As Estranhas Faces Do Amor

Capítulo 2

Logo que recebeu alta no hospital, Jensen se instalou em um hotel e foi visitar Christian Kane, seu grande amigo, que também esteve presente na festa do dia em que se acidentou.

- Jensen, quando é que você vai criar juízo, meu amigo?

- Ei! Desse jeito você está parecendo o meu pai! – O loiro bufou, indignado.

- Por falar em seu pai, eu ainda não acredito que você não o avisou que havia se acidentado. Onde é que você está com a cabeça?

- Pra quê? Eu tenho vinte e oito anos, já sou bem crescidinho pra ficar ouvindo sermões dele. E ele só iria me encher o saco se soubesse.

- E o que você pretende fazer agora? Quero dizer, você terminou seus estudos, voltou, e... Não vai nem mesmo procurá-lo?

- Vou. Não sei quando, mas eu vou. Estive pensando, e... Vou dar uma passada por lá, quando não tiver mais nenhum vestígio do acidente. Faz tempo que não o vejo, e... Às vezes até sinto falta dele.

- Seu pai é um cara legal, Jen. Eu nunca vou entender vocês...

- Não? – Jensen deu risadas. – Então imagine se o seu pai tivesse um namorado mais novo que você... Você levaria isso numa boa?

- Eu não sei. Sinceramente? Acho que eu preferiria ver meu pai com um namorado do que ter que ver ele e a minha mãe se matando cada vez que eu os vejo. Mas não é somente este o problema, vocês já não se davam antes dele namorar com esse cara.

- Eles estão morando juntos agora.

- Mesmo? Quero dizer, desde quando? – Chris tentou não demonstrar tanta surpresa.

- Pouco tempo. Devem estar em lua de mel ainda... – Jensen fez cara de nojo.

- Você não presta cara...

- Uma hora ou outra eu vou ter que encarar, não é? Como será que eu devo chamá-lo? Papai? Padrasto? – Jensen deu risadas.

- Vocês tem quase a mesma idade. Quem sabe possam vir a serem amigos? – Chris não perderia a chance de provocar o amigo.

- Você só pode estar brincando, não é? – Jensen fez cara de zangado. – Bom, já que eu vou ficar uns dias por aqui, por que é que não vamos curtir a cidade?

- Você já fez isso, e por ser um idiota insistindo em dirigir bêbado, acabou em um hospital. Teve sorte em não se machucar muito.

- Não foi tão ruim. Tinha uma enfermeira gostosa que me dava banho todos os dias... – Jensen se gabou.

- Quem escuta, até pensa que você gosta... – Chris rolou os olhos e riu.

- Sem contar o tratamento vip que eu recebi de um dos enfermeiros... Uma pena ele ter sumido no dia seguinte...

- Cara, você não presta... Não perdoa nem os enfermeiros?

- O cara era muito gostoso. Eu daria tudo para encontrá-lo novamente. Mas nem me lembro o nome dele, pra falar a verdade.

- Ohhh... O Jensenzinho está apaixonado! – Chris zoou com a cara do amigo.

- Sim, o meu pau ficou bem apaixonado pela mão dele... Mas ele foi abandonado, fazer o quê? – Jensen fez cara de sofredor e ambos caíram na gargalhada.

- x -

Jeffrey chegou do trabalho no final da tarde e abriu um enorme sorriso ao ver Jared deitado no tapete da sala, com uma imensidão de livros espalhados ao seu redor, assim como em cima da mesinha de centro.

Até pouco mais de um ano, achava que a palavra felicidade tinha sido inventada e que não fazia nenhum sentido, mas agora, com Jared ali, junto de si, finalmente tinha entendido o seu significado.

Cada momento ao lado daquele garoto de vinte e seis anos era algo precioso.

Tinha aprendido muita coisa desde que se conheceram. Aos poucos aquele jovem falante, carismático e de sorriso fácil tinha mudado completamente a sua vida.

Jared era o tipo de homem que sabia exatamente o que queria, e não hesitava em correr atrás... Mas tinha um coração tão puro e bondoso, e isso o fazia sempre pensar primeiro nos outros, antes de si mesmo. Quanto mais o conhecia, Jeffrey só conseguia admirá-lo cada vez mais.

- Faz tempo que você está aí? – Jared ficou curioso, ao perceber Jeffrey parado próximo ao sofá, com os braços cruzados e traços de um sorriso no rosto.

- Não, acabei de chegar.

- Er... Eu já vou arrumar isso... – Jared sorriu sem graça, se referindo aos livros espalhados pela sala.

- Não precisa se preocupar. Eu gosto da sua bagunça... Você traz mais vida a esta casa. – O mais velho falou com sinceridade.

- Sei... – Jared deu risadas. – Vem cá. – O moreno estendeu a mão para que o outro se juntasse a ele.

