguendo o corpo, deitou-se sobre o grego. – Loiro... Compartilho contigo sua vontade. – E beijou-o demoradamente. Mãos deslizavam pelos corpos, gemidos, apertões... O desejo consumindo os corações que pelo destino se encontraram.

oOoOoOo

- Dohko...

A voz parecia vir de longe. Algo fazia cócegas em seu peito. Resmungou um pouco coisas sem sentido.

- Dohko, acorde. – Shion tentou novamente. Sorriu ao ver o chinês remexer-se, mas não abrir os olhos. Depositou um beijo suave nos lábios dele e sorriu ao sentir braços cingirem sua cintura em um abraço apertado.

- Bom dia! – Murmurou ao finalmente abrir os olhos.

- Você quer dizer boa tarde! – Corrigiu-o acariciando-lhe o rosto. Não pode conter o riso ao vê-lo com os olhos arregalados e surpresos. – Não adianta retrucar, ou me perguntar por que não te chamei antes, pois você ficou até tarde pintando e... Por falar em pintura eu percebi que nossos estilos são muito parecidos. Não me olhe assim. – Pediu ao vê-lo arquear as sobrancelhas. – Eu dei o acabamento no quadro.

- É mesmo? – Dohko sorriu. – Vamos lá ver se ficou bom. – Brincou. Ao levantar da cama tomou um susto com a bela mesa posta. – Mas o que...

- Tomei a liberdade de pedir que nosso café ou almoço se assim preferir, fosse servido aqui. – Shion parou ao lado dele. Estava totalmente vestido.

- Preciso vestir algo e... – Olhou para sua fantasia agora ajeitada sobre uma poltrona. Pegou a cueca e a calça vestindo-as.

Antes de sentar a mesa foi olhar o quadro e sorriu. – Ficou perfeito. – Comentou ao abraçar Shion que estava ao seu lado.

- Também com um modelo desses... – Gracejou.

- Ora... Vou calá-lo seu convencido. – Os risos misturando-se. Os rostos e lábios a poucos centímetros. O beijo foi inevitável.

Shion assumindo seu autocontrole, separou-se delicadamente. – Venha, vamos comer alguma coisa, ou você gostaria de tomar um banho antes?

- Só se você me acompanhar... – Os olhos brilhando maliciosamente.

- O convite é tentador, mas eu...

- Vai Shion... Pode ser muito prazeroso. – Murmurou Dohko próximo ao ouvido dele.

Suspirando, acabou por concordar. – Está bem. – E puxou-o para o banheiro. – Dohko calma... Eu preciso tirar minha roupa primeiro.

O riso divertido tomou conta de todo o banheiro. Brincalhão, o chinês puxara o amado com roupa e tudo para dentro da banheira que começava a encher.

oOoOoOo

Reunidos à mesa do jantar no grande salão, Shion, Helene e Dohko conversavam trivialidades. O pequeno Kiki sentado entre eles também participava um pouco da conversa quando lhe era permitido e, quase sempre o arteiro garotinho lhes contava sobre algo que havia feito durante o dia.

- Shion, o que aconteceu com Saga?

- Por que pergunta, Helene? – Os olhos violáceos miraram a irmã sentada a sua frente.

Dohko e Kiki apenas prestavam atenção, esse último torcendo o nariz.

- Hoje a tardinha barrei-o de entrar em seu atelier, achei estranho ele querer pegar as telas que irão para a Itália se não há data estipulada para a viagem. – Helene parecia mais surpresa ao contar ao irmão do eu ele que recebia a notícia.

- Irei procurá-lo. – Shion parou de falar e olhou para Dohko, que lhe apertava a coxa com a mão por baixo da tolha da mesa. – Mas não irei sozinho. – Trocou um rápido sorriso com o chinês.

Horas mais tarde já no quarto de Shion.

- Eu sei que não me quer por perto, mas algo me diz que tenho de estar contigo.

- Pode ser, Dohko... – Shion estava pensativo. Sentiu braços lhe cingindo a cintura e sorriu. – Amanhã cedo ao acordar irei para a praia terminar meu último quadro. Gostaria que fosse comigo, você vem? – Convidou.

- Claro que sim. Agora, já que me quer com você aqui... – Sorriu acariciando-lhe o rosto. - Que tal relaxarmos um pouco, ou não conseguiremos acordar cedo. – Beijou-o calmamente e apagou a luz do quarto.

oOoOoOo

Com os longos cabelos presos em uma trança frouxa, Shion tentava terminar seu último quadro. Dohko estava nadando um pouco para refrescar-se, pois mesmo sendo muito cedo, o calor já estava insuportável. Com um sorriso nos lábios, os dedos firmes segurando o pincel, ele dava um toque mais claro para os raios que eram desferidos por Zeus nos andrógenos.

A idéia havia lhe surgido quando terminara de ler um comentário sobre o tema. Pintava com mais sentimentos que o normal, talvez por sentir-se só, mas não agora. Seus olhos procuraram pelo amado que começava a sair das águas do mar.

- Como está indo com a pintura? – Perguntou ao pegar a toalha e começar a enxugar-se.

- Quase terminando, faltam poucos detalhes. – Shion sorriu ao vê-lo aproximar-se e prostrar-se atrás dele.

Dohko segurou a respiração, até aquele momento ele não havia visto a tela, que estivera com uma proteção. De olhos arregalados parecia que a voz de seu amigo Enzo, ou Mask como todos o chamavam, ribombava em sua mente ao contar-lhes sobre a lenda do Andrógeno. Aquele quadro também era de Shion. Quantas coisas mais lhe remeteriam sempre para ele?

- O que foi Dohko? – Shion encarou-o preocupado ao voltar-se um pouco para melhor vê-lo. – Aconteceu alguma coisa?

- Não, não aconteceu nada! Está ficando perfeito. – Sorriu e inclinou-se um pouco dando-lhe um beijo exigente.

- Aí estão vocês...

Ambos olharam assustados para o lado. Saga aproximou-se deles devagar. Seus olhos azuis mirando-os com raiva. Parou atrás da tela, de frente para eles e encarou-os.

Shion depositou cuidadosamente a paleta e o pincel sobre sua maleta de tinas e voltou seus olhos estreitos para o empresário. Dohko as suas costas cruzara os braços a frente do corpo e também não estava nem um pouco contente.

- O que foi, Saga? – Shion perguntou. Sua voz baixa e ácida. – Sabe que não sou bom em decifrar cara feia.

- Pena, pois é a única que tenho. E você não era assim antes. – A voz baixa e séria.

- Por que será não? – Shion perguntou desdenhoso. – Talvez seja por sua culpa não é?

- Minha culpa? – Arregalou os olhos. Ele sabia a que ele se referia, mas nunca diria que ele tinha culpa. Nunca admitiria.

- Sim, sua Saga. – Ficou de pé de um pulo. Dohko tocou-lhe gentilmente no braço. Ele não iria se meter, ou somente se fosse necessário.

