Através da Janela
Por Mili Black

2) Encontro de Corações X A agonia dele X A impotência dela


Era... Ele.

O garoto dos seus sonhos.

Os olhos de Rukia arregalaram-se totalmente, dilatando suas pupilas.

Ela colocou suas mãos com força em cima do patente da janela e pôs sua cabeça para fora, estreitando os olhos.

É ele? Não, não é ele... – Então, Rukia viu o jovem focar-se em seu rosto, ainda com uma mão em seu pé, com uma sobrancelha arqueada. Porém, a expressão curiosa e surpresa do ruivo não disfarçaram a tristeza que havia em seus olhos, e ela percebeu. – Esses olhos... São inconfundíveis... - É... Ele!

De repente, seu olhar se tornou ameno, e passou-lhe a observar melhor. As mesmas roupas pretas, como ela havia sonhado, o mesmo cabelo laranja e arrepiado, os mesmos traços fortes do rosto, o mesmo corpo magro e alto...

Ela ergueu a mão delicada, e acenou para o rapaz encostado na árvore.


O de cabelos alaranjados arqueou uma sobrancelha, curioso e surpreso. Claro, não esperava encontrar logo uma garota que aparentava ter catorze anos, no máximo, olhando para ele tão fixamente.

Ele mal conseguia vê-la, falando a verdade. Via apenas as alças de seu vestido, seu colo, seu rosto e seus braços, mas a distância estava grande para poder reparar mesmo no olhar dela.

A viu esticando mais o corpo, e a continuar o observando.

O ruivo desviou o olhar por um momento, nervoso, mas logo se focou na jovem novamente.

O que havia de tão interessante nele?

Ah, já sei... Ela estar reparando o quanto sou imundo. – Pensou, amargamente. Então, ele a olhou com frieza. Apostava sua vida que ela não estava vendo sua expressão facial, de tão longe que estava. Mas, mesmo assim... Lançou o olhar gelado, talvez, ela o deixasse em paz.

O que ele não sabia, é que na verdade, ele não estava tão longe assim dela.

Ignorando completamente a jovem, ele mexe o nariz. Estava louco para se picar novamente, injetando a deliciosa heroína diretamente na veia. Era tão boa a viagem que acontecia quando ele fazia isso... Todos os seus problemas pareciam ter acabado num estalo relaxante.

Engraçado... Tudo ficou tão quente...

O mesmo comenta consigo mesmo, escorando a cabeça na árvore novamente, fechando os olhos e suspirando profundamente.

Do frio lastimável que sentia, passou para um calor atordoante.

Como ele queria se picar agora...

Seu peito subia e descia com rapidez, pegando oxigênio pela boca. O ar frio entrava de forma cortante garganta a baixo, fazendo apenas piorar a situação. Gotas de suor começaram a descer pelo seu corpo, enquanto começou a sentir uma forte dor na cabeça.

O rosto e pescoço do garoto estavam avermelhados, com as veias de seu corpo pulsando intensamente e ficarem mais roxas que o normal. Sua barriga começou a contrair-se, e depois movimentar-se, como se houvesse algo dentro dela, o que era muito dolorido.

E ele ficou em dúvida de qual lugar doía mais.

O garoto optou pela barriga, levando as mãos rapidamente para lá, se jogando na areia. Ficou em forma de concha, segurando sua barriga fortemente, enquanto se contia para não gemer de dor.

Respirar começou a doer...

Rukia, vendo toda a situação por cima, arregalou os olhos.

O que é isso?

Então, o sonho voltou a sua mente novamente...

... Ele precisava dela!

Assim, a garota totalmente angustiada, ficou na ponta dos pés e sentou no para peito da janela. A mesma colocou as pernas para fora, e observou a distância entre o lugar que estava e o chão.

Nada demais...

Ela simplesmente pulou, caindo de cócoras no chão. Logo se recompôs, e correu em direção ao ruivo, manchando seu vestido branco.

Nessas horas é que ela gostaria de agradecer ao seu irmão por tê-la feito lutar Kong Fu.