- Tem certeza que não vou te atrapalhar? – Jeffrey tirou o terno e afrouxou a gravata, antes de se deitar ao lado dele no tapete.

- Você nunca atrapalha. – Jared fechou o livro de medicina que estava lendo e se virou de lado, passando os dedos pelo maxilar de Jeffrey.

- Não quero que você pare de estudar por minha causa. Sabe que eu me preocupo...

- Eu passei o dia inteiro em cima desses livros, Jeff. Preciso de uma pausa, senão a minha cabeça vai explodir... Mas então, benhê... Como foi o seu dia? – Jared tentou fazer uma cara sexy, mas não resistiu e caiu na gargalhada.

- Fiquei contando as horas pra poder voltar para casa e me certificar de que você estaria realmente aqui.

- Ei, que espécie de profissional você é? – O moreno fez cara de zangado.

- O tipo que decidiu que existem coisas mais importantes na vida, do que a empresa. Claro que também conta o fato de eu já estar com a vida ganha... – Jeffrey riu e beijou os lábios de Jared.

- Então por que você não me mostra o que é mais importante? – Jared puxou o mais velho pela gravata e começou a abrir os botões da sua camisa. Meu deus... Você fica tão sexy de gravata... Como eu posso resistir?

- E quem disse que é pra você resistir? – Jeffrey sorriu de um jeito safado e empurrou alguns livros para o lado, se deitando sobre o corpo do mais novo...

- x -

Já tinham se passado quase dois meses desde que Jared fora morar com Jeffrey. Não teve dificuldades em se adaptar a cidade, já tinha se habituado a nova Universidade e feito alguns amigos por lá.

Também conseguiu um emprego de meio período como enfermeiro em um hospital infantil. Gostava muito de crianças e futuramente pretendia se especializar em pediatria.

Quando chegou em casa depois do trabalho, já estava anoitecendo e Jeffrey estava ao telefone, parecia levemente irritado.

- Como assim, você já está no país há dois meses e sequer me ligou?

- Eu estou ligando agora, não estou?

- É, você está... – Jeffrey passou a mão pelos cabelos, tentando se acalmar. – Voltou pra ficar, desta vez?

- Eu ainda não sei. Vou ficar mais algum tempo, e então tomo uma decisão.

- Ok. Já que não está fazendo nada importante, por que não vem passar alguns dias aqui comigo?

- E atrapalhar a sua lua de mel? Nem pensar! – O mais novo debochou.

- Jensen... Eu pensei que já tivéssemos passado desta fase. – Jeffrey suspirou, frustrado. – Você sabe que a minha casa está sempre aberta pra você.

- É, eu sei. Eu viajo pra Nova Iorque amanhã, vou passar na sua casa, e... Quem sabe eu fique alguns dias.

- Ótimo! – O mais velho sorriu, aliviado.

- Só não vamos forçar a barra, está bem?

- Pode ficar tranquilo. Me ligue quando chegar, eu busco você no aeroporto.

- Não precisa, eu vou ver um amigo antes. Mas eu ainda sei o seu endereço, dou um jeito de chegar aí.

- Vou ficar esperando.

- Certo. Até mais. – Jensen encerrou a ligação.

Jeffrey caminhou pela sala e só então percebeu que Jared havia chegado.

- Hey! – Foi até o mais novo e lhe deu um selinho nos lábios. – Não tinha visto você chegar.

- Era o seu filho? No telefone?

- Sim. – Jeffrey se sentou no sofá e puxou Jared para que se sentasse ao seu lado. – Acredita que ele voltou há dois meses e só agora me ligou? Cada vez que eu ligava, caía na caixa de mensagens e ele nunca retornou. É inacreditável...

- Difícil a relação de vocês.

- Ele vem a Nova Iorque amanhã. Talvez fique alguns dias aqui conosco. – Jeffrey sorriu, parecendo empolgado com a ideia.

- E você... Acha isso uma boa ideia? Quero dizer, eu posso ficar na casa de um amigo ou em um hotel enquanto ele estiver por aqui.

- Não! Eu quero muito que vocês se conheçam, e... Ele já tem vinte e oito anos, não é mais uma criança pra que eu tenha que esconder alguma coisa.

- Mas deve ser complicado, sei lá... Não custa nada eu ficar fora por...

- Jared, eu não quero! – Jeffrey o interrompeu. – Você mora aqui e vai continuar morando. Não é por causa da visita dele que você vai sair daqui. Não mesmo! – Estava realmente decidido a não deixar que Jensen interferisse em seu relacionamento.

- Eu só quero evitar que vocês briguem por minha causa. E se ele não aceitar? – Jared tentou se colocar no lugar de Jensen e tinha que admitir que era uma situação delicada.