- Tenha calma. – Pediu. Sabia que não seria fácil para ele seguir ao que pedia, pois entendia perfeitamente o que o amante sentia.

Shion olhou para trás e sorriu, quando voltou-se para Saga estava novamente com o semblante sério. – A que devemos a honra de sua aparição? – Perguntou. Não conseguia ser cordato como costumava ser. Estava disposto a lutar por sua felicidade. Ainda mais se Dohko estivesse consigo.

- Sou seu empresário, não preciso ter motivos para estar contigo. – O olhar sério.

- Pois eu acho que à partir de hoje não preciso que esteja presente comigo vinte e quatro horas. Você só é o empresário. Não entende de técnicas de pintura. É pago para gerenciar meus interesses entre outras coisas. Nada mais, nada menos.

Dohko prestava atenção, se algo acontecesse, voaria no pescoço do grego mesmo ele sendo bem mais alto.

- Certo, Shion... Ou agora devo começar a chamá-lo de senhor Leiylllian? – Perguntou com ironia. – Por que se me disse que esse amador sabe algo sobre pintura...

- Se achas conveniente, para mim está muito bom, por que só temos negócios, senhor. – Shion estreitou os olhos. – E não diga que Dohko não sabe ou não entende...

- Shion, deixe-o pensar o que quiser. Importa que ambos saibamos a verdade. – Dohko pediu-lhe. Nos olhos o brilho furioso. – Acho melhor você se retirar senhor, pois como Shion disse...

- Tenho boa audição! – Saga começava a perder a paciência. – Não posso ir ainda, tenho um comunicado. Consegui as passagens para a viagem, acho bom não faltar com sua palavra, pois está tudo certo de partirmos na segunda-feira pela manhã. – Sem esperar deu meia volta e deixou-os sozinhos.

Shion parecia ter levado um soco, não se movia, não tinha reação. Parecia perdido em pensamentos. – Você vai comigo não é? – Perguntou algum tempo depois.

- Não posso, Shion. Preciso me estabelecer na cidade, arrumar um emprego. Não posso depender de você para tudo. – Dohko estava com o semblante fechado e sério.

- Mas quando voltarmos você pode procurar algo, ou tentar a sorte com seus quadros. Você pode fazer uma vernissage comigo! – Sorriu.

- Não Shion, será melhor que eu não vá. Saga...

- Ele é pago para ser meu empresário, não decidir quem deve ou não ficar ao meu lado. – Shion começava a irritar-se.

- Sim eu sei, mas me entenda está bem? Vá nessa viagem, eu estarei aqui quando voltar. Fica melhor assim. Você já havia planejado tudo isso. – Acariciou-lhe o rosto e beijou-o carinhosamente.

- Dohko... – Estava contrariado.

- Shion, por favor. Siga como já estava programado, você esperava por isso. Eu ficarei por aqui a sua espera. Afinal não fica bem você levar consigo alguém que mal conhece.

- Não me importo com isso...

Dohko sorriu. Como ele era teimoso, mas aquilo fazia com que gostasse mais dele. – Ficamos assim, você vai para a Itália e quando voltar nos acertamos e assumimos nosso romance.

- Mas já assumimos! – Shion estreitou os olhos. O chinês balançou a cabeça e riu divertido. Era difícil não rir em uma situação como aquela.

- Shion, assumimos algo? – Dohko arqueou uma sobrancelha. Por dentro sentia vontade de rir, mas estava controlando-se, pois queria ver o jeito do outro.

- Não assumimos? – Os olhos violáceos arregalados. – Eu pensei, bem... Somos adultos, sabemos o que queremos. – Shion não conseguia desviar os olhos dos do chinês.

Abrindo um sorriso divertido, Dohko o abraçou e beijou-o. Afagou-lhe a longa trança. Os lábios separaram-se à procura de ar pouco tempo depois. – Estamos juntos sim. Eu estava brincando.

Shion balançou a cabeça de um lado para o outro e derrubou-o na areia com uma rasteira bem aplicada. – Não reclame! Você mereceu! – Mirou-o nos olhos com superioridade, que não durou muito, pois o chinês segurando-lhe pelos tornozelos desequilibrou-o fazendo com que caísse. A brincadeira só parou, pois quase derrubaram o cavalete com a tela na areia.

oOoOoOo

Dohko só conseguiu voltar para seu quarto, quando finalmente terminou de ajudar Shion a fazer as malas. Não que este não quisesse fazê-las, mas parecia não estar com mínima vontade. Separaram-se no corredor com o mais alto indo ter com a irmã para tratar de assuntos sobre a pousada antes de sua partida e o chinês seguindo até a frente de seu quarto.

Retirou sua camisa chinesa e as sapatilhas e começou a arrumar seu terno para mais a noite. Teriam um jantar de 'boa viagem' e despedida para o amado e não poderia estar vestindo algo amarrotado. Entrou no banheiro e tomou um banho demorado e quando saia deste com uma toalha enrolada na cintura, barulho na porta chamou-lhe a atenção. Vestiu rapidamente as vestes chinesas e foi abrir a porta fechando o último botão da camisa.

Arqueou a sobrancelha ao deparar-se com um mensageiro. Este lhe estendeu uma pequena bandeja de prata na qual um papel muito bem dobrado repousava. Pegou-o, agradeceu dando-lhe uma gorjeta e voltou para dentro, abrindo rapidamente o bilhete.

"Shion quer encontrar-me agora? Mas porque não veio me procurar?" – Pensou Dohko ajeitando a vestimenta, calçando as sapatilhas e saindo apressado.

Pedira para encontrar-se com ele na praia. Logo escureceria, assim o chinês apressou os passos para não demorar e fazê-lo esperar muito. Ao aproximar-se da praia, caminhou um pouco. Talvez Shion ainda não tivesse chegado. Estava distraído, parou um pouco apreciando o por do sol. Ouviu um barulho atrás de si, mas não voltou-se para olhar, pensara ser o amado chegando. No último minuto voltou-se lentamente. Arregalou os olhos.

- Você... – Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, sua boca e nariz foram cobertos por um tecido embebido em ópio, que o dopou facilmente.

- Eu lhe disse que seria fácil! – Encarou o ser a sua frente e sentiu-se como se estivesse a frente de um espelho.

- Devo admitir que você tinha razão, eu deveria tê-lo chamado antes. Agora vamos, temos de levá-lo para o local combinado.

- Sim. E você não se esqueça de pedir para que entreguem...

- Pode sossegar, Kanon. Arquitetamos esse plano juntos. Eu já subornei um dos mensageiros da pousada. – Sorriu satisfeito.

Jogaram o chinês no banco traseiro de um carro, cobriram com uma manta e voltaram para a pousada. Depois de amordaçar e amarrá-lo, deixaram onde o loiro mais velho tinha certeza que ninguém o encontraria tão rápido.

oOoOoOo

O dia mal havia clareado e Shion já estava em pé. Na verdade, ele mal havia conseguido pregar os olhos a noite inteira. Ainda não conseguia entender, ou mesmo acreditar no bilhete que recebera pouco antes de descer para o jantar de sua despedida.