Caminhou rapidamente até o ruivo, com preocupação. Ela, no desespero, se jogou de joelhos no chão perto do rapaz, colocando uma mão sobre o ombro do mesmo.

A morena se retrai um pouco, ao perceber o quão gelado e trêmulo ele estava.

- Hey! Me fala o que está acontecendo! – Rukia grita a pergunta, sentindo o peito apertado ao vê-lo nessa situação. – Oe!

A situação que rapaz se encontrava não era nada boa.

Agora, seu corpo inteiro se encontrava manchas vermelhas, como se ele houvesse sido queimado em vários pontos de seu corpo. O estômago do mesmo continuava a se contrair e se expandir, como se houvesse algo dentro lá dentro tentando rasgar sua pele por dentro para poder se libertar. As veias de seu corpo continuavam ressaltadas, e ele podia jurar que sua cabeça iria explodir em segundos.

- AAAAH! – Sem conseguir se conter mais, ele solta um grito de puro sofrimento, cortante, assustando alguns pássaros que dormiam tranquilamente em seus ninhos. – Iss-so dó--AHHH!

Rukia o olhou assustada, sem saber o que fazer.

O ruivo sabia o que era isso, claramente. Era a reação do seu corpo quando ficava mais de um dia sem se drogar.

Bolhas de calor começaram a se formar em seu pescoço, e as mesmas coçavam tanto que chegava a doer, o que não fazia tanta diferença assim no final de tudo.

A de olhos azuis dali tinha um olhar de pânico e impotência, além de extrema surpresa. Os olhos azuis estavam perdidos na agonia do rapaz, e sem poder evitar, um sentimento de culpa a invadiu.

O de cabelos laranja abre os olhos com dificuldade, ofegante. Sua visão estava embaçada. Ele tira uma das mãos que estava em sua barriga e a leva até seu pescoço, coçando tão violentamente que chegou a ferir.

Mais um gemido de dor.

E tal gemido de dor, que se fundiu com o trovão azulado que cortou o céu rapidamente, iluminando a face desesperada da morena.

A mesa continuou o olhando, sem poder fazer mais nada.

O via ali, se contorcendo de dor, no chão...

Ela abaixou a cabeça tristemente, deixando que sua franja cobrisse seus olhos, e uma sombra negra escondesse seu semblante.

- Como no sonho... – Rukia fechou os olhos com força, ao escutar outro gemido do rapaz. – Eu não posso fazer nada... – A voz da garota saiu um pouco embargada, apertando o tecido branco e sujo de sua camisola firmemente. -... Me desculpe. Tudo o que eu posso fazer, é ficar observando, até a dor passar. – A mesma mordeu seu lábio inferior rudemente, machucando-o. – Eu sei que vai passar.

Terminada essas palavras, começou a chuviscar.

As finas gotas de chuva caíam com rapidez no chão, fazendo o seu típico barulho. O lugar foi coberto por uma frieza abafada, juntamente com um vento forte quente balançavam as folhas das árvores ruidosamente, formando uma visão um tanto assustadora.

Rukia, se encontrando em baixo da árvore juntamente com o rapaz, ambos estavam protegidos da tal chuva, com apenas uma gota ou outra caindo naquela área quando as folhas se balançavam.

A garota não soube quanto tempo exato se passou, enquanto observava a agonia do rapaz.

O de cabelos laranja suspirou aliviado, quando sentiu a dor na sua cabeça sumir, e a dor em seu estômago amenizar. Retirou as mãos na barriga e colocou uma no chão, se apoiando.

Ele estava ofegante ainda, respirando com dificuldade, porém era para controlar sua respiração, e se acalmar. Estava, no final, tudo bem.

Rukia continuou a olha-lo, dessa vez com surpresa. Ele estava bem...

Ele está bem!

-Você está bem?! – Perguntou, com preocupação no olhar.

O rapaz a olhou surpreso, com as marcas de gotas de suor pelo seu rosto.

Ela estava aí o tempo inteiro? Ela viu... Tudo?

- Você viu? – Ele perguntou, olhando diretamente para a garota a sua frente. Sua expressão facial transmitia cansaço, abandono, e principalmente vergonha.