- Ele sabe que estamos juntos desde o início, eu nunca escondi nada. Não se preocupe que eu posso lidar com isso. Eu conheço o meu filho, sei que ele vai vir com gracinhas, mas... Basta ignorar algumas coisas e ele não vai criar maiores problemas.

- Se você está dizendo... – O mais novo se deu por vencido. Sabia que algumas vezes não adiantava argumentar com seu namorado. No fundo, preferia não ter que encontrar com o filho de Jeffrey assim tão cedo, mas se era a vontade dele, assim o faria.

No dia seguinte, Jeffrey fez questão de cozinhar, já que Jensen chegaria para o jantar. Jared estava extremamente ansioso, então tentou enfiar a cabeça nos livros para não ficar pensando demais em como seria seu encontro com o filho de Jeffrey.

Saiu do quarto somente à noite, quando sabia que Jensen estava prestes a chegar, e não conseguiu evitar um sorriso ao ver a empolgação do namorado, cuidando dos mínimos detalhes para agradar o filho.

- Está tudo perfeito, Jeff. Você já pode parar um pouco. – Jared riu e se aproximou para beijá-lo.

- Eu espero que sim. – O mais velho suspirou. – Está nervoso? – Perguntou enquanto envolvia Jared num abraço, sabendo o quanto aquilo o acalmava.

- Ansioso. Mas acho que eu vou sobreviver. – O moreno brincou, envolvendo os braços em torno da nuca do namorado.

- Ele vai gostar de você. É impossível não gostar.

- Você é suspeito pra falar... – Jared o beijou e foram interrompidos pelo som da campainha.

- Eu vou abrir. – Jeffrey se adiantou e Jared permaneceu na cozinha por alguns minutos.

- Hey! – Jeffrey abriu a porta com um largo sorriso no rosto.

- Pai! – Jensen sorriu cinicamente, mas foi pego de surpresa quando Jeffrey o abraçou.

- Eu senti muito a sua falta, filho. – O homem mais velho estava visivelmente emocionado, o que deixou Jensen ligeiramente sem graça.

- E cadê o seu namorado? – Jensen espiou pela porta, pois ainda estavam parados em frente a ela.

- Ele está lá dentro. Venha, vamos entrar.

Jeffrey perguntou como fora a viagem e puxou conversa enquanto caminhavam até a sala, onde Jared os estava esperando.

Quando os olhares de ambos se cruzaram, nenhum dos dois conseguiu esconder a surpresa, e enquanto Jensen colocou seu sorriso mais sarcástico no rosto, Jared sentiu suas pernas fraquejarem, pensando que era uma puta ironia do destino.

- Então Jared, este é o meu filho Jensen. – Jeffrey os apresentou, tirando o moreno dos seus devaneios.

- Muito prazer, Jared! – Jensen estendeu a mão que o outro apertou, sem conseguir olhá-lo nos olhos.

- Vamos beber alguma coisa rapazes? – Jeffrey serviu as bebidas e continuou a conversar com Jensen sobre a viagem, enquanto Jared só queria poder sumir dali.

O moreno mais novo falava uma coisa e outra com Jeffrey, evitando o tempo todo o contato visual com Jensen. Mesmo durante o jantar, ficou quieto a maior parte do tempo, o que Jeffrey estranhou de imediato.

No fundo, estava com medo. Não conhecia Jensen e não fazia ideia do que se passava na cabeça dele. Se quisesse afastá-lo de Jeffrey, talvez o loiro tivesse uma arma poderosa em mãos, restava saber o que ele faria com ela.

Tinha cometido um deslize... Uma brincadeira idiota que agora podia lhe custar a confiança de Jeffrey. Maldito Brian!

Não tinha contado nada ao namorado, não porque considerasse uma traição, mas porque não achava que fosse relevante. Não tinha significado nada, sequer se lembrava que Jensen existia até ele aparecer ali, na sua porta. O destino não podia ter sido mais cruel.

Jeffrey era o amor da sua vida, o homem mais incrível que conhecera e não merecia ser magoado por causa de uma brincadeira estúpida.

Jared sentiu seu estômago embrulhar, tamanha a aflição. Não conseguiu terminar o jantar, pediu licença aos dois, dizendo que não se sentia muito bem e foi para o quarto.

Sentia-se profundamente envergonhado pela sua atitude. Pela primeira vez em sua vida estava tudo tão perfeito, e de repente seu mundo tinha desabado. Estava tão preocupado que o filho de Jeffrey o aceitasse, e de repente aquilo tinha se tornado um pesadelo. Que tipo de imagem Jensen teria dele depois do que fizera? Estava tudo errado, não era para as coisas acontecerem desse jeito.

Ainda estava acordado quando Jeffrey foi se deitar, tarde da noite.

- Como é que você está? – Jeffrey perguntou preocupado, depois de tirar suas roupas e se enfiar debaixo do edredom, junto de Jared.

- Melhor. Foi só um mal estar. Me desculpe! – O mais novo se aconchegou nos braços do namorado, deitando a cabeça em seu peito.

- Foi alguma coisa que falamos, ou...?

- Não. Não foi nada. Acho que eu estava ansioso demais e a comida não me caiu bem. Só isso. - Jared sorriu, tentando tranquilizá-lo. - Jeff... Por que o Jensen não tem o seu sobrenome? - O moreno estava curioso a respeito. Se tivesse visto o sobrenome Morgan na plaquinha do hospital, com certeza aquela merda toda não teria acontecido.

- Estranho, não é? - O mais velho riu. - Quando Jensen estava prestes a nascer, o avô materno dele ficou muito doente, estava praticamente desenganado, e o seu último desejo foi que colocássemos o sobrenome dele no bebê. A mãe do Jensen quis e eu acabei concordando.

- Hmm. Que bom moço você era. - O moreno riu. - E ele morreu logo em seguida?

- Não. O filho da puta está vivo até hoje! - Jeffrey deu risadas, sendo acompanhado por Jared.

- Você e o Jensen conversaram hoje? Como foi?

- Difícil. Por mais que eu tente puxar qualquer assunto, ele sempre está lá com suas respostas sarcásticas, com o tratamento hostil... Eu sempre penso que ainda tem jeito, mas... É complicado.

- Você já tentou ter uma conversa franca com ele a respeito disso?

- Ele sempre dá um jeito de fugir do assunto. – Jeffrey falou com amargura.

- Sempre foi assim? Quero dizer, vocês nunca foram chegados?

- Ele era muito apegado a mim quando criança. E ainda era aos treze anos, quando eu e a mãe dele nos separamos.

- E o que aconteceu? – Jared se deitou de frente para Jeffrey, se apoiando no cotovelo. Estava curioso, afinal, era um assunto que nunca tinham conversado.

- Ela quis tanto a separação e depois, eu não sei o que houve, ela se arrependeu. Fui eu quem não quis mais voltar. Ela ficou muito zangada, passou a envenenar a cabeça do garoto contra mim, e... Como eu o via muito pouco, muita coisa acabou se perdendo.

- Você tinha outra pessoa?

- Não. Não me envolvi com ninguém até quase um ano depois da separação. Então me relacionei com um homem e foi tudo o que ela precisava... Encheu a cabeça do Jensen e dos amigos próximos, dizendo que eu a havia abandonado pra ficar com outro homem. Ele era só um garoto... Imagine a confusão na sua cabeça.

- Uau! Não deve ter sido fácil, mesmo. Mas o que ela queria com isso? Quero dizer, qual o sentido de colocá-lo contra você?

- Ele tinha decidido que viria morar comigo na época. Ela fez de tudo pra ficar com a guarda do menino. Provavelmente por dinheiro, sei lá. Eu nunca entendi aquela mulher.

- E viveu treze anos com ela?

- Pois é. – Jeffrey riu. – Ela engravidou quando éramos muito jovens, nos casamos, e... A gente acaba se acomodando. Você pode não acreditar, mas eu fui fiel todo aquele tempo. Tivemos muitos bons momentos, até... Eu não sei como tudo foi se perdendo... Aí vieram as dificuldades financeiras, a empresa estava apenas começando na época...

- O Jensen deve ter passado uma barra. Mas eu não sei se isso justifica as suas atitudes.

- Acabou que, o pouco que eu o via, já que ela é quem decidia quando eu podia vê-lo ou não, acabava mimando-o demais. Comprava tudo o que ele queria, relevava quando ele fazia algo errado, e por aí vai. Tenho que admitir que a culpa é toda minha, e o pior é que eu não faço ideia de como consertar isso. Ele está um pouco crescidinho pra levar umas palmadas. – Jeffrey brincou, fazendo Jared rir.

- É, eu acho que sim. Mas ele veio até aqui, não é? Quem sabe seja uma oportunidade pra vocês se entenderem.

- Ele não me disse nada se pretende ficar ou não. Só espero que ele não resolva ir embora amanhã. Por mais irritante que ele possa ser, às vezes, é muito bom tê-lo por perto novamente.

- Se você pedir com jeitinho, tenho certeza que ele vai ficar. – Jared tentou se mostrar confiante, apesar de estar aflito com a situação em que se metera.

- Você acha?

- Comigo sempre funciona... – Jared levantou as sobrancelhas e sorriu com malícia.

- Humm... E se eu pedir pra você gemer baixinho, vai funcionar também? – Jeffrey o empurrou de leve, fazendo com que se deitasse de costas na cama.

- Eu até posso tentar... Mas não prometo nada.

Continua...