- Dohko... – Murmurou ao olhar para a tela do nu artístico. Parecia que estava vendo-o ali, sentado pintando. O sorriso divertido, por vezes malicioso a iluminar-lhe o rosto bonito. – "Impossível! Dohko não é ganancioso, não se aproximaria de mim assim somente por minhas posses. Não condiz com tudo o que ele fez para me convencer que não iria para a Itália." – Pensou angustiado. Aquilo não estava batendo. Ele não se enganaria tanto. Estava custando a acreditar.

Suspirou pesaroso. Precisava trocar de roupa para ir encontrar-se com sua família. Talvez até já estivessem esperando-o, mas ainda era cedo demais, constatou ao checar o relógio. Bufou ao sentar-se na cama, massageou as têmporas. Voltou seus olhos para as malas prontas. Ele não entendia como havia conseguido mentir para a irmã e que está acreditara no que ele contara. Voltou a massagear as têmporas. Acabou por esquecer-se da hora perdido em seus pensamentos e quase se atrasou, não fosse pelo pessoal da pousada que fora buscar-lhe as bagagens e telas.

Ao finalmente chegar a mesa, não pode evitar torcer os lábios ao deparar-se com a vasta cabeleira loira. Como o empresário estava de costas, Shion teve tempo de disfarçar um pouco, mas seu tratamento com ele havia se tornado frio e impessoal.

Conversaram pouco a mesa, Helene parecia saber que algo não estava bem, mas não tinha como perguntar tendo Saga por perto. Sem oportunidade, ela esperou o melhor momento e este se apresentou quando abraçou o irmão para despedir-se.

- Não sei o que aconteceu, mas não se deixe abater. Se não quiser embarcar, não embarque. Damos um jeito de cancelar a vernissage por aqui. – Murmurou e beijou-lhe carinhosamente no rosto. – Estarei sempre ao seu lado.

- Eu sei Helene! – Sorriu agradecido e retribuiu ao beijo. Em seguida abraçou o sobrinho. – Te trarei um presente.

- Oba! – Kiki saltitou contente quando o tio o soltou.

- Vamos Shion, temos de chegar um pouco antes. – Saga já dentro do carro apressou-o.

Shion fuzilou-o com os olhos, entrou no carro e acenou para a família. Engoliu em seco ao lembrar-se de Dohko. Seguiu calado ao lado do loiro. Ao estacionar o carro no porto, Saga antes de descer voltou-se para olhá-lo.

- Escuta, se você está de mal com a vida por que foi abandonado por seu amante, não queira descontar em mim. Você tem de saber separar as coisas.

- Saga, vou dizer-lhe uma única vez, por isso espero que entenda de primeira. – A voz baixa e ácida. – Não se meta em minha vida particular. Nada além do profissional lhe diz respeito.

- Discordo, devo saber de tudo a seu respeito, pois sou pago para...

- Ser meu empresário, nada mais que isso. – Shion cortou-o e desceu do carro ajeitando melhor o paletó. Não queria se alterar mais e, evitou olhar para Saga, pois tinha certeza que o grego estaria espumando de raiva.

- Depois não reclame quando começar a ter dificuldades. Eu só quero o melhor para você.

- Sei me cuidar, sou adulto. – O olhar perdido em um ponto qualquer.

- Se é o que você acha, eu não vou tentar dissuadi-lo, não tenho tempo para ataques de ego.

- Eu quem tenho o ego inflado?

- Creio que podemos parar por aqui. – Saga estava irritado e tentava não demonstrar muito, sem sucesso.

- Pode ser.

O local de embarque estava lotado de gente. Malas sendo levadas à bordo, falação e gritos. O pintor começava a sentir-se atordoado. O loiro parou ao seu lado. Estava quieto e ficou assim por longos minutos.

- Precisamos deixar que os carregadores embarquem nossas bagagens e os quadros. – Saga falou ao acaso. Não se importava com os sentimentos dele, desde que continuasse a render lucros não se importaria mesmo.

- Não, ainda é cedo! – Shion proferiu. A voz séria, o olhar perdido em algum ponto da embarcação.

- Mas precisamos embarcar, Shion... – Saga virou-se e pegou uma tela.

Votando-se para o grego, com um safanão retirou-lhe das mãos o quadro. Nem prestou atenção em como era olhado com surpresa. Pegou a mala do empresário e colocou-a em suas mãos.

- Se está com tanta pressa, vá. Embarque, eu seguirei depois. – Shion mirou-o, os olhos estreitos, opacos e frios. Sentia ganas de voar-lhe no pescoço. – Vá, eu já disse. Tudo está pago. Lá dentro nos encontramos.

- E quem pensa que é para falar comigo assim?

- Sou a pessoa que te contratou. É uma ordem, Saga. – Sibilou friamente. O loiro nunca o tinha visto daquele jeito. Não o deixaria só. Sentia que alguma coisa não estava bem. Mirou os olhos violáceos e não conseguiu ver nada além das íris opacas, frias... O olhar de uma pessoa decidida.

- Vamos, Shion, quanto antes embarcarmos, melhor será. – Tentou convencê-lo a embarcar.

- Isso está se tornando muito repetitivo. Já mandei você ir na frente. Sei me virar sozinho já fizemos isso outras vezes. – Shion começava a se irritar, de novo.

- Você não quer mais ir, não é? – Perguntou. - Ao menos seja sincero consigo mesmo e comigo. - O pintor encarou-o sem expressão nenhuma. – Não acredito que é tudo por causa...

- Cale a boca, Saga! – A voz baixa e enrouquecida. – Vá... Saia de perto de mim. Se eu embarcar você saberá e, essa é nossa última viagem com você sendo meu empresário, pois é muito tarde para mudanças de planos.

- Não me faça rir, Shion. Fui eu que o descobri, fui eu que fiz você chegar onde está. Serei insubstituível! Sou o melhor no que faço. O melhor para você. – Era incrível como o ego do loiro podia ser enorme.

- Sim, você me descobriu, mas foi o meu talento que me impulsionou até hoje. De nada lhe adiantaria se eu não fosse bom o bastante. – Os olhos violáceos chispantes. – E ninguém é insubstituível. Vá, suba. A viagem está paga. Nos veremos lá dentro. – Reforçou. Desviou os olhos e começou a ignorar o loiro.

Para evitar continuarem chamando a atenção, Saga pegou sua mala e seguiu até a área de embarque. Deixou que o carregador pegasse sua bagagem e subiu pela prancha de acesso. Ao alcançar o convés procurou um local para poder ver se Shion embarcaria ou não, mas em meio a multidão não conseguia mais localizá-lo. Talvez fosse mesmo melhor. Não era de correr atrás de ninguém. Resolveu que poderia ir tomar um suco, um coquetel, qualquer coisa. Shion ia se arrepender.

oOoOoOo

Uma dor de cabeça insuportável, o cheiro de poeira e mofo invadindo-lhe a narina fizera com que acordasse. Tentou mover os braços e mãos e não conseguiu. Estava com as mãos e os pés amarrados. Conseguiu a muito custo virar-se um pouco, ficando de lado. Tentou livrar-se da mordaça, mas também nada aconteceu. Não fazia idéia de quanto tempo estava preso daquele jeito e naquele lugar. Por uma fresta sabia que o sol já brilhava lá fora e aquilo só contribuiu para que seu desespero aumentasse.

"Shion... O que será que disseram a você?" – Pensou arregalando os olhos.

Estava no meio de coisas muito antigas. Quando começava a desesperar-se ouviu o ranger da porta e passos. Tentou tirar a mordaça que o fazia ficar quieto, mas novamente a tentativa tornara-se frustrante e em vão.

Parando de se mover, prestou atenção e tentou ouvir melhor. Havia alguém ali junto com ele e, precisava de qualquer coisa para chamar-lhe a atenção. Olhando para os lados, avistou próximo aos pés um quadro grande e que aparentava ser bem pesado. Dobrando um pouco as pernas desferiu um chute na armação que caiu rapidamente fazendo um barulho alto.

Passos correndo rumaram para onde ele estava. Olhos brilhantes e curiosos mirando-o.

- Dohko... O que faz aqui? – Kiki perguntou e depressa, retirou-lhe a mordaça.

- Onde estou, Kiki? Saga me trouxe para cá. Me dopou. Solte minhas mãos, pequeno, por favor. – Pediu.

- Aqui é sótão da pousada. – Respondeu enquanto soltava-lhe as mãos. – Venho sempre me esconder aqui de mamãe. – O rosto traquina corado contrastando o com os cabelos vermelhos.

- Kiki, pode me dizer que horas são? Seu tio já foi? – Perguntou ao sentir o pequeno tentando desamarrar-lhe as mãos.

- É bem cedo... – Kiki respondeu. Seus dedinhos não conseguiam soltar o nó. – Tio Shion já foi.

Dohko grunhiu bravo. Saga conseguira. – Procure algo que possa cortar as cordas, Kiki. Olhe por ai.

- Está bem.

Enquanto esperava, o chinês pensava o que poderia ter acontecido e no que havia sido inventado para seu amado Shion, pois ele tinha certeza que o empresário deveria ter pensado em tudo.

- Achei algo, Dohko! – Kiki gritou ao longe.

- Venha devagar, pois não quero que caia e se machuque. – Pediu. Não adiantava correr mais, Shion aquela hora já estava dentro do navio.

Em pouco tempo, o pequeno livrou-o das cordas dos pulsos e tornozelos. Ficou de pé devagar e achou ao lado suas coisas. Saga havia fechado até sua conta. Pensara mesmo em tudo.

- Venha Kiki, me ajude com essas coisas. Vou precisar de um novo quarto. – Suspirou. – Mostre-me a saída, por favor.

- Claro, é por aqui.

oOoOoOo

Após contar a Helene tudo o que havia acontecido, ela insistira para que Dohko ficasse em um dos quartos na ala da família. A princípio ele recusou, mas depois foi vencido pela teimosia da mulher. Ficou sabendo sobre a mentira que haviam contado a Shion, que ele havia voltado para a China, mas não sabia Dohko que não fora bem àquela história. Acomodado novamente, após um bom banho e alimentado, o chinês saiu para espairecer. Passava das onze da manhã... Andou a esmo até chegar à praia. Tirou os sapatos e meias, subiu as barras da calça entrando na areia fofa.

Quando percebeu estava na praia, mas onde Shion gostava de pintar. O mar calmo, o céu azul misturando-se com as águas no horizonte. Deixou os sapatos para trás e seguiu até onde as ondas chegavam. Caminhou um pouco deixando que a água salgada lhe molhasse os pés. Voltou seus olhos para trás e viu as pegadas sumirem com a nova onda. Fechou os olhos e deixou que lágrimas lhe banhassem o rosto.

Perdido em sua frustração, em sua tristeza e angustia, Dohko deixou-se cair ajoelhado. Em sua cabeça, Shion tinha ido embora acreditando no pior. Pegou um punhado de areia com ambas as mãos e gritou extravasando sua raiva.

Esbaforido alguém parou atrás dele.

- Dohko...

A voz era inconfundível. Com um sorriso em meio às lágrimas, ele abriu os olhos e nem precisou voltar-se, pois lá estava ele bem a sua frente.

oOoOoOo

Muitos carros pararam a frente de onde Shion havia ficado. O pintor olhou mais uma vez para o navio da popa à proa. Viu quando um carregador aproximou-se e com um movimento de cabeça entrou dentro do Ford. Pediu para o moço girar-lhe a manivela e assim ligar o carro. Agradeceu assim que o ronco característico do carro foi ouvido, deu-lhe uma gorjeta e, devagar saiu com o carro tomando o rumo da pousada quando que se viu fora das ruas do porto.

Assim que colocou os pés no hall, uma chuva de perguntas pegou-o desprevenido. Ao saber que Dohko estava ali e que havia saído sem dizer nada, Shion quis ir atrás dele, mas Helene o segurou antes que cometesse algo que talvez se arrependesse pelo resto de sua vida. Fazendo-o sentar-se um pouco, contou sobre o seqüestro arquitetado por Saga e sobre ela ter a desconfiança de que o bilhete que ele recebera também se tratava de uma armação do empresário. Ao ouvir aquilo Shion pode entender muitas coisas. Precisava achar Dohko, precisava correr atrás de sua felicidade. Sem ouvir mais nada, e suposições de que nada lhe adiantariam mais, saiu apressado perguntando a quem via se tinham visto para onde o chinês havia seguido.

Pensativo, seu coração falou mais alto e seguiu para a praia. Quando estava chegando ao topo da trilha que o levava para seu esconderijo, escutou o grito e avistou Dohko de joelhos. Sem pensar desembalou a correr trilha abaixo e, em pouco tempo estava parando esbaforido atrás dele. A respiração alterada, a preocupação.

- Dohko... – Sem conseguir conter-se, deu a volta e parou a frente dele. A face molhada pelas lágrimas, o sorriso... Sentiu seu coração dar uma falhada no peito. Sem dizer nada caiu de joelhos a frente dele, abraçou-o apertado e beijou-o com exigência e ardor.

O chinês tentou dizer algo assim que teve seus lábios libertos, mas Shion não o permitiu..

- Sei que temos muito que conversar, mas não agora... Não aqui... – Levantou-se ajudando o outro. Pegou os sapatos de ambos, entregou os de Dohko e cingiu-lhe a cintura assim que este parou ao seu lado.

- Shion...

- Não diga nada meu querido. Vamos para a pousada. Lá, fora deste sol forte poderemos conversar. – A voz séria e serena.

Dohko concordou e voltaram para a pousada, indo direto para o quarto dele.

oOoOoOo

Não era de beber muito, mas precisava acalmar-se um pouco, assim quando um dos garçons do navio passou sobre si com uma bandeja com taças de champanhe, não pensou duas vezes e pegou um pouco da bebida borbulhante. Aproximando-se da grade de proteção, precisou procurar por um lugar onde conseguisse ficar sossegado, pois parecia que todos que embarcavam queriam um bom lugar para despedir-se dos que ficavam em terra. Quando finalmente conseguiu um lugar, encostou-se charmosamente na grade, apoiou-se no corrimão de madeira e olhou para baixo. Bebericou um pouco da bebida borbulhante e deliciosamente gelada e sorriu de lado. Se Shion pensava que ele iria desesperar-se com o que estava querendo fazer iria enganar-se.

"Ele pensa que pode ser alguém sem mim! Está muito enganado." – Pensou. Voltou seus olhos apenas por curiosidade procurando pelo teimoso pintor, mas por mais que tentasse não conseguia localizar Shion, ou mesmo o carro em meio ao formigueiro humano em que aquela parte do píer havia se transformado. Estreitou os olhos e finalmente conseguiu localizá-lo, mas tinha alguma coisa errada. Ele estava saindo com o carro e não embarcando.

Equilibrando a taça em uma mão, seguiu rápido como um felino, desviando como podia das pessoas. Tentava chegar à prancha de embarque, mas ao passar atrás de um dos dutos de ar, foi empurrado, a taça caiu de sua mão espalhando o finalzinho da bebida pelo convés. Tentou soltar-se, mas não conseguiu, sendo obrigado a seguir pelas escadas. Mãos fortes lhe seguravam como garras pela cintura.

- Mas o que diabos... – Praguejou tentando novamente soltar-se.

- Hombre...

Ele conhecia aquele timbre de voz. Arregalou os olhos e tentou voltar-se para olhá-lo. Não conseguiu.

- Fique quieto, grego... Usted no quer chamar a atenção de todos, no é? – A voz máscula, o forte sotaque espanhol fazendo com que todos os pelos do loiro se arrepiassem.

- O que está fazendo aqui? – Saga parou no meio do corredor que haviam alcançado, livrou-se das mãos e braços fortes, virou-se e encarou-o. Estava bravo com Shion e estava descontando no bonito espanhol.

- Mira... Usted achou que se livraria tão fácil de mim? – Sorriu dando alguns passos na direção dele. O loiro alto o enfeitiçara. Estava caído pelo charmoso grego. – Sabes que falas dormindo... Eu no vou te deixar escapar, angelito... – Tocou uma mexa de cabelo do grego e, sem esperar puxou-o para si abraçando apertado, beijando-o com ardor e sofreguidão. Enquanto deslizava as mãos pelas costas e nádegas apertando, cravando as unhas ia o empurrando pelo corredor.

Rapidamente virou-se para que ele não fugisse e imprensou-o contra uma porta. O barulho alto e o gemido de dor escaparam pelos lábios do mais alto. Shura não se importou, mordeu-lhe o lábio inferior, abriu os olhos devagar deixando que um sorriso malicioso surgisse nos lábios. Colocou uma perna entre as de Saga e sentiu-lhe a virilidade. Abriu mais o sorriso ao ouvir o arfar do loiro. Voltou seus olhos para o numeral de identificação da cabine e pegou as chaves do bolso da calça. Balançou a chave ao lado do rosto de ambos.

- Chegamos, grego... – E sem esperar, que o outro dissesse alguma coisa, abriu a porta e empurrou-o para dentro, bateu a porta com um dos pés e caiu na cama junto com Saga.

- Você é louco...

- Sí... Louco por ti... – E calou-o com um beijo exigente. Apertões, gemidos e arfares misturavam-se enquanto as roupas iam sendo atiradas para fora da cama. – Vai ficar comigo?

- Você vai ficar comigo... – A voz rouca, sedutora e baixa. Por que lutar contra um espanhol lindo como aquele?

- Loiro... No importa... De qualquer modo usted no fugirá mais de mim.

- Ora, cala-se e me beije logo! – Saga o puxou para si e tomou-lhe os lábios.

oOoOoOo

Sentado na poltrona a frente de Shion, que permanecia em pé, Dohko sentia-se observado. Estava inquieto e impaciente e o silêncio entre os dois não ajudava em nada. Apesar de tudo ainda precisavam conversar e, aquele silêncio sepulcral em que haviam percorrido o caminho de volta para a pousada e ainda se encontravam deixara-o um pouco receoso.

- Escuta Shion... – Começou. – Eu não sei o que inventaram a meu respeito, mas vou entender... – Foi obrigado a parar de falar, pois surpreendera-se com a atitude do ser amado. Ajoelhado entre suas pernas, Shion segurou-lhe fortemente as mãos e mirou-o nos olhos.

- Dohko, não diga nada. – Pediu soltando uma deu suas mãos e o tocando delicadamente no rosto. – Helene já me contou o que você passou. Eu já deveria ter percebido que tudo o que Saga mais temia era ficar sem sua 'mina de ouro'. – Ao vê-lo abrira boca, acariciou-lhe com o polegar os lábios contornando lentamente os traços bonitos. – Deixe-me terminar. Não pensei que ele chegaria a tanto. Nunca imaginei que ele pudesse querer me separar de quem amo com medo de que eu deixasse de pintar, ou sei lá o que ele pensou que eu faria. Eu fui um cego por não ter visto antes e com isso você teve de sofrer as conseqüências. Perdoe-me...

Sem dizer nada o chinês soltou a mão que ainda estava entre a do outro. Ergueu-lhe delicadamente o rosto e lentamente aproximou seus lábios dos dele.

- Itooshi... (Amado) – Ao vê-lo sem entender, sorriu e repetiu em sua língua para que pudesse entender. - Amado... Você não tem que pedir desculpas, perdão por nada. – A voz baixa. A segurança voltando e os lábios muito próximos dos dele. – Você não tem culpa das loucuras cometidas por seu empresário.

- Ex... Não é mais. – Shion o cortou para dar-lhe aquela informação.

- Bem... Que seja! Você não me deve nada. Vamos esquecer isso e começar de onde paramos. – Beijou-o carinhosamente. Os dedos enroscando-se nos longos fios de cabelos. Separou-os abruptamente, olhou-o nos olhos. – Você deveria ter embarcado, pelo que pude entender essa viagem lhe era muito importante.

- Outras viagens virão. Já um amor verdadeiro não chega à toda hora. – Acariciou-lhe o peito enquanto ia abrindo os botões da camisa devagar. – Eu não sei quando, nem o exato momento, mas sei que sinto algo muito forte por ti.

Dohko baixou os olhos. Sabia o que Shion sentia, pois sentia o mesmo que ele. Estava apaixonado, ou melhor, estava amando. Aproximou seu rosto do dele e deu-lhe um leve beijo, apenas para sentir a textura dos lábios do amado. Ah! Como o amava.

- Eu amo você! – Murmurou antes de beijá-lo e habilmente começar a despi-lo.

Ao ouvir aquela declaração, Shion sentiu seu coração bater acelerado no peito. Correspondeu ao beijo com ardor e desejo. Quando seus lábios separaram-se, um sorriso quase infantil surgiu iluminando-lhe mais o rosto bonito.

- Eu também te amo! – Murmurou beijando-o diversas vezes antes de aprofundar o beijo. Puxou-o para si assim que conseguiu ficar em pé, tomou-o nos braços e apertou o abraço, seus corpos desejosos por um maior contato, os movimentos, o jogo da sedução... Enquanto empurrava-o para a cama, as peças restantes de roupas foram sendo lançadas longe.

Sem prestarem atenção, acabaram por cair na cama. Riram juntos, mas a atração, o desejo e o amor naquele momento os dominavam e sentiam urgência por estarem juntos, sendo um só.

oOoOoOo

Esparramados entre os lençóis, Dohko sorriu ao sentir os cabelos de Shion fazerem cócegas em seu peito nu ao mover-se.

- Já acordou? – Perguntou baixinho ao acariciar-lhe as costas.

- Já... – Ronronou em resposta. – Estava sonhando e não queria despertar, mas seu medalhão enroscou em meus cabelos ao mover-me puxando algumas mechas. Posso tirá-lo pelo menos enquanto isso? – Perguntou acariciando-lhe o tórax lentamente.

- Claro que pode tirar. – Murmurou, sentindo os dedos do amado deslizando por seu peito e abrindo o fecho da corrente. Sorriu de lado ao ver Shion colocando a corrente no próprio pescoço. – Perfeito. – Acariciou-o no rosto. – Mas então, pelo visto o sonho era bom, não é? – Questionou, estava curioso. Abriu um sorriso radiante ao ser brindado com o olhar violáceo, sedutor e brilhante.

- Sim. Era, mas nada comparado a estar em seus braços. – Ronronou. Seus olhos curiosos recaíram sobre a maleta de tintas com aspecto antigo, mas desviou os olhos para Dohko. – Estava pensando... Poderíamos trabalhar juntos. Acredito que junto não precisaremos depender de ninguém.

- Entendo. Podemos fazer isso, mas para que dê certo preciso pintar alguns quadros e achar compradores. Mas não tenho tudo o que preciso...

- Eu posso ajudá-lo, tenho telas, podemos comprar mais e... – Parou de falar ao ver o modo que era encarado. – Calma, calma! Você me devolve assim que começar a receber por suas telas, melhor assim? – Perguntou dando-lhe um leve beijo nos lábios.

- Está bem! Você venceu, eu aceito sua ajuda, mas assim que receber pela primeira tela vendida começarei a pagar por tudo.

- Então, vamos já começar a fazer uma lista do que precisa. – Estava eufórico.

- Shion, não precisa ser agora. – Protestou.

- Ora, não seja chato... Temos o resto de nossas vidas para ficarmos juntos. Pegue sua mala... É ela ali não é? Vamos, pegue-a. - Insistiu.

Dohko olhou-o no fundo dos olhos com uma sobrancelha arqueada, mas não adiantava falar que não pegaria, o teimoso acabaria por vencê-lo.

- Está bem... – O chinês esperou que Shion sentasse ao seu lado para também fazer o mesmo. Esticou-se um pouco e puxou sua mala. Era antiga, escura e com dois fechos de metal. Abriu-a lentamente.

- Vamos, Dohko... Quero ver suas tintas. Quero saber se usamos a mesma marca e... – Parou de falar ao ver as bisnagas de tintas. Havia alguma coisa errada... Suas tintas não eram daquele jeito. As dele eram todas de vidro e, com a curiosidade aguçada, pegou uma na mão.

Dohko arregalou os olhos. A lembrança de não poder levar nada do presente para o passado caiu-lhe como uma bomba. Pegou a bisnaga de tinta na mão e, deixou-a cair na maleta. Sentia-se mal... Uma tontura. Precisou fechar os olhos.

- Dohko... O que foi? Não está sentindo-se bem? Dohko... – Shion o chamou ao vê-lo perder a consciência e escorregar o corpo pela cama. – Dohko... – Diante de seus olhos o amado parecia estar sumindo lentamente. – Dohko! O que está acontecendo? Acorde... Fique comigo!

Sem respostas viu o amado sumir diante de seus olhos. Só então reparou na marca das tintas e observando melhor, notou o ano de fabricação, Fevereiro de 1990 e a data de validade, Fevereiro de 1991.

oOoOoOo

Quando finalmente abriu os olhos, Dohko olhou para todos os lados e reconheceu o local, tudo estava como antes, mas faltava alguém... Arregalou os olhos ao sentir falta da presença querida. Onde estava Shion? Só então lembrou-se das tintas. Fechou os punhos fortemente e só não gritou pois conteve-se.

- Oh, Shion! Me desculpe. – Murmurou. Os olhos rasos de lágrimas. – Como fui estúpido ao levar minhas coisas de pintura para o passado. – Praguejou. Sabia que precisava volta para ele. Voltar ao passado, mas primeiro tinha de chegar até seu quarto. O problema é que estava totalmente nu e sem a chave.

Sentia seu corpo pesado, cansado, mas precisava levantar-se de qualquer modo e ver se encontrava alguma coisa naquele quarto. Como pode saiu da cama e vasculhou o guarda-roupas, depois as gavetas da cômoda e ao abrir a última gaveta estacou surpreso. Conhecia o que estava lá dentro. Seu paletó que havia ficado para trás em 1919. Ao mexer, percebeu que no bolso interno do casaco havia um envelope amarelado. Pegou-o com calma e o abriu devagar para não estragar nada. Sentou-se lentamente e soltou um gemido dolorido. Realmente fazer aquilo desgastava muito o corpo, não só mental como fisicamente. Começou a ler a missiva e as lágrimas rolavam por seu rosto livremente. Dohko precisou ler e reler a primeira parte da carta umas três vezes.

'Querido Dohko,

Espero que esta carta, assim como suas roupas cheguem as suas mãos. Proibi terminantemente que esse quarto fosse usado, sendo somente limpo. Se está lendo essa carta, meu sobrinho seguiu a risca as instruções que deixei para ele antes de morrer.'

Dohko parou de ler, sentiu seu coração falhar uma batida. – "Oh Shion!" – Pensou angustiado voltando a ler.

'Não sabes o quanto sofri quando desapareceu em minha frente. Se não tivesse visto com meus próprios olhos, diria que estava louco. Mas demorei a entender o que de fato havia acontecido e, o que elucidou mais, foi ler o livro do escritor e professor Radamanthys. Mas não vem ao caso e isso não importa.

Sinto sua falta, sinto muito sua falta... Volte para mim, Dohko! Estou lhe esperando!

Com amor,

Shion'

Suspirando pesarosamente, Dohko levantou da cama e vestiu a roupa antiga. Pegou a carta, guardou-a com cuidado e saiu do quarto andando devagar, a fadiga e o cansaço lhe atrapalhando. Ao passar pela porta do quarto de Kiki, não percebeu que pela fresta este lhe observava. Ele sabia muita coisa, mas não podia meter-se, havia prometido ao tio que não faria nada.

Com a blusa aberta alguns botões o chinês chegou a recepção e, apesar dos olhares curiosos para si, conseguiu inventar que havia perdido sua chave e que precisava de uma cópia para poder entrar em seu quarto. Após algumas formalidades já estava em seu quarto e só então percebera que de todos os dias que havia ficado no passado, no presente somente algumas horas haviam sido decorridas. Deitou-se na cama e em seu total desespero ficou com a carta no bolso esquecendo-se de deixá-la em outro lugar. Concentrou-se, mas não conseguia lembrar a hora exata para retornar ao passado ao mesmo dia que havia desaparecido. Sabia muito bem que não poderia voltar no mesmo dia que da primeira vez, e começava a entrar em desespero errando até mesmo a data. O cansaço contribuía para isso e ele sabia que daquela maneira, tão cansado não conseguira voltar.

- Preciso voltar... Shion está me esperando. – Murmurou quase sendo vencido pelo sono e a exaustão. – Estou tão exausto, não pensei que ficaria tanto assim. Mas oh... Eu nem pensei que voltaria. – Os olhos se fechando, o cansaço o vencendo. – Shion, tenha paciência... Muito em breve estarei com você. – Dohko murmurou antes de passar para um sono pesado.

oOoOoOo

- Tem certeza que não quer mais ficar aqui conosco? – Perguntou-lhe Kiki. Bebericou um pouco do chá, colocou a xícara sobre o pires a mesa e mirou-o nos olhos.

- Sim, tenho. Preciso voltar para meu atelier e minhas telas. Já fiquei mais do que poderia. – Dohko respondeu-lhe. A voz fria e quase sem sentimentos. Não conseguia esconder seu desapontamento e sua tristeza.

- Sei que prometi a ele, mas acho que você tem o direito de saber. – Falou decidido, conseguindo despertar-lhe o interesse. – Sei de tudo... Sei que você foi o grande amor de meu tio.

Dohko arregalou os olhos e tentou falar, mas a voz parecia lhe faltar.

- Não precisa dizer nada. Sei que quer saber por que fiquei quieto todo esse tempo. Simples, por que Shion me pediu.

- Mas não é justo, era só ele ter me procurado antes. – Dohko cortou-lhe. – Eu... Eu teria...

- Você teria feito o que? – Perguntou Kiki encarando-o pesaroso. – Ora não seja bobo, você não o conhecia ainda, acharia que ele era um louco. Você só o conheceu mesmo quando conseguiu voltar para o passado. Isso não é um dejavù! Não se repete, só acontece uma vez. Vocês são almas gêmeas que por uma triste ironia do destino não puderam ficar juntos. Não nessa vida...

Dohko baixou os olhos. – Ele deve ter sofrido muito. – Suspirou. Havia tentado voltar para junto de Shion varias vezes, mas não conseguira.

- Sim, ele sofreu muito, assim como você está sofrendo agora. Mas quer um conselho? – Perguntou e ao vê-lo aceitar, prosseguiu. – Viva sua vida aproveitando cada minuto como se este fosse o último, foi assim que meu tio viveu. Faça como ele, eu tenho certeza que ele de onde estiver vai estar feliz com sua atitude.

- Eu tentarei, Kiki. – Respondeu o chinês. – Bem, agora preciso ir. A estrada me aguarda. Muito obrigado por tudo. – Abraçou-o e levantou-se.

- Espere Dohko, tenho algo para lhe dar e, acho que ficarão melhor contigo. – Kiki pegou duas molduras e entregou-as para Dohko.

Ao ver os quadros, o nu de Shion e a praia, onde ele aparecia, arregalou os olhos. – Eu não posso ficar. Não seria correto.

- Não vou aceitar essa sua resposta. Estou lhe dando e tenho certeza que era isso que meu tio iria querer. Não me faça essa desfeita. – Pediu.

Dohko sorriu entristecido e aceitou os quadros. Colocou-os com cuidado no banco traseiro de seu carro e voltou-se para o velho.

- Volte quando puder e quiser.

- Tentarei, Kiki. – Sorriu, deu-lhe um abraço e entrou no carro. Em pouco tempo deixava a pousada para trás.

Retomando sua vida, Dohko demorou um pouco para voltar a produzir novas telas, trocou de empresário e, chamou o amigo Afrodite para assumir o lugar vago. Este não só aceitou o convite como deu uma nova guinada na vida profissional do chinês.

Ele podia ser alguém conceituado no mundo das artes e ter tudo o que quisesse, mas sentia-se incompleto. Havia voltado a fechar-se em seu mundo. Por mais que tentasse, Shion estava sempre presente em seus pensamentos e em seu coração. Nada que Afrodite dissesse ou fizesse mudaria isso. O amigo era o único que soubera de toda a verdade.

oOoOoOo

A bengala afundou um pouco na grama fofa, assim como os lustrosos sapatos negros. Na mão direita rosas... Sabia aquele caminho de cor e passava por todos aqueles mausoléus e lápides como se passasse por lojas ou pessoas desconhecidas e sem atrativos. Não lhes dirigia um olhar sequer.

Parou a frente de uma lápide já há muito sua conhecida. Fincou a bengala no gramado usando-a como apoio e ajoelhou com dificuldade. Depositou as rosas a frente da lápide lentamente tomando o devido cuidado para não cair. Tirou com um peteleco folhinhas caídas sobre a parte de cima e voltou seus olhos para os dizeres. Nem seria necessário, pois sabia o que lá estava escrito. Suspirou.

- Olá Shion... É itooshi, não sei por mais quanto tempo agüentarei vir visitá-lo aqui. – Apoiou-se melhor na bengala. – Já não sou mais tão novo e sinto que em breve, muito em breve me encontrarei com você. – Fez uma pausa. – Fiz o que seu sobrinho disse que você fez... Vivi minha vida intensamente. Espero que estejas satisfeito. – Suspirou. – Sinto sua falta. Sei que sabes, pois é o que mais lhe digo quando venho aqui...

- Senhor Shinyang, precisamos ir, a vernissage. – Uma voz às costas do pintor chamou-lhe a atenção.

- Já estou indo, Aquiles, sei que Afrodite, aquele velho babão, fez com que você não me deixasse esquecer ou perder a hora. – Bufou ao levantar-se devagar. Limpou como podia a calça na altura dos joelhos e olhou para o motorista. – Sabe de uma coisa, Aquiles, ainda não sei como não despedi Afrodite, aquele velho fica mais rabugento e cheio de histórias a cada ano que passa. – Voltou seus olhos para a lápide. Fez uma prece, deu meia volta e com um rápido olhar despediu-se, talvez pela última vez. – Até breve, itoshii.

Deu as costas e seguiu para o carro. Aquiles ajudou-o a entrar, fechou a porta e após acomodar-se no banco do motorista saiu devagar com o carro negro.

oOoOoOo

Preparando-se para ir dormir, Dohko olhou pela janela de seu quarto. O céu noturno estava estrelado, a lua cheia iluminando com sua claridade bruxuleante. Suspirou. O barulho dos carros na rodovia lá embaixo não lhe incomodavam mais, mas naquela noite em especial, no silêncio de seu aconchego, o chinês conseguia ouvir a tudo muito bem.

A vernissage havia sido perfeita, mas ele saíra mais cedo. Não agüentava mais ficar entre muitas pessoas. Fazia aquilo por que Afrodite achavam que deviam fazer, mas já estava cansado demais. De tudo aquilo. Lembrou-se da tarde no cemitério e do que havia dito ao amado. Sorriu de lado. Deitou-se na cama, a janela aberta deixando a brisa noturna e o barulho da cidade grande entrar por ela.

Fechou os olhos desejando dormir logo. Em silêncio achou estranho que do nada a brisa noturna parecia lembrar-lhe a brisa soprada do mar... Estava a quilômetros de distância da praia. O cheiro levemente salgado de maresia invadindo-lhe as narinas. O barulho dos carros sumindo dando lugar ao de gaivotas e das ondas do mar batendo nos rochedos...

Seagull carry me, over land and sea

Gaivota, conduza-me sobre terra e mar,
To my own folk, that's where I want to be

Até minha própria gente, é lá onde quero estar.

Estava sonhando.


Every beat of my heart

Cada batida do meu coração
Tears me further apart

Me rasga ainda mais em pedaços.

O coração batendo mais devagar... Um leve sorriso nos lábios. A respiração calma, lenta... O escuro...

I'm lost and alone in the dark

Estou perdido e sozinho no escuro,
I'm going home

Estou indo para casa...

- Shion... – Murmurou dando o último suspiro. Novamente o escuro, a solidão, o frio... Do nada um clarão, uma luz ofuscante e um calor gostoso, cálido...

O sol ao nascer deixando o horizonte límpido, claro de encontro as águas do mar... Protegeu os olhos da claridade. Piscou-os várias vezes até que eles se acostumassem com a claridade. Protegeu novamente os olhos ao olhar para o céu. Gaivotas davam seus rasantes sobre o mar. Deu alguns passos sentindo a areia fina da praia sob seus pés, voltou seus olhos para baixo e arregalou-os. Até aquele momento estava em seu quarto. Arqueou a sobrancelha e sorriu como um bobo... Estava jovem novamente, mas como aquilo? Seria brincadeira do destino? Ou os deuses queriam lhe pregar uma peça? Balançou a cabeça e reconheceu ao longe um caminho entre as pedras... Seria possível?

Caminhou devagar até o começo da trilha e parou olhando para o mar. Aspirou bem fundo aquele ar puro e voltou a caminhar.

"O que será isso? Eu tenho certeza, isso não é o inferno..." – Pensou. Até mesmo seu bom humor havia regressado.

Ao terminar de subir pela trilha voltou seus olhos para o mar novamente. Ali era lindo, entendia perfeitamente por que Shion gostava tanto do mar e de estar naquele lugar. Sorriu abertamente... Estava mesmo na praia onde Shion gostava de pintar. Voltou seus olhos para a areia... Mordiscou o lábio inferior ao ver uma cena peculiar. Sem se importar, correu pela trilha. Ao longe os cabelos longos e esverdeados agitavam-se um pouco com a leve brisa marinha. O pincel firmemente seguro pelos dedos longos, os mesmos que lhe davam tanto prazer.

Estava sonhando e, se era um sonho não queria jamais acordar. Se aquilo era o céu ou não, para ele seria para sempre o seu "céu", pois ali estava encontrando novamente sua felicidade, seu coração... Seu amor... Seu ar e a razão de viver.

Assim que chegou a praia e próximo a ele, começou a caminhar lentamente. Parou atrás dele e por sobre o ombro observou a pintura. – Está perfeita, mas eu faria um sombreado perto das rochas... – A voz levemente rouca.

- É... Tem razão! – Respondeu-lhe Shion ao virar-se lentamente e mirá-lo nos olhos. As íris violáceas brilhando tão ou mais que as verdes que o contemplavam com carinho, amor... Saudades... – Eu o estava esperando! – Sorriu ao levantar-se do banquinho e parar a frente dele. Parecia que o tempo não havia passado e que estavam vendo-se pela primeira vez... Jovens!

- Demorei um pouquinho, mas aqui estou.

- Sim, está aqui... É o que importa... Somente eu e você para todo o sempre!

Dohko tocou-o delicadamente na face. Queria ter certeza que não estava sonhando. Observou-o melhor... Parecia que não haviam se passado tantos anos... O amor que um nutria pelo outro podia ser visto em ambos os olhos... A chama eterna ainda brilhava e aquecia-os.

Shion fechou os olhos ao sentir o toque sobre sua pele. Ele ansiara por aquele toque noites a fio, dias a fio e agora que estavam juntos para todo o sempre estava sem ação. Não sabia o que fazer. Abriu os olhos devagar a tempo apenas o suficiente de vê-lo se aproximar mais.

Sem esperar, o chinês abraçou-o apertado, não desviou o olhar dos dele, não até eles se fecharem quando os lábios se tocaram. O amor verdadeiro sobrevive há décadas, anos e até mesmo vida e morte... É infinito!

Close your eyes, give me your hand, darling

Feche seus olhos, me dê sua mão, querido.
Do you feel my heart beating?

Você sente meu coração pulsando?
Do you understand?

Você compreende?
Do you feel the same?

Você sente o mesmo?
Am I only dreaming?

Estou apenas sonhando?
Or is this burning an eternal flame?

Isto que está ardendo é uma chama eterna?

Fim...


N/A.:

É isso ai meninas. Eu consegui fazer a fic! Quero agradecer novamente a minha querida amiga Eliz (Shiryuforever) por ter me dado toques quando eu achava que o geminiano totoso estava descaracterizado. Por me dar uma dica sobre o lemon e por aturar meus surtos malucos da fic quando as idéias clareavam.

Relendo a fic, ao chegar na parte do sequestro, lembrei-me de fazer juz a uma amiga que muito me ajudou dando a idéia de como dopar o Dohko com ópio... Nana Pizani... Querida, devo-lhe desculpas... Em minha agonia de postar esqueci de lhe agradecer por ter escutado meus surtos e me ajudado. Muito, mas muito obrigado.

As músicas... O nome da fic Eternal Flame vem da música de mesmo nome do grupo Bangles, vale a pena ouvir, é muito bonita. A que aparece um trecho na transição de Dohko Old para o Dohko Young é do Rod Stewart e chama Every beat of my heart. Também recomendo que ouçam. As traduções não são minhas, vieram direto do Cifra Club.

Devo confessar que essa fic foi a que me deu mais dores de cabeça para terminar, pesquisei muita coisa, procurei outras tantas, mas consegui terminar e, o melhor, no prazo. Mas foi a que eu mais gostei de fazer. XD

Obrigado para quem teve a paciência de chegar até aqui. E lembrem-se!

Cliquem no botãozinho simpático ali embaixo. *piscadela*

Beijos

Theka Tsukishiro