Vergonha por uma pessoa ter o visto naquele estado lastimável de tortura, de dependência, de fraqueza, de fragilidade...

... É, agora o que restou de sua dignidade, foi jogado no lixo.

- Vi. – Rukia respondeu, com sinceridade.

Ele abaixou a cabeça, fazendo sua franja arrepiada e alaranjada sombreasse seus olhos.

Um sorriso melancólico brotou nos lábios do rapaz, fazendo Rukia erguer uma sobrancelha.

- Sinto muito. – Sua voz saiu rouca e baixa. Ele fincou as unhas na areia, de forma tensa – Você não precisava ter visto isso.

Rukia olhou o rapaz, tristemente.

Realmente, ela não precisava ter visto isso.

Agora, sua camisola branca e longa estava totalmente suja, estava suada, molhada, nervosa e preocupada.

Mas... Mesmo assim...

- Não precisava mesmo. – Ela falou com segurança aparente, totalmente séria. O rapaz, por sua vez, sentiu algo quebrar dentro de si.

Não soube dizer o que exatamente era... Mas foi doloroso. Mais doloroso que sua crise de abstinência.

Rukia se sentiu mais uma vez culpada, ao ver que expressão de dor que o rapaz fez ao escutar suas palavras. Então, pôs sua mente para funcionar.

Já havia estudado sobre isso.

Coceira, suor, palidez, manchas vermelhas na pele, dor no estomago e na cabeça...

Esse cara se drogava. E a droga, pelo visto, era da pesada.

Logo, o sentimento de culpa da mesma sumiu, e ela suavizou seu olhar.

- Não se preocupe. – Rukia disse simpaticamente, chamando a atenção do rapaz para si. Ela ficou de pé. – Kuchiki Rukia. – A moça deu um meio sorriso, e ofereceu sua mão ao rapaz.

O de cabelos alaranjados olhou a garota, totalmente surpreso. Seus olhos estavam arregalados, e sua boca levemente aberta. Sua expressão não estava mais tão sombria assim.

Por que... Alguém lhe ajudaria? Por que alguém seria tão bom assim com ele?

Essa garota é louca?

Revigorado, sorri suavemente. Ele então, levanta sua mão que estava firmemente na areia, e mostra para Rukia a palma da mesma.

- Você não vai querer, está suja.

Rukia deu ombros, e com suas duas mãos, agarrou a mão grande do rapaz e o ajudou a se levantar. Ele sentiu um pouco de tontura e logo se apoiou na árvore, segurando com a mão limpa, sua testa.

- Ah, é mesmo, você está fraco. – A garota disse, como se lembrasse de algo importante.

- Obrigada. – Ele lhe disse, olhando nos olhos da garota. – Você está toda suja. – Continuou, observando todo o corpo de Rukia. – Vá para sua casa, você já me ajudou o suficiente.

- Pode ser que sim, mas... Você ainda precisa ser ajudado. – Rukia respondeu, cruzando os braços. – E de um banho, está todo sujo de areia. – Ela estava cheia de humor, pra quem acabou de presenciar basicamente uma tortura.

A fina chuva daquela noite passou, pois, já não era mais noite. Os primeiros raios solares invadiam o local fortemente, dando uma visão magnificamente positiva a aquele local. As gotas de orvalho desciam lentamente pela folha, a lubrificando.

Definitivamente, era um novo dia.

- Tudo bem. – Ele respondeu, calmamente. – Kurosaki Ichigo.

Uma súbita calma invadiu Ichigo naquela manhã. Sua paz de espírito, ele sentiu, que ela havia finalmente voltado. Realmente, existiam pessoas que não ligavam para o fato de ter o cabelo laranja, ou ele se drogar.

Ele já havia esquecido disso.

Ichigo deu um tímido e pequeno sorriso, se permitindo ser ajudado por aquela garota pequena, pelo menos naquele dia.


Tá aí o capítulo 2 ^_^

Espero que tenham gostado!

Obrigada para as pessoas que comentaram, fico imensamente feliz.

Ja Ne

Mili